INTRODUÇÃO A MISSIOLOGIA: MISSÃO NO VELHO TESTAMENTO

Ao falarmos em missão é inevitável termos que ir lá em Gênesis e discorrer sobre um Deus que criou o homem a sua imagem e semelhança. Ou nos lembrarmos de que este homem criado desobedeceu e com isso ele se perdeu, e por conta do pecado, tem se destruído e se desviado do seu propósito original, que é a adoração, que é viver para obedecer Deus.

Quando não olhamos para Deus, nós nos destruímos, quando Cristo não é o centro de nossa vida, o centro acaba sendo nós mesmos, nossa vontade destrutiva, nossos desejos contaminados. Lutero tinha uma definição excelente para pecador:

“O homem curvado em si mesmo” (STOTT, 2004, Pg. 94)

E é isso o que somos, seres desobedientes, curvados em nós mesmos, olhando apenas as nossas vontades, nossos umbigos e desejos. Gosto da definição de pecado que John Stott dá:

“O pecado é uma afirmação rebelde de mim mesmo contra o amor e a autoridade de Deus e contra o bem-estar do meu próximo” (STOTT, 2004, Pg. 94)

Um dos pontos principais do pecado é a desobediência, é viver uma vida autocentrada, o evangelho vem para mudar este cenário e ensinar o homem a ser gente da maneira certa. E a missão entra com esta função, pregar a mensagem de um Deus que preferiu dar o seu filho para nos salvar ao invés de nos destruir.

O começo de tudo é com Abraão, quando Deus pede para ele sair de sua terra, da terra dos seus familiares e ir para um lugar que Ele iria mostrar (Gênesis 12:1-2). Pois para haver missão, tem que haver um Deus que se revela, um Deus que busca o homem e traz salvação. Sobre Abraão, é bom fazermos algumas observações. A primeira é que as promessas feitas para Abraão era para toda a humanidade:

“As promessas feitas a Abraão (Gn 12.1-3,18.18 e 22.15-18) envolviam toda a humanidade e foram sendo renovados por meio de seu filho Isaque (26.4) e de seu neto Jacó (28.14) (GUSSO, 2011, pg.32)”

Gênesis 12:2-3 é bem claro quando diz que Abraão seria pai de um grande povo, mas diz também que por ele todas as nações da terra seriam abençoadas. Pois Abraão é o começo de tudo, através dele muitos outros conheceriam o evangelho, e de sua descendência o salvador viria redimir e levar a palavra de vida a todos.

O interessante é que Gálatas 3:6-9 fala justamente disso, da justificação pela fé, sendo que Paulo resgata o acontecido em Gênesis para nos ensinar que desde o começo Deus já iria aceitar os não judeus pela fé.

A segunda é que a distância que Abraão percorreu de Harã até Canaã foi de seiscentos quilômetros, isso em um período onde não existia carro, ônibus e as facilidades da vida moderna, sem esquecer que ele ia com seus servos e rebanhos, com isso podemos concluir que o grupo não era pequeno, e o deslocamento não era fácil por conta dos animais (CHAMPLIN, 2013, pg. 18)

Porém Deus não só se revela, mas também salva, e sobre salvação no Velho Testamento, podemos falar um pouco da vida de Moisés, o homem que Deus usou para libertar o povo de Israel do Egito.

Êxodo 3:1-12 diz que enquanto Moisés apascentava o rebanho do seu sogro, Deus apareceu para ele e deus a missão de libertar o povo de Israel da escravidão do Egito.

O curioso é que a história de Moisés é a sombra da história de Cristo, de um Deus que viria para nos salvar. Pois Mateus 2 diz que José e Maria tiveram que fugir para o Egito com Jesus, para que não o matassem em uma carnificina, e foi de lá que o salvador veio, cumprindo assim uma das profecias que haviam feito sobre o salvador (Oséias 11:1, Mateus 2:15).

Poderíamos colocar também muitos outros profetas como os primeiros missionários, mas vale lembrar que o conceito de céu ou de uma vida após a morte veio apenas depois do período dos profetas. É no Novo Testamento que isso fica mais claro e podemos entender o plano de salvação de uma forma mais ampla. Contudo, apesar de sabermos que o plano de salvação começou com Abraão, e que Moisés teve uma missão, assim como muitos outros profetas, não podemos chamar estes de missionários ou pregadores, como conhecemos hoje, pois apesar de haver convertidos entre os judeus daquela época, apenas o judaísmo posterior é que se tornou um pouco mais missionário. Contudo, temos um livro no Velho Testamento que registra a história do que talvez possamos chamar de um dos primeiros missionários, o livro é o de Jonas.

Jonas é um profeta em Israel (2 Reis 14:25), um profeta bem nacionalista diga-se de passagem, que recebeu a missão de pregar para um povo pagão, mas que fica com raiva quando o povo de Nínive se arrepende e Deus desiste de destruir a cidade (Jonas 4:1). Sendo que o livro termina mostrando Jonas indignado com Deus, por não ter destruído a cidade e Deus mostrando para Jonas como ele é misericordioso. No fim é Jonas que tem que aprender sobre a misericórdia de Deus. Este profeta nacionalista não conhecia direito o Deus no qual ele servia, e discordava da misericórdia daquele Deus, ele não aceitava o fato de Deus não ter destruído um inimigo do povo judeu. Uma história realmente curiosa, que mostra um Deus misericordioso que nunca deixou de olhar para outras nações, e um profeta nacionalista, que preferia morrer do que aceitar a misericórdia deste Deus salvador

Com a história de Jonas chegamos duas ótimas conclusões, a primeira é que apesar de Jonas ter fugido, Deus tratou daquele profeta e deu uma segunda chance, usando uma baleia para salvar um profeta desobediente (Jonas 2).  A segunda lição que tiramos é que, apesar de Deus ter usado Jonas para pregar em outra nação, no fim o livro termina com Deus tratando daquele profeta.

Resumindo, a missão começa com Deus querendo salvar a humanidade, o propósito da missão não é divulgar uma placa de igreja, ou ser apenas um movimento de assistencialismo, a missão deve começar tendo como principal propósito a mensagem de salvação. Quando lemos sobre Abraão vemos que Deus tinha um plano, e neste plano estava incluso também os gentios, não só os judeus. Quando lemos sobre Moisés vemos que Deus atende a súplicas e ao sofrimento de seu povo, vemos também que é Deus que envia. Quando lemos sobre Jonas também vemos um Deus que dá uma segunda chance, seja para Jonas ou para o povo pecador de Nínive sendo que o nosso Deus também trata quem ele chamou para trabalhar.

 

BIBLIOGRAFIA

Bíblia Sagrada – Bíblia de Jerusalém; Paulus, São Paulo, 2013

Bíblia Sagrada – Nova Tradução na Linguagem de Hoje; Ed. Soc. Bíblica do Brasil, São Paulo, 2005

CHAMPLIM, Rn. O Novo Testamento interpretado Versículo a Versículo, Editora Hagnos, SÃO PAULO, 2014

STOTT, John, Por Que Sou Cristão, Editora Ultimato, Minas Gerais, 2004

GUSSO, Antonio, Renato, Os Livros Históricos, Introdução fundamental e auxílios para a interpretação, Editora Ad Santos, Curitiba, 2011

GUSSO, Antonio, Renato, O Pentateuco, Introdução fundamental e auxílios para a interpretação, Editora Ad Santos, Curitiba, 2011

BRÄUMER, Hansjörg, Gênesis, Comentário Esperança, Editora Esperança, Curitiba, 2016

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