A QUEDA

     Um dos assuntos que mais chama minha atenção na história da humanidade é a queda do homem. Encontramos esse relato bíblico em Gênesis 3. Trata-se de uma história muito conhecida, mas que é permeada de detalhes que dificilmente são mencionados em estudos ou pregações. Acho que olhando para esse texto com mais atenção, muitas questões tornam-se mais claras e passamos a mudar nossa ótica em alguns aspectos, compreendendo melhor os planos e atitudes de Deus.

     Adão e Eva viviam no paraíso e este era perfeito. Não havia pecado e conseqüentemente também não havia morte.  Há teólogos que entendem que a imortalidade era do espírito e não do corpo físico. Particularmente entendo que a imortalidade se estendia ao corpo físico, pois o homem era perfeito. A degeneração física e as doenças não existiam, pois é herança do pecado. Além disso, em Gênesis 1,30 vemos que Deus criou as plantas para o alimento de todo a todos os seres que tem fôlego de vida. Ou seja, segundo esse relato, todos os animais seriam vegetarianos. Isso pode ser um indício que não havia morte, já que para que o homem, ou algum animal, se alimente de carne é necessária a morte de outro ser. O fato é que a criação era perfeita.

     Aprendemos que Deus colocou o homem no paraíso, e lá, no centro do jardim, havia a árvore da vida. Além desta, também havia a árvore do conhecimento do bem e do mal, sendo esta, a única proibição para o homem. Adão e Eva não poderiam alimentar-se do fruto desta árvore, pois a partir do momento que dela comessem, eles herdariam a morte. A serpente enganou Eva oferecendo o fruto da árvore proibida. Ela cedeu, experimentou do fruto e ofereceu a Adão que aceitou. Dessa forma o pecado entrou no mundo. Como castigo, eles perderam a imortalidade e foram expulsos do paraíso. Deus colocou um anjo como guardião do Éden, que impedia que eles voltassem ao paraíso. De forma bem resumida, é assim que esse episódio nos é ensinado. Isso não está errado, mas fica muito aquém do que realmente aconteceu e daquilo que nos impacta até os dias atuais.

     Na realidade, a queda do homem é a maior tragédia da história da Terra. O homem herdou muito mais do que a perda da imortalidade. A ordem natural da criação se perdeu e o equilíbrio e harmonia que havia no paraíso foram transformados em um caos. A natureza começou a sentir os efeitos da queda e toda a criação passa a conviver com tragédias, sofrimento, dor e morte. Mas quem pagou o preço mais alto foi o próprio homem. Ele que fora criado conforme a imagem e semelhança de Deus, e com a queda foi destituído da glória de Deus. Além da perda da imortalidade, o homem também perdeu muito dos atributos que Deus lhe dera. Sua mente passou a ser muito limitada, seu corpo decaído; ele ficou muito aquém do que ele era antes. A única coisa que ele ganhou com o pecado, foi o conhecimento do mal. A partir da queda, ele não passa de uma caricatura mal feita de quem realmente era. Mas a pior de todas as conseqüências do pecado é a separação de Deus. Agora ele estava sozinho, colhendo a amargura daquilo que ele plantou. Ele perdeu o paraíso e estava proibido de voltar, e cedo ou tarde iria morrer.

     O castigo de Deus parece ser duro demais e até mesmo injusto. Porém, olhando para esse evento de forma mais atenta, percebemos que aquilo que pode parecer castigo divino, na realidade é a libertação e a solução para o problema que o homem criou. Iniciemos essa análise pelas duas árvores descritas no Gênesis. A primeira delas, plantada no centro do Éden, é a árvore da vida. Adão e Eva tinham acesso a ela, ementavam-se dela. Trata-se da árvore da vida eterna. Enquanto se alimentassem dessa árvore nunca morreriam. Há aqueles que entendem que a árvore da vida se trata de Cristo, afinal ele que é a essência da vida e ele é a própria vida eterna, particularmente acho essa idéia interessante. Havia também a árvore do conhecimento do bem e do mal. Até é difícil para imaginarmos a condição humana na qual não se conheça o mal. Estranho ou não, essa era a realidade de Adão e Eva; eles só conheciam o bem.  Deus conhecia o bem e o mal, mas não experimentou o mal para conhecê-lo. Mas o homem só poderia conhecer o mal se o experimentasse, e era justamente disso que Deus queria privá-lo. Um aspecto interessante, é que Deus quis privar o homem de conhecer o mal, mas não o impediu daquilo que realmente queria. Ele recomendou, ou ordenou que Adão e Eva não se alimentassem da árvore, mas deixou-a no jardim. Deus ama tanto o ser humano que lhe dá a opção da escolha. Essa é a verdadeira liberdade. Não existe liberdade quando não há opção de escolha.

