A ODISSEIA DA DOR III: CORPO

Há muito tempo atrás no trabalho uma amiga me perguntou sobre o sofrimento e como eu já estava em busca de respostas, comecei a explicar o problema do sofrimento, falei que o homem sofre por que é livre e sempre escolhe se distanciar de Deus, tal como abordei no primeiro texto. Ela ouviu pacientemente, aceitou a minha explicação, mas terminou me fazendo uma pergunta que me paralisou: Então por que a minha sobrinha nasceu com câncer? Por que Deus permite que pessoas nasçam doentes? Se o homem sofre porque usa mal o livre-arbítrio o que dizer das pessoas que sofrem catástrofes naturais, tsunamis e terremotos?

As perguntas me obrigaram a colocar meus pés no chão para não tratar o assunto de forma leviana. Ainda mais que a dor, para cada um, tem um tom, uma nota, e uma dificuldade. Nem todos encaram os problemas da mesma forma, com isso, nossas respostas, apoios e auxílios, dever ser dados com compreensão e respeito.

Outra profunda pergunta me vem a tona quando eu falo sobre o sofrimento, a questão veio de um outro amigo que também viu alguém no qual amava sofrer muito por causa de sua saúde. O que ele me perguntou foi: será que Deus não tem outra forma de ensinar que não seja através do sofrimento, tais questões são sempre difíceis de responder.

O sofrimento nos ensina, isso eu não tenho dúvidas, eu também sei que muitas vezes é a dor que Deus usa para nos mostrar algo, mas eu ainda acho que não devemos nos guiar por esta exceção. Nem sempre racionalizara a dor do próximo é sábio, principalmente porque não sentimos o que ele está sentindo, falar dos outros estando em uma situação totalmente oposta é sempre perigoso, e deve ser feito sempre com muito cuidado.

O problema é que estamos sempre tentando ajustar Deus, suas ações ou “falta” de ações a nós e ao nosso ponto de vista. Queremos que ele seja como nós, e aja de acordo com o que acreditamos. Deus é Deus, com isso, já temos que ter em mente que por ele ser Deus, não criado, eterno e poderoso, nós, seres humanos criados, o entenderemos pouco. Um Deus que é definível, certamente é finito, com isso ele não é Deus.

Uma questão que temos que entender quando falamos do sofrimento e de Deus é que Deus não é a vida. A vida é uma coisa, a sociedade da forma como é, injusta, falha, brutal e mesquinha, assim o é por que é composta por seres humanos pecadores. Philip Yancey completa:

“Aprendi a ver além da realidade física deste mundo. Vejo claramente a realidade espiritual. Nossa tendência é pensarmos: “A vida deve ser justa porque Deus é justo”. Mas Deus não é a vida” (YANCEY, 2004, p. 191)

Não temos certeza do porque muitos nascem doentes, eu nem me atrevo a responder o porquê muitos sofrem com catástrofes. Mas eu sei que Deus criou a vida, o homem pecou e decidiu seguir de costas para ele, conquanto quando eu vejo o sofrimento hoje, eu não consigo perguntar, onde está Deus? E sim, onde está a igreja? Por que nós não estamos fazendo algo?

Enquanto eu escrevo este texto, um amigo está na África atuando como missionário. Ele inclusive é formado, possui mestrado e tinha um ótimo emprego quando abriu mão de tudo para atender ao chamado de Deus. Enquanto eu escrevo este texto eu me lembro de outro amigo que já arriscou a sua vida para ir a países islâmicos pregar o evangelho, coisa que ele também não precisava fazer por ter muito mais opções de trabalho. Enquanto eu escrevo este texto eu me lembro de um amigo médico, que de tempos em tempos se alista como voluntário para trabalhar em países assolados por catástrofes.

Nós somos o corpo e Cristo é o cabeça, nós somos seus servos aqui na terra, com isso, entender o nosso papel ante a dor é importante. Enquanto o caos existir, nós temos que estar a postos, apontando para a cruz, levando o evangelho a todos os feridos.

A Bíblia fala de um novo céu e de uma nova terra, fala de um lugar onde não haverá mais dor. Mostra que a sociedade que Deus constrói é perfeita, sem dor e doença. Quando eu leio sobre doenças eu lembro justamente disso, e agradeço a Deus por ter esta esperança e me recordo que é a minha missão levar está esperança as outras pessoas, que é minha a missão ser diferença.

Não sabemos explicar o porquê da dor, mas sabemos quem é a solução. Deus é a vida, ele veio para nos dar vida, e nos chamou para sermos luz e sal. Se não fizermos diferença, os sofredores continuarão buscando resposta e nós continuaremos em silêncio, como se a responsabilidade não fosse nossa.

O interessante é que quando olhamos para a história de Jó, não conseguimos encontrar explicação alguma. Por que um homem justo tem que sofrer? Por que Deus usou justo Jó para mostrar a Satanás que ele estava errado? Porque algumas boas pessoas sofrem com catástrofes e problemas inexplicáveis? Nós não sabemos, e acredito que nunca encontraremos explicação, mas eu sei o quanto nós podemos ser diferença quando estes dias chegarem.

Em meio ao meu problema, enquanto enfrentava momentos realmente difíceis, tentando racionalizar, entender e explicar, eu recebo uma mensagem. Um texto que parecia simples, mas que me tocou, a frase se resumia em algo parecido com “estamos sentindo falta de você aqui na igreja”. Por conta dos problemas eu estava desanimado, nem estava indo mais na igreja. O cinza havia invadido o meu peito e eu optava em ficar os finais de semana em casa, fechado em minha dor. Entretanto, poucas palavras me ajudaram a não me sentir sozinho, por conta de atitudes aos olhos de alguns eu me senti amado, e tive forças para me levantar e agir.

O mundo sofre com injustiças, catástrofes e doenças, mas nós estamos aqui para ser diferença. Deus é Deus, ele criou tudo, mas não tem qualquer responsabilidade pelo caos, o que sabemos é que ele prometeu nos ajudar, e levantou um povo que é porta-voz da sua mensagem. Um povo que é responsável por levar vida no caos, cultivar jardins nos desertos, levar esperança onde ela não mais existe.

BIBLIOGRAFIA

YANCEY, Philip, Decepcionado com Deus, Três perguntas que ninguém ousa fazer, Editora Mundo Cristão, São Paulo, 2004

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