Resultados para a categoria "CRÔNICAS DA VIDA CRISTÃ"

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SEDE DE JUSTIÇA

Eu fui criado em uma família onde os livros estavam sempre presentes. Tínhamos estantes com algumas coleções e eu cresci vendo meu pai e meu avô ler. Com isso, tomei gosto pela leitura desde cedo.

O primeiro gênero mais adulto que eu comecei a ler, saindo já da adolescência, foi o gênero policial. Eu gostava muito de ler Agatha Christie e Arthur Conan Doyle. Era interessante mergulhar nas histórias de crimes e ver o herói do livro desvendar os mistérios. Sendo que no final, a justiça era feita e esta era a melhor parte da história.

O homem clama por justiça, a corrupção e a injustiça nos toca e nos deixa indignados. Queremos um mundo justo e nos posicionamos quando alguém tenta ser injusto conosco ou com alguns dos nossos familiares. N. T. Wright no livro “Indicadores fragmentados”, trabalha justamente esta questão, refletindo sobre como alguns ideais são inerentes a todo o ser humano, e como eles apontam para algo maior, sendo que a justiça é o primeiro indicador:

“A questão dos romances policiais – e isso não é um bicho de sete cabeças, mas me ajuda a entender o que está acontecendo – é que a justiça é praticada no final. O mistério é solucionado, e o assassino é identificado e costuma ser detido, acusado e condenado” (2020, p. 24).

É interessante perceber como a justiça, neste mundo complicado, é muitas vezes uma miragem, algo impossível de alcançar, contudo, a maioria de nós, seja de qual país ou contexto for, busca desde sempre por ela. No final, ela aponta para algo, a sede por justiça aponta para o único justo que conhecemos que é Deus.

Eu sou grato a Deus por ter sido alcançado por sua graça, esta é a minha maior riqueza, ter sido encontrado por Ele. Mas a minha outra alegria é saber que Deus é justo, e no final de tudo, o Justo Juiz julgará a todos e estabelecerá a paz no mundo. Eu não tenho aquele prazer mórbido de imaginar os criminosos ardendo no fogo do inferno, ao contrário, torço para que a graça alcance as suas vidas, para terem a sua existência transformada. A minha alegria é saber que um dia, a justiça reinará, e não mais veremos o caos e as contradições fazendo vítimas, diminuindo pessoas, e transformando a vida de alguns em um verdadeiro inferno.

Há muito tempo atrás um Deus encarnou em forma de homem, e morreu por nós e fim de salvar o ser humano do pecado, para que enfim a justiça pudesse reinar. Esta é a maior verdade que podemos conhecer, a falta de justiça aponta para um Deus. Ela indica que sem Ele o mundo nunca será justo de verdade.

BIBLIOGRAFIA

WRIGHT, N. T., Indicadores fragmentados: como o cristianismo compreende o mundo, Editora Thomas Nelson, Rio de Janeiro, 2020.

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O IMPERFEITO PERFECCIONISMO

“O perfeccionismo torna a pessoa cruel e desumana. Porque, por causa dos seus ideais, o perfeccionista não deve tolerar a fraqueza e a imperfeição. Assim, ele procura impor seus ideais com obstinação e brutalidade” (GRÜN, 2016, p. 52).

Conheci um excelente músico que estava se preparando para gravar o seu primeiro álbum. Ele gastava horas e horas em cima das composições e melodias, para que a sua obra saísse próxima da perfeição. Coisa que acabou nunca acontecendo, ele nunca lançou o CD, pois estava esperando as músicas ficarem perfeitas, ou seja, nunca ficariam prontas.

O perfeccionismo é o princípio mais perigoso que alguém pode seguir, seja para a espiritualidade cristã, para o trabalho ou mesmo os hobbies. Pois ser perfeito é impossível, é um padrão inatingível. O perfeccionismo nos paralisa, e acaba sendo o modo mais incoerente de se viver. O perfeccionista segue em direção a uma meta que nunca vai ser alcançada, terminando por estagnar, esperando chegar em um padrão inalcançável.

