GRAÇA PREVENIENTE

Falar sobre salvação é complicado hoje em dia, pois não temos unanimidade no meio cristão, por conta disso, calvinistas e arminianos travam verdadeiras guerras para definir seus pontos de vista, porém, como vou expor neste texto, a diferença entre os dois não é tão grande assim.

Um calvinista acredita que a graça é irresistível para quem é eleito e acredita também que o homem é depravado demais para conseguir fazer a escolha de seguir a Deus por si só, sendo estes dois, pontos do acróstico chamado TULIP. O calvinista Sam Storms em seu ótimo livro chamado Escolhidos, define bem o conceito de depravação total:

“De acordo com doutrina da depravação total, o homem em sua condição atual, originária da queda, está de tal modo corrompido por uma semente maligna que todos os aspectos do seu ser e personalidade são afetados por ela” (STORMS, 2014, p. 56)

Por si só o homem não consegue se salvar, somos inclinados para o mal, sem a capacidade de fazer escolhas boas por nós mesmos. É bom salientar que nem todos concordam com o acróstico TULIP, calvinistas como Michael Horton afirmam não existir evidências de uso antes do século XX, preferindo usar o termo vocação eficaz, por ser um termo que não sugere coerção. Assim, segundo estes, Deus não coage, as escolhas dos homens são livres, apesar da graça ser irresistível (HORTON, 2014, Pg 142).

Já alguns arminianos ou não calvinistas, apesar de também acreditarem, tal qual os calvinistas, que o homem é corrompido e não consegue fazer escolhas boas pois é inclinado ao mal, acreditam na graça preveniente ou capacitadora, que seria: A graça que nos capacita a aceitar ou não a regeneração, sendo ela resistível. Segundo Armínio, esta graça vem através da ação do Espírito Santo, que ilumina o entendimento do homem depravado e escravo do pecado para que possa escolher livremente o evangelho:

“Mas a teologia arminiana supõe, pelo fato de a Bíblia em sua totalidade supor, que Deus, em razão do amor, se limita de maneira que sua graça iniciadora e capacitadora seja resistível. Ela é poderosa e persuasiva, mas não é compulsiva no sentido determinista. Ela deixa o pecador como uma pessoa e não um objeto” (OLSON, 2013, P. 264)

A Bíblia diz que vamos ser julgados, com isso, logicamente, devemos ser pessoas com escolhas morais livres. Em contrapartida, não conseguimos salvar a nós mesmos, estamos mortos, cegos e não conseguimos escolher o evangelho por conta própria. A graça preveniente é justamente a ação de Deus para que nós possamos fazer nossas escolhas por conta própria. Gosto da citação de Robert E. Picirilli:

“O que Armínio quis dizer com “graça preveniente” é que é aquela graça que precede a real regeneração e que, exceto quando resistida em último estágio, inevitavelmente conduz à regeneração (OLSON, 2013, P. 264)

Não somos nós que nos salvamos, não temos mérito algum, apenas aceitamos ou não sermos regenerados, a graça nos prepara, é a força capacitadora que precede a conversão. O processo é simples e possui quatro aspectos: Chamada, convicção, iluminação e capacitação. E a única coisa que a pessoa deve fazer é não resistir ao Espírito Santo, para assim ser salvo (OLSON, 2013, P. 207)

Aí você me pergunta: É possível resistir ao Espírito Santo? Segundo a Bíblia sim, Atos 7:51 diz:

“Povo rebelde, obstinado de coração e de ouvidos! Vocês são iguais aos seus antepassados: sempre resistem ao Espírito Santo!”

Mateus 23:37 também é um ótimo versículo, entre tantos que existem para explicar como é possível resistir:

 “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, apedrejas os que a ti são enviados! quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e não o quiseste!”

Possivelmente que diante destes versículos, um reformado afirme que é possível resistir por que um não eleito não tem em seu coração o chamado interior, só o exterior, por não ser predestinado. Em contra partida um arminiano vai afirmar que é possível resistir, por sermos humanos, não máquinas, onde no fim seremos julgados pelas nossas ações e escolhas (Apocalipse 20:12).

