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  • DESAFIOS DA ESPIRITUALIDADE CRISTÃ IX: ADORAÇÃO FORMADORA

    O ser humano é alguém que cria ritos de forma totalmente automática, sendo que estas liturgias seculares moldam a mentalidade e o modo como ele enxerga o mundo, como James Smith explica em Liturgias Seculares. Em contrapartida, o culto em que todos os cristãos participam pode se tornar uma adoração formadora, que molda a mente e a atitude, ajudando-o a caminhar segundo a vontade de Deus.

    Se a sociedade influencia todos os cristãos, sendo que em alguns casos isso acontece sem ele se dar conta, em contrapartida, o culto pode ser um período de aprendizado e o início do cultivo de boas práticas.

    James Smith (2017) explica que a adoração formadora desenha a bela imagem da beleza de Deus em um resumo da sua vontade para o mundo de um modo tão claro, que isso acaba tomando conta da imaginação do cristão. Se a ação humana se resume a agir conforme os desejos que conquistam a sua imaginação, a adoração formadora precisa conquistar a mente humana para poder fazer diferença. Smith complementa:

    “Nossas imaginações são órgãos estéticos. Nosso coração é como um instrumento de corda dedilhado por histórias, poesia, metáforas e imagens. Batemos nossos pés existenciais no ritmo dos tambores de nossa imaginação” (SMITH, 2017, p. 127).

    Desejar a Deus, ter este anseio por buscar fazer a sua vontade, é o primeiro passo para a ação virar prática e vivência. Trabalhar a imaginação para que este desejo vire ação é fundamental, sendo que a adoração formadora possui justamente esta finalidade, introjetar na vida do cristão a verdade bíblica.

    O culto precisa contar uma história, ele precisa mostrar um caminho que faça o cristão querer seguir em direção ao eterno Deus, fazendo brotar no coração aquele desejo pela pátria celestial, a qual é o reino vindouro (Hebreus 11:16) (SMITH, 2017, p. 128). Um momento de culto a Deus não é apenas um período de adoração ao nosso eterno pai, mas é também um tempo de aprendermos e cultivarmos em nosso coração a verdadeira e correta aspiração. O culto é um tempo de redirecionamento das nossas rotas e anelos. James Smith novamente complementa explicando que:

    “O culto que nos restaura é aquele que nos dá uma nova história. O culto que renova é aquele que reconta nossa identidade num nível inconsciente. Para fazer isso, o culto cristão precisa ser governado pela história bíblica e nos convidar a entrar, levando-nos a incorporá-la” (SMITH, 2017, p. 131–132).

    É fácil se perder quando os ensinos do mundo lentamente acabam entrando em nossa vida; por isso, é importante estarmos unidos como cristãos, inseridos em uma igreja onde a adoração também é formadora, nos ensinando e auxiliando a incorporarmos a verdade do evangelho em nossa vida.

    Somos renovados quando entendemos a nova história que Deus nos dá. Crescemos como cristãos quando entendemos a nossa identidade a partir do evangelho. E o culto é este local pedagógico, que nos ensina e introjeta em nossa vida a verdade do evangelho.

    Enquanto o mundo tenta confundir a nossa mente e nos leva a nos desviarmos da verdade do evangelho por meio das suas liturgias seculares, uma boa igreja introjeta em nossa vida a verdade por meio da adoração formadora.

    Bibliografia

    SMITH, James K. A. Você é aquilo que ama: O poder espiritual do hábito. São Paulo: Vida Nova, 2017.

  • A POLÍTICA SEGUNDO A BÍBLIA

    Existe uma insistência por parte de alguns cristãos em buscar seguir ideias políticas, uma vez que estes entendem que elas são necessárias para guiar as pessoas em determinados princípios vistos como essenciais. Com isso, vemos cristãos se dividindo em nome de ideologias políticas. Mas quando lemos e estudamos com cuidado a palavra de Deus, percebemos como tudo o que precisamos está nela.

    O trabalho honesto e dedicado são ensinos que a palavra de Deus menciona (Provérbios 27:18) muito antes do capitalismo. Bons profissionais são referência de honestidade e profissionalismo. Paulo adverte que:

    “Em tudo que fizerem, trabalhem de bom ânimo, como se fosse para o Senhor, e não para os homens” (Colossenses 3:23) (NVT).

    Quando somos bons funcionários, trabalhando como se fosse para Deus, transmitimos, através da nossa vida e atitude, a mensagem cristã as pessoas por meio do nosso exemplo.

    A Bíblia também fala do salário justo, revelando como os cristãos precisam proporcionar aos seus colaboradores bons ordenados (Provérbios 10:16). Sendo assim, um bom chefe e patrão, constrói um ambiente justo, tratando as pessoas com respeito ao proporcionar uma boa remuneração e um saudável ambiente de trabalho (Colossenses 4:1; Efésios 6:9).

    O texto bíblico também nos ensina a repartir o pão com aqueles que não têm condição, sendo que este conselho não advoga a