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A ODISSEIA DA DOR IV: A CRUZ DE CRISTO

O homem tem a mania feia de reclamar, é comum reclamarmos ao sinal dos menores problemas, e, apesar de Jó ter reclamado um pouquinho mais adiante no texto, o que ele fez antes foi justamente ficar quieto. O capítulo 2 acaba justamente em silencio de Jó (2:13)

Confesso que este silêncio me intriga, pois é difícil mantermos quietos em meio ao caos, não é? É muito raro vermos pessoas sofrerem quietas, normalmente botamos a boca no trombone, gritamos para o mundo e até algumas vezes oramos indignado a Deus, perguntando o porquê dele permitir tais problemas. Isso sem contar com os inúmeros exemplos na bíblia que você lê em Salmos, Lamentações ou até mesmo nas cartas de Paulo, quando ele ora e insiste para que Deus que o cure. Mas Jó ficou quieto, intrigante.

Talvez estivesse pensando e tentando lembrar se fez algo de errado ou tentando achar um motivo para aquele sofrimento todo, não sabemos, só sabemos que ele se silenciou por sete dias. Lembre-se que Jó não sabia da conversa entre Deus e o diabo, ele sofria sem saber o motivo.  Ele era justo e sabia disso, com isso, reclamar por seus direitos era o mais óbvio a se fazer, mas ele preferiu o silêncio. As vezes o silêncio é a única atitude certa, ele nos impede de falarmos besteiras e tomarmos atitudes erradas, infelizmente, o seu silêncio foi por poucos dias, embora isso não tire o seu mérito. A dor é inexplicável, estar entre o caos não é tão fácil assim e nem sempre teremos respostas para os nossos problemas, mas é possível passar por este período com os pés no chão. Contudo não posso cometer o erro de falar da dor, sem antes falar de Cristo, seria um erro dos mais graves se eu deixar o assunto passar.

A Cruz é uma prova que o justo sofre, é a ação de um Deus que se doa, mesmo sendo o único e verdadeiro justo que morreu em nosso lugar. Eu não consigo imaginar, quantificar e muito menos explicar um Deus que despe-se de toda a sua glória, para vir ao mundo como um limitado ser humano, e se doa por amor. A própria atitude é sem explicação, com isso eu me lembro de mais alguns questionamentos.

Eu tenho muitos amigos ateus, sendo que um deles, de uma forma bem enfática e um tanto raivosa, um dia em uma discussão, falou que um Deus não pode morrer, é inconcebível falar de um Deus que se doa e que sofre por amor a homens. Eu concordei com ele, reiterei que sim, este ato altruísta é inexplicável, conquanto, Deus também não se explica, seria igualmente contraditório nós, seres humanos, explicamos Deus. Com certeza, falei para ele, que o dia que conseguirmos explicar Deus, estaremos totalmente equivocados. Se o sofrimento já é um tanto quanto difícil de se explicar, quem dirá Deus. Mas, uma coisa temos certeza, quando falamos do Deus da cruz, este inexplicável Deus que sofreu, falamos de alguém que “entende a nossa dor”

Em um mundo de dor, em uma sociedade injusta onde muitos sofrem, onde a impiedade e o preconceito reinam, saber que Cristo passou por tudo isso, sofreu, se doou, foi injustiçado, é um alívio. Pois uma coisa podemos ter certeza nesta hora, Deus entende a nosso sofrer. John Stott, no livro Por que sou cristão complementa:

O único Deus em quem eu creio é aquele que Nietzsche, filósofo alemão do século 19, ridicularizou, chamando-o de Deus sobre a cruz. No mundo real da dor, como adorar a um Deus que fosse imune a ela? (STOTT, 2004, Pg. 67)

 Em um mundo de dor, seguir a um Deus que entende o timbre da dor, nos seus níveis mais extremos, é um alívio, foi o que me consolou, foi o que me fez chorar e clamar, por saber que ele me entende.

Em meio a minha crise de fé, procurando respostas, tentando achar explicação para todo o cinza, nem sempre eu conseguia orar. Tinha dias que eu levantava da cama e ficava apenas em silêncio, quieto, tentando achar sentido ante todo o caos. Era bem nestas horas que a imagem da cruz vinha em minha mente, as cenas de sofrimento e escárnio me faziam lembrar de que Deus me compreendia, com isso, eu me sentia consolado, por saber que ele entendia a minha aflição.