Quem segue o perfeccionismo é um impositor, que segue padrões absurdos e exige que todos também sigam. Na igreja, ele é aquele que tenta ser o mais santo, o que mais ora, o que mais lê a Bíblia e acaba exigindo que todos também sejam assim.

Em outras áreas, o perfeccionista é aquele que mergulha em algo, e como um tolo, não descansa até que aquela determinada atividade esteja em seu padrão, a questão é que na maioria dos casos, este padrão nunca vai chegar.

Não estou falando daqueles que procuram fazer o seu trabalho bem feito, e muito menos daqueles cristãos que tentam ter uma vida cristã centrada na palavra. Que estão sempre tentando ser melhores, orando mais ou estudando mais a Bíblia. E sim, daqueles que possuem um padrão exagerado, e exigem de si e de todos o máximo para que cheguem neste patamar impossível.

É preciso aprender a conviver com as imperfeições, assumir nossos defeitos e limitações, e depois, propor alvos mais palpáveis, sem exageros e idealizações. Ter o pé no chão é o melhor caminho para avançar, sem cultivar neuroses e doenças psíquicas.

Fui fã de um músico que não era dos melhores, ele tocava bem bateria, mas não era o mais rápido nem o mais técnico, contudo, ela tinha algo que me impressionava, suas linhas de bateria eram bem criativas. Ele me inspirou a ser criativo, enquanto eu buscava vencer minhas limitações técnicas, que eram muitas na época.

Quem foge do perfeccionismo, e cultiva objetivos equilibrados, metas e padrões coerentes, consegue empreender e conseguir, aos poucos, a melhoria e a evolução. É preciso ter os pés no chão e um dado momento aceitar que aquilo é o melhor que você pode fazer. Nem sempre dá para esperar chegarmos em um certo patamar. As vezes é melhor fazer o simples e bem feito, do que esperar para executar as coisas no modo mais perfeito.

Buscar o aperfeiçoamento e entender que a evolução é diária, é o caminho daqueles que são realistas e que estão com os dois pés no chão. É preciso ser honesto e saber ser prático, unindo a capacidade que você tem hoje com um pouquinho de engenhosidade.

Esta é a fórmula de quem faz, com as ferramentas e capacidades que possui no momento.

BIBLIOGRAFIA

GRÜN, Anselm, Ser uma pessoa inteira, Editora Vozes, Petrópolis, 2016.

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O FUNDAMENTALISTA SEM FUNDAMENTO

“Muitos fundamentalistas acreditam ser obedientes à palavra de Deus. Na realidade, porém, a distorcem através de suas próprias projeções” (GRÜN, 2014, p. 61).

Eu sempre via o mesmo pegador no terminal de ônibus do centro da cidade. Ele vociferava acusações, seguia apontando o dedo para todos, anunciando uma palavra de medo e de ódio a quem passava. “Quem não aceitar Jesus”, dizia o pregador raivoso, “vai arder no fogo do inferno”. Estas palavras, vinham acompanhadas de um sorriso de prazer, como se fosse muito gostoso imaginar alguém queimando no inferno.

O problema do fundamentalista, como é normalmente chamado o religioso que não consegue ouvir as pessoas, é a sua falta de diálogo. Conversar e ouvir uma opinião oposta, é impraticável para estes. O fato de crerem na palavra da verdade, lhes dão uma crença perigosa de que o diálogo não é necessário e é até errado.

O que eles não percebem é que quando alguém acusa, condena e aponta o dedo, falando de forma soberba, estão sendo contraditórios com o próprio ensino bíblico. A falta de amor, de paciência e cuidado com o próximo foi uma das críticas de Cristo aos religiosos da época.

Pregar é anunciar o Evangelho, e o significado de Evangelho é “Boas Novas”, notícias boas, e não palavras de condenação e acusação. É preciso dialogar, ouvir e ponderar, pois não é acusando, que o evangelho vai entrar no coração das pessoas. É só com amor, que seremos ouvidos, e com diálogo que a palavra vai se fazer presente.

