OS DOIS TIPOS DE OTIMISTAS

Eu sempre tive um receio com ideias fáceis e soluções mágicas para os problemas. Acredito que ideias simplistas, que não olham a questão como um todo e nem analisa todas as variantes de uma questão, são pensamentos perigosos. A vida não é um bloco de montar, nem um computador onde recorremos ao antivírus quando precisamos corrigir problemas. Na maioria das vezes o desafio é mais complexo, requer tempo e muita reflexão.

E diante desta questão Roger Scruton em seu livro As Vantagens do Pessimismo, descreve dois tipos de pessoas que ele nomeia como os “otimistas escrupulosos” e os “otimistas inescrupulosos”, personagens fáceis de detectar em nossa sociedade. Segundo Scruton, um otimista escrupuloso é:

“Alguém que mede a extensão de um problema e consulta o estoque existente de conhecimento e autoridade a fim de resolvê-lo, confiando na iniciativa e na inspiração quando não é possível encontrar nenhuma outra orientação, ou quando alguma peculiaridade em sua situação problemática desencadeia nela uma resposta análoga” (SCRUTON, 2015, p. 24-25).

Este tipo de otimista é alguém que pondera, pensa em todas as variantes de um problema, entende que nem sempre o nosso problema é apenas o obstáculo, mas também as variantes que podem vir ao conseguirmos remover o obstáculo. Scruton complementa:

“Esse otimismo escrupuloso também conhece as vantagens do pessimismo e sabe quando moderar nossos planos com uma dose dele. Ele nos encoraja a levar em conta o preço da falha, a conceber a pior das hipóteses e a assumir riscos com a plena consciência do que acontecerá se os riscos não compensarem” (SCRUTON, 2015, p. 24-25).

Este tipo de pessoa é o amigo que nos dá uma dose de luz, é a pessoa que pensa em todas as variantes antes de entrar em uma empreitada ou resolver um problema. Já o otimista inescrupuloso é o oposto disso:

“O otimismo inescrupuloso não é assim. Ele executa saltos de pensamento que não são saltos de fé, mas uma recusa a reconhecer que a razão deixou de apoiá-lo. Ele não leva em conta o custo do fracasso ou não imagina a pior das hipóteses. Ao contrário, ele é tipificado por aquilo que chamarei de a “falácia da melhor das hipóteses”. Quando lhe pedem que faça escolhas sob condições de incerteza, o otimista imagina o melhor resultado e supõe que não precisa considerar nenhum outro. Ele se devota apenas a um resultado e ou esquece de levar em conta o custo do fracasso – ou então – e este é o aspecto mais pernicioso – tenta transferir esse custo para os outros” (SCRUTON, 2015, p. 25).

Na maioria das vezes este é o cidadão que fala que não conseguiu sucesso em uma determinada empreitada por culpa de um fulano, do tempo ou por falta de apoio de alguém. Este tipo de pessoa não assume seus erros, não confessa suas incompetências para que assim ele possa mudar. Eu sempre falo isso e vou sempre repetir, só mudamos quando confessamos os erros. Evoluímos apenas quando aprendemos com os fracassos, tiramos lições dos nossos equívocos apenas quando confessamos e pontuamos todos eles para que possamos mudar.

“Os otimistas escrupulosos sabem que vivem em um mundo de limitações, que alterar essas limitações é difícil e que as consequências de fazê-lo são frequentemente imprevisíveis. Eles sabem que podem muito mais facilmente ajustar a si próprios do que modificar as limitações sob as quais vivem, e que deveriam trabalhar nisso continuamente, não apenas pelo bem de sua própria felicidade e daqueles que amam e que dependem deles, mas também pelo bem da atitude do “nós” que respeita as constantes das quais nossos valores dependem, e que faz o máximo possível para preservá-las” (SCRUTON, 2015, p. 35).

Muitas soluções são propostas sem olhar o próximo e quem pensa diferente, muitas respostas carecem do mínimo de reflexão a fim de se concluir qual será o impacto que determinada empreitada vai causar no meio em que ela será aplicada. Algumas soluções nos trouxeram muito mais problemas, algumas propostas resultaram em mais erros do que acertos.

Quando vejo alguém colocar a esperança de melhora em um determinado político, ou colocar a culpa da nossa crise em determinado lado, eu penso que estes não estão olhando o problema como um todo. A corrupção nada mais é que o último estágio de uma sociedade egoísta e mesquinha, que não demora em culpar pessoas, mas que não olha para si, suas atitudes e formas de pensar. A corrupção é o resultado de uma má administração, de um pensamento egoísta que só pensa em si e se esquece do “nós”. Temos que entender que com a corrupção solta, sem um remédio efetivo que a extermine, nenhuma forma de pensar funcionará, todas as propostas políticas enfraquecerão ante este mal. Eu gosto muito de uma frase, de um autor desconhecido, que diz:

“Tome cuidado com os incompetentes com iniciativa”.

Este é o pior tipo de pessoa que em sua maioria são otimistas inescrupulosos. Não quero agora me contradizer e culpar alguém, a minha proposta é que aprendamos a olhar o todo antes de procurarmos soluções seja para política, para a sociedade ou para a nossa vida. Nem sempre o obstáculo é o problema, mas a variante que virá ao retirarmos o obstáculo.

Há muito pouco tempo não tínhamos celulares, carros e a tecnologia, hoje temos estas facilidades, mas com ela veio alguns outros problemas como: pessoas utilizando celulares enquanto dirigem, estudantes que deixam de fazer a lição para ficar conectados o dia inteiro em jogos ou redes sociais e por aí vai. Toda a solução ou avanço nos traz algum outro problema, e é sobre estas variantes que muitas vezes não refletimos na hora de solucionarmos problemas ou propormos algo novo.

Eu fujo de algumas polarizações, seguir a direita, esquerda ou a solução mágica de algum “pensador” é pensar de forma simplista. É ser otimistas inescrupulosos, que resumem os problemas e propõe as soluções da mesma forma que preparam um macarrão instantâneo. Alguns problemas não são tão simples assim, e os otimistas escrupulosos sabem disso. Propostas realistas, assumir riscos de forma consciente sabendo que as soluções não são mágicas é a base do seu pensar e é assim que temos que tentar ser se quisermos ser relevantes.

BIBLIOGRAFIA

SCRUTON, Roger. As vantagens do pessimismo e o perigo da falsa esperança. São Paulo: É Realizações Editora, 2015.

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