O propósito desta série de textos é muito mais que explicar, é compartilhar a minha odisseia, é mostrar os caminhos percorridos e mostrar que nem sempre racionalizamos tudo, mas que é possível encontrar alento em meio ao caos.

BIBLIOGRAFIA

STOTT, John, Por Que Sou Cristão, Editora Ultimato, Minas Gerais, 2004

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A ODISSEIA DA DOR III: CORPO

Há muito tempo atrás no trabalho uma amiga me perguntou sobre o sofrimento e como eu já estava em busca de respostas, comecei a explicar o problema do sofrimento, falei que o homem sofre por que é livre e sempre escolhe se distanciar de Deus, tal como abordei no primeiro texto. Ela ouviu pacientemente, aceitou a minha explicação, mas terminou me fazendo uma pergunta que me paralisou: Então por que a minha sobrinha nasceu com câncer? Por que Deus permite que pessoas nasçam doentes? Se o homem sofre porque usa mal o livre-arbítrio o que dizer das pessoas que sofrem catástrofes naturais, tsunamis e terremotos?

As perguntas me obrigaram a colocar meus pés no chão para não tratar o assunto de forma leviana. Ainda mais que a dor, para cada um, tem um tom, uma nota, e uma dificuldade. Nem todos encaram os problemas da mesma forma, com isso, nossas respostas, apoios e auxílios, dever ser dados com compreensão e respeito.

Outra profunda pergunta me vem a tona quando eu falo sobre o sofrimento, a questão veio de um outro amigo que também viu alguém no qual amava sofrer muito por causa de sua saúde. O que ele me perguntou foi: será que Deus não tem outra forma de ensinar que não seja através do sofrimento, tais questões são sempre difíceis de responder.

O sofrimento nos ensina, isso eu não tenho dúvidas, eu também sei que muitas vezes é a dor que Deus usa para nos mostrar algo, mas eu ainda acho que não devemos nos guiar por esta exceção. Nem sempre racionalizara a dor do próximo é sábio, principalmente porque não sentimos o que ele está sentindo, falar dos outros estando em uma situação totalmente oposta é sempre perigoso, e deve ser feito sempre com muito cuidado.

O problema é que estamos sempre tentando ajustar Deus, suas ações ou “falta” de ações a nós e ao nosso ponto de vista. Queremos que ele seja como nós, e aja de acordo com o que acreditamos. Deus é Deus, com isso, já temos que ter em mente que por ele ser Deus, não criado, eterno e poderoso, nós, seres humanos criados, o entenderemos pouco. Um Deus que é definível, certamente é finito, com isso ele não é Deus.

Uma questão que temos que entender quando falamos do sofrimento e de Deus é que Deus não é a vida. A vida é uma coisa, a sociedade da forma como é, injusta, falha, brutal e mesquinha, assim o é por que é composta por seres humanos pecadores. Philip Yancey completa:

“Aprendi a ver além da realidade física deste mundo. Vejo claramente a realidade espiritual. Nossa tendência é pensarmos: “A vida deve ser justa porque Deus é justo”. Mas Deus não é a vida” (YANCEY, 2004, p. 191)

Não temos certeza do porque muitos nascem doentes, eu nem me atrevo a responder o porquê muitos sofrem com catástrofes. Mas eu sei que Deus criou a vida, o homem pecou e decidiu seguir de costas para ele, conquanto quando eu vejo o sofrimento hoje, eu não consigo perguntar, onde está Deus? E sim, onde está a igreja? Por que nós não estamos fazendo algo?

Enquanto eu escrevo este texto, um amigo está na África atuando como missionário. Ele inclusive é formado, possui mestrado e tinha um ótimo emprego quando abriu mão de tudo para atender ao chamado de Deus. Enquanto eu escrevo este texto eu me lembro de outro amigo que já arriscou a sua vida para ir a países islâmicos pregar o evangelho, coisa que ele também não precisava fazer por ter muito mais opções de trabalho. Enquanto eu escrevo este texto eu me lembro de um amigo médico, que de tempos em tempos se alista como voluntário para trabalhar em países assolados por catástrofes.

Nós somos o corpo e Cristo é o cabeça, nós somos seus servos aqui na terra, com isso, entender o nosso papel ante a dor é importante. Enquanto o caos existir, nós temos que estar a postos, apontando para a cruz, levando o evangelho a todos os feridos.

