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RECIPROCIDADE

A igreja é mestre em ser contraditória. Ao mesmo tempo que faz bem para a nossa vida espiritual estar em comunhão, nem sempre é fácil estar com os irmãos.

Para a boa saúde espiritual, gosto de olhar para a igreja com um olhar ambivalente. Ela é boa, mas ao mesmo tempo complicada. Ela ajuda, embora em alguns momentos atrapalhe. Tal qual o ser humano, já que a igreja é um reflexo de nós.

A vida cristã centrada começa quando entendemos nossas falhas, erros e dificuldades e não escondemos. Sendo que este é uma das atitudes que muitas vezes não vemos em um ambiente cristão. Muitos confundem espiritualidade, com aparência, e não é isso. Ser espiritual é estar em uma busca, ser cristão é acima de tudo ser sincero e confessarmos nossos erros e falhas. Confessar os erros não é só o melhor caminho para uma vida cristã centrada. Mas a única forma de buscarmos em Deus a mudança. Você não pede ajuda a Deus por um problema que acredita não ter. É só assumindo as falhas que pedimos ajuda.

Quem confessa os erros é também compreensível com o próximo. Quem entende a profundidade e dimensão das suas falhas, certamente, pelo menos na maioria das vezes, compreenderá as falhas do próximo, crendo que cada um tem os seus problemas. Tiago 5:16 diz para confessarmos os pecados uns aos outros. É assim que conseguimos ajuda dos irmãos e também, mostramos uns aos outros que cada um tem as suas dificuldades.

O cristão legalista não é só alguém intolerante, que não dialoga e prefere impor, mas também alguém que não se percebe, que não vê suas falhas e nem as assume.

O evangelho fala constantemente de reciprocidade: “Perdoamos, porque Deus nos perdoou primeiro” (Mateus 18:33-35), “amamos porque ele nos amou primeiro” (1 João 4:19). Tudo começa em Deus, mas deve terminar em nossas atitudes, são elas que refletirão uma vida transformada. Quem sabe muito bem quem é olha o próximo com a mesma misericórdia que ele espera que Deus olhe para ele.

Alguém incompreensível, no fundo é uma pessoa que ainda não aprendeu a se autoavaliar e a confessar, de forma genuína seus pecados. Quando confessamos nossos pecados a Deus, não fazemos isso só para pedir o seu perdão, mas também, de forma indireta, para entendermos quem ele é, e quem somos nós.

Quando genuinamente pedimos perdão a Deus, clamamos por sua misericórdia, e terminamos por entregar a nossa vida a ele. Mas acredito também que, quando confessamos os nossos pecados de forma sincera, entendemos quem somos, o quanto somos falhos, e ao entender, passamos a ser cristãos mais altruístas e compreensíveis uns com os outros. Anselm Grün, no livro “Ser uma pessoa inteira”, complementa:

“Queres reconhecer a Deus, aprende a conhecer a ti mesmo” (Evágrio) (GRÜN, 2014, p. 12).

Quando temos um encontro sincero conosco e aprendemos a nos conhecer, caminhamos de forma mais tranquila para a mudança e concomitantemente, para uma real dependência de Deus.

A vida cristã centrada começa com a ação de refletirmos quem somos, um questionamento que nos leva a Deus, por percebermos nossas fragilidades, sendo que isso impacta em como eu vou perceber a tratar as pessoas.

Quando nos idealizamos demais, não nos entregamos, por acreditarmos sermos especiais e com isso, não demoramos em condenar e a agir como se estivéssemos acima. A entrega real, reflete em atitudes reais e visíveis. Quando nos conhecemos, nós tratarmos o próximo de forma amorosa, da mesma forma como esperaríamos ser tratados.

Não é um pagamento e sim uma retribuição prática do que Deus fez por nós. Quem é realmente grato, retribui, por ter certeza quem é.

BIBLIOGRAFIA

GRÜN, Anselm, Ser uma pessoa inteira, Editora Vozes, Rio de Janeiro, 2014.

