“Meus amados irmãos, tenham isto em mente: Sejam todos prontos para ouvir, tardios para falar e tardios para irar-se, pois a ira do homem não produz a justiça de Deus” (Referência: Tiago 1:19-27) (NVI).
Quando eu era novo, lembro muito bem do primeiro relógio que ganhei. Ele era muito bonito, tinha um design interessantíssimo para a época, ele só tinha um problema, era uma imitação de um relógio original, o que não me deixou tão contente assim.
Ninguém gosta de imitação, não é mesmo? Eu, por exemplo, não gosto de ouvir nem banda de música cover. Nada melhor do que ouvir a música com os integrantes originais. E na vida cristã, a falsificação também não é legal, principalmente quando você fala ser alguém, mas que não pratica o que fala.
Gosto da passagem de Tiago que está na epígrafe do texto, a passagem nos traz algumas lições práticas que nos mostram o verdadeiro significado do termo cristão. Destacarei somente duas delas, que acredito serem fundamentais para a vida cristã.
1) Autocontrole
“[…] Sejam todos prontos para ouvir, tardios para falar e tardios para irar-se” (v. 19) (NVI).
Ter autocontrole, saber falar e entender a hora de ouvir é sempre um desafio. Ainda mais quando estamos passando por dificuldades ou mesmo em meio à pandemia que desestabilizou a sociedade, as pessoas e nossa família.
A ira à qual o texto faz alusão é aquela explosão de raiva e não o sentimento de raiva, ter raiva é natural. E o sábio é aquele que demora sempre em se irar e consegue se controlar, ao contrário daquele que vive discutindo, tentando convencer e falar a todo o momento ou que insiste em convencer a todos (DAVIDS, 2012).
Ouvir hoje em dia é uma ação rara, poucos têm o autocontrole de ouvir e falar na hora certa, as pessoas querem muito mais falar do que escutar. Ouvir e escutar possuem sentidos diferentes e, por mais que possa ser mera semântica, visto que ambos os termos se confundem e muitas vezes são usados como sinônimos, como no caso desta passagem, os dois conceitos são bem opostos. Ouvir é ter audição, já escutar é prestar atenção à fala de alguém de modo sincero e comprometido.
Queremos a todo momento falar, pois acreditamos que podemos colaborar, ou mesmo cremos saber a verdade e às vezes você até sabe, mas também precisa do autocontrole para ouvir o interlocutor.
Você já passou por um problema e desabafou com alguém, onde esta pessoa tentou explicar o seu problema ou dar soluções para a sua situação? Eu já passei por alguns perrengues, coisas realmente complicadas, e eu tenho um amigo que, diante destas situações, falava sempre: “eu não sei nem o que dizer…” e eu gostava disso, visto que, naquele momento, eu nem queria respostas, mas ser ouvido. Tiago 1:26 diz:
“Se alguém se considera religioso, mas não refreia a sua língua, engana-se a si mesmo. Sua religião não tem valor algum!” (NVI).
É possível saber se alguém é realmente piedoso somente pelo seu estilo de vida. A explosão de raiva ou o autocontrole são atitudes definidoras na vida de alguém. E frear a língua é uma das missões mais desafiadoras que nós temos. A boca fala e transmite uma mensagem ou uma opinião, mas a sua atitude revela quem você realmente é, sendo que, quando falamos de palavras, abordamos coisas muito importantes. No livro Os Dez Mandamentos de Anselm Grün, tem uma poesia de Hilde Domin, sobre a Palavra e a Faca, que fala justamente sobre isso:
“Melhor uma faca a uma palavra
Uma faca pode ser cega.
Uma faca acerta muitas vezes
Ao lado do coração.
A palavra, não” (GRÜN, 2012, p. 118).
Por isso, aprenda a se controlar, busque em Deus o autocontrole e limite a sua língua. Ser tardio no falar e em se irar é fundamental para conseguirmos ser cristãos autênticos que conseguem auxiliar as pessoas da forma certa.
II) Praticantes da palavra
Sejam praticantes da palavra, e não apenas ouvintes, enganando-se a si mesmos (v. 22) (NVI).
O evangelho não é uma grande teoria, é um caminho para uma vida prática, sendo que, para praticar, precisamos conhecer. Não tem como sermos praticantes se não conhecermos a Bíblia.
Ser cristão envolve uma prática constante. É um hábito que deve estar introjetado em nossa vida. Orar, ler a Bíblia e estudar a Bíblia são verbos, e verbos denotam ação. Por isso, ser cristão é muito mais do que carregar um rótulo, é ter uma vida prática.
Quem me conhece sabe que sou alguém que tem um pouco mais de facilidade para adquirir hábitos. Isso se dá porque faço algumas coisas sem pensar no que estou sentindo, pois nem sempre o que quero é fazer aquela determinada atividade, mas faço e me animo no meio do caminho.
A palavra de Deus precisa ser lida, entendida e praticada. Ser cristão envolve sermos praticantes da palavra de Deus. Por isso, não seja um mero ouvinte, ou um simples espectador que cumpre um protocolo na igreja e vai embora com o sentimento de dever cumprido, seja um cristão praticante, que vive de forma prática o cristianismo.
Descobri por experiência própria como a falsificação não é interessante, pois o relógio, que falei no começo do texto, acabou quebrando pouco tempo depois. Objetos falsificados não duram muito.
A falsa vida cristã, assim como o meu antigo relógio, também não resiste à ação do mundo, às dificuldades e desafios que todos os cristãos enfrentam. Mas quando vivemos uma vida cristã real, não falsificada, podemos passar pelo caos e por algumas dificuldades e resistimos, pois afinal, o que vivemos é algo sólido e verdadeiro.
Por isso, busque o autocontrole aprendendo a falar na hora certa e não ter explosões de ira, afinal, o nosso exemplo fala muito. E aprenda a ser um cristão praticante, experimente o prazer de viver de modo genuíno o evangelho.
BIBLIOGRAFIA
CARSON, D. A.; FRANCE, R. T.; MOTYER, J. A.; WENHAM, G. J. Comentário bíblico Vida Nova. 1. ed. São Paulo: Vida Nova, 2012.
DAVIDS, Peter H. Tiago. In: CARSON, D. A.; FRANCE, R. T.; MOTYER, J. A.; WENHAM, G. J. Comentário bíblico Vida Nova. 1. ed. São Paulo: Vida Nova, 2012.
GRÜN, Anselm. Os dez mandamentos. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2012.
