Na primeira parte desse texto vimos alguns aspectos da lei de Deus que nos trouxeram alguns elementos que nos auxiliam na compreensão da questão proposta. Conforme citado, a lei mosaica era a aliança que Deus estabeleceu com a humanidade, e com a vinda do Cristo foi estabelecida uma nova aliança, invalidando a anterior.
Em alguns aspectos há uma aparente contradição no discurso de Jesus e de Paulo acerca da lei. Em momento algum vemos Cristo menosprezando a lei. Como já citado, ele mesmo afirmou que veio para cumprir a lei; ele legitimou a lei de Moisés. Não poderia ser diferente, pois ele veio como homem e sendo judeu deveria submeter-se à lei de Deus. Mas as epístolas de Paulo são permeadas de mensagens que colocam a lei em segundo plano, e até mesmo a tratam como algo praticamente obsoleto.
Em diversas oportunidades Jesus exaltou a importância da lei. Em seus discursos ele sempre fazia referência à lei. Ele mostrava que seu discurso estava de acordo com a lei de Moisés e há inúmeras passagens bíblicas onde Jesus se refere à lei, e em todas elas ensinou a guarda da mesma. Uma delas é no sermão da montanha, que é considerado como sendo a essência da mensagem de Cristo. Em Mateus 7,12 ele disse:
“Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas”.
O que ele pregava no sermão do monte não era textualmente o que os profetas ensinavam, mas estava de acordo com a mensagem da lei que eles trouxeram. Dessa forma Jesus está validando a lei dos profetas. A grande diferença entre a atitude dos fariseus, que foram duramente criticados, e de Jesus, era a forma que ambos se relacionavam com a lei e com os homens. Em sua maioria, os líderes religiosos da época, lançavam seus esforços em prol da lei, enquanto que Jesus amava os homens, mas sem desprezar a lei.
Em outra ocasião, quando interpelado por um jovem rico que queria saber o que haveria de fazer para herdar o reino dos céus, Jesus respondeu que deveria guardar a lei. Com a resposta do jovem, que ele já a guardava, Jesus complementou a resposta acrescentando a atitude necessária para que o jovem chegasse a Deus. Ele deveria colocar Deus acima de tudo em sua vida. Ele deveria priorizar Deus, e depois viver na vontade de Deus, que não deixa de ser a guarda da lei. Ou seja, Jesus trouxe algo a mais que o discurso farisaico, mas em momento algum afirmou que a lei era desnecessária. Esse texto é de suma importância, pois trata da relação entre a salvação e a lei. A entrega total da vida a Deus é a reinterpretação da lei mosaica. É isso que Cristo disse ao jovem. Mas isso não quer dizer que Cristo o tenha liberado da guarda da lei. Em Lucas 10:25 vemos uma ideia que complementa esse texto. Aquele que guarda o maior dos mandamentos, amar a Deus acima de tudo, também considera a lei como a vontade de Deus para sua vida. Esses dois textos estão intimamente ligados. É difícil conceber a ideia de uma pessoa que realmente vive para Deus, e que simplesmente despreze sua lei. Essa ideia também é compartilhada pelo apóstolo João. Cristo reinterpretou a lei, trazendo um novo mandamento; o amor a Deus sobre todas as coisas e o amor ao próximo como a si mesmo.
Mas há um detalhe importante que devemos considerar. Podemos dizer que nos aproximadamente três anos do mistério de Cristo, a humanidade passava por um período de transição. O Messias estava sendo revelado, mas sua obra ainda não havia sido concluída. Ele iniciou um processo de mudanças revelando de forma mais palpável o Reino de Deus. A nova aliança foi sendo consolidada durante três anos, e foi um processo gradativo. O ministério de Jesus só foi consumado na sua ressurreição. Durante seu ministério as leis sacerdotais e morais, ainda eram válidas. O fato do véu do templo só ter sido rasgado no momento da sua morte, evidencia o fato que só a partir daquele momento ele passou a ser o único sacerdote que nos representa diante do Pai. Entendendo isso, fica mais fácil compreender porque Jesus nunca falou contra a lei mosaica, pois naquele momento ela ainda era legítima. A partir do momento em que a obra messiânica foi consumada, a lei sacerdotal não tem mais sentido, perdendo sua legalidade. Agora a questão passa a ser a situação da lei moral, que são os dez mandamentos.