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FÉ MADURA

Vivi a minha infância em um contexto onde a experiência era muito mais importante que o conhecimento. Na igreja, pastores ungidos, que segundo eles, recebiam a palavra diretamente de Deus, eram levados muito mais a sério do que aqueles que estudavam a Bíblia, e procuravam conhecer cada vez mais as escrituras. Ler livros, estudar a palavra a partir dos textos originais, e gastar tempo para conseguir chegar na melhor e mais fiel interpretação bíblica, não era prioridade. O ungido de Deus não precisava disso. Bastava orar e esperar a revelação chegar.

É comum vermos estes cristãos dividirem a igreja em igrejas do fogo, que experimentam o poder de Deus, e igrejas frias, que não experimentam a ação divina. Tudo porque a experiência fala muito mais alto do que o conhecimento e o estudo. Anselm Grün, no livro “Ser uma pessoa inteira”, acrescenta pontuando que:

“Hoje há uma tendência de descrever a fé apenas como “experiência”. Neste caso se estabelece a experiência como algo absoluto e se recusa a compreendê-la e refletir sobre ela com o intelecto” (GRÜN, 2014, p. 137).

Não tenho o propósito com este texto de desconstruir a experiência de ninguém, muito menos creio que é impossível estes fenômenos acontecerem. Deus fala e age como ele bem quer, final, ele é Deus. O problema é colocar a experiência acima de tudo, e diminuir o estudo, crendo não ser espiritual ou uma prática sem importância. 

Primeiramente a nossa fé é com certeza racional, pois crer passa pela mente. Nossas ações, o que acreditamos e professamos, impreterivelmente passa pelo pensamento, por reflexões e pontos de vista. A questão é que alguns pontos de vista possuem mais base bíblica do que outros, mas é imprescindível algum tipo de teologia ou opinião na hora de crer.

Por segundo, que é a parte mais contraditória dessa forma de pensar, é a própria Bíblia. Não vou me ater aos versículos que falam da importância de ler, estudar e meditar na palavra (2 Timóteo 3:15-17; Atos 17:11; Deuteronômio 6:5-9; João 5:39), são muitos textos que testificam e evidenciam o quão ignorante é afirmar que estudar a Bíblia não é importante. E sim no fato que “se a Bíblia é a palavra de Deus, estudar esta palavra, tentando entender a mensagem nos mínimos detalhes, é um dos atos mais espirituais que podemos fazer”. Afinal, é a palavra do próprio Deus, com isso, entender é saber de forma precisa a sua vontade.

Levar em consideração mais a experiência do que o próprio texto, que é algo palpável e absoluto, é uma atitude muito perigosa. Crer que Deus te deu uma capacidade especial de ler a Bíblia, sem estudar, é no mínimo contraditório, já que a Bíblia aponta para a importância de ler, estudar a examinar as escrituras (Marcos 12:24; Provérbios 3:1-2; Oséias 4:6). A ênfase no estudo está em toda a palavra, e ela nos avisa para não só estudarmos, lermos ou guardarmos seus ensinos, mas também de examinarmos. Foi o que os bereanos fizeram, quando Apóstolo Paulo e Silas, foram a sinagoga pregar. Eles queriam saber se o que estava sendo falado estava na Bíblia (Atos 17:11).

A fé madura é firmada na palavra, acima de qualquer coisa, não dá para ir pela emoção ou somente por ela, é preciso ter base, estudo e fundamento bíblico. A experiencia cristã transforma um momento, um acontecimento, em uma regra, o que é um erro muito grande. É preciso pensar, examinar a Bíblia e refletir, para não cairmos em ensinos errados.

Tudo o que falamos, cremos e seguimos, precisa estar fundamentado na palavra de Deus. Nós não podemos nos guiar por nossas emoções, nem fundamentar nossa vida em experiências. O homem pode se enganar, falar as coisas por impulso, acreditando ser mensagem de Deus, por isso, precisamos tomar muito cuidado, e estar sempre estudando a Bíblia, para não cairmos nestes equívocos.

