AMOR INTOLERANTE

     A sociedade está passando por uma transformação muito profunda. As transformações são cíclicas na história da humanidade, sendo que esses ciclos são cada vez mais curtos e as mudanças são rápidas. A cinqüenta anos atrás o ritmo do mundo era outro. Tínhamos as mesmas 24 horas no dia, mas parece que os ponteiros dos relógios eram mais lentos. As mudanças das quais estou falando são constantes e parece que nos últimos dez anos o homem, pelo menos o ocidental, mudou profundamente sua forma de pensar, e conseqüentemente de viver.

     Em momento algum da história, o homem contou com tantos recursos, com tantas formas de se comunicar, como hoje. No Brasil, mesmo com uma população não muito privilegiada, quando o assunto é poder aquisitivo, há mais aparelhos de telefone celular que pessoas. Isso já é uma referência da facilidade que temos de nos comunicarmos com nosso próximo. Existem diversas redes sociais e outros recursos que nos permitem uma aproximação maior com outras pessoas. Porém, paradoxalmente, acredito que nunca o homem esteve tão distante de seu próximo como hoje. O consumismo, que começou a crescer a largos passos a partir dos anos 60, fez com que o homem deixasse de investir em pessoas para fazê-lo em coisas. Isso é facilmente verificado quando olhamos para os relacionamentos atuais. Verdadeiras amizades são raras, a relação pais e filhos é cada vez mais rasa, e até mesmo os casamentos não são mais levados a sério. A própria sociedade propõe um modelo que está minando as bases do relacionamento humano. E como já citei em outros textos, esses fenômenos chegam à igreja e em muitos casos ditam a conduta de seus fiéis.

     Quando olho para a mensagem da Bíblia vejo um tema que me salta aos olhos: relacionamento. No paraíso o relacionamento homem-Deus era perfeito e com muita astúcia satanás conseguiu quebrar essa comunhão. Mas Deus não desistiu e continuou relacionando-se com o homem, deixando claro que o queria a seu lado. O ápice desse relacionamento foi o envio de Cristo para resgatar o homem das garras do pecado e restaurar seu relacionamento com ele. Essa foi a grande missão de Cristo. A prática do cristianismo envolve relacionamento. Quando os discípulos perguntaram a Jesus qual o maior dos mandamentos, ele foi logo citando os dois mais importantes, que são amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. O amor está intimamente ligado a relacionamento, pois não podemos amar sem relacionar-nos com alguém. Não conseguimos fazer pare da igreja de Cristo se não nos envolvermos com pessoas. Os cristãos sempre vivem em uma tensão entre a cosmovisão do mundo no qual vivem, e os princípios estabelecidos por Deus. A vida acaba sendo como uma corda que está sendo usada em uma prova de cabo de guerra, onde dois princípios distintos puxam o cristão para lados opostos. Isso também ocorre na área do relacionamento.  Se a sociedade nos ensina que o que importa é sermos felizes e que devemos fazer tudo para alcançar essa felicidade, o cristianismo nos chama para desistirmos de nós mesmos e vivermos em função da vontade de Deus, amando nosso próximo e vivendo em comunhão com Deus e com os irmãos na fé. Uma das vontades divinas expressas na Bíblia é a vida em comunidade.

     Mas uma fragmentação da sociedade também ocorre na igreja de Cristo. Em nome da igualdade e dos direitos, a sociedade é dividida em pequenos grupos onde cada um reivindica seus direitos. A própria legislação brasileira contribui para essa fragmentação quando cria leis onde pessoas são julgadas dependendo do grupo em que estejam. Como exemplo tempos um grupo seleto de pessoas que não são julgadas pelos seus crimes como outros cidadãos, pois tem imunidade parlamentar. Também há distinção de alguns direitos dependendo da etnia e até a tal da “orientação sexual” das pessoas. Ao invés de promover igualdade, esse conceito do “politicamente correto” tem separado as pessoas e esses pequenos grupos começam a apresentar dificuldade em conviver com os outros de forma madura.  Como os cristãos vivem inseridos nesse modelo, passam a ser contaminados com a fragmentação social o que traz conseqüências cada vez mais visíveis na vida da igreja.

