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FALSA POSITIVIDADE

O ponto complicado das redes sociais é que lá, todo mundo é feliz. Todos tiram férias em locais paradisíacos, fazem inúmeras conquistas e seguem com suas vidas perfeitas. Não é que eu considero errado compartilhar nossos momentos nas redes sociais, as vezes nossas realizações incentivam outras pessoas, e sim que nem sempre o que vemos traduz a verdade. Muitos usam estes momentos para mostrar quem não são.

Infelizmente a vida não é feita só de alegrias, na maioria das vezes, por trás de uma conquista, existe muito esforço, suor e lágrimas. Vou dar alguns exemplos do que eu quero dizer.

Eu sou músico, gosto muito de tocar bateria, mas para tocar, precisei gastar muitas horas praticando e estudando, até chegar no nível de conseguir montar a minha banda. Quando eu finalmente tive banda, não foi fácil começar, investir para gravar as primeiras demos, EPs e CDs, além de ter que aprender a gravar em um estúdio profissional. E depois que conseguimos um certo reconhecimento, não foi tão simples ter que viajar, carregar equipamento, e precisar lidar com o fato de ter que trabalhar para me sustentar, já que a banda não me trazia sustento. Por trás de todas as fotos de shows, tinha muito empenho e dedicação, que nem sempre era percebido.

A mesma coisa foi quando eu comecei a fazer a minha graduação e também a minha pós-graduação. Foram dias e muitas horas de empenho, a fim de cumprir um cronograma, e conseguir me dedicar aos estudos. Eu estudava muito, e dormia pouco, além de pedalar para pagar as mensalidades, eu gosto muito de estudar, mas nem sempre é fácil, ainda mais quando temos que trabalhar e estudar.

Quem vive de aparência, infelizmente vive uma vida que não é sua. Quer ser como os outros, mas não quer pagar o mesmo preço que estas pessoas pagaram.

Um dia um colega de trabalho me falou que nunca havia tido a oportunidade de estudar, quando terminou o segundo grau, foi obrigado a arranjar qualquer trabalho como auxiliar, por não ter profissão alguma. Depois de ouvi-lo eu respondi que ainda era tempo. Pois a prefeitura de nossa cidade ofertava cursos técnicos em várias áreas, e de forma gratuita, em horários bem flexíveis. Mas ele não quis, pois não estava disposto a estudar por 2 anos para ter um diploma. No final, a sua frase era muito mais uma desculpa para justificar a sua falta de vontade e não uma real falta de oportunidade, que é o caso de muitos.  

Nem sempre nossos dias são de alegria, a realidade quase sempre não é tão glamurosa e colorida. Para quem se dedica em algo, existem muitos dias tristes e de renúncia. Não é fácil deixar de sair, ou muitas vezes gastar menos, apenas por conta dos estudos ou do projeto que queremos empreender, mas assim é a vida, ou você se dedica, ou fica no lugar. Muitos querem ter a vida da pessoa que conseguiu, mas poucos querem passar pelos mesmos desafios. É mais fácil viver uma vida falsa, do que ter que muitas vezes renunciar, para conseguir enfim alcançar os objetivos.

Viver é escolher, e escolher envolve abrir mão de algumas coisas para ter outras, é o velho dilema que muitos não entendem.

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BURRICE CONVENIENTE

Em uma certa ocasião, em meu antigo trabalho, um cliente me abordou com a seguinte frase: “Posso te fazer uma pergunta? Eu quero ver se você é inteligente. A frase me intrigou, afinal, como o conceito de inteligência é amplo e em alguns momentos até vago, fiquei pensando de que ponto de partida aquele homem estava partindo para me definir como inteligente (ou não). Eu respondi, intrigado: “Você está dizendo então que se eu discordar de você, eu não sou uma pessoa inteligente?”, inteligente, segundo o seu ponto de vista, são apenas aqueles que concordam com você?

O homem ficou atônito, não havia percebido a contradição de sua frase, e com um bom diálogo, descobrimos como muitas vezes os nossos pontos de vistas são muitos simplistas.

Lembro sempre deste acontecimento quando eu vejo discussões e alguns juízos de valores proferidos na internet. Constantemente percebo muitos considerando alguns burros, apenas porque estes possuem uma opinião diferente da sua. É uma burrice conveniente, que classifica de modo simplista, aqueles que não gostamos, e exalta aqueles no qual nós concordamos. Classificando como inteligente apenas aqueles que nós aceitamos a opinião.