Buscar o entendimento, procurar entender a fé e a palavra é fundamental. É preciso pontuar e entender no que cremos, esta é a fé madura. Que estuda, entende e pondera. E é claro, a fé madura sabe que muita coisa não dá para explicar, assim como não podemos reduzir a fé a intelecto. Existem experiências que não podemos negar. Mas colocar o intelecto de lado é muito perigoso.

Cuidado com as emoções, aprenda a não reduzir a sua vida a meras experiências. Fundamente a sua vida na palavra, e descubra como é espiritual conhecer a palavra do Criador. Em mergulhar em cada ensino, com o propósito de entender a mensagem e fazer dela uma prática de vida. Isso é uma vida espiritual, o resto é emocionalismo.

BIBLIOGRAFIA

GRÜN, Anselm, Ser uma pessoa inteira, Editora Vozes, Rio de Janeiro, 2014.

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AOS QUE CHORAM

Não é raro vermos episódios de falta de amor através dos cristãos. Seus posicionamentos em nome das mais diversas causas, faz com que tenham atitudes contraditórias. Nem todos conseguem olhar uma situação por todos os ângulos, por isso, é normal observarmos algumas de suas discrepâncias, como por exemplo, no protesto em frente ao hospital, onde uma criança de 10 anos, que engravidou por ter sido estuprada por anos, iria abortar, amparada pela justiça.

Alguns casos não são simples. Apesar de ser contra o aborto, eu sei bem que certos acontecimentos são complicados, impossíveis de se resolver com meia dúzia de palavras. Por possuírem inúmeras variantes. Seja a saúde da criança que engravidou. Seu emocional, por passar por tal barbárie, entre tantos fatores, eu sei bem que alguns problemas não são simples, e a grande verdade é que, o problema dos outros é sempre mais fácil de resolver.

A falta de amor é comum, principalmente no meio cristão, pois muitos seguem seus conceitos, crendo estarem certos. Nada muito diferente do que acontecia no tempo de Jesus. Quando os fariseus, que acreditavam estarem certos, e serem santos, irrepreensíveis e escolhidos, seguiam alheios as necessidades do povo.

Seguimos a Jesus, um Deus que chorou (João 11:35) e se compadeceu da viúva que havia perdido o seu filho (Lucas 7:13). Imitamos a Cristo, um Deus que teve misericórdia até daqueles que o pregaram em uma cruz (Lucas 213:24), entre tantos episódios que mostram o tamanho do amor de Jesus. John Stott complementa:

Jesus chorou pelos pecados de outros, pela devastação decorrente do juízo que haveria de vir e por uma cidade apinhada de pessoas que não iriam recebê-lo. Quantas vezes choramos pelo mal no mundo e pelo juízo iminente contra aqueles que recusam a graça de Deus? (STOTT, 2018, p. 19, 20). 

Eu sei que não somos Deuses e que Cristo era Deus. Contudo, eu também sei que somos convidados a imitá-lo. Com isso, não posso fugir da responsabilidade de pregar e muito menos de sentir, por aqueles que recusam a graça.

É fácil desejar que alguém vá para o inferno, ou ficar feliz ao imaginar alguém que não aceitou o evangelho, queimando eternamente no lago de fogo. Principalmente quando a pregação não é feita com amor e misericórdia. O normal de quem não tem Deus é justamente desejar o mal. O desafio é olhar para a cruz, e se sentir responsável por aqueles se seguem um caminho oposto. Amar é a marca da verdadeira conversão, não se esqueça disso (1 João 4:7-21).

Eu sinto muito por esta criança ter passado pelo episódio que passou. Ser estuprada, esconder o acontecimento dos pais, por medo, não é uma situação simples. E depois ter que enfrentar opiniões que não ajudam. Como a do padre que disse que “a menina estava gostando do estupro, se não gostasse, ela teria denunciado”. Novamente, alguns assuntos são complicados, não temos informações, não sabemos quem é a criança e o quanto de medo ela tinha do estuprador.

Precisamos aprender a chorar, e olhar para os outros com amor, empatia e clamar a Deus por misericórdia. Não podemos simplificar problemas, que por si só, já são gigantes.