A Bíblia fala de um novo céu e de uma nova terra, fala de um lugar onde não haverá mais dor. Mostra que a sociedade que Deus constrói é perfeita, sem dor e doença. Quando eu leio sobre doenças eu lembro justamente disso, e agradeço a Deus por ter esta esperança e me recordo que é a minha missão levar está esperança as outras pessoas, que é minha a missão ser diferença.

Não sabemos explicar o porquê da dor, mas sabemos quem é a solução. Deus é a vida, ele veio para nos dar vida, e nos chamou para sermos luz e sal. Se não fizermos diferença, os sofredores continuarão buscando resposta e nós continuaremos em silêncio, como se a responsabilidade não fosse nossa.

O interessante é que quando olhamos para a história de Jó, não conseguimos encontrar explicação alguma. Por que um homem justo tem que sofrer? Por que Deus usou justo Jó para mostrar a Satanás que ele estava errado? Porque algumas boas pessoas sofrem com catástrofes e problemas inexplicáveis? Nós não sabemos, e acredito que nunca encontraremos explicação, mas eu sei o quanto nós podemos ser diferença quando estes dias chegarem.

Em meio ao meu problema, enquanto enfrentava momentos realmente difíceis, tentando racionalizar, entender e explicar, eu recebo uma mensagem. Um texto que parecia simples, mas que me tocou, a frase se resumia em algo parecido com “estamos sentindo falta de você aqui na igreja”. Por conta dos problemas eu estava desanimado, nem estava indo mais na igreja. O cinza havia invadido o meu peito e eu optava em ficar os finais de semana em casa, fechado em minha dor. Entretanto, poucas palavras me ajudaram a não me sentir sozinho, por conta de atitudes aos olhos de alguns eu me senti amado, e tive forças para me levantar e agir.

O mundo sofre com injustiças, catástrofes e doenças, mas nós estamos aqui para ser diferença. Deus é Deus, ele criou tudo, mas não tem qualquer responsabilidade pelo caos, o que sabemos é que ele prometeu nos ajudar, e levantou um povo que é porta-voz da sua mensagem. Um povo que é responsável por levar vida no caos, cultivar jardins nos desertos, levar esperança onde ela não mais existe.

BIBLIOGRAFIA

YANCEY, Philip, Decepcionado com Deus, Três perguntas que ninguém ousa fazer, Editora Mundo Cristão, São Paulo, 2004

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A ODISSEIA DA DOR II: HAVIA UM HOMEM…

No primeiro texto vimos que o sofrimento existe por que o homem pecou, virou as costas para Deus e segue da forma que melhor lhe apraz. A dor é fruto do pecado e da maldade humana, o problema com este conceito é que tal explicação não serve para o caso de Jó.

Considero Jó um dos livros mais intrigantes da Bíblia, sua narrativa, todo o seu sofrimento, acaba sendo uma espécie de alento para nós que constantemente sofremos. Eu não conheço ser humano algum que sofreu tanto quanto Jó, mas conheço muitos, que ante o sofrimento, fazem perguntas e questionamentos a Deus tentando entender porque o caos às vezes os persegue. Sendo que eu fui um deles e foi o livro de Jó que me deu as primeiras respostas, como eu deixei claro no primeiro texto da série. Porém, primeiro vamos tentar entender um pouco este livro para que assim entendamos melhor a sua mensagem.

Jó é um dos livros mais antigos da Bíblia, com isso é considerado como o primeiro. O livro tem como tema o problema do sofrimento, sendo que um ponto fica claro no livro todo, o justo também sofre, mas não é só isso. Algumas outras coisas curiosas percebemos no livro. A primeira é que Deus não é chamado pelo nome pessoal que os Israelitas comumente chamam que é Javé e sim de Elohim (Carson, France, Motyer, Wenham, 2012, 696, 697, 698, 700). A segunda é que o texto foi escrito em hebraico muito mais antigo que o hebraico do Velho Testamento, validando assim o seu título de primeiro livro da Bíblia (RICHARDS, 2013, pg. 367).

