RAZÃO E EMOÇÃO

 

O tempo passa e eu ainda não me acostumo com todos os absurdos que o circo gospel traz à tona de vez em quando. Seja a apóstola que sabe a data do aniversário do diabo. Os teleladrões que fazem desafios de fé para roubar dinheiro de pessoas pobres ou quem sabe aqueles pastores que dão a data da volta de Cristo como se soubessem de tudo. Em suma, este show todo diz respeito a uma coisa apenas, a emoção.

O curioso disso tudo é que esta prática não remete apenas aos dias de hoje. Antigamente, a igreja católica apelava para a emoção quando cobrava indulgências de seus fiéis, movidos pelo medo, prometendo bênçãos celestiais sem tamanho para a era vindoura. E, por conta disso, quantias exorbitantes eram cobradas, com a justificativa de que precisavam usar o dinheiro para a obra de Deus. Nada diferente de hoje, onde pastores prometem dinheiro dobrado, mediante um sacrifício na fogueira santa, exploração esta que teve início com a história do Brasil, como bem pontuam Claudino Piletti e Nelson Piletti (2011, p. 68):

“O paraíso que os colonizadores procuravam nas terras descobertas não era o mesmo que ofereciam aos povos colonizados. Os conquistadores estavam em busca da riqueza, do poder e da glória, e pareciam dispostos a tudo para alcançar o que procuravam, mesmo que fossem os crimes mais hediondos, pois tinham certeza do perdão, já que julgavam estar conquistando almas para o reino de Deus. Portanto, o que almejavam era uma espécie de “terra prometida”, onde viveriam do bom e do melhor, ou seja, o paraíso terrestre. Aos povos dominados, índios e escravos africanos, porém, ofereciam o paraíso celeste”.

Infelizmente, naquela época, nem todos sabiam ler ou tinham acesso à Bíblia, coisa que hoje temos, porém, as explorações continuam, o que nos deixa a pergunta: por quê?

Quando a emoção é maior do que a razão, os exageros são vistos aos montes. Sempre que a reflexão e o pensar são colocados de lado, a exploração e a ganância fazem suas vítimas. Seja através da manipulação, que a falta de conhecimento proporciona, ou seja movido pela emoção, que a falta de raciocínio traz. A Bíblia em Marcos 12:30 nos dá uma ótima dica para o viver cristão:

“Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças; este é o primeiro mandamento” (ARC). 

Eis em nossa frente uma daquelas cenas pitorescas de Cristo, pois este versículo de Marcos é uma resposta a uma pergunta feita por um escriba: Qual é o primeiro mandamento? (v. 28), e o que Cristo responde é justamente o que está escrito neste versículo, onde Ele dá um caminho lógico e coerente para o viver cristão.

A palavra entendimento, que no grego é dianoia, significa intelecto ou mente. Nos mostrando que o racional também deve estar presente no culto a Deus, a fé e a razão andam juntas, afinal, crer é também pensar, como bem coloca Stott em um livro com o mesmo nome.

O curioso é que aqueles judeus não ouviram nada que eles não sabiam, não era novidade o que Jesus falou. Com toda a certeza, eles sabiam que amar a Deus devia vir em primeiro lugar, e também com toda a certeza sabiam que deveriam amar o próximo, pois está implícito no décimo mandamento. Um rabino chamado Hillel, que viveu muito tempo antes de Jesus, também resumiu a lei de forma parecida. Porém, era evidente que, por mais que aqueles rabinos tivessem todas estas informações, eles não praticavam, viviam a vida calcada em costumes sem um entendimento mais aprofundado.

Ser cristão não é ser alienado. Seguir a Cristo não é um jogo de sentimentos e sim, um mandamento. É uma transformação de caráter e de atitudes e não uma vida de arrepios e emoções.

Não existe lugar para a emoção na vida cristã, e de forma nenhuma a emoção define espiritualidade. Ser cristão é seguir a Cristo, tê-lo como centro, é gastar tempo tentando entender a palavra, e um grande tempo de joelhos no chão.

As palavras: “cristão” e “emoção” podem até soar semelhantes, mas na vida cristã são tão opostas que lado a lado perdem seu significado.

 

BIBLIOGRAFIA

PILETTI, Claudino.; PILETTI, Nelson. História da Educação: De Confúcio a Paulo Freire. São Paulo: Editora Contexto, 2011.

 

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