A você que fica feliz com aqueles que recusam a mensagem de Jesus, lembrando que eles vão para o inferno, eu só digo uma coisa. Cristo bateu de frente com a religião legalista de sua época, mas chorou por aqueles que a religião ignorou.

Se você não chora por todo o mal no mundo, ou pelo menos se sente infeliz, por um acontecimento como o desta menina de 10 anos. Eu o convido a rever seus conceitos. Pois o meu Deus chorou e teve misericórdia até daqueles que o crucificaram. Se você não tem misericórdia, arrisca estar seguindo o deus errado.

BIBLIOGRAFIA

STOTT, John, Lendo o Sermão do Monte com John Stott, Editora Ultimato, Minas Gerais, 2018.

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CONDENANDO O DIFERENTE

“Um dos aspectos da barbárie europeia foi chamar de bárbaro o outro o diferente, em vez de celebrar essa diferença e de ver nela uma ocasião de enriquecimento do conhecimento e da relação entre humanos” (MORIN, 2005, p. 51).

No contexto cristão no qual eu cresci, era comum vermos o diferente ser demonizado. O pior era que em muitos casos, se o pastor fosse um pouco mais sábio e procurasse ouvir e entender o mínimo que fosse, a sua dúvida já seria sanada, e ele veria o seu erro de julgamento, coisa que raramente acontecia.

Nesta época eu vi a música ser condenada, pelo menos alguns estilos musicais, enquanto outros, que curiosamente estava dentro do gosto pessoal do pastor, seguia sento santo, e com o aval do líder. Isso sem contar com as críticas quanto as roupas, estilos de cabelos e tantas outras coisas que o pastor não gostava, ou não entendia, e acabava condenando.

Na Europa, durante a inquisição, o diferente, as coisas que o “santo clero” não entendia, eram condenadas, o preço era a própria vida. Tais atitudes não só revelavam a barbárie, mas também a falta de inteligência e reflexão das pessoas que acabavam condenando qualquer coisa que não entendiam, revelando que o nosso mundo nunca muda.

As vezes o diferente é apenas diferente, é algo que não entendemos. Não dá para condenar práticas e culturas no qual não temos qualquer tipo de informação.

A missão de sermos cristãos relevantes, envolve não sermos precipitado e seguirmos sendo inteligentes o bastante para dialogar, pesquisar e procurar entender antes de falar.

O precipitado não reflete, ele fala sem saber e segue já condenando, ser dar espaço para a conversa ou a pesquisa, ou pior, segue tendo como base informações equivocadas e sem sentido, bem distante da verdade.

No livro que eu tirei a citação, foi triste constatar como algumas pessoas sofreram por serem diferentes. Alguns dos povos narrados pelo autor, como os judeus, por exemplo, eram vistos com conceitos totalmente errados, pontos de vista construídos através de escritores, personagens caricatos ou notícias equivocadas. Sendo que eles, e muitos outros, sofreram muito por conta disso. O curioso é que o diferente é sempre o outro, nunca é a pessoa que olha.

É preciso ver além do nosso ponto, é preciso olhar, por traz do que achamos, encontrando as verdadeiras explicações, deixando nossas opções ou pontos de vista de lado.

Não podemos condenar o diferente, precisamos separar o que é errado, do que não é compreendido, as vezes determinadas coisas são só desconhecidas, apenas isso…

BIBLIOGRAFIA

MORIN, Edgar, Cultura e barbárie europeias, Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 2005.

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RESPOSTAS PRONTAS

O que mais me deixa indignado ultimamente é com a incrível capacidade que muitos têm em aceitar respostas prontas. E este fenômeno se dá tanto no âmbito cristão quanto no não cristão. Frases prontas, superficialidade, conceitos plásticos proferidos sem ao menos uma reflexão, são vistos aos milhões neste nosso mundão.

Eu não sei o que se passa na cabeça de muitos que insistem em ouvir seus pastores sem conferir na palavra, sem ler e se informar mais. Virando crentes que não aprendem, apenas repetem frases.

