A ODISSEIA DA DOR VIII: O RETRATO DO SOFRIMENTO

O livro de Jó tem vários detalhes e trata da dor e do sofrimento de forma bem escancarada e explícita, como estamos vendo. Para quem sofre, o livro é um alento, afinal, em um mundo de dor, sofrimento e injustiça, é reconfortante ver a Bíblia tratar tais questões de forma aberta e honesta. Não há formulas pré-fabricadas e nem pontos de partida idealizados e irreais. Apenas, e tão somente, o homem, sua dor e uma intrínseca busca por respostas. E Deus, sendo senhor de tudo em meio ao caos.

Entre tantas lições que podemos tirar do livro, uma delas é que o sofredor acaba se deparando quase sempre com um cenário parecido com o de Jó. Não que a dor e o sofrimento sejam iguais, e sim, que a situação de quem sofre é muito parecida.

Não basta sofrer, e também não basta ter que lidar com as dúvidas que um sofredor cristão tem que enfrentar. Tal qual Jó, o sofredor quase sempre se depara com pessoas que tentam explicar o seu sofrimento, e o pior, receitando fórmulas mágicas para os problemas alheios. Isso quando ele não atribui a dor a erros pessoais, a Deus e uma possível lição ou qualquer outra teoria que não ajuda, na maioria das vezes atrapalha ainda mais. Não basta o sofrimento, alguns optam por jogar ainda mais fardos, crendo estarem ajudando.

A dor não se explica, muito menos conseguimos medir a intensidade dela, visto que em cada pessoa, ela tem um impacto e um efeito. Cada um encara o sofrimento e a dor com uma lente, não dá para generalizar um momento de sofrimento, por ser único.

O livro de Jó é também um retrato de uma situação que comumente um sofredor passa. É o roteiro pronto de pessoas que em meio ao caos, pioram ainda mais a situação. O interessante é que os amigos de Jó acabam tendo uma atitude parecida com a de Satanás, nos primeiros capítulos do texto, acusam e acreditam que Jó estava envolvido em uma situação de causa e efeito (YANCEY, 2006, p. 50, 51).  Philip Yancey no livro “A Bíblia que Jesus lia” complementa resumindo que:

“Em resumo, os amigos de Jó surgem como os dogmatistas justos aos próprios olhos que defendem os caminhos misteriosos de Deus. Confiantes de suas doutrinas sem falhas e de seus argumentos sólidos, decretam uma condenação contra Jó” (YANCEY, 2000, p. 51).

Em meio a dor e aos problemas, olhares e até palavras são ouvidas e a frase é quase sempre a mesma, “o que será que ele fez para estar sofrendo assim?”.  É sempre mais fácil tentar resolver a dor e o sofrimento alheio, a questão é quando a ferida é em nossa pele.

Depois do meu período de dor e de dificuldade, passei a ter cuidado ao falar com quem sofre. Perdi aquela sede de explicar, e descobri, que quase sempre não entendemos a dor do outro. Uma dor, uma depressão, um momento de caos e lutas, são únicos, são batalhas secretas, que apenas quem está enfrentando, sente e compreende.

Em meu período de caos, ouvi muitas receitas e percebi olhares que não só desdenhavam da minha situação, mas também atribuíam a mim, todo aquele caos. Nem sempre temos culpa, as vezes passamos por situações que não controlamos, e muito menos entendemos o porquê. É claro que as vezes a culpa é toda nossa, mas é importante tentar entender isso, e o principal, saber dar um conselho em um momento tão difícil, caso a culpa seja dele.

Os meus dias eram cinzas quando resolvi desabafar com um amigo, eu precisava tirar do peito tudo o que me afogava. Em resposta, ouvi a frase que mais me ajudou, eu a ouço, de forma bem nítida, quando lembro daqueles complicados dias. Meu amigo falou “Guilherme eu nem sei o que dizer, mas eu estou aqui com você, você não está sozinho”.

Em meio a dor, o que mais vale é estar presente, é dar apoio e se abster de tentar quantificar ou de construir fórmulas que só servem para máquinas. Um ombro amigo, vale muito mais do que receitas. Orar, ouvir e apoiar, é a verdadeira ajuda, o resto é carga extra, que o sofredor acaba tendo que carregar.

BIBLIOGRAFIA

YANCEY, Philip, A Bíblia que Jesus lia, Editora Vida Acadêmica, São Paulo, 2000.

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