A VERDADE CORROMPIDA

“Na presença de Deus e de Cristo Jesus, que há de julgar os vivos e os mortos por sua manifestação e por seu Reino, eu o exorto solenemente” (Referência: 2 Timóteo 4:1-4) (NVI).

Quando eu era mais novo, gostava muito de debates e ver como muitos conseguiam argumentar e expor a verdade de uma questão, eu tinha sede por conhecer a verdade. E gostava de assistir desde debates seculares até cristãos dos chamados apologetas. Sendo que conheci muitos destes apologetas ou argumentadores e, com o tempo, mergulhei no estudo e leitura por conta deles. É muito legal presenciar alguém que fala bem e consegue expor a verdade de forma clara.

Mas conforme eu estudava, mergulhava na leitura e estudo ou mesmo cursava a minha graduação em teologia ou pós-graduação, algo nestes discursos passou a não ter mais sentido, visto que alguns assuntos não são tão simples de se resolver. Descobri, ao estudar filosofia, que nem sempre quem fala bem ou vence um debate tem razão, muitas vezes estes não estão do lado da verdade. Existem técnicas que muitos usam para vencer debates, mesmo sem ter razão.

Isso mudou a minha vida e me ensinou a buscar a verdade, em meio às palavras acaloradas e técnicas de oratória. É muito importante aprendermos a falar bem, mas a verdade não está na forma como falamos, mas no conteúdo. E é sobre esta verdade, uma das mensagens que lemos na Segunda Epístola de Paulo a Timóteo.

Esta Epístola (2 Timóteo) é o que chamamos de uma epístola pastoral, sendo que a carta foi escrita enquanto Paulo aguardava o seu julgamento. A epístola, em todo o tempo, busca encorajar Timóteo a não desanimar e encoraja-o a seguir levando o evangelho às pessoas (CARSON et al., 2012, p. 1941–1942).

Estes três versículos (2 Timóteo 4: 2-4) são uma espécie de resumo e ênfase do que o próprio Paulo já tratou nas outras duas Epístolas, onde ele fala sobre o perigo de ouvir os falsos mestres. E sobre a importância de seguirmos a justiça, a fé e a sã doutrina. 

Na Epístola, Paulo, já em seus últimos dias de vida, busca se expressar sobre três principais fatos: a certeza do juízo, da volta de Cristo e da vinda do seu reino. Sendo que os versículos 3 e 4 são uma espécie de parêntese, onde ele adverte Timóteo sobre o perigo dos falsos mestres (CARSON et al., 2012, p. 1966). Carson acrescenta:

“Ele insere uma advertência final sobre os falsos mestres. Ele está ciente de que muitos não irão querer o ensino sólido, desejando ouvir somente o que der coceira nos ouvidos. Paulo mais uma vez menciona as fábulas que essas pessoas farão circular” (CARSON et al., 2012, p. 1966).

E, olhando para a nossa realidade, a advertência de Paulo tem todo o sentido. Em um tempo em que o relativismo dá o tom ou que a pós-verdade é o ponto de partida da reflexão de muitos, falar sobre a verdade do evangelho se torna um desafio.

É muito comum hoje as pessoas darem crédito a quem fala bem ou que constrói uma autoridade a partir de títulos, do que por meio da própria verdade. Estes versículos nos trazem importantes lições, quero destacar duas.  

I – A verdade como fundamento

“Eles se recusarão a dar ouvidos à verdade, voltando-se para os mitos” (2 Timóteo 4:4) (NVI).

Falar sobre a verdade em nossos dias é algo realmente complicado, visto que, para muitos, a verdade é relativa, depende de cada pessoa, do ponto de vista e crença de cada um. Não existe verdade, existem verdades, com isso, não há opiniões incorretas, pois tudo é válido. E por isso, vemos alguns absurdos, colocados como verdade, enquanto a coerência manda lembrança.

Na filosofia grega, há mais de 2000 anos, existiram filósofos que seguiam esta mesma crença, eram os sofistas. Estes filósofos acreditavam que a verdade não existia, segundo eles, a verdade não era fruto da investigação e sim, de quem conseguia argumentar melhor. Eles ensinavam a dialética erística, que era a arte de ganhar a discussão, mesmo sem ter razão.

Como eu disse no começo do texto, nem sempre quem ganha uma discussão tem um argumento válido. Às vezes, ele somente tem uma dialética melhor, sabe argumentar, e em inúmeros casos, consegue distorcer a verdade, para ganhar um debate. É comum encontrarmos estes em redes sociais, buscando ganhar discussões, em nome de visibilidade, mas usando argumentos falhos por si só.

Sócrates, um filósofo, refutou estes sofistas e disse que, se não há verdade, também não há erro e com isso, não há aprendizado. É reconhecendo o nosso erro que aprendemos. Se não reconhecemos, não crescemos com determinadas falhas. E eu incluo, por minha própria conta, que, se não há verdade, não existem fundamentos, não existem princípios básicos para nos guiar.