Na faculdade, quando falávamos no que acreditávamos, o professor de filosofia (tinha que ser) perguntava: Por que? Era automático, porém a resposta nem sempre também era, muitos não sabiam explicar o porquê acreditavam no que acreditavam e seguiam gaguejando.

O curioso é que Cristo, a quem imitamos, tinha um comportamento totalmente oposto ao que vemos muitas vezes na igreja. Suas reflexões, seus ensinos, sua forma de receber pessoas excluídas era totalmente fora dos moldes da religião hipócrita que existia naquela época e também hoje, suas respostas não eram prontas e pré-fabricadas, sua vida era simples e legítima, nada do que vemos por aí. Gosto de uma citação de Carlos Queiroz que resume bem o é ser cristão:

“O discípulo de Jesus não carrega sobre si a imagem de religioso, nem é, ao mesmo tempo, um publicano ou gentio. Seu estilo de vida deve romper com a superficialidade da religião e a futilidade do não religioso. Por isso é mal compreendido pelos religiosos e não aceito pelos não religiosos” (QUEIROZ, 2006, pg 35, 36)

 Ser um discípulo de Cristo não é ter respostas prontas, ou apenas decorar alguns versículos, é imitar seus ensinos, é servir, a lógica do reino é invertida, o maior serve o menor. Ser um imitador de Jesus não é apenas decorar alguns versículos ou ler a Bíblia em um ano, mas é buscas entender, estudar e aplicar a palavra como um todo.

Quem dá respostas prontas é horóscopo, o cristão estuda a palavra e se aprofunda no ensino.

Devemos aprender a ter um senso crítico e não engolir qualquer coisa sem refletir, mas para isso, temos que entender a palavra. Quem não conhece fica no escuro, engole qualquer coisa e segue imitando ensinos equivocados.

BIBLIOGRAFIA

QUEIROZ, Carlos, Ser é o Bastante, Felicidade à Luz do Sermão do Monte, Editora Encontro, Curitiba, Editora Ultimato, Minas Gerais, 2006

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CRISTIANISMO LÍQUIDO

Zigmunt Bauman, famoso sociólogo, escritor e professor lançou uma série de livros analisando o comportamento da geração atual e o impacto que ele causa na sociedade.

Em seu livro mais famoso chamado “Amor Líquido” o autor analisa as relações pessoais e mostra quais são as diferenças vistas em cada geração. Baumann chega em uma conclusão muito interessante: “Os relacionamentos de hoje não são sólidos”:

Falar de relacionamentos é também falar de cristianismo, a comunhão e os relacionamentos, bem como o amor, que nos leva a nos relacionar, são o cerne do evangelho. Para isso é importante sabermos qual tipo de amor é o nosso. Por isso que a pergunta que eu faço é justamente esta. Qual é a sua concepção de amor? É um sentimento ou uma ação,  é um se doar diário, ou um eterno esperar por retribuição? São estas linhas de visões que diferem o amor líquido, do amor sólido. O conceito de amor líquido tem este nome porque muitos dos relacionamentos de hoje não são sólidos, são impossíveis de pegar, tal qual a água.

A igreja também não esta muito longe deste fenômeno, o evangelho, que deveria estar sendo palpável, sal e luz, está cada vez mais parecido com um brilho tímido e apagado, ou um temperinho que não mais salga, ao invés de um posicionamento que realmente faça diferença.

Eu tenho visto uma igreja que quer ser servida, tenho conhecido cristãos que não se importam mais em estudar e conhecer a Bíblia, e a oração é feita apenas antes das refeições.

Segundo estes cristãos é pecado beber, ter amigos não cristãos, ou usar uma roupa diferente. Mas se fechar em suas quatro paredes, ouvir cegamente o pastor sem ao menos conferir na Bíblia e desprezar algumas pessoas por não serem cristãs, não é errado.

Eu tinha um colega de trabalho cristão que vivia me falando besteiras, e entre algumas delas ele falou: Não sei por que você estuda tanto a Bíblia, acredito que se o nosso pastor tem o cargo de pastor, é porque ele sabe das coisas, eu não preciso duvidar.

