Não que já a tenha alcançado, ou que seja perfeito; mas prossigo para alcançar aquilo para o que fui também preso por Cristo Jesus.
Irmãos, quanto a mim, não julgo que o haja alcançado; mas uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim,
Prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus. ( Filipenses 3:12-14)
Sempre gostei muito de automobilismo. Durante décadas assisti muitas corridas; a maioria pela televisão, mas muitas ao vivo. Nesse esporte vê-se situações inusitadas e tudo pode acontecer. Talvez uma das cenas mais marcantes foi uma corrida da Fórmula 1 no ano de 1991. O piloto britânico Nigel Mansell liderava a corrida com mais de 50 segundos de vantagem para o segundo colocado. Na Fórmula 1 isso é uma eternidade. Nesse tempo dá pra fazer duas trocas de pneus. Ao abrir a última volta Mansell começou acenar para a torcida comemorando a vitória. Já tinham se passado cerca de 300km na corrida e faltavam apenas uns 4. Ele estava passeando pela pista, quando na metade dessa última volta, cerca de 2 km antes da linha de chegada, acabou a gasolina do seu carro. O brasileiro Nelson Piquet acabou vencendo a prova e Mansell ficou pelo caminho. Esse episódio me levou a entender que o importante nem é tanto como você larga, mas sim como você chega ao destino e isso tem tudo a ver com perseverança.
Perseverança é uma palavra que começa a ser cada vez menos lembrada no dia a dia. Vemos uma geração que é muito estimulada, atenta a tudo, muito ágil, mas a maioria não sabe lidar com problemas e acaba sucumbindo. Percebemos isso claramente nos relacionamentos. Nunca amizades e até mesmo casamentos valem tão pouco. É só os problemas que demandam esforço e abnegação aparecerem, que amigos e cônjuges são trocados pelos próximos da fila, afinal, “a fila anda”. E assim vivemos nosso dia a dia, fazendo da própria vida algo descartável.
Mas é na área da espiritualidade que a falta de perseverança faz mais estragos. Esses versículos da carta aos Filipenses enfatizam justamente isso. O apóstolo Paulo relata como ele lida com as dificuldades. No início do versículo 12, Paulo deixa claro que ele ainda não alcançou o alvo. Assim como Nigel Mansell em 91, Paulo estava muito bem encaminhado, mas ainda não tinha cruzado a linha de chegada. Ou seja, ainda havia lutas pela frente. Enquanto Mansell acenava para o público festejando a vitória antes do tempo, Paulo sabia que ainda havia lutas a serem vencidas; sabia que nada estava ganho. Assim também é com cada um de nós. Dia a dia somos assolados por todo tipo de problemas, dificuldades e desafios e só há uma forma de perseverarmos. Devemos olhar para Cristo e seguir em frente até que alcancemos o prêmio final. Conheço alguns cristãos que vivem como se já estivessem no céu. Não vêem problema algum e parece que esquecem que ainda pisam no planeta Terra. Isso é perigoso, pois perde-se a noção da realidade. Perde-se a conexão com a vida, com as pessoas e dessa forma nem podemos dize que se vive um cristianismo. Outros vêem a dimensão dos problemas e dos obstáculos e logo desistem. Isso também não é cristianismo. Não supervalorize teus problemas, mas sim fite teu olhar em Cristo.
Outro detalhe interessante, é que Paulo afirma que ele esqueceu as coisas do passado e segue firme para o alvo. Uma das coisas que mais atrapalha nossa vida são algumas coisas mal resolvidas no passado. Muitas vezes parece que o passado é como uma âncora que arrastamos pela vida. Um peso enorme que não nos deixa avançar. Paulo não podia se orgulhar do seu passado. Era um perseguidor sanguinário dos cristãos. Muitos pereceram em suas mãos, mas um encontro com o Cristo mudou sua história. Paulo colocou seu passado nas mãos de Deus e seguiu em frente. Será que nós nos libertamos do passado, ou tentamos revivê-lo? Teu passado realmente é passado ou ele ainda está vivo em tua mente, define muitas das tuas atitudes ou impede que você as tome? Uma das chaves para termos forças para seguir em frente é resolver o passado. Não é fazer de conta que ele não existiu, mas sim compreendê-lo e colocá-lo em seu devido lugar. Não devemos permitir que o passado determine nossas ações no presente e no futuro.
A última atitude de Paulo que quero comentar, pode ser entendida como a própria definição da palavra “perseverança”. Ele diz que prossegue para o alvo. Perseverar é prosseguir. Só podemos ter perseverança se tivermos um alvo estabelecido. Quando a questão é nossa espiritualidade, esse alvo é chegarmos à vida eterna. E esse alvo só é alcançado se seguirmos os passos de Cristo. Não adianta começarmos bem nossa vida com Deus e nos perdermos durante a caminhada. Não adianta liderarmos 300km de uma corrida, se nossa energia acaba nos últimos metros antes de completarmos a jornada, porque esquecemos do alvo. Para chegarmos ao final de uma corrida, devemos vencer todo tipo de adversidade. Talvez a maior delas seja nós mesmos. Assim como Paulo, é necessário que cada um de nós tenha muita determinação para perseverar na vida cristã.
Paulo passou fome, frio, foi preso, apedrejado e nada disso o fez desistir da jornada. Só conseguiu perseverar porque tinha um alvo muito bem definido. Será que isso é uma realidade na minha e na tua vida? Há milhões, talvez bilhões de pessoas que iniciam a jornada com Deus, mas muitos, talvez a maioria, acabam ficando pelo caminho. Viver o cristianismo é ter atitudes de abnegação diariamente. Abnegar da própria vida, entregando-a a Cristo, assim como abnegar da própria fraqueza, deixando que a força de Deus nos capacite a superar as dificuldades e o desânimo. Somente através de Deus é que conseguiremos perseverar. Mas para isso aconteça, temos que tomar uma decisão. Estamos dispostos a pagar o preço de suportar e superar todos os obstáculos que vierem pela frente? Você e eu achamos mesmo que nosso alvo vale a pena para lutar arduamente? Faça de Deus o parceiro dessa corrida; tenha ele sempre a teu lado, siga seus passos e não corra o risco de liderar 300km e acabar teu gás a poucos passos do alvo. Persevere dia a dia, momento a momento e assim você cruzará a linha da chegada.
Bruno Wedel: Bacharel em Teologia no Seminário Teológico Betânia de Curitiba, pós-graduado em Teologia e Cultura pela Faculdade Wpós.

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