O fundamentalista distorce a palavra, modifica através de suas projeções e pontos de vistas equivocados. As próprias palavras brutas, de acusação, demonstram raiva, e não o amor, que é o princípio de tudo. Aliás, os momentos de ira, de Jesus, curiosamente foram dirigidos justamente aos religiosos do seu tempo, que também acusavam, apontavam o dedo e ignoravam os necessitados.

Eu tenho um grande receio de quem anuncia o inferno, e principalmente quem assim o faz, com um sorriso nos lábios. Se alegrar com a condenação, demonstra falta de amor e responsabilidade com o próximo. Servimos um Deus de amor, por isso, nós devemos amar, simples assim (1 João 4:7-21).

Mateus 12:34 diz que “a boca fala do que está cheio o coração”, com isso, é inevitável olhar para estes pregadores raivosos e perceber a contradição instalada no sorriso de quem se alegra com o sofrimento alheio. Que Deus nos livre desta falta de amor. 

BIBLIOGRAFIA

GRÜM, Anselm, Ser uma pessoa inteira, Editora Vozes, Petrópolis, 2014.

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LIÇÕES QUE VOCÊ PODE APRENDER EM UMA LIVRARIA

Eu sempre vou em livrarias, seja para matar tempo, quando chego cedo em um compromisso ou para pesquisar boas obras. Entretanto, uma coisa que eu aprendi, depois de frequentar muito estes locais, é que se você entrar com pressa em uma livraria, você não vai enxergar nada.

Ir em uma destas lojas, para quem gosta de ler, é um prazer inexplicável. Eu mesmo gosto muito de comprar livros, por isso, algumas vezes eu passo horas pesquisando livros, autores e obras em livrarias ou sebos, que é como nós chamamos as lojas de livros usados aqui na minha cidade. Uma livraria tem muito a nos ensinar, o próprio ato de frequentar e procurar um autor em um destes locais, já são lições importantes, como vamos ver.

A primeira lição são os detalhes. Pois o excesso de coisas nos impede de vermos os pontos importantes. Quando você vai em uma loja de livros, ao olhar a estante abarrotada de volumes, você vê tudo e ao mesmo tempo nada. São tantos livros, tantos autores, que no final, é preciso muita atenção para conseguir olhar as obras e encontrar os temas que mais gostamos. Por conta da grande quantidade de temas, se não ficarmos atentos, podemos deixar de ver aquele autor fundamental, ou o material que gostamos muito. Olhar com atenção, verificar o nome dos autores e prestar atenção em todos os detalhes é a única forma de encontrar aquele material que vai fazer diferença em nossa vida.

Diante de tantas opções que o mundo nos dá, ou dos muitos estímulos e escolhas que temos. Podemos ficar perdidos e não percebermos as coisas que realmente valem a pena. A vida passa muito rápido, e por causa da correria, algumas vezes não vemos o que é essencial. Para aproveitarmos, precisamos aprender a ver, perceber os detalhes e nuances para assim identificar o que é importante.

O segundo ponto é ter conhecimento. São tantas coisas que o mundo oferece, que quando não conhecemos, podemos nos deixar levar por ensinos errados, que aparentemente podem parecer importantes, mas não são.

Assim como na loja de livros, onde precisamos conhecer os bons autores, é também na vida. Quando não conhecemos, deixamos nos levar por tudo e qualquer coisa. Nos impressionamos com qualquer capa, qualquer aparência, e depois quebramos a cara com o conteúdo. Se não prestarmos atenção e em meio a tanta coisa, não nos concentrarmos em todos os detalhes, nos deixaremos ser levados por ensinos e conceitos contraditórios e falhos.

O último ponto são os critérios. É preciso ter critérios para escolher, e critérios são construídos através do conhecimento, da informação e reflexão. Quem não tem critério, escolhe qualquer coisa, e acaba pecando pelo excesso e pela falta de conteúdo. Não adianta termos um monte de coisas que não nos acrescentarão em nada. Quem tem critérios, sabe o que quer, e pensa antes de escolher, buscando sempre a qualidade ao invés da quantidade.

