A DINÂMICA DO PECADO

     Um dos maiores problemas do homem é o pecado. Algumas questões referentes ao pecado são extremamente complexas. Ele geralmente é relacionado ao mal e uma das questões de difícil resolução é qual a origem desse mal? Esse é apenas um dos exemplos de temas que podem render uma discussão interminável. Porém, não é esse meu objetivo. Não quero refletir sobre a origem do mal, mas sim seu mecanismo. Por que algo, que sabemos que não nos faz bem, nos influencia tanto? Como, muitas vezes até gostamos de pecar, mesmo sabemos que isso nos trará problemas?

Há diversas definições sobre o que seja o pecado. Há aquela clássica que afirma que o pecado é errar o alvo. Concordo com isso, mas prefiro um pensamento mais amplo, como aquele que entende que pecado é qualquer ação, ou falta dela, que prejudica o relacionamento do homem e Deus.  Em outras palavras, é tudo aquilo que não é da vontade de Deus. Quando tiramos os olhos da vontade de Deus e olhamos para nossa própria vontade é quando começamos a regar a semente do mal. Geralmente quando se fala em diabo imaginamos aquele ser bizarro, meio monstro, avermelhado, com tridente, chifres um rabo, e falando com voz gutural. Mas ele é muito esperto pra se apresentar assim. Da mesma forma, quando pensamos em pecado, logo imaginamos coisas horríveis como assassinato, roubo, vida promíscua, corrupção, bebedeiras, consumo de drogas, mentiras entre outras obras más. Nem sempre o pecado vem dessa forma e é justamente aí que acabamos caindo. Em boa parte das ocasiões, o pecado nos parece ser bom. Se não fosse assim, não o cometeríamos tantas vezes. A Bíblia relata vários exemplos de pessoas que caem e eu gostaria de refletir um pouco sobre o primeiro pecado praticado pelo homem, que foi a queda no jardim do Éden.

Vejamos os primeiros seis versículos de Gênesis 3:

Ora, a serpente era o mais astuto de todos os animais selvagens que o Senhor Deus tinha feito. E ela perguntou à mulher: “Foi isto mesmo que Deus disse: ‘Não comam de nenhum fruto das árvores do jardim’? “
Respondeu a mulher à serpente: “Podemos comer do fruto das árvores do jardim, mas Deus disse: ‘Não comam do fruto da árvore que está no meio do jardim, nem toquem nele; do contrário vocês morrerão”.
Disse a serpente à mulher: “Certamente não morrerão!
Deus sabe que, no dia em que dele comerem, seus olhos se abrirão, e vocês serão como Deus, conhecedores do bem e do mal”.
Quando a mulher viu que a árvore parecia agradável ao paladar, era atraente aos olhos e, além disso, desejável para dela se obter discernimento, tomou do seu fruto, comeu-o e o deu a seu marido, que comeu também.


     Nesses poucos versículos está descrita a queda do homem. Foi a maior desgraça que pôde ter acontecido à humanidade e jamais haverá outra maior. Esse acontecimento impactou de forma drástica não só ao homem, mas a toda criação. Até hoje todo o planeta sofre conseqüências da opção que Eva, e depois Adão, fizeram. Para o homem, a maior conseqüência foi a morte, que é a separação de Deus. Adão e Eva viviam uma realidade talvez inimaginável para nós. Mas mesmo assim sucumbiram ao pecado.

Quando se trata de um texto Bíblico, logo vem várias interpretações. Será que se tratava realmente de uma árvore e Adão e Eva comeram um fruto dessa árvore ou foi no sentido literal? Será que a serpente realmente falou com eles ou é somente algo no sentido figurado? Aqui abre-se um leque de possibilidades, mas não é esse o foco da nossa reflexão. A questão curiosa, é que o ser humano pecou quando o mundo ainda era perfeito. Costumamos responsabilizar o diabo por nossos pecados, mas somos nós que tomamos a decisão. Ele nos dá a idéia, oferece a situação e o resto é conosco. Na carta de Tiago 1:14, lemos que cada um de nós é tentado pelos próprios desejos, sendo por eles arrastado e seduzido. Foi isso que aconteceu com Eva e depois com Adão. Como citado anteriormente, o pecado não se apresentou de forma feia ou de maldade. Esse é o triunfo dele.