Com isso, quem não tem a mesma opção política que eu, não é inteligente, quem não segue a mesma religião, é alienado. A pessoa que possui determinados pontos de vista, com certeza é um néscio e por aí vai. É fácil avaliar os outros usando apenas os nossos pontos de partida.

O erro é usarmos nós como parâmetro, é definirmos alguns tendo como base nossas habilidades, conhecimentos e motivações, seja profissional, ou política. O equívoco é não perceber que nem todos são iguais, e isso sabemos muito bem, embora na prática, não usamos esta verdade como norte.

Outro erro comum é crermos que a pessoa que não concorda conosco não é inteligente. Por isso, cremos que aqueles que possuem uma outra religião, opção política ou gosto musical, não é capaz, por não ser igual a nós. As vezes agimos assim até de forma inconsciente. Podemos até falar que pensamos diferente, mas na prática, agimos assim, cometendo um erro dos mais gigantes.

Cada ser humano tem os seus anseios, gostos e motivações, por isso que ao olhar, preciso ver muito mais do que as minhas projeções. É entender quem a pessoa é, o quanto é coerente e relevante em sua área.

Não é por discordarmos de uma opinião que precisamos crer que aquele indivíduo não é inteligente. Podemos discordar, mas perceber que o seu pensamento é embasado, coerente e que tal pessoa possui consistência no que fala.

Nem todos os autores eu concordo por completo, mesmo aqueles autores que eu gosto e acompanho, as vezes eu discordo de sua forma de pensar, mas nem por isso os considero inferiores, ou coisa parecida. Costumo ler livros com pensamentos bem opostos ao meu, e mesmo nestes autores, é possível encontrar pérolas, ensinos e pontos de vistas realmente relevantes, mesmo não concordando com o todo da obra.

A sabedoria e o conhecimento estão na forma como vemos as coisas, em nosso modo de avaliar e ponderar. É importante saber separar o que acreditamos, das coisas que não concordamos, entendendo que uma pessoa pode ter uma opinião oposta, mas ser sábio.

O conhecimento é muito complexo para dividirmos em nós e eles. A vida é intrínseca demais para simplificarmos com pontos de vistas que não compreendem o todo, e muito menos percebem como alguns assuntos são complexos demais, para propormos estes tipos de divisões.

No final, existem pessoas que pensam e pessoas que seguem a manada. O resto são apenas opiniões que divergem, por conta dos nossos comprometimentos internos.

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MUNDO TAGARELA

Eu não posso negar um fato, eu gosto muito de uma boa conversa, quem me conhece sabe disso, embora, apesar de gostar, preciso confessar que não é todo o assunto que me inspira. Sou de poucas palavras quando o assunto é banal.

Conversar é basicamente trocar ideias com uma pessoa, é uma interação que precisa impreterivelmente, ter retorno. É um falar e ouvir de ambas as partes, caso contrário, não é uma conversa e sim um monólogo.

A minha crítica as conversas atuais é que poucos ouvem e muitos querem somente falar, em uma espécie de hedonismo crônico e egoísta, como se todos precisassem ouvi-lo, e ele não precisasse ouvir ninguém. Isso quando a pessoa não finge que está ouvindo, onde no final, está só esperando a hora de falar. Tornando o diálogo superficial e sem sentido. Ou quando o interlocutor é reativo, respondendo as suas opiniões sem reflexão alguma, julgando sem pensar, ou concluindo ao menor sinal de discordância. Como se todos tivessem que pensar igual, ou no mínimo, parecido com ele.

Eu confesso que tenho uma mania, quando estou conversando com alguém que parece não estar me ouvindo, eu paro o assunto na metade, só para ver a sua reação. Com isso, se a pessoa percebe que o assunto não acabou e verbaliza isso, eu continuo, caso contrário, dou o assunto por encerrado. A tristeza é constatar que muitos são assim. 

Tenho visto as pessoas cada vez mais tagarelas, com uma louca necessidade de falar de si e compartilhar quem são com todos. Talvez por conta de insegurança ou pela necessidade de exposição, fruto da popularidade das redes sociais, ou algo parecido, eu realmente não sei.

