A METAMORFOSE DE KAFKA

Imagine se um dia você acordasse e percebesse que estaria virando um inseto. Com braços a mais, antenas e voz estranha. Este é o enredo do livro “A metamorfose” de Kafka, um livro muito mais que surpreendente, não só pela história, mas por todas as lições que o livro propõe.

O livro já começa com a transformação, como se o autor, economizando suspense, já fosse gastando novidades sobre a história. Contudo, isso não é o principal do texto, a parte central é a história da família e o quanto ela é dependente daquele filho.  

O filho inseto é o que sustenta os seus pais e a irmã. O texto enfatiza bem como o trabalho dele mantém tudo, enquanto a família segue dependente por conta de várias desculpas. A parte surpreendente é ver ele passar de provedor, para um inseto asqueroso sem ao menos saber como tudo aconteceu.

O surreal da transformação de Gregor, que é o metamorfoseado, é a sua preocupação com o trabalho, mesmo estando em um estado lastimável. Mostrando que as vezes temos prioridades totalmente invertidas.

No decorrer da história, conforme o filho seguia piorando cada vez mais, vemos concomitantemente uma família ressuscitando, deixando de lado as desculpas e arregaçando as mangas. O pai arranja um trabalho, os outros começam a correr atrás e a se unirem no propósito de sobreviver, enquanto o filho sucumbia a maldição dia após dia.

É normal o homem se acomodar, se prender a desculpas e seguir dependente, seja de alguém, ou de um emprego que não proporciona qualquer perspectiva. A questão é que quando os problemas chegam, nos obrigam a nos mexer, a correr atrás e buscar novas soluções.

A Metamorfose é a história de duas transformações, a primeira, de um filho com uma espécie de maldição e a segunda, de uma família que diante do caos, precisou se virar.

O livro é uma metáfora do caos, do quanto os problemas nos ajudam, nos tiram do comodismo fazendo com que tenhamos que nos movimentar em busca de soluções. Mas também é uma metáfora sobre o sofrimento, como ele surge sem sabermos e nos deixa paralisados, sem ação.

Nem sempre o caos é ruim, em algumas vezes é somente nos períodos difíceis que vemos como estamos fazendo as escolhas erradas. Contudo, o caos também nos pega de surpresa e muda toda a nossa vida.

O livro mostra justamente a ambiguidade do sofrimento, o quanto ele é ambivalente e imprevisível. Penso que é difícil explicar o livro, assim como é difícil explicar o sofrimento, pois ele vai ser sempre ambíguo e dependente da ação e de um posicionamento do sofredor.

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