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A ODISSEIA DA DOR II: HAVIA UM HOMEM…

No primeiro texto vimos que o sofrimento existe por que o homem pecou, virou as costas para Deus e segue da forma que melhor lhe apraz. A dor é fruto do pecado e da maldade humana, o problema com este conceito é que tal explicação não serve para o caso de Jó.

Considero Jó um dos livros mais intrigantes da Bíblia, sua narrativa, todo o seu sofrimento, acaba sendo uma espécie de alento para nós que constantemente sofremos. Eu não conheço ser humano algum que sofreu tanto quanto Jó, mas conheço muitos, que ante o sofrimento, fazem perguntas e questionamentos a Deus tentando entender porque o caos às vezes os persegue. Sendo que eu fui um deles e foi o livro de Jó que me deu as primeiras respostas, como eu deixei claro no primeiro texto da série. Porém, primeiro vamos tentar entender um pouco este livro para que assim entendamos melhor a sua mensagem.

Jó é um dos livros mais antigos da Bíblia, com isso é considerado como o primeiro. O livro tem como tema o problema do sofrimento, sendo que um ponto fica claro no livro todo, o justo também sofre, mas não é só isso. Algumas outras coisas curiosas percebemos no livro. A primeira é que Deus não é chamado pelo nome pessoal que os Israelitas comumente chamam que é Javé e sim de Elohim (Carson, France, Motyer, Wenham, 2012, 696, 697, 698, 700). A segunda é que o texto foi escrito em hebraico muito mais antigo que o hebraico do Velho Testamento, validando assim o seu título de primeiro livro da Bíblia (RICHARDS, 2013, pg. 367).

O livro de Jó foi escrito muito tempo antes de Moisés, sendo que ele não faz menção a lei, a Abraão ou a patriarca algum, mas o livro com certeza foi escrito por um  israelita apesar de Jó mesmo não ser um:

“Jó não é um israelita, ele é um integrante dos “povos do leste”, ou seja, que ficam a leste do Jordão (Uz é Edom, a sudeste de Israel) (Carson, France, Motyer, Wenham, 2012, 696, 697, 698, 700)

Poderíamos dizer então que Jó é a primeira prova de que Deus se revela a diversas culturas ao redor do mundo, que Deus não está preso em uma caixinha. Entretanto não temos apenas Jó na narrativa, temos mais alguns indivíduos que provam que Deus se revela ao homem e eles são: Elifaz, Bildade e Zofar (Jó 2:11), os três amigos de Jó, que são de países desconhecidos. O problema é que é difícil de identificar com certeza seus países de origem, temos também o jovem Eliú que aparece quase no fim do livro, contudo o texto não dá muitas informações suas, mas sabemos que são estrangeiros que conheciam a Deus.

“Esses cinco homens tementes a Deus viviam na terra de Uz. Ninguém sabe como vieram a conhecer Deus em Uz, sem ajuda de Abraão. De fato, ninguém sabe sequer onde ficava Uz!” (RICHARDSON, 1995, p. 87)

Sabemos também que o livro se fundamenta nas perguntas: Qual é a motivação que leva o homem a servir a Deus? Jó vai continuar seguindo a Deus mesmo depois de todas as catástrofes? E como agir quando Deus se cala ante nossos problemas? (ZUCK, 2014, p. 292). Eu acrescentaria por minha própria conta mais uma pergunta: O justo sofre? O livro parece nos mostrar que sim

O texto começa falando “Havia um homem…” (Bíblia ACF), não era qualquer homem, muito menos foi uma pessoa aleatória, era um homem justo, honesto e temente a Deus, era alguém que Deus escolheu para mostrar a Satanás como ele estava errado, como este encontro se deu a Bíblia não explica, só sabemos que aconteceu da forma descrita no texto. Temos algumas boas teorias para explicar tal encontro, mas me manterei preso aos fatos e a mensagem em si, não abordarei tais teorias.

No encontro Satanás faz uma acusação, e qual seria tal acusação? Satanás acreditava que Jó só era fiel porque Deus o enchia de Bens e depois, quando Jó continuou fiel e Satanás começou a perder a razão ele mudou para saúde, mas Jó continuou fiel, mesmo sem saúde e já sem dinheiro, parece que o acusador estava errado.

A parte no qual eu admiro muito em Jó é que mesmo com este poder todo ele continuava sendo íntegro, reto e temente a Deus (V1), coisa que eu já acho um grande feito, já que muitas vezes por pouca coisa esquecemos de Deus. Este homem era tão exemplar que o próprio Deus confirma a índole deste servo em várias partes do texto Bíblico. Só não podemos nos esquecer de uma coisa muito importante sobre o capítulo 1 e 2 que é fundamental para entendermos o texto todo. Ele é uma espécie de introdução ao livro, não podemos ler o livro tendo como base o desafio que Deus fez para o Diabo, nosso ponto de vista ao ler o texto deve ser o de um sofredor que não sabe o porquê estava sofrendo. Temos que sempre nos lembrar de que ele não sabia da conversa de Deus, com isso, certamente ele não entendia aquele caos todo. E por ser justo e íntegro, certamente ele devia estar muito confuso.