     Se por um lado a sociedade promove a idéia para que as pessoas se dividam em grupos onde cada um vive em seu gueto, Deus nos chama para vivermos uma vida comum, afinal, a fé o que nos une é muito maior que os detalhes que tentam nos separar, afinal a fé provém de Deus e esses detalhes são picuinhas humanas. Mas infelizmente não é o que se vê, e em boa parte dos casos percebemos irmãos que professam a mesma fé, simplesmente não conseguem conviver com os outros de forma madura. A Bíblia está recheada de ensinos e exortações para que vivamos em comunhão, mas parece que teimamos em fazer o oposto. A própria fé é motivo para que não consigamos nos relacionar com nosso próximo. Cristãos de igrejas históricas não aceitam os pentecostais, que por sua vez também menosprezam os gélidos irmãos tradicionais. Evangélicos se acham no direito de determinar que nenhum católico herdará o reino de Deus, enquanto que estes também se referem ao protestantismo como sendo uma seita. A guarda de um determinado dia da semana, o tipo de alimentação, a cultura, a forma de se vestir e até mesmo o estilo musical que se ouve, são motivos para mandar pessoas para o céu ou para o inferno; e o pior de tudo é que tudo isso é feito em nome de Deus. Enquanto isso, assentado à direita de Deus pai, Jesus olha para tudo isso e deve pensar: “Eles não entenderam nada!”

     Não estou propondo o universalismo da fé ou a união das religiões, mas apenas refletindo sobre como estamos vivendo diante dos maiores mandamentos que Deus nos ensinou. Como citei a pouco, a Bíblia, e principalmente o Novo Testamento, é permeada de mensagens e ensinos de vida em comum entre os cristãos. Em Romanos 14 vemos que devemos aceitar nosso irmão mesmo que ele pense diferente de mim. Em 1ª Coríntios 12, 12 em diante, Paulo aborda a questão da unidade na diversidade, e na mesma carta, capítulo 9, 19-23, vemos como é possível e até recomendável, que nos adaptemos a outras culturas a fim de pregar o evangelho. Na oração sacerdotal o próprio Cristo orou ao pai, pedindo que todos os cristãos fossem um (João 17,20-21), união esta que também foi citada ainda em Romanos 12,5. Podemos ainda olhar para textos tais como Efésios 4,3, Filipensens 2,1-2, Romanos 12,10, Salmos 133,1, 1ª Coríntios 1,10, só para citar alguns, que nos chamam a uma vida em unidade. Mas parece que nossa opinião, ou talvez má vontade, fala muito mais alto que o próprio Deus. Qual parte do evangelho será que os cristãos não entenderam, ou talvez não queiram entender?

     Já presenciei uma conversa de pessoas que não eram evangélicas, abordando exatamente essa questão. Entre outras coisas, ouvi algo como: “Se eles, (os evangélicos) não se entendem entre si, como é que querem que a gente faça parte deles?”. Em situações como essas não há muito o que ser dito ou justificado, afinal nossas atitudes e nossa vida falam tão alto que nossa voz não é ouvida. Eu até poderia ter argumentado algo e deixado eles sem resposta, mas isso não mudaria o fato da afirmação dele estar certa. Se não fosse assim, o mundo já teria sido transformado pelo evangelho.

      Acho que em um tempo de tantas turbulências na sociedade, nós, todos os que cremos em Cristo como o Messias, devemos repensar algumas posturas que temos, e talvez esse assunto seja um dos primeiros. Acredito que em pelo menos uma área, todos nós temos dificuldades em conviver com nosso irmão. Talvez você e eu não nos identificamos com nenhum dos exemplos citados, mas se deixarmos que Deus sonde nosso coração, e que Ele seja o espelho  que nos mostra quem realmente somos, veremos que temos que crescer na área do amor ao próximo. Acho que Deus até fica enjoado quando, durante um culto, diante de uma ordem do pastor, olhamos para o irmão que está ao nosso lado e hipocritamente declaramos o mantra “eu te amo” para poucos minutos depois ignorarmos outra pessoa ou até mesmo aquela. Nem sempre é fácil amar o próximo e ás vezes até parece impossível, mas tenho certeza que Deus não nos daria o segundo mandamento mais importante de todos, se não pudéssemos cumpri-lo. Em algumas questões sou um tanto quanto radical e essa é uma delas: me pergunto, e à você também, como é possível uma pessoa que realmente foi transformada por Jesus, continuar tendo um amor intolerante. Não posso questionar a salvação de alguém assim, mas acredito que fica claro que uma pessoa assim ainda tem muito a aprender antes de dizer que conhece o amor de Deus. Acredito que o amor que temos para com nosso próximo é um termômetro do nosso amor a Deus. A partir do momento em que cada pessoa que tem essa dificuldade, reconhecer sua falha e realmente se empenhar para mudar sua atitude, a igreja de Cristo será melhor vista nessa sociedade tão carente da palavra de Deus.

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