Algumas igrejas são muito bonitas, a decoração, os vitrais e os detalhes do lugar tornam o ambiente um local agradável. Mas existe algo muito mais importante que a decoração: são os fundamentos do prédio. Sem os fundamentos, a decoração, os enfeites e as pessoas iriam abaixo com a construção. Sem bons fundamentos, nada fica em pé.

Na vida cristã, este exemplo não é diferente. Sem os fundamentos, sem a verdade que nos sustenta, não conseguiríamos permanecer em pé, seguindo rumo ao caminho da verdade. É a verdade que nos sustenta, que nos direciona, que nos ajuda a enfrentar os temporais do mundo.

II – Esteja preparado

“Pregue a palavra, esteja preparado a tempo e fora de tempo, repreenda, corrija, exorte com toda a paciência e doutrina” (2 Timóteo 4:2) (NVI).

O texto de 2 Timóteo 4:4 nos revela muitas coisas ao falar que muitos iriam se desviar da verdade e seguir fábulas. E um dos pontos importantes sobre este assunto é a falta de estudo e leitura da Bíblia, sem o conhecimento é fácil seguir fábulas e ensinamentos distorcidos. É fácil se perder quando não conhecemos a palavra, quando não escondemos a palavra em nosso coração, como nos ensina a palavra de Deus (Salmos 119:11).

Estudar a Bíblia é um ponto fundamental da vida cristã, é a única forma de termos fundamentos. É só assim que conseguiremos seguir por este mundo relativista, que relativiza tudo, menos as suas opiniões. Para eles, a verdade é relativa, mas a verdade deles não, por isso que eles acabam impondo a sua forma de pensar a todos. Mas existem dois motivos principais para estudarmos a Bíblia.

O primeiro certamente é porque somos o povo da Bíblia, com isso, ler deve ser um dos primeiros hábitos que devemos cultivar. É contraditório um cristão que não lê, visto que a Bíblia é o seu principal livro.

O segundo porque, quem não lê e estuda a Bíblia, não tem nada para oferecer às pessoas. Além de termos fundamentos e conhecermos a vontade de Deus, estudar a Bíblia é fundamental para conseguirmos ajudar as pessoas a partir da própria palavra de Deus. E Lee Strobell em um livro que gosto muito chamado Autoridade espiritual, já ensinou que:

“A sua vida pode ser a única Bíblia que o seu amigo lê” (2001, p. 149).

Quanto mais lemos e estudamos a Bíblia, mais estaremos no centro da vontade de Deus e, com isso, seguiremos a vida sendo diferença em meio às pessoas.

Mas nós também precisamos do nosso secreto com Deus, visto que a vida cristã é resumida em estudar a palavra e orar. Dois hábitos fundamentais para todos os cristãos.

Em um mundo que não tem tempo para nada, é fácil sermos engolidos pela falta de prioridade. Lembre-se, ninguém tem tempo e tempo é muito mais uma prioridade que você estabelece do que algo que você tem sobrando. O curioso é que quanto mais avançamos tecnologicamente, mais carentes de tempo estamos, o que me faz crer justamente que o que nos falta é prioridade.

Vivemos tempos totalmente tecnológicos, com facilidades que nos ajudam a ganhar tempo, embora nunca tenhamos estado tão sem tempo assim. Mas conforme fui aprendendo e meditando sobre o assunto, pude perceber que ninguém tem tempo, visto que ele é mais uma prioridade do que algo que você encontra. Você precisa priorizar a leitura, o estudo e a oração, caso contrário, esses hábitos nunca farão parte da sua vida.

Existe um relativismo no mundo, o qual é um grande perigo para a nossa fé, mas também há um relativismo na igreja, sendo fruto da falta de estudo e comprometimento com o Evangelho. Por isso, estudar a palavra e buscar a Deus se torna uma atitude realmente fundamental.

Ensinos dos mais diversos têm sido propagados, seja na igreja ou no mundo, com o intuito de agradar um público. Ser cristão não é isso, é estar no centro da vontade de Deus e seguir buscando fazer a sua vontade. É não ignorar aqueles versículos e ensinos bíblicos que nos confrontam. É não ter receio de obedecer, mas para isso é básico estarmos calcados na palavra de Deus e na intimidade com ele, através do nosso secreto.

BIBLIOGRAFIA

CARSON. DA.; FRANCE, RT.; MOTYER, J. A.; WENHAM, G. J. Comentário Bíblico Vida Nova. 1. ed. São Paulo: Editora Vida Nova, 2012.

STROBEL, Lee. Inteligência espiritual: Como alcançar os que evitam Deus e a igreja. São Paulo: Editora Vida, 2001.

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