Já no início do capítulo 3 de Gênesis, há dois aspectos interessantes. A maioria das traduções da Bíblia para o português, optaram pela palavra  serpente. Mas uma tradução mais específica do hebraico é áspide. Áspide é uma determinada espécie de víbora. Sabemos que as víboras são venenosas e a grande maioria são muito bonitas, tendo cores vivas e chamativas. O mesmo versículo também diz que trata-se do animal mais astuto.  Beleza e esperteza é uma combinação perigosa. A serpente tirou os olhos de Eva que estavam em Deus e os atraiu para si, e ela caiu na armadilha. A esperteza da serpente é percebida do transcorrer do diálogo. Ela não desmente a Deus, mas faz uma pergunta induzindo dúvida na mente de Eva. Podemos afirmar que a serpente fez uma pergunta que continha uma meia verdade, se é que seja possível haver meias verdades. Ela aguçou o desejo do ser humano e foi essa a porta de entrada para o pecado no coração do homem. O coração de Eva estava sendo preparado para o pecado como o lavrador prepara a terra para o plantio. A semente só é lançada na terra quando as condições são propícias para a germinação. Depois da semente lançada, se a terra for boa, a natureza se encarregará do resto. Assim também é com o coração do homem. A serpente preparou o terreno com perguntas a respeito do que Deus ordenara, semeando a dúvida. O grande final veio com uma mentira, que Adão e Eva não morreriam ao comer do fruto, a qual a serpente completou aguçando o desejo humano. Pronto; o terreno para o pecado entrar na humanidade estava pronto.

Não é a toa que a Bíblia afirma que a serpente era o animal mais astuto. Ela trabalhou muito bem, usando parte do que Deus havia dito e induzindo Eva à dúvida. Tudo isso fazia parte apenas de sua estratégia. A grande tacada foi aguçar o desejo de Eva. Apresentou a árvore do conhecimento do bem e do mal como algo bom, através da qual viriam a conhecer, assim como Deus, o bem e o mal. E nisso o inimigo tinha razão, pois eles conheciam o bem, mas ainda não o mal. O desejo de Eva em conhecer mais do que já conhecia cresceu, tomou conta de seu coração e enfim ela pecou. Ela foi enganada mas acho que Adão foi pior, pois não há relato que Eva o tenha enganado. Somente ofereceu e ele aceitou. Provavelmente também já pensava à respeito. O desejo do homem é muito intenso. Atente para o fato de o texto destacar que Eva achava a árvore, ou seu fruto, agradável ao paladar, atraente aos olhos e principalmente desejável para dela obter o discernimento. Ela colocou seu desejo, sua vontade acima da vontade de Deus e o resultado foi o pecado.   Isso pode parecer somente uma historia que ocorreu a milhares de anos atrás e que isso seria diferente se ocorresse nos dias atuais, afinal o ser humano evoluiu e é detentor de muito mais conhecimento. Acredito que isso seja o mais inocente dos sonhos, pois a essência do homem é a mesma em todos os lugares e em todos os tempos. Diariamente experimentamos do fruto do conhecimento do bem e do mal quando colocamos nossa vontade acima da vontade de Deus. Teoricamente não havia nada de errado no fato de Adão e Eva serem conhecedores do bem e do mal, já que o próprio Deus o era. Mas era algo ilegítimo para a raça humana. A queda do homem corrompeu-o, e perdemos a plenitude da glória de Deus e agora nossa mente não é mais como a mente dele. Como já citado, dificilmente o pecado se apresenta como sendo algo mal. Muitos pecados são cometidos quando não sabemos administrar situações que até são boas. Por exemplo: uma pessoa que tem um senso de justiça mais aguçado, tem a tendência de julgar. Não sabendo tratar a questão do senso de justiça, que é um dos atributos de Deus, o homem acaba pecando. O próprio amor pode nos levar a paixões desenfreadas, ciúme e sentimento de posse. Compaixão pode se transformar em um sentimento de pena, uma pessoa chamada para pastorear vidas pode achar que é dono delas e transformar-se em um ditador “dono” da igreja. A própria vontade é algo bom, algo que Deus colocou no nosso ser, mas ela pode tornar-se um ardente e incontrolável desejo. Veja que justiça, amor, compaixão, liderança, vontades entre muitas outras virtudes podem levar o homem ao pecado. Essa é a armadilha do nosso ego. Somos uma raça falida que não tem a capacidade de gerenciar a própria vida. Simplesmente não sabemos viver e a maior prova é a situação em que a humanidade se encontra. Quando o homem olha para si está dando o primeiro passo em direção ao pecado.