Por conta de tamanha ignorância, eu nem soube responder, optei por ficar calado. Afinal, se alguém não se interessa em aprender a Bíblia por sua própria vontade, não sei porque o cara perde tempo ouvindo alguém.

A Bíblia é enfática quando diz que devemos examinar as escrituras (João 5:39). Cristo foi duro com os Saduceus quando falou que eles erravam por não conhecerem as escrituras (Marcos 12:24), isso sem contar que ela é nossa lâmpada e a nossa luz para a caminhada (Salmos 119:105) entre tantas coisas

O seu cristianismo é sólido ou líquido? Sua busca por Deus tem como base a palavra de Deus, ou a do pastor? Você só ora na igreja, ou tem (ou pelo menos tenta) uma vida de oração em casa?

É isso que vai diferenciar a vida dos cristãos líquidos dos que não são. Estudar a Bíblia, e buscar a Deus são ferramentas necessárias para ser um cristão sólido. Para quando o caos chegar, você não evapore com os conceitos do mundo.

O cristianismo sólido edifica, o cristianismo líquido seca, evapora e nunca é visto nas pessoas. O cristianismo sólido faz a diferença, o líquido ocupa espaço e não traz significado algum ao próximo. Resta saber quais das duas categorias você quer estar

BIBLIOGRAFIA

BAUMAN, Zygmunt, Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos, Editora Zahar, Rio de Janeiro, 2004.

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ANTI-INTELECTUALISMO NA IGREJA

É muito comum o anti-intelectualismo em algumas igrejas cristãs, é totalmente normal ouvirmos que “a letra mata, mas o espírito vivifica”, citado de forma totalmente descontextualizada e com uma interpretação totalmente equivocada de 2 Coríntios 3:3, como se o texto nos avisasse que não precisamos estudar a Bíblia, ou que o conhecimento intelectual mata.

Crer nunca foi desligado do pensar, orar e buscar em Deus a iluminação e a sabedoria não nos isenta de estudar e buscar conhecer a palavra, ou algumas ferramentas de interpretação bíblica.

Entenda que Deus nos fez seres racionais, indivíduos pensantes, ao contrario dos animais, que vivem por instinto:

“Deus fez o homem à própria imagem, e uma das mais nobres características da semelhança divina é a capacidade do homem de pensar” (STOTT, 2012, p. 29)

Fomos criados para pensar, com isso, é totalmente contraditório achar que ser cristão é ser algo oposto ao modo como Deus nos criou.

Paulo usou o seu conhecimento de cultura grega para pregar no aerópago. Jesus usou do seu conhecimento bíblico para rebater as tentações no deserto e a Bíblia toda é recheada de orientações que falam de aprender, conhecer e estudar.

No fim, o que eu acho é que muitos cristãos têm preguiça, e para justificar a sua falta de comprometimento com o estudo, eles acabam por demonizar o estudo e enfatizar apenas a oração.

Jonh Sttot, enfatiza o modo racional de como o evangelho chegou até nós, mostrando a contradição que é achar que o pensar também não faz parte da vida cristã:

“Deus se revelou por meio de palavras direcionadas a mentes. A revelação é uma revelação racional para criaturas racionais (STOTT, 2012, p. 35)

Ser cristão é com certeza orar, buscar a Deus e ter intimidade com ele, mas também é gastar um tempo entendendo a sua palavra e também o mundo ao nosso redor, para que como Paulo, no Aerópago, possamos transmitir a palavra com sabedoria.

Crer e pensar é tão importante quanto ter fé. Só ensina quem sabe, só auxilia o próximo quem tem vida com Deus e conhecimento. Caso contrário, seguiremos ensinando coisas que a Bíblia não ensina, como temos visto.

BIBLIOGRAFIA

STOTT, Jonh, Crer é também pensar, ABU Editora, São Paulo, 2012.