O livro de Jó foi escrito muito tempo antes de Moisés, sendo que ele não faz menção a lei, a Abraão ou a patriarca algum, mas o livro com certeza foi escrito por um  israelita apesar de Jó mesmo não ser um:

“Jó não é um israelita, ele é um integrante dos “povos do leste”, ou seja, que ficam a leste do Jordão (Uz é Edom, a sudeste de Israel) (Carson, France, Motyer, Wenham, 2012, 696, 697, 698, 700)

Poderíamos dizer então que Jó é a primeira prova de que Deus se revela a diversas culturas ao redor do mundo, que Deus não está preso em uma caixinha. Entretanto não temos apenas Jó na narrativa, temos mais alguns indivíduos que provam que Deus se revela ao homem e eles são: Elifaz, Bildade e Zofar (Jó 2:11), os três amigos de Jó, que são de países desconhecidos. O problema é que é difícil de identificar com certeza seus países de origem, temos também o jovem Eliú que aparece quase no fim do livro, contudo o texto não dá muitas informações suas, mas sabemos que são estrangeiros que conheciam a Deus.

“Esses cinco homens tementes a Deus viviam na terra de Uz. Ninguém sabe como vieram a conhecer Deus em Uz, sem ajuda de Abraão. De fato, ninguém sabe sequer onde ficava Uz!” (RICHARDSON, 1995, p. 87)

Sabemos também que o livro se fundamenta nas perguntas: Qual é a motivação que leva o homem a servir a Deus? Jó vai continuar seguindo a Deus mesmo depois de todas as catástrofes? E como agir quando Deus se cala ante nossos problemas? (ZUCK, 2014, p. 292). Eu acrescentaria por minha própria conta mais uma pergunta: O justo sofre? O livro parece nos mostrar que sim

O texto começa falando “Havia um homem…” (Bíblia ACF), não era qualquer homem, muito menos foi uma pessoa aleatória, era um homem justo, honesto e temente a Deus, era alguém que Deus escolheu para mostrar a Satanás como ele estava errado, como este encontro se deu a Bíblia não explica, só sabemos que aconteceu da forma descrita no texto. Temos algumas boas teorias para explicar tal encontro, mas me manterei preso aos fatos e a mensagem em si, não abordarei tais teorias.

No encontro Satanás faz uma acusação, e qual seria tal acusação? Satanás acreditava que Jó só era fiel porque Deus o enchia de Bens e depois, quando Jó continuou fiel e Satanás começou a perder a razão ele mudou para saúde, mas Jó continuou fiel, mesmo sem saúde e já sem dinheiro, parece que o acusador estava errado.

A parte no qual eu admiro muito em Jó é que mesmo com este poder todo ele continuava sendo íntegro, reto e temente a Deus (V1), coisa que eu já acho um grande feito, já que muitas vezes por pouca coisa esquecemos de Deus. Este homem era tão exemplar que o próprio Deus confirma a índole deste servo em várias partes do texto Bíblico. Só não podemos nos esquecer de uma coisa muito importante sobre o capítulo 1 e 2 que é fundamental para entendermos o texto todo. Ele é uma espécie de introdução ao livro, não podemos ler o livro tendo como base o desafio que Deus fez para o Diabo, nosso ponto de vista ao ler o texto deve ser o de um sofredor que não sabe o porquê estava sofrendo. Temos que sempre nos lembrar de que ele não sabia da conversa de Deus, com isso, certamente ele não entendia aquele caos todo. E por ser justo e íntegro, certamente ele devia estar muito confuso.

É fácil servir a Deus quando tudo está bem, quando temos dinheiro no banco, um bom emprego e saúde. O desafio é servir quando o caos vira rotina em nossa vida. A acusação do diabo é justamente esta, “Jó era fiel a Deus porque Deus o cercava de bens, dinheiro e saúde”, mas ele provou que o acusador estava errado. Com isso, a pergunta que eu deixo é, e nós, também provaremos que Satanás está errado? Continuaremos fiéis a Deus mesmo diante das tribulações? Jó continuou fiel e mesmo perdendo os filhos e seus bens, proferiu uma das mais maravilhosas frases que eu já li:

Nu saí do ventre de minha mãe e nu tornarei para lá; o Senhor o deu, e o Senhor o tomou: bendito seja o nome do Senhor (Jó 1:21)

É claro que eu me envergonhei, eu estava em uma busca por respostas e não tinha passado um décimo do que Jó passou, ao ler tal frase me senti pequeno e de alguma maneira hipócrita por achar que Deus me devia explicação. Não tem como não se envergonhar e ao mesmo tempo não admirar Jó quando vemos qual foi a sua atitude ante o caos. A sua fé nos inspira, a sua confiança me faz olhar para Deus e o buscar ainda mais.

Jó é uma grande exceção, é um homem de posses que não deixou que suas posses definissem a sua vida. Jó nos ensina a ser fiel, mesmo na falta, a glorificar a Deus, mesmo ante o caos e a doença.

