O FALSO EU

É comum acontecimentos mudarem nossa forma de pensar, eu mesmo quando novo tinha um coração muito mais bondoso que hoje, eu ajudava os outros e quase nunca esperava um retorno. Mas de tanto ser passado para trás acabei mudando, normal. Acho até saudável termos momentos de reavaliarmos nossas atitudes para que tenhamos ações mais acertadas, isso é ótimo. O problema é que eu mudei de uma pessoa boa, para uma egoísta e com isso não resolvi o meu problema, só adquiri problemas novos.

Quantas vezes acontecimentos nos mudam fazendo surgir em nós o que Brennan Manning classifica como “Um falso eu”. Um impostor, que como um ditador, cria regras e passa por cima de quem nós realmente somos. Na verdade é uma máscara que vestimos a fim de conseguirmos encarar os desafios e dificuldades do mundo exterior e angariar algumas aprovações e elogios do próximo.

Tudo começa com a baixa autoestima e se segue com constantes atitudes de querermos agradar a tudo e a todos.  Por conta de profundas decepções, construímos um alguém muito mais admirável e belo aos olhos das pessoas ou dos familiares. O problema disso tudo não é só uma vida falsa construída ao longo de nossa existência, mas também o fato de que com o tempo, depois de tanta representação, esquecemos que somos amados por Deus e que Ele nos aceita como somos:

“Entretanto, Deus ama quem de fato somos quer gostamos disso ou não. Ele nos chama, como chamou Adão, para que saiamos do esconderijo. Por maior que seja a quantidade de maquiagem espiritual que usemos, ele não pode nos tornar mais apresentáveis a Deus” (MANNING, 2007, p. 24).

Você já parou para pensar que Deus morreu por você mesmo sabendo de verdade quem você é? Ele é o único que te conhece de verdade e mesmo assim te ama. E nos chama para que reconheçamos o quão insignificante somos sem Ele e assim tirarmos as máscaras nos entregando a sua vontade e cuidado.

Brennan Manning, usando as palavras de Agostinho fala:

“Pode haver apenas dois amores fundamentais, escreveu Agostinho. ‘Amar a Deus até esquecer de si ou amar-se até esquecer e negar a Deus’” (MANNING, 2007, p. 41).

O equilíbrio só vem quando temos Deus, só somos completos e inteiros quando Ele vem morar em nossa vida. Quando olhamos para Deus e deixamos que a sua luz ilumine as nossas mazelas, o impostor foge e deixamos de nos mascarar e de sermos atores ante as pessoas.

O impostor precisa ser aceito, mas vê somente a si, vive uma vida narcisista e egoísta, alheio a tudo e a todos. E o pior, segue a vida sem se conhecer de verdade e com isso, segue com suas defesas erguidas, sempre se justificando sem em momento algum conseguir mudar.

Ninguém muda sem pontuar de forma clara seus defeitos e dificuldades, quem assume suas falhas muda, quem não assume certamente seguirá sendo o mesmo. James Masterson afirmou:

“Faz parte da natureza do falso “eu” nos impedir de conhecer a verdade sobre nós mesmos, de penetrar nas causas profundas de nossa infelicidade, de nos vermos como realmente somos: Vulneráveis, medrosos, apavorados e incapazes de deixar que o “eu” verdadeiro se exponha” (MANNING, 2007, p. 44).

É interessante que em Gênesis 3:9, logo depois que Adão e Eva desobedeceram, Deus chamou o homem usando a palavra aieka (onde estás?), que significa:

“Onde está você, Adão”, no sentido existencial (em vez de espacial) “neste momento? Por onde anda a tua alma?” (BONDER, 2011, p. 22).

Cadê você Adão, por que está escondendo quem tu és? Tira a máscara Adão. Este é o impostor que sabota quem somos, construindo um indivíduo falso, fraco e autocentrado:

“Quando aceitamos a verdade do que realmente somos e a submetemos a Cristo, somos envolvidos pela paz, quer nos sintamos em paz ou não” (MANNING, 2007, p. 49).

Eu não me lembro mais quando em minha caminhada acabei mudando de vida, quando eu me sentia um zero a esquerda e incapaz. Não lembro também quando eu perdi a paixão pelo simples, a minha esperança e a certeza de que Deus estava comigo e construí esta máscara. Mas eu lembro quando eu tive que olhar para Ele e me lembrar de que Cristo me amou e se doou por mim. Que Ele me ama como eu sou e que eu sou dependente d’Ele.

Basta deixarmos o nosso ego de lado, tirar a máscara do falso eu e seguir olhando para Ele. Quando entendemos quem somos, o quanto somos amados mesmo sendo falhos, sentiremos paz mesmo em meio ao caos, e teremos a certeza de que Jesus estará ao nosso lado sempre.

 

BIBLIOGRAFIA

MANNING, Brennan, O Impostor quer Vive em Mim, Editora Mundo Cristão, São Paulo, 2007.

BONDER, Nilton, A Arte de se Salvar, Ensinamentos Judaicos Sobre o Limite do Fim e da Tristeza, Editora Rocco, Rio de Janeiro, 2011.

Deixe um comentário