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DESESPERADA PAZ

Em meio ao caos, resolvi fazer compras, a quarentena traz consigo muita fome, e por conta disso, levantei bem cedo e fui ao mercado, logo nas primeiras horas de funcionamento. Uma genial ideia, que muitos outros também tiveram, resumindo em um mercado totalmente lotado.

Para contrastar com o excesso de pessoas, me deparei também com o excesso de preocupações, com o desespero que pairava no ar como uma “crônica de um caos anunciado”, que vem no bojo de toda desconhecida pandemia. Isso mostra que não só se popularizou uma palavra tão pouco usada, como “pandemia”, mas também um desespero nada usual. Algo que ninguém, até então, havia sentido.

Nos carrinhos, havia excesso de comida, nos corredores, desespero e um medo que conduzia a vida de muitas pessoas. Era evidente que a falta de paz e segurança, estava ardendo latente no peito daquelas pessoas, mas eu me desesperei com a cena, enquanto pessoas brigavam por alguns pacotes de arroz na estreita avenida da vida.

O cenário é de caos e desespero, as notícias, são as piores, e só traz medo. Segundo especialistas o futuro é tenebroso e incerto, a certeza é que muita coisa vai ruir, se desfazer, sucumbir. Enquanto em meio a tormenta, eu apenas tentava entender um pouco mais a paz que eu estava sentindo. Eram contrastantes o desespero e a minha tranquilidade. 

Aprendi a estar contente (Filipenses 4:11-13), descobri já faz um tempo que confiar nos poupa de muitas rugas e assegura a nossa saúde mental, que se esvai pelo excesso de preocupação. Não dá para tentar controlar o que não tem controle. Não dá para reivindicar qualquer independência, quando neste mundo hostil, só dependemos de Deus, pois no mais, é incerto. Acaba ruindo junto com todas as fracas teorias que sustentam o mundo.

Não podemos mudar o passado, o que aconteceu se foi, não volta mais, mas podemos mudar o futuro, vivendo o presente, entendendo que na frente está o nosso Deus, crendo que ele sem dúvida cuida de nós.

Deus me livre de clichê, mas não tem outra frase, é apenas confiando que passamos pela tempestade, isso se você quiser passar com certa tranquilidade.

É Deus nosso refúgio, é só nele que resistimos e enfrentamos os altos abismos. Se a pandemia te trazer insegurança, lembre-se de que sem Deus não somos nada e que no fim, o nosso medo é não conseguir manter o controle, é não saber como superar os vagalhões em alto mar.

É por isso que quando o medo vier, lembre-se de que no fim, nada controlamos, nossa sabedoria é meio regada a incertezas, lamentos e dores, que só nos mostram que sem Deus, o viver é de angústias.

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O DESESPERO CONTAMINA

O nosso século nunca passou por problemas tão graves, e apesar da crise financeira, não passamos por pandemias, tal como estamos passando. Embora eu confesse que a notícia não me deixou com medo.

Esta pandemia tem me ensinado várias coisas, e tem mostrado a verdadeira face do ser humano, a máscara cai quando não dá mais para representar o papel. É impossível ser ator em dias de caos.

Apesar da minha calma, eu me preocupei quando nos primeiros dias da quarentena eu fui ao mercado, era muito egoísmo para poucos carrinhos de compras. As pessoas compravam como se não mais houvesse amanhã, como se a comida fosse acabar naquele dia. Me senti no filme Mad Max, vendo gente discutir por um punhado de arroz. Eu me desesperei, as cenas nos corredores do mercado eram tristes, nunca mais esqueci.

Nas redes sociais ou na rua, os assuntos eram macabros, inúmeras teorias da conspiração circulavam, a morte e o medo rondavam, pelo menos no imaginário, e o pandemônio aos poucos se instalava, por conta da ignorância.

 Eu não fiquei com medo do caos, sou bem tranquilo e confio em Deus, já passei por coisas piores, para me deixar abalar. Embora eu tenha aprendido que o desespero contamina, e é esta a pior situação que um problema desse pode causar.