É claro que não temos um versículo que explica de forma detalhada sobre a graça preveniente. Assim como também não temos um que explique sobre a Trindade Divina, jejum, graça comum e tantas outras teologias que conhecemos. Mas a Bíblia dá sinais de sua existência e um deles é a resistência do homem quanto à ação do Espírito Santo. Veja bem, a mesma Bíblia que diz que quem convence é o Espírito Santo (João 16:7-11), também fala que muitos resistem a ele (Atos 7:51). O mesmo Jesus que disse que ninguém pode ir até Ele se o pai não trouxer (João 6:44), disse que todo o ramo que estando n’Ele não der frutos, Ele vai arrancar e jogar fora (João 15:2). Estes versículos dão a entender um aceitar humano, em algo que temos que fazer para frutificar. Mais uma vez ressalto, nós não nos salvamos, toda a honra e glória é apenas d’Ele, nós apenas aceitamos ou não

Pra finalizar, quero responder a importante pergunta: Por que arminianos não aceitam a graça irresistível? Roger Olson responde muito bem, usarei sua explicação:

“Por que os arminianos e outros não calvinistas rejeitam a graça irresistível? Porque eles amam o livre-arbítrio e não querem dar toda a glória a Deus, como sugerem alguns calvinistas? De jeito nenhum. Essa é uma calúnia indigna de qualquer um que tenha se dado o trabalho de estudar o assunto. Todo arminiano, de armínio até hoje, sempre deixou claro o verdadeiro motivo por trás da rejeição à doutrina da graça irresistível: A preservação do caráter bondoso e amoroso da Deus” (OLSON, 2013, P. 266)

Deus é amor e por amar o mundo, um dia deu o seu filho por amor a nós (João 3:16). Não é que Deus não possa salvar apenas alguns como bem queira e sim, que isso não condiz com o que Ele se deixou conhecer através da Bíblia.

Esta é a graça preveniente, que através da pregação e da ação do Espírito Santo, abre os olhos dos cegos e mortos em seus delitos e pecado e os capacita a aceitar ou não a Deus. Nós não temos mérito algum neste processo, tudo vem de Deus e sua poderosa mão, cabe ao homem aceitar ou não, se abrir ou não para a ação do Espírito Santo.

BIBLIOGRAFIA

HORTON, Michael, A Favor do Calvinismo, Editora Reflexão, São Paulo, 2014

STORMS, Sam, Escolhidos, Uma exposição da Doutrina da Eleição, Editora Anno Domini, Rio de Janeiro, 2014

 OLSON, Roger, Contra Calvinismo, Editora Reflexão, São Paulo, 2013

OLSON, Roger, Teologia Arminiana, Mitos e Realidades, Editora Reflexão, São Paulo, 2013

Comentários ( 3 )

  1. / ResponderPOR QUE NÃO SOU CALVINISTA | Teologia na Solitude
    […] Não consigo crer também, conforme alguns teólogos, que Deus predestinou alguns da raça humana caída e deixou outros de fora (eleição incondicional).  E por mais que você diga que Deus não predestina para a condenação só para a salvação, por exclusão, este Deus deixa muitos de fora, sem dar qualquer chance e oportunidade aos outros. Vamos ser julgados segundo as nossas obras, ou o que tivermos feito (Apocalipse 20:12), isso denota ação e responsabilidade moral, seria até loucura concluir que seremos julgados por erros que não conseguimos parar de praticar, que está fora de nosso controle. Além de deixar transparecer, entre linhas, que não temos responsabilidade em nossos atos, pecados e erros, por não termos controle, não sermos livres. Acredito que somos responsáveis sim, é por isso que seremos julgados. Apesar de também não acreditar que por nós mesmos conseguimos escolher e buscar a Deus. É por isso que acredito na graça preveniente ou capacitadora, que nos dá a capacidade de escolher o evangelho ou não. Tem um texto no blog que explica bem esta teologia o nome é “Graça Preveniente”, segue o link: Graça Preveniente […]
  2. / ResponderIvan
    Muito bom artigo, querido. Apenas uma correção. O versículo é MATEUS 23:37 e não 5:37 como foi escrito no artigo. Deus abençoe!
    • / ResponderGUILHERME AUGUSTO
      Olá Ivan! Agradeço o elogio e a correção, poxa valew mesmo, já vou arrumar. Att, Guilherme

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