Quem Deus é para você quando tudo na sua vida está dando errado? Está é uma das perguntas que o texto de Jó fez com que eu pensasse, refletisse e meditasse por muitos dias.

Lembre-se que o modo como enxergamos Deus define a nossa caminhada e como vamos reagir ante as intempéries.

BIBLIOGRAFIA

Bíblia Sagrada – Nova Tradução na Linguagem de Hoje; Ed. Soc. Bíblica do Brasil, São Paulo, 2005

Bíblia Sagrada – Bíblia de Jerusalém; Paulus, São Paulo, 2013

ZUCK, Roy B, Teologia do Antigo Testamento, Editora CPAD

RICHARDS, Lawrence, Comentário Bíblico do Professor, Um Guia Didático Completo Para Ajudar no Ensino das Escrituras Sagradas do Gênesis ao Apocalipse, Editora Vida Acadêmica, São Paulo, 2013

CARSON. DA. FRANCE , RT, MOTYER, J. A, WENHAM, G. J, Comentário Bíblico Vida Nova, Editora Vida Nova, São Paulo, 2012

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A ODISSEIA DA DOR I: PROVOCAÇÕES

Fazer uma faculdade foi um dos meus grandes sonhos, sempre quis aprender mais teologia, ampliar meu conhecimento e aprender mais ferramentas para interpretar a Bíblia. O que eu nunca achei que aconteceria era que eu teria inúmeras dúvidas e incertezas em pleno final de curso.

Foi quase na conclusão do meu bacharelado em teologia que eu tive uma crise de fé das mais graves, não tenho medo de confessar. Eu passava por um complicado problema de saúde, estava também lidando com uma depressão muito profunda e ainda por cima me encontrava desempregado, sentindo tudo ruir a minha volta.

Você não sabe o quanto eu clamei a Deus, o quanto pedi ajuda, me sentindo entre uma oração e outra, abandonado, desprezado e sem esperança. É como se Deus tivesse me deixado à deriva, me abandonado à própria sorte ou talvez como se ele nem existisse e fosse o fruto da minha imaginação. Acredite, eu pensei muito nesta possibilidade.

Já se sentiu desamparado? Já se perguntou onde estava Deus enquanto o caos estava acontecendo? Já se sentiu sozinho entre as lutas? Tem dias que é quase impossível não pensar que Deus nos abandonou, eu mesmo já pensei algumas vezes, mas também aprendi muito com o meu momento de crise, o caos fez com que eu buscasse mais a Deus, procurasse respostas e aprendesse, sendo que neste texto em questão eu traço um pouco do caminho que percorri e as respostas que fui achando ao longo de todo o meu vazio.

Vale lembrar que o sofrimento é importante, ele deve ser uma espécie de trampolim que nos leva a Deus, a buscá-lo mais, a orar mais e a estudar mais a sua palavra. Tiago 1:2-3 diz:

“Meus irmãos, considerem motivo de grande alegria o fato de passarem por diversas provações, pois vocês sabem que a prova da sua fé produz perseverança”

 A provação produz em nós perseverança, faz com que busquemos mais a Deus e entendamos mais a sua palavra. Não podemos esquecer que Cristo já nos avisou que teríamos aflições (João 16:33).

Outro ponto importante que temos que ter em mente antes de embarcarmos em nossa reflexão é que todo o caos existe por causa do pecado, da desobediência do homem, do fato de que o homem se separa cada vez mais de Deus e por isso, acaba sempre no caos, ou sujeito a todo o caos do mundo. Está é uma verdade que precisamos entender e aceitar. Mas o sofrimento suscita mais algumas perguntas, deixam no ar algumas questões, começarei falando das primeiras respostas que eu achei, para terminar falando do ponto final que eu coloquei na questão Deus e o sofrimento.

Na época o sofrimento me levou até o livro de Jó, foi nele que eu achei alento para a minha vida. É claro que eu não passei nem um terço do que ele passou, mas o livro nos mostra que o justo sofre sim, mesmo sem dever nada. O livro também evidencia que nunca entenderemos os desígnios de Deus, nunca saberemos realmente a sua vontade, mas apesar de tudo, ele sempre estará conosco, sendo que no fim, o mal sempre acaba, é claro que acaba.