É fácil servir a Deus quando tudo está bem, quando temos dinheiro no banco, um bom emprego e saúde. O desafio é servir quando o caos vira rotina em nossa vida. A acusação do diabo é justamente esta, “Jó era fiel a Deus porque Deus o cercava de bens, dinheiro e saúde”, mas ele provou que o acusador estava errado. Com isso, a pergunta que eu deixo é, e nós, também provaremos que Satanás está errado? Continuaremos fiéis a Deus mesmo diante das tribulações? Jó continuou fiel e mesmo perdendo os filhos e seus bens, proferiu uma das mais maravilhosas frases que eu já li:

Nu saí do ventre de minha mãe e nu tornarei para lá; o Senhor o deu, e o Senhor o tomou: bendito seja o nome do Senhor (Jó 1:21)

É claro que eu me envergonhei, eu estava em uma busca por respostas e não tinha passado um décimo do que Jó passou, ao ler tal frase me senti pequeno e de alguma maneira hipócrita por achar que Deus me devia explicação. Não tem como não se envergonhar e ao mesmo tempo não admirar Jó quando vemos qual foi a sua atitude ante o caos. A sua fé nos inspira, a sua confiança me faz olhar para Deus e o buscar ainda mais.

Jó é uma grande exceção, é um homem de posses que não deixou que suas posses definissem a sua vida. Jó nos ensina a ser fiel, mesmo na falta, a glorificar a Deus, mesmo ante o caos e a doença.

Quem Deus é para você quando tudo na sua vida está dando errado? Está é uma das perguntas que o texto de Jó fez com que eu pensasse, refletisse e meditasse por muitos dias.

Lembre-se que o modo como enxergamos Deus define a nossa caminhada e como vamos reagir ante as intempéries.

BIBLIOGRAFIA

Bíblia Sagrada – Nova Tradução na Linguagem de Hoje; Ed. Soc. Bíblica do Brasil, São Paulo, 2005

Bíblia Sagrada – Bíblia de Jerusalém; Paulus, São Paulo, 2013

ZUCK, Roy B, Teologia do Antigo Testamento, Editora CPAD

RICHARDS, Lawrence, Comentário Bíblico do Professor, Um Guia Didático Completo Para Ajudar no Ensino das Escrituras Sagradas do Gênesis ao Apocalipse, Editora Vida Acadêmica, São Paulo, 2013

CARSON. DA. FRANCE , RT, MOTYER, J. A, WENHAM, G. J, Comentário Bíblico Vida Nova, Editora Vida Nova, São Paulo, 2012

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A ODISSEIA DA DOR I: PROVOCAÇÕES

Fazer uma faculdade foi um dos meus grandes sonhos, sempre quis aprender mais teologia, ampliar meu conhecimento e aprender mais ferramentas para interpretar a Bíblia. O que eu nunca achei que aconteceria era que eu teria inúmeras dúvidas e incertezas em pleno final de curso.

Foi quase na conclusão do meu bacharelado em teologia que eu tive uma crise de fé das mais graves, não tenho medo de confessar. Eu passava por um complicado problema de saúde, estava também lidando com uma depressão muito profunda e ainda por cima me encontrava desempregado, sentindo tudo ruir a minha volta.

Você não sabe o quanto eu clamei a Deus, o quanto pedi ajuda, me sentindo entre uma oração e outra, abandonado, desprezado e sem esperança. É como se Deus tivesse me deixado à deriva, me abandonado à própria sorte ou talvez como se ele nem existisse e fosse o fruto da minha imaginação. Acredite, eu pensei muito nesta possibilidade.

Já se sentiu desamparado? Já se perguntou onde estava Deus enquanto o caos estava acontecendo? Já se sentiu sozinho entre as lutas? Tem dias que é quase impossível não pensar que Deus nos abandonou, eu mesmo já pensei algumas vezes, mas também aprendi muito com o meu momento de crise, o caos fez com que eu buscasse mais a Deus, procurasse respostas e aprendesse, sendo que neste texto em questão eu traço um pouco do caminho que percorri e as respostas que fui achando ao longo de todo o meu vazio.

Vale lembrar que o sofrimento é importante, ele deve ser uma espécie de trampolim que nos leva a Deus, a buscá-lo mais, a orar mais e a estudar mais a sua palavra. Tiago 1:2-3 diz:

“Meus irmãos, considerem motivo de grande alegria o fato de passarem por diversas provações, pois vocês sabem que a prova da sua fé produz perseverança”

 A provação produz em nós perseverança, faz com que busquemos mais a Deus e entendamos mais a sua palavra. Não podemos esquecer que Cristo já nos avisou que teríamos aflições (João 16:33).

Outro ponto importante que temos que ter em mente antes de embarcarmos em nossa reflexão é que todo o caos existe por causa do pecado, da desobediência do homem, do fato de que o homem se separa cada vez mais de Deus e por isso, acaba sempre no caos, ou sujeito a todo o caos do mundo. Está é uma verdade que precisamos entender e aceitar. Mas o sofrimento suscita mais algumas perguntas, deixam no ar algumas questões, começarei falando das primeiras respostas que eu achei, para terminar falando do ponto final que eu coloquei na questão Deus e o sofrimento.

