CONSTRUINDO BEZERROS DE OURO

 A Bíblia narra inúmeros acontecimentos do povo hebreu. É uma fonte riquíssima para quem quer saber mais sobre esse povo. Mas ela não tem por objetivo trazer apenas fatos históricos. Ela é a revelação de Deus ao homem, e mostra como a relação Deus-homem vem se desenrolando desde os primórdios. Temos relatos lindos e outros trágicos. Quero refletir um pouco sobre um desses relatos.

 Como todos sabem, à quase 4000 anos atrás os descendentes de Israel foram feitos escravos no Egito, ficando nessa condição por 400 anos. Deus levantou Moisés que liderou a saída do povo, estima-se que se tratava de uma multidão de pelo menos 2 milhões de pessoas, e Deus cuidou desse povo de forma sobrenatural. Livrou os hebreus do exercito egípcio na travessia do mar, sustentou essa multidão no deserto, entre outros milagres. Apenas 3 meses depois da saída do Egito, Deus ordenou que Moisés subisse ao Monte Sinai, onde toda a lei seria passada ao povo. Enquanto Moisés subiu ao monte, o povo deveria ficar esperando no acampamento. Ele ficou no monte por 40 dias, e os hebreus começaram a murmurar achando que ele não voltaria mais. Pediram que Arão, irmão de Moisés, fizesse deuses que fossem diante deles. Arão atendeu ao pedido do povo e esculpiu um bezerro de ouro que foi apresentado como sendo o deus que os tirou do Egito. No dia seguinte houve adoração e holocaustos ao bezerro. Enquanto Deus transmitia sua vontade para Moisés, seu povo virou as costas ao criador fazendo um deus conforme a imagem e semelhança do que suas vontades queriam. O povo festejava, comia, bebia, e há fortes indícios que se entregaram a ritos que envolviam orgias perversões como forma de culto ao bezerro.

 Esse episódio é um dos mais repugnantes de toda a Bíblia. Como um povo pode agir assim com Deus, que os livrou do Egito a apenas 3 meses? Olhamos com um olhar de censura e até de juízo, mas olhando no espelho da nossa vida vemos que tendemos a repetir essa atitude do povo. Identifico pelo menos 3 erros básicos que o povo hebreu cometeu, os quais também nós cometemos, mas muitas vezes sem perceber:

 O primeiro erro é achar que o nosso relógio anda em um compasso mais preciso do que o de Deus. Moisés estava no monte há 40 dias, e o povo não teve paciência para esperar sua volta.  A atitude de fazer seu próprio Deus indica que eles achavam, ou tinham certeza, que estava demorando muito, ou que Deus falhou. Diante de determinadas situações da vida, será que nós também não esperamos o agir de Deus e fazemos a coisa acontecer por conta própria? “Tempo de Deus” é um chavão igrejeiro, mas que tem tudo a ver. Se dizemos que entregamos nossa vida em suas mãos, devemos andar no compasso do relógio de Deus e não do nosso. O nosso pode servir para determinar o horário para levantar, para trabalhar, para descansar, mas não para determinar o agir de Deus.

 O segundo erro do povo hebreu foi vincular o agir de Deus a Moisés. Ele realmente era o líder, o representante de Deus para o povo, mas não era Deus. Foi só Moisés demorar para descer do monte, que o povo desistiu de Deus. De forma similar, muitos desistem de Deus por causa de decepções que tem com pessoas. Nos decepcionamos com pessoas e desistimos de Deus. Isso é muita imaturidade. Deus deixa de ser quem ele é só porque tem muitos cristãos que não agem de forma correta? Deus deixa de ser Deus porque tem muito pilantra se dizendo cristão? Essas pessoas serão cobradas pelo que fazem, mas não são elas que responderão por minha e a tua salvação. Precisamos de pessoas que sejam nossas referências, mas elas nunca serão Deus.

 O terceiro grande erro dos hebreus foi que eles queriam que Deus fosse da forma que eles queriam. Esculpiram um bezerro, pois tratava-se de um deus do Egito e também de uma representação de Baal na terra de Canaã. Ou seja, com as próprias mãos, eles fizeram um deus conforme a imagem e semelhança da sua vontade, invertendo a ordem natural da criação. Olhamos isso com atitude de indignação, mas esquecemos que muitas vezes queremos mandar em Deus, determinando suas ações. A teologia da confissão positiva, do triunfalismo e da prosperidade, são um grande exemplo do bezerro de ouro. Talvez não professamos essas teologias, mas temos a tendência de querer que Deus faça tudo da nossa forma. E muitas vezes, quando ele não faz, nós mesmos tentamos fazê-lo.

  Lemos em Gênesis 32,10 que a ira de Deus se acendeu, e ele quis exterminar todo o povo e recomeçar a história com Moisés. Mas este intercedeu, clamou pela misericórdia divina, e Deus poupou seu povo. Vemos aqui a dimensão da misericórdia de Deus.

 Esse evento da história do povo de Deus nos traz várias lições. Nos mostra onde o homem chega quando opta andar em seus caminhos (festas, glutonaria, bebedeira, perversões sexuais), nos mostra a ira de Deus, mas também sua misericórdia. É claro que para que a ira de Deus se apague é necessário um profundo arrependimento. Acima de tudo, esse episódio nos mostra até que ponto o homem pode chegar em sua podridão, e até onde Deus vai para resgatar esse homem. Nosso desafio é nunca tirarmos os olhos e o coração de Deus para que não caiamos no risco de construir nossos bezerros de ouro.

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