Pior do que não ler, é ler qualquer coisa, é não aprender a refletir, e muito menos a mergulhar no conteúdo e aprender. É possível extrair lições de praticamente tudo, basta saber se posicionar e enxergar durante a leitura a lição escondida.

Gosto de olhar para a minha estante de livros e ver não só bons autores teológicos, filosóficos ou de entretenimento, e sim, de materiais que acrescentam e me auxiliam. Ter por ter, ou ler por ler é viver no automático, sem ter lições para a nossa caminhada.

A vida é muito curta para deixarmos de aprender e perceber verdadeiros universos, que só não são notados, por causa da nossa total falta de conhecimento.

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MONÓLOGOS

“A grande maioria de nós não é capaz de escutar; sentimo-nos obrigados a julgar, pois escutar é muito perigoso” (PETERSON, 2018, p. 256).

Perceba como em uma boa parte das conversas informais, o padrão é sempre o mesmo, não muda, poucos ouvem, apenas fingem ouvir, esperando apenas a sua vez de falar, e muitos falam (e como falam). Com isso, algumas reuniões são verdadeiros caos de sons, vozes e assuntos, enquanto nada está sendo ouvido. O contraditório é que as pessoas querem ser ouvidas, o problema é que elas ouvem pouco.

Quando estou reunido com amigos conversando e sou cortado quando falo, normalmente eu não retomo o assunto, a não ser que a pessoa peça, sendo que em muitas ocasiões, a minha fala fica incompleta e a pessoa nem percebem isso.  Caso estivessem realmente ouvindo, elas iriam perceber e querer ouvir a conclusão, pelo menos por educação, mas a maioria nem se atina, preferem muito mais falar do que ouvir. Este é um dos grandes males do nosso século, queremos ser ouvidos, mas não queremos ouvir.

Ouvi um psicólogo pseudointelectual falando um tempo atrás que, se ninguém te ouve, é porque o assunto não é interessante. Concordo que ninguém tem a obrigação de nos ouvir, mas em uma conversa, por respeito a pessoa, precisamos ouvir, diálogo é isso, não se trata de assuntos interessantes, e sim, de valorizar um ser humano ou o seu amigo, que fala, pensa, sonha e tem os seus ideais e pontos de vista. A vida não é feita somente do quanto alguém nos é útil, do quanto eu posso ganhar ouvindo alguém. E sim de respeito, diálogo e troca de informação. Ninguém é tão pequeno que não merece ser ouvido, e muito menos é tão grande, que merece prioridade em sua fala.

Outro problema na fala deste cidadão é a palavra interessante. Nem sempre com quem conversamos temos os mesmos interesses, as vezes o que eu falo com uma pessoa, a outra não se interessa e vice-versa. É evidente que alguns não sabem conversar, que não possuem assunto, contudo, cada um tem a sua área de interesse, nem sempre o que uma pessoa gosta, o outro aprecia.

O problema em ouvir o outro é que quando ouvimos, entramos no mundo de alguém, participamos do seu particular. Intimidade só busca quem quer ser amigo e quer se envolver realmente com uma pessoa. É muito mais fácil criticar, pois se envolver é complicado, quem critica, na maioria das vezes está longe, falando de outro ponto de observação, em uma situação bem mais confortável. Agora quem ouve, já se envolve, descobre detalhes, cria intimidade.

Na vida as vezes precisamos enfrentar monólogos, lidar com pessoas que acreditam que conversar é falar, é ouvir pouco, e que o diálogo consiste apenas de coisas que lhe interessam. Faz parte da vida, nem sempre uma pessoa tem a visão do todo, alguns seguem ensimesmados.

A arte do diálogo começa com humildade e respeito, crendo que cada um tem seus anseios e áreas de interesse. Não podemos obrigar alguém a entender o que nós entendemos, mas podemos aprender a ouvir, para pelo menos o outro também tenha voz.

BIBLIOGRAFIA

PETERSON, Jordan. B, 12 regras para a vida: Um antídoto para o caos, Alta Books Editora, Rio de Janeiro, 2018.

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