DESAFIOS DA ESPIRITUALIDADE CRISTÃ VIII: LITURGIAS SECULARES

Os ritos fazem parte da vida de todos os seres humanos, mesmo para aqueles que não são religiosos. E isso fica muito evidente quando avaliamos os lugares frequentados pelas pessoas e o motivo pelo qual elas frequentam estes locais.

James Smith (2017) explica como o cristão pode estar tão focado em se defender de falsos ensinos, que corre o risco de não perceber todas as influências do seu meio e das práticas e costumes inconscientes que ele adere, transformando todas as ameaças intelectuais em problemas secundários.

O termo “liturgia” é usado pelo autor para se referir aos rituais que contêm aquelas explicações sobre quem é o ser humano e qual é o seu propósito. Os rituais trazem em seu cerne uma orientação única. São como aquelas ferramentas de calibração: elas redirecionam os ponteiros do coração humano. E quando estas liturgias são incoerentes, acabam servindo para tirar o foco dos cristãos e distanciá-los de Cristo (SMITH, 2017, p. 74).

Não é raro encontrar um cristão que não percebe todas as suas contradições, fruto somente destas práticas culturais, que viram verdadeiras liturgias que remoldam e mudam o coração humano. É possível um cristão estar bem longe da vontade de Deus, por meio de hábitos e muitas práticas que acabam entrando em sua vida por meio da cultura. É por isso que este autor nos convida a examinar o mundo com algumas lentes litúrgicas, auxiliando os cristãos a perceberem quais liturgias influenciam o seu coração, quais amores estão tomando o lugar de Deus.

O ritual mais comum hoje em dia é ir ao shopping. E Smith (2017) revela como este lugar tem todos os elementos de um templo religioso, onde a principal finalidade é levar os frequentadores à prática do consumismo, a renovar a sua mente com outros pontos de vista e a se reconectar com as prioridades atuais. No livro Você é aquilo que ama, ele ensina os cristãos a ler estas liturgias seculares e fazer uma exegese do que ele denomina como o evangelho do consumidor.

Como primeira liturgia secular, Smith coloca uma conhecida prática dos nossos dias, muito vista, sendo ela: “se estou mal, eu compro” (SMITH, 2017, p. 74). O consumismo hoje é aquela ferramenta usada para curar dores e trazer alegria. Sendo que hoje a sociedade vende uma falsa alegria, estampada em rostos de comerciais e séries, como se fosse possível adquirir uma alegria verdadeira a partir de objetos e bugigangas ou como se a nossa vida, tristezas e dificuldades, fossem fruto de algum erro ou equívoco da nossa parte. James Smith complementa, pontuando que:

“Entretanto, no geral, as liturgias dos shoppings e dos comerciais imprimem em nós uma sensação de que há algo de errado conosco, algo estragado, expondo diante de nós ideais que não conseguimos alcançar” (SMITH, 2017, p. 76).

No final, tais comerciais e séries de televisão não só revelam vidas perfeitas e felizes, mas também mostram haver algo de errado com a nossa vida e muitas vezes eles usam necessidades e desejos autênticos e sugerem princípios menos nobres sobre poder, beleza e privilégios. Sendo que tais princípios não somente demonstram que podemos estar errados, mas de igual forma, desconstroem ensinos bíblicos importantes, vendendo uma vida falsa, como se Deus precisasse atender a todas as necessidades humanas (SMITH, 2017, p. 76).

A felicidade que a televisão e os shoppings vendem é falsa, sendo somente narrativas para levar você a aderir a alegrias ilusórias, que acabam logo depois das suas compras. Se consumir é sinônimo de felicidade, eu não posso parar de comprar e adquirir coisas, e o perigo é realmente este.

Na terceira liturgia secular, Smith (2017) faz uma interessante adaptação da frase de Descartes: compro, logo existo. Mostrando como consumir define a própria existência de muitas pessoas. Muitos existem somente para comprar e consumir coisas, em uma prática constante, para que desta forma, a sua felicidade continue em dia. A compra vira uma espécie de terapia, uma prática que cura o consumidor e oferece uma falsa alegria. Elas prometem uma redenção que é falsa, usando serviços e bens como meio de proporcionar uma possível cura para suas tristezas e frustrações.

James Smith aponta para quatro liturgias seculares, oferecendo uma exegese do que ele chama de “evangelho do consumidor”, revelando como algumas práticas são inconscientes e minam a verdade do evangelho da vida de muitos cristãos. Optei por falar somente da primeira e terceira liturgia, apenas para mostrar como muitas vezes nem percebemos como algumas práticas e amores entram em nossa vida, sem ao menos percebermos.

Cultivar um olhar crítico é fundamental para mantermos nossa vida centrada e longe de todas as influências que nos distanciam de Deus.

Bibliografia

SMITH, James K. A. Você é aquilo que ama: O poder espiritual do hábito. São Paulo: Vida Nova, 2017.

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