Quem gosta de conversar neste mundo tagarela, acaba se cansando, principalmente porque a torrente nem sempre cessa. E o pior, ninguém se interessa em lhe ouvir, como se o seu o seu assunto fosse irrelevante, e o dele fundamental. Anselm Grün pontua que:

“Só podemos calar se renunciarmos ao costume de julgar os outros e de nos compararmos a eles. Nada podemos fazer para impedir que os pensamentos de opinião e comparação pessoal se manifestem, porém devemos sempre e continuamente deixá-los de lado, reduzindo-os, assim, ao silêncio. O calar é, antes de tudo, a renúncia as avaliações e opiniões” (GRÜN, 2019, p. 10).

Se calar, é antes de tudo, nos abster de julgar, é ouvir sem nos comparar, entendendo que eu não sou ele, e que em alguns momentos, a minha opinião não tem sentido.

Você já passou por algum problema que era tão desafiador e complicado que você sentiu a necessidade de falar e desabafar com alguém? E você já desabafou com alguém que a todo o momento parecia fazer seu problema ser tão pequeno e o seu sofrimento muito infantil? Comparações são injustas, visto que não somos iguais e não temos as mesmas dificuldades, nem os mesmos medos.

Quem muito fala, pouco ouve, e com isso, segue acreditando que a sua visão de mundo é a base de tudo. Seus medos são os medos de todos, suas facilidades as facilidades de todos e a sua opinião o norte onde todos devem seguir. A questão é a falta de contextualização, de entender de onde uma pessoa fala, e em que condições ela passou por aquela situação.

Eu gosto muito de ser ouvido e obviamente, tento sempre ouvir. É o mínimo que eu posso fazer por gostar de falar. Ouvir é uma arte eu sei, e eu também sei que nem todos os assuntos nos interessam, mas quando gostamos de alguém, seja amigo, família ou cônjuge, aprender a ouvir é o maior ato de amor que podemos proporcionar a esta pessoa.

Quem ama ouve, conversa como igual, e dá espaço para o outro falar. O verdadeiro amigo se interessa pelo outro, e valoriza a sua liberdade de se expressar, mesmo que o assunto não faça parte dos assuntos de seu interesse.

Falar até papagaio fala, como diz o ditado, o desafio é realmente ouvir, prestar atenção em quem fala. Sendo que o maior sinal de amizade é poder ouvir alguém do mesmo modo como gostaríamos de ser ouvido, que no resto é só tagarelice.

BIBLIOGRAFIA

GRÜN, O poder do silêncio, Editora Vozes Nobilis, Rio de Janeiro, 2019.

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GOSTAR E RESPEITAR

“Nem sempre posso controlar o que sinto a respeito de outra pessoa, mas posso controlar como me comporto em relação a outras pessoas” (HUNTER, 2004, p. 77)

Em meu primeiro dia de aula do bacharelado em teologia, ouvi algo no qual nunca mais esqueci. Estávamos reunidos na capela da faculdade para recebermos as boas vindas antes que fossemos todos para as nossas classes, quando o reitor, em sua palavra inicial, pontua algo que nunca mais me fugiu da mente, ele falou: “Aqui você não é obrigado a gostar de ninguém, mas tem a obrigação de respeitar a todos”. A frase me chocou, pois eu nunca havia pensado por este viés.

Aprendemos através das escrituras a amar nossos inimigos (Mateus 5:43-44), só esquecemos que amar não é gostar, e sim, ter uma atitude positiva para com o próximo, mesmo não gostando dele. Sentir é algo natural, vem com o ser humano, não dá para escolher não sentir. Mas agir de forma respeitosa é possível, principalmente quando a nossa atitude não é calcada nos impulsos e emoções.

Alguns dos meus melhores amigos eu não gostei assim de pronto. Houveram alguns que no começo tive uma impressão diferente, não muito positiva, contudo ao ter uma boa atitude, ao respeitar e aceitá-lo, pude conhecer alguém que de primeira não havia conhecido.

Você não domina o que sente, mas consegue controlar o seu comportamento. Não somos obrigados a gostar, mas a respeitar sim, não tenha dúvidas. Por isso aprenda que gostar é uma coisa, e respeitar é outra, muito diferente. Dê uma chance a quem você não gosta e aprenda a não só respeitar, mas também a entender e a conhecer. Às vezes por termos certas conclusões, deixamos de conhecer quem realmente a pessoa é.