     Com muita astúcia, a serpente induziu Eva a experimentar do fruto da árvore do bem e do mal. Eva queria ser conhecedora do bem e do mal. Ela experimentou do fruto e deu-o a Adão que também tomou-o para si. As conseqüências desse ato já foram citadas, mas eu gostaria de enfatizar uma dessas conseqüências; a morte. O homem não foi criado para morrer, e é justamente por isso que temos tanta dificuldade de aceitá-la e de lidar com ela. Apesar de talvez ser a maior das nossas certezas, ela vai contra a ordem natural da essência da criação. Mas se refletirmos sobre tudo o que foi visto, a morte não é um castigo pelo pecado cometido, mas sim uma providência de Deus para que o homem não vivesse preso à sua imperfeição por toda eternidade. Será que conseguimos nos imaginar vivendo eternamente aqui na terra, como aquela caricatura descrita anteriormente e, como se não bastasse, separados de Deus? Isso sim que seria um castigo demasiadamente cruel. Dessa forma fica mais fácil entender a morte física não como castigo divino, mas como uma providência de Deus, um recurso, que nos proporciona a possibilidade de voltarmos a ser aquilo que Deus sempre quis. Talvez isso não seja novidade para você, mas percebo que a maioria dos cristãos tem um entendimento muito simplista. O que geralmente é ensinado que a morte é um castigo decretado por Deus e pronto; só isso. Para aqueles que nunca pensaram além do que usualmente é ensinado, tudo isso pode parecer um tanto quanto estranho, ou até mesmo herético. Lendo Gênesis 3:22-24 vemos que exatamente essa idéia. No versículo 23 está mais do que claro que a expulsão do paraíso não foi um mero castigo ou uma atitude birrenta da parte de Deus, mas sim para que o homem não se alimentasse da árvore da vida e não vivesse para sempre. Se Deus não tivesse feito dessa forma, o homem continuaria a alimentar-se do fruto da árvore da vida, e mesmo imperfeito e mau, viveria eternamente na terra.

     Tudo o que Deus faz tem o objetivo de alcançar o homem e reconduzi-lo àquilo que ele perdeu. Textos como esse nos evidenciam o infinito amor que Deus tem pela humanidade. Ele vê realidades muito além da nossa percepção e por isso mesmo, muitas vezes não o entendemos. Para nós, a morte é um castigo; para Deus é uma ferramenta através da qual temos a possibilidade de nos livrarmos da imperfeição que carregaríamos por toda eternidade. Só compreenderemos essas verdades, se investirmos em nosso relacionamento com Deus. Quanto mais investirmos em nosso relacionamento com Deus mais veremos a vida, e tudo que se relaciona com ela, através da ótica de Deus.

     A queda de Adão e Eva é algo em que não podemos interagir. Eles caíram e não podemos fazer nada para mudar essa realidade. Mas podemos ter atitudes que mudem a nossa história. Acho que o grande erro de Eva foi tirar os olhos de Deus e dar ouvidos à serpente. O que começou como uma mera conversa terminou na maior tragédia humana. Não dê ouvidos ao diabo, pois ele irá te seduzir. Ele tem nos seduzido diariamente. Ao invés de dialogar com o diabo, pratique o que lemos em Colossences 3,1: procure as coisas do alto, pois assim Deus te dará o entendimento, e esclarecerá muitos dos mistérios que o homem caído não entende. A partir do momento em que temos nossos olhos naquilo que vem do alto, fazemos da morte um passo para nossa libertação daquilo que somos, rumo ao que Deus quer, e não somente um castigo fruto da ira de Deus. Entender o que a é a morte, nos ajudará a entender o sentido da vida.

 

 

 

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