CABELOS E LEGALISMOS

Um filho doente nunca é uma boa notícia, ainda mais criança, em seus plenos poderes de sua fragilidade e simplicidade. Um pai nunca fica tranquilo diante dessa situação, coisa que aconteceu com uma amiga.

Sua filha estava muito doente e precisou ficar internada, e se já não bastava a própria doença, que sempre nos tira o controle fazendo com que sejamos reféns de terceiros, ela precisou utilizar um hospital público.

A parte boa de ter dinheiro é justamente ter um pouco de conforto, eu nunca liguei para o status que o dinheiro dá, acredito no dinheiro de forma utilitária, tentando sempre fazer com que ele cumpra a sua função, que é nos dar um pouco de sossego e tranquilidade. Sendo que no caso desta mãe, o dinheiro proporcionaria a ela acesso a um hospital particular, com quartos privativos e um pouco mais de tranquilidade, coisa que ela não teve, infelizmente.

Por fim, lhe restou apenas a falta, por Deus, pelo menos o hospital público lhe era possível, pelo menos a certeza que a doença iria ser tratada era certa, mesmo que sem o conforto de um hospital particular.

Esta mãe era cristã, de uma igreja que tinha alguns usos e costumes, um dos principais era não cortar o cabelo. Por conta disso, esta mulher tinha um cabelo que ficava abaixo da cintura, diante do fato, uma ideia lhe surgiu, vender o cabelo.

O dinheiro oferecido foi grande, um valor que lhe ajudaria a cuidar de sua filha, e ainda ter algum conforto, além de suprir gastos eventuais de remédios e coisas básicas. A solução lhe pareceu óbvia e sem titubear, ela cortou o cabelo. Até aqui a história é uma história um tanto quanto normal, com um ótimo fundo de superação e final feliz, se não fosse pelo pastor de sua igreja.

O pastor não gostou do seu corte de cabelo, acabou por condenar-lhe e de quebra expulsou aquela mãe da igreja, afirmando que a sua atitude foi pecaminosa e mundana.

Infelizmente a história é verídica, não bastou a doença, a mãe teve que lidar com esta situação, coisa que fez bem, pois ela não culpou Deus e seguiu com sua fé em outra igreja. O problema é que os casos são muitos e nem todos têm a garra que esta mãe teve, com isso, acabam por transferir para Deus a culpa, ou seguem a margem da mesma religião que deveria ajudá-la.

O legalismo não produz frutos, o resultado principal é sempre podre a mal formado. Não existe resultado coerente e construtivo em quem vive o evangelho de forma pedante e sem amor.

O legalismo é fruto de mentes hipócritas, de quem vive uma vida de orgulho e soberba. Sabe-se muito de quem não demora em julgar. A conclusão para quem não ama o próximo e demora em ajudá-lo é que “esta pessoa não conhece o evangelho”.

Cristo pregou a mensagem da graça, sendo a graça não só a prova de que por nós mesmos não pode haver salvação, mas também a prova que somos todos iguais. O homem é pecador, todos os homens precisam de Deus.

O evangelho legalista vem de mentes superiores, de pastores que olham de cima e se sentem os escolhidos, os mais santos, os especiais. Miroslav Volf complementa:

“Para os cristãos, a fé produz efeitos devastadores quando se deteriora e se torna uma mera cultura pessoal ou um recurso cultural de pessoas cuja vida se guia por qualquer outra coisa exceto essa fé” (VOLF, 2018, p. 40)

No fim, o que concluímos é que alguns vivem o “evangelho” dos usos e costumes, se prendem a ensinos que são passados sem qualquer base Bíblica, fazendo com que o legalismo, oriundo de uma vida baseada em obras, seja o que realmente dita o modo de ser cristão.

O evangelho genuíno traz amor, compreensão e paciência pelo erro alheio. Um convertido genuíno entende que cada um tem os seus erros, cabe a nós sermos apoios, e não acusação. Não se trata de compactuar com o erro, e sim ajudar a pessoa chegar na superação de suas dificuldades.

Não somos salvos por obras, roupas ou o que quer que seja, e sim, pela graça. Sendo que não existe um estilo de se vestir, mas uma forma de ser, tendo o evangelho como centro das nossas vidas. O que passa disso geralmente é legalismo, por isso, tome cuidado.

BIBLIOGRAFIA

VOLF, Miroslav, Uma fé pública, Como o cristão pode contribuir para o bem comum, Editora Mundo Cristão, São Paulo, 2018

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