Na época o sofrimento me levou até o livro de Jó, foi nele que eu achei alento para a minha vida. É claro que eu não passei nem um terço do que ele passou, mas o livro nos mostra que o justo sofre sim, mesmo sem dever nada. O livro também evidencia que nunca entenderemos os desígnios de Deus, nunca saberemos realmente a sua vontade, mas apesar de tudo, ele sempre estará conosco, sendo que no fim, o mal sempre acaba, é claro que acaba.

Contudo foi em Gênesis 37, lendo a história de José, que eu tive um certo alívio, a história dele me inspira a confiar em Deus, mesmo passando por dificuldades, a parte boa é que o texto nos mostra que apesar de todo os problemas, Deus sempre transforma o mal em bem. Com isso, tive algum alívio, mas continuei com algumas perguntas martelando a minha cabeça, entretanto estas duas passagens bíblicas foram fundamentais em minha busca por explicação, falarei delas depois em textos que virão mais adiante.

O sentimento de abandono é a primeira sensação que temos quando tudo está a ruir. Não entendemos porque tudo está dando errado, com isso, fazemos perguntas das mais variadas a Deus e tentamos até algumas barganhas, mas geralmente sem sucesso, pois afinal Deus não precisa provar o seu poder, lembre-se de que o diabo pediu provas a Cristo, quando o tentou no deserto (Mateus 4:1-11), mas Cristo não provou, pois quem é não precisa provar.

A pergunta que eu mais me fiz nestes dias é por que Deus parece se calar quando passamos por períodos de sofrimento? Por que parece que estamos sozinhos, abandonados ante o caos?

O Sofrimento e as inúmeras perguntas me levaram ao livro de C. S. Lewis chamado o problema do sofrimento, neste livro tive as primeiras e poucas palavras de consolo e algumas poucas respostas. Lewis é ótimo em lidar com o sofrimento, o panorama e a sua visão do porquê sofremos me ajudou muito na época, embora não tenha respondido a todos os meus questionamentos, por isso que eu não consegui encerrar a minha busca. Logo no segundo capítulo Lewis resume bem o problema do sofrimento, ele sintetiza tudo o que eu ouvi de diversos sofredores e um pouco do que eu mesmo estava passando:

“Se Deus fosse bom, Ele desejaria tornar Suas criaturas perfeitamente felizes, e se fosse todo-poderoso, seria capaz de fazer o que quisesse. Mas as criaturas não são felizes. Portanto, a Deus falta a bondade ou o poder – ou ambas as coisas” (LEWIS, 2006, pg. 33)

Acredite, eu já ouvi muito isso de amigos, doentes e sofredores em geral, e confesso que sempre me calei ante estes questionamentos, principalmente porque eu não tinha resposta nem para os meus problemas, quem dirá para o dos outros. A resposta para a questão não é tão complicada, se torna ainda mais fácil hoje, onde eu enxergo o sofrimento de uma forma bem mais tranquila, apesar de que eu continuo não achando fácil.

Deus é bom, mas não força, não obriga o homem a olhar para ele. Por termos liberdade de escolha, o tal livre-arbítrio, acabamos por escolher sempre o mal, já que somos contaminados pelo pecado, e seguimos sofrendo. Por Deus amar, ele não força, com isso, sofremos porque não olhamos para Deus, por seguirmos egoístas e mesquinhos. O sofrimento aponta para Deus e mostra quem somos sem ele, é só através do sofrimento que conseguimos sair da nossa vida alienada e ver além de nós. Eu gosto de uma citação de Lewis do livro “O grande abismo” que eu uso muito, ele resume bem o problema do sofrimento e sintetiza as primeiras respostas da minha busca por explicação:

Só existe um único ser bom, e esse é Deus. Tudo o mais é bom quando olha para Ele e mau quando se afasta d’Ele. (LEWIS, 2006, pg. 70)

O homem sofre porque é primeiramente livre e depois por ser pecador, porque escolhe sempre se afastar de Deus e não percebe que não é nada sem ele, o quanto ele é mau e decaído sem Deus, o sofrimento é fruto destes homens maus.

O sofrimento aponta para Deus e mostra o que o homem é sem ele. Mas ele também nos tira da nossa zona de conforto, faz com que olhemos o próximo e aprendamos a nos dedicar mais a ajudar. Muitas coisas boas surgiram de quem sofreu ou viu alguém no qual amava muito, sofrer. É normal nos fecharmos em nós mesmos, o sofrimento faz com que olhamos para fora, que tenhamos outros olhos e outras atitudes.

Estas são as primeiras respostas, mas existem muitas perguntas, variáveis e casos que iremos ver no próximo capítulo, a minha busca não havia acabado, algumas respostas não são suficientes para quem sofre, por isso que este texto é só o primeiro.

BIBLIOGRAFIA

LEWIS, C. S, O Grande Abismo, Editora Vida, São Paulo, 2006

LEWIS, C. S, O Problema do Sofrimento, Editora Vida, São Paulo, 2006

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