Contudo foi em Gênesis 37, lendo a história de José, que eu tive um certo alívio, a história dele me inspira a confiar em Deus, mesmo passando por dificuldades, a parte boa é que o texto nos mostra que apesar de todo os problemas, Deus sempre transforma o mal em bem. Com isso, tive algum alívio, mas continuei com algumas perguntas martelando a minha cabeça, entretanto estas duas passagens bíblicas foram fundamentais em minha busca por explicação, falarei delas depois em textos que virão mais adiante.

O sentimento de abandono é a primeira sensação que temos quando tudo está a ruir. Não entendemos porque tudo está dando errado, com isso, fazemos perguntas das mais variadas a Deus e tentamos até algumas barganhas, mas geralmente sem sucesso, pois afinal Deus não precisa provar o seu poder, lembre-se de que o diabo pediu provas a Cristo, quando o tentou no deserto (Mateus 4:1-11), mas Cristo não provou, pois quem é não precisa provar.

A pergunta que eu mais me fiz nestes dias é por que Deus parece se calar quando passamos por períodos de sofrimento? Por que parece que estamos sozinhos, abandonados ante o caos?

O Sofrimento e as inúmeras perguntas me levaram ao livro de C. S. Lewis chamado o problema do sofrimento, neste livro tive as primeiras e poucas palavras de consolo e algumas poucas respostas. Lewis é ótimo em lidar com o sofrimento, o panorama e a sua visão do porquê sofremos me ajudou muito na época, embora não tenha respondido a todos os meus questionamentos, por isso que eu não consegui encerrar a minha busca. Logo no segundo capítulo Lewis resume bem o problema do sofrimento, ele sintetiza tudo o que eu ouvi de diversos sofredores e um pouco do que eu mesmo estava passando:

“Se Deus fosse bom, Ele desejaria tornar Suas criaturas perfeitamente felizes, e se fosse todo-poderoso, seria capaz de fazer o que quisesse. Mas as criaturas não são felizes. Portanto, a Deus falta a bondade ou o poder – ou ambas as coisas” (LEWIS, 2006, pg. 33)

Acredite, eu já ouvi muito isso de amigos, doentes e sofredores em geral, e confesso que sempre me calei ante estes questionamentos, principalmente porque eu não tinha resposta nem para os meus problemas, quem dirá para o dos outros. A resposta para a questão não é tão complicada, se torna ainda mais fácil hoje, onde eu enxergo o sofrimento de uma forma bem mais tranquila, apesar de que eu continuo não achando fácil.

Deus é bom, mas não força, não obriga o homem a olhar para ele. Por termos liberdade de escolha, o tal livre-arbítrio, acabamos por escolher sempre o mal, já que somos contaminados pelo pecado, e seguimos sofrendo. Por Deus amar, ele não força, com isso, sofremos porque não olhamos para Deus, por seguirmos egoístas e mesquinhos. O sofrimento aponta para Deus e mostra quem somos sem ele, é só através do sofrimento que conseguimos sair da nossa vida alienada e ver além de nós. Eu gosto de uma citação de Lewis do livro “O grande abismo” que eu uso muito, ele resume bem o problema do sofrimento e sintetiza as primeiras respostas da minha busca por explicação:

Só existe um único ser bom, e esse é Deus. Tudo o mais é bom quando olha para Ele e mau quando se afasta d’Ele. (LEWIS, 2006, pg. 70)

O homem sofre porque é primeiramente livre e depois por ser pecador, porque escolhe sempre se afastar de Deus e não percebe que não é nada sem ele, o quanto ele é mau e decaído sem Deus, o sofrimento é fruto destes homens maus.

O sofrimento aponta para Deus e mostra o que o homem é sem ele. Mas ele também nos tira da nossa zona de conforto, faz com que olhemos o próximo e aprendamos a nos dedicar mais a ajudar. Muitas coisas boas surgiram de quem sofreu ou viu alguém no qual amava muito, sofrer. É normal nos fecharmos em nós mesmos, o sofrimento faz com que olhamos para fora, que tenhamos outros olhos e outras atitudes.

Estas são as primeiras respostas, mas existem muitas perguntas, variáveis e casos que iremos ver no próximo capítulo, a minha busca não havia acabado, algumas respostas não são suficientes para quem sofre, por isso que este texto é só o primeiro.

BIBLIOGRAFIA

LEWIS, C. S, O Grande Abismo, Editora Vida, São Paulo, 2006

LEWIS, C. S, O Problema do Sofrimento, Editora Vida, São Paulo, 2006

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