RECIPROCIDADE

A igreja é mestre em ser contraditória. Ao mesmo tempo que faz bem para a nossa vida espiritual estar em comunhão, nem sempre é fácil estar com os irmãos.

Para a boa saúde espiritual, gosto de olhar para a igreja com um olhar ambivalente. Ela é boa, mas ao mesmo tempo complicada. Ela ajuda, embora em alguns momentos atrapalhe. Tal qual o ser humano, já que a igreja é um reflexo de nós.

A vida cristã centrada começa quando entendemos nossas falhas, erros e dificuldades e não escondemos. Sendo que este é uma das atitudes que muitas vezes não vemos em um ambiente cristão. Muitos confundem espiritualidade, com aparência, e não é isso. Ser espiritual é estar em uma busca, ser cristão é acima de tudo ser sincero e confessarmos nossos erros e falhas. Confessar os erros não é só o melhor caminho para uma vida cristã centrada. Mas a única forma de buscarmos em Deus a mudança. Você não pede ajuda a Deus por um problema que acredita não ter. É só assumindo as falhas que pedimos ajuda.

Quem confessa os erros é também compreensível com o próximo. Quem entende a profundidade e dimensão das suas falhas, certamente, pelo menos na maioria das vezes, compreenderá as falhas do próximo, crendo que cada um tem os seus problemas. Tiago 5:16 diz para confessarmos os pecados uns aos outros. É assim que conseguimos ajuda dos irmãos e também, mostramos uns aos outros que cada um tem as suas dificuldades.

O cristão legalista não é só alguém intolerante, que não dialoga e prefere impor, mas também alguém que não se percebe, que não vê suas falhas e nem as assume.

O evangelho fala constantemente de reciprocidade: “Perdoamos, porque Deus nos perdoou primeiro” (Mateus 18:33-35), “amamos porque ele nos amou primeiro” (1 João 4:19). Tudo começa em Deus, mas deve terminar em nossas atitudes, são elas que refletirão uma vida transformada. Quem sabe muito bem quem é olha o próximo com a mesma misericórdia que ele espera que Deus olhe para ele.

Alguém incompreensível, no fundo é uma pessoa que ainda não aprendeu a se autoavaliar e a confessar, de forma genuína seus pecados. Quando confessamos nossos pecados a Deus, não fazemos isso só para pedir o seu perdão, mas também, de forma indireta, para entendermos quem ele é, e quem somos nós.

Quando genuinamente pedimos perdão a Deus, clamamos por sua misericórdia, e terminamos por entregar a nossa vida a ele. Mas acredito também que, quando confessamos os nossos pecados de forma sincera, entendemos quem somos, o quanto somos falhos, e ao entender, passamos a ser cristãos mais altruístas e compreensíveis uns com os outros. Anselm Grün, no livro “Ser uma pessoa inteira”, complementa:

“Queres reconhecer a Deus, aprende a conhecer a ti mesmo” (Evágrio) (GRÜN, 2014, p. 12).

Quando temos um encontro sincero conosco e aprendemos a nos conhecer, caminhamos de forma mais tranquila para a mudança e concomitantemente, para uma real dependência de Deus.

A vida cristã centrada começa com a ação de refletirmos quem somos, um questionamento que nos leva a Deus, por percebermos nossas fragilidades, sendo que isso impacta em como eu vou perceber a tratar as pessoas.

Quando nos idealizamos demais, não nos entregamos, por acreditarmos sermos especiais e com isso, não demoramos em condenar e a agir como se estivéssemos acima. A entrega real, reflete em atitudes reais e visíveis. Quando nos conhecemos, nós tratarmos o próximo de forma amorosa, da mesma forma como esperaríamos ser tratados.

Não é um pagamento e sim uma retribuição prática do que Deus fez por nós. Quem é realmente grato, retribui, por ter certeza quem é.

BIBLIOGRAFIA

GRÜN, Anselm, Ser uma pessoa inteira, Editora Vozes, Rio de Janeiro, 2014.

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