O reformador protestante Martim Lutero deixou um legado de pensamentos e frases muito interessantes. Das frases que conheço, uma que é marcante para mim é a seguinte:

 “Você não pode evitar que um passarinho voe por sobre tua cabeça, mas pode evitar que ele faça um ninho nela”.

Passarinhos voam sobre nós, mas se um deles quiser fazer um ninho na nossa cabeça, temos que ter atitude para não permitir isso. Da mesma forma, a idéia do pecado vem à nossa mente, mas cabe a cada um de nós dominar o mal. Eva deu ouvidos à serpente e foi seduzida. Se ela tivesse simplesmente virado as costas e ignorado a voz que a seduzia, não teria cedido ao pecado. A dinâmica do pecado é ver a oportunidade, dar atenção a ela, olhá-la com outros olhos, desejá-la e finalmente tomá-la para si. Acredito que Tiago foi muito feliz ao afirmar que somos tentados pelos próprios desejos. Essa palavra deixa claro que cabe a nós resistir aos impulsos do nosso coração. Talvez nunca venhamos a descobrir a origem do mal, mas a origem do pecado é nosso coração corrompido. Cada vez que eu e você tiramos nossos olhos de Deus e fazemos nossa vontade, estamos pecando. Pode até mesmo parecer exagero, mas mesmo que sejamos ativos em um ministério na igreja sendo que não foi Deus que nos colocou ali, estamos pecando, pois estamos ali por nossa própria iniciativa e não pela vontade divina. O pecado pode e geralmente é muito sutil.

O coração do homem é enganoso e é essencial pedirmos para que Deus sonde esse coração corrompido e nos mostre o que há nele. A partir do momento que nos conhecermos pela perspectiva de Deus, e nos colocarmos sob o seu senhorio teremos uma chance muito maior de acertar. É inocente de nossa parte acreditarmos que nessa vida conseguiremos não pecar, mas cabe a nós sermos cada vez mais parecidos com Cristo e desenvolvermos o seu caráter em nossa vida. E a partir disso teremos sua mente e buscaremos a sua vontade. Esse é o caminho para sermos homens e mulheres que pecam por acidente e não por desleixo, por falta de conhecimento ou até de caráter.

BIBLIOGRAFIA

FRANCISCO, F. Edson, Antigo Testamento Interlinear Hebraico Português, Sociedade Bíblica do Brasil: 2012; Barueri; SP

Bíblia Sagrada – Bíblia de Estudo NVI: nova versão internacional, Editora Vida: 2000; São Paulo; SP

BRUCE, F.F. Comentário Bíblico NVI, Editora Vida:2009; São Paulo; SP

Bíblia Sagrada – Nova Tradução na Linguagem de Hoje; Ed. Soc. Bíblica do Brasil ; 2005 ; São Paulo; SP

Bíblia Sagrada – Bíblia de Jerusalém; Editora Paulus, São Paulo, 2013

CHAMPLIM, RN. O Novo Testamento interpretado Versículo a Versículo, Editora Hagnos, SÃO PAULO, 2014

RIENECKER, Fritz, Comentário Esperança, Editora Esperança, 1998

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.

Você pode usar estas tags e atributos HTML:

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.