A VALORIZAÇÃO DA VIDA

Falar sobre a valorização da vida é algo muito complexo, primeiro porque a vida é complexa, somos únicos, parecidos, mas intrinsecamente diferentes. Com sentimentos, como todo ser humano, mas com intensidades totalmente distintas de sentir, agir e lidar com as diversas situações da vida. Somos semelhantemente diferentes.

Segundo porque a vida não é só este corpo, é uma existência, é alguém que sonha, que tem um papel em determinada família ou mesmo na sociedade. É alguém que existe, e vive não só para si, mas também para os outros, seus familiares, igreja, amigos etc. E quando uma vida se encerra, falamos de vidas, pessoas, sonhos, familiares, que vão ser impactados por uma perda, e não apenas de alguém que faleceu. Ana Claudia Quintana Arantes tem uma frase, em um dos seus livros que eu gosto muito e que resume bem esta questão:

“Seja como expectadores, seja como protagonistas, a morte é um espaço onde as palavras não chegam” (ARANTES, 2019, p. 61).

Pois como eu disse, não se trata apenas de uma vida física, é muito mais, é uma existência que vai deixar um buraco na vida de muitos. E vai fazer com que nós nos calemos diante de uma realidade, que com certeza, nós sabemos que um dia vamos enfrentar, embora custemos a aceitar, que é a morte. No final, poderíamos definir o suicida como alguém que desistiu da sua história, de tudo o que ele poderia ser e realizar durante sua existência.

A questão do suicídio é também um tema bem complicado, pois se trata de uma dor que nós não conseguimos sentir. Você pode ter a maior empatia do mundo, mas mesmo assim, impreterivelmente, você nunca vai entender a visão de mundo como o outro. Somos solitários em nosso sentir, o que sentimos e passamos, é único, é só nosso e com isso, a questão se torna complexa. Pois como resumir em palavras, algo que só é possível ser explicado com os sentimentos de quem está passando pela situação? Não é possível, mas é possível nos posicionarmos de forma assertiva, como ajuda, e não como mais um problema.

A primeira forma é combater o senso comum, que define o suicídio de forma rasa e inverídica. Que acredita que o depressivo é alguém que não tem muito o que fazer.

É importante entender que o depressivo é antes de tudo alguém que sofre de algumas disfunções, seja de ordem química, psicológica ou por conta de dilemas pessoais. E só é possível combater as opiniões equivocadas através da informação e da pesquisa. É procurar respeitar o sentir de cada um e dialogar, da mesma forma como gostaríamos que dialogássem sobre os nossos problemas e falhas. É tratar o outro, como gostaríamos de ser tratados. Entendendo que a depressão não é uma brincadeira é algo sério, que precisa de atenção e de cuidado.

Em segundo lugar, é preciso refletir que no final, quem pensa em morrer, não é alguém covarde, e sim, alguém que apenas está procurando a solução para uma dor, e vê na morte, a única saída.

Por isso que, se nós, através do nosso posicionamento, não nos colocarmos como apoio, auxilio e resgate, vamos deixar que a morte leve antes do tempo, uma história, alguém que poderia fazer algo, seja para os seus amigos ou para si. É uma história que acaba se interrompendo, por falta de ajuda, da nossa ajuda. Valorizar a vida, é antes de tudo dar valor a história de alguém que possui sonhos, e desejos, e que por conta de um problema, acaba por querer encerrar a sua vida.

É preciso aprender a olhar as pessoas e entender, que no final, podemos sem querer estar vendo nossos pontos de vistas pessoais, e não o que a pessoa está realmente sentindo. Precisamos aprender a ouvir sem criticar, apoiar sem julgar, e entender o imenso universo que cada um é.  

Valorizar uma vida, é antes de tudo, saber olhar para alguém único, que pode não estar conseguindo gritar por socorro.

BIBLIOGRAFIA

ARANTES, Ana. Claudia. Quintana, A morte é um dia que vale a pena viver: E um excelente motivo para se buscar um novo olhar para a vida, Editora Sextante, Rio de Janeiro, 2019.

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