Quando conhecemos uma pessoa, passamos a ter um outro ponto de vista, muito mais fundamentado e coerente. Nem todos são como imaginamos, nem todos tiveram as mesmas histórias e experiências, por isso respeite a história de cada um.

Respeitar não é gostar, sendo que, por mais que você não controle o que sente, pode com certeza controlar a sua atitude. Amar é um verbo e verbos são ações, não precisa de sentimentos, apenas o agir de forma positiva.

BIBLIOGRAFIA

HUNTER, James C, O monge e o executivo: Uma história sobre a essência da liderança, Editora Sextante, Rio de Janeiro, 2004.

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BATALHAS SECRETAS

“Por trás do cadáver no reservatório,

Por trás do ressentimento em uma relação,

Por trás da senhora que dança e do homem que bebe de forma insana,

Por trás do olhar de fadiga, da crise de enxaqueca e do suspiro,

Há sempre outra história, há mais do que nos chega aos olhos”

(W. H. Auden) (YANCEY, 2004, p. 29)

Há muito tempo fomos convidados para uma comemoração. O casal queria reunir os amigos para celebrar um momento muito especial em suas vidas, a grande questão era que eles não tinham condições de pagar por uma festa, por conta disso, propuseram uma festa nos moldes “festa por adesão”, mais conhecido como “cada um paga o seu”.

Foi legal ir e participar daquele momento especial e ainda poder rever os amigos. O restaurante era ótimo além de não ser tão caro, e o momento muito especial, por isso, nenhum amigo deixou de ir. O problema era que nem todos podiam pagar a conta, pois em meio a festa, um convidado tomava apenas um refrigerante. Era destoante, totalmente contraditório, mas ninguém via, todos estavam preocupados em comemorar.

O poema de W. H. Auden toca muito o meu coração, ele revela uma mensagem muito importante que eu resumiria como: “cada um tem as suas batalhas, nós não conhecemos a luta do próximo”.

Nem sempre o que vemos é o todo, quase sempre o que enxergamos é apenas uma ponta do que realmente está acontecendo. Existem histórias por trás das pessoas, batalhas que só quem está passando sabe como funciona.

Em meio a comemoração, ou entre nossas realizações e conquistas, existem muitos que enfrentam batalhas que muitas vezes nós não vemos. E quando descobrimos, muitas vezes não entendemos. São muitas variáveis para que consigamos entender o outro de forma plena. Tem o nosso ponto de vista, nossas crenças, tem as coisas que consideramos desafiadoras que muitas vezes usamos como medida para entender o próximo e nossas vivências que influenciam o modo como ouvimos e interpretamos o outro. Por isso que o respeito é importante na hora de ouvir alguém e compreender suas dificuldades.

Este meu amigo estava passando por dificuldades financeiras e estava com vergonha de falar. E como ele queria estar entre amigos, pediu só uma bebida, dando uma desculpa qualquer para não comer, a maioria aceitou a desculpa, o “problema” foi que alguns desconfiaram e resolveram investigar mais. É claro que nós intervimos e de forma sutil ajudamos. Ninguém tinha sobrando, mas foi fácil nos unir para acudir o amigo.

Em meio as suas comemorações aprenda a olhar em volta, às vezes por conta da alegria e do momento de comemoração, não vemos o outro. Aprenda que cada um tem suas dificuldades, entenda que sempre há uma história por trás de uma pessoa, e esta história deve ser ouvida e compreendida sem nossos pontos de vista. Cada um sabe onde dói o calo, cada um tem seus medos e dificuldades, diminuir a dificuldade alheia por achar uma dificuldade pequena é seguir sem empatia, acreditando que tudo gira em volta de você.

Nem sempre a luta que você vê é a que está sendo travada. Quase sempre existe muito mais história do que o que apenas vemos ou ouvimos. Pois uma luta é única, cada batalha tem um teor e um nível de dificuldade que só quem está enfrentando sabe como é.  

BIBLIOGRAFIA

YANCEY, Philip, Rumores de outro mundo, A realidade sobrenatural da fé, Editora Vida, São Paulo, 2004.

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