Com um discurso que aparentemente diverge de Jesus, o apóstolo Paulo parece ser um crítico da lei. Podemos achar que seu discurso é incompatível com o do Messias. Na realidade ambos falam a mesma coisa mas de formas diferentes. Cada um deles aborda um aspecto da lei. Temos que lembrar que a maioria dos Judeus não reconheceu Jesus como sendo o Messias, e dessa forma permaneceu sob a aliança mosaica mesmo depois da vinda do aguardado redentor. Foi isso que moveu Paulo a abordar a questão da lei de forma diferente que Jesus. Em vários textos paulinos vemos que a lei não é capaz de justificar o homem. Talvez um dos textos mais explícitos seja Gálatas 3,11, onde lemos que somos justificados pela fé e não pela lei. Em outras palavras, a lei não pode nos salvar. Não o pode simplesmente pelo fato de não conseguirmos cumpri-la integralmente. A ideia de Paulo é que a lei apenas revela o pecado do homem. E quando ele se refere à lei, está se referindo também à lei moral. Isso fica claro quando atentamos para um detalhe que encontramos em Romanos 7,4-7. Paulo afirma que morremos para a lei e somos libertos dela. Ele continua afirmando que a lei não nos justifica, mas traz a consciência do pecado e exemplifica com a cobiça que é justamente um dos dez mandamentos. Fica claro que não adianta tentarmos seguir os mandamentos que não é isso que resolverá nosso problema. Foi exatamente isso que Jesus disse ao jovem rico. Como o homem não consegue guardar a lei em todos os seus aspectos, há a necessidade de algo mais, algo perfeito, para regatá-lo da quebra dessa lei. Imaginemos uma situação utópica. Vamos supor que a partir de certo momento, alguém consiga guardar toda a lei, ou seja, consegue não pecar mais. Mas isso não resolve seu problema pois essa guarda da lei não é suficiente para apagar os erros do tempo que ela não era guardada. Ou seja, a guarda da lei não produz salvação. Como podemos ler em Tiago 2:10, quem quebrar apenas um dos mandamentos quebra a lei como um todo. Na realidade os dez mandamentos não são dez leis, mas apenas uma. O que Paulo ensina pode parecer como sendo uma anulação da lei, mas na realidade ele afirma que a guarda da lei foi revogada como aliança entre Deus e os homens.
Isso fica mais claro quando compreendemos a mensagem de Romanos 10:4, onde lemos que o fim da lei é Cristo. A palavra grega “télos” que é traduzida como “fim”, tem os mesmos significados que em português. Pode ser final ou término de algo, mas também pode significar objetivo ou finalidade. Como na língua mãe do texto essa palavra pode ter dois significados, simplesmente não podemos ter certeza absoluta o que o autor quis dizer. O interessante é que os dois significados se encaixam perfeitamente no contexto, e expressam uma verdade divina. Talvez por isso mesmo o autor tenha escolhido esse termo. O objetivo da lei realmente foi revelar Cristo. Toda a mensagem bíblica converge para o Messias e a lei foi preparando o povo de Deus para que reconhecessem o Messias e compreendessem sua obra redentora. Mas Jesus também pode ser visto como o final da lei, pois ele estabeleceu uma nova realidade. Agora a aliança não é mais pela lei, mas pela graça. Jesus Cristo realmente é o fim da lei.
Em momento algum meu objetivo foi escrever um texto que resultasse de um estudo profundo sobre o tema. Trata-se apenas de uma breve reflexão após estudar um pouco mais a palavra de Deus. Pessoalmente acredito que podemos responder sim e não à pergunta se Jesus revogou ou não a lei. Sim, pois ele a revogou como uma obrigação de cumprirmos os mandamentos para expressarmos nossa aliança com o criador. A lei é incapaz de mudar nosso caráter e nos levar a Deus. Não devemos cumprir a lei da forma que os judeus a entendiam e talvez entendam até os dias de hoje. E não, porque se não cumprimos os mandamentos para sermos salvos, mas os guardamos pois entendemos que isso é a vontade de Deus para nossa vida e que essa lei nos protege de muitas mazelas que podemos colher se fizermos algo fora da vontade da lei. A guarda dos mandamentos não é a causa da salvação, mas sua consequência. Quem realmente conhece a Cristo sabe que a lei não muda seu caráter, mas também sabe que todo aquele que tem seu caráter transformado pelo sangue de Cristo guarda lei de Deus pois é um prazer andar em seus caminhos.
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