Não quero alarmar ninguém, e não ser contraditório disseminando o caos, eu quero apenas alertar que você pode se contaminar com este desespero. O vírus pode ser perigoso, mas o desespero é pior, mexe com o emocional, e afeta a nossa saúde. Afinal, tudo começa na mente, para depois refletir no corpo e na imunidade baixa.

Depois de toda a negatividade, as notícias tendenciosas e as Fake News, resolvi proteger o meu emocional e deixei de me alimentar por estas notícias equivocadas.  Em nome da sanidade é importante as vezes buscarmos a tranquilidade e confiar que no fim, Deus está sempre conosco.

Cuidado com o desespero, e diante deste caos, se acalme, pior que contrair a doença, é se descontrolar e perder a sua saúde.

Fuja de qualquer notícia falsa, reflita e deixe a vida seguir seu rumo, ou você está em Cristo e confia, ou perde o controle.

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A ARTE DE GANHAR DISCUSSÃO

“É chocante ver com que frequência ter razão e ficar com a razão não são equivalentes; que o vencedor de uma discussão não é o que está do lado certo da verdade e da razão, mas sim o que é mais espirituoso e sabe lutar de maneira mais ágil” (SCHOPENHAUER, 2014, p. 8)

Conheci, ainda muito novo, alguém que realmente sabia debater. Ele entrava nas discussões mais intricadas e saia como vencedor, sempre, impreterivelmente. Não importava o assunto, aquele homem sabia discutir e defender seus pontos de vista. Fui fã daquela pessoa e por conta de todo o seu conhecimento, eu me motivei a estudar mais, pois queria de alguma maneira chegar naquele grau de conhecimento.

Sou grato a esta pessoa, pois foi por conta dele que passei a ler mais, procurar autores relevantes, estudar e me aprofundar em teologia. Terminei também fazendo o bacharel em teologia, tudo para poder conhecer mais e ser relevante na obra de Deus.

A parte surreal, que hoje me faz dar muita rizada, é que quanto mais eu estudava, mais eu começava a perceber que seus argumentos muitas vezes eram fracos e contraditórios. Eu descobri também, que era possível ganhar um debate, apenas tendo ferramentas de oratória. No fim, ele não tinha bons argumentos, e sim, apenas possuía uma ótima “dialética erística”, como diria Arthur Schopenhauer. Sendo que a “dialética erística” é a arte de ganhar uma discussão sem ter razão. Schopenhauer em seu livro, fala de 38 estratégias para vencer uma discussão, sendo que algumas dessas estratégias eu o vi usar muitas vezes.

Hoje com um pouco mais de conhecimento neste tipo de dialética, consigo perceber como muitos vencedores de debates, conseguem vencer, apenas pelo gogó, usando táticas obscuras, deixando a coerência e os fatos de lado, por não servirem para muita coisa.

Eu sempre digo em sala de aula que nem sempre quem fala bem, ou consegue ganhar um debate, tem bons argumentos. É preciso saber identificar, durante um debate, se há coerência e razão por trás de todas as palavras.

Não costumo mais entrar em debates, por ter aprendido que nem sempre o motivo da discussão é encontrar a verdade. Quase sempre o motivo é ganhar, é sair por cima, é mostrar o quanto uma pessoa é melhor que a outra. Poucos debates são realmente honestos.

Aprenda uma coisa, certas pessoas não estão em busca da verdade e muito menos querem aprender. Para que isso aconteça é preciso ter humildade e uma grande capacidade de enxergar seus erros, contradições e falhas. Coisa que no calor da discussão, raramente isso acontece.

É claro que você é livre, mas tenha em mente algo, quando for discutir, esteja preparado não só para perder um debate, caso o oponente fale bem, mas também, se prepare para ter que lidar com um ego inflado.

Não vale a pena discutir com quem não tem humildade suficiente para reconhecer seus erros. Conversar com quem só quer ganhar é tempo perdido e a garantia de sair da discussão com uma bela dor de cabeça.

BIBLIOGRAFIA

SCHOPENHAUER, Arthur, 38 estratégias para vencer qualquer debate: A arte de ter razão. Faro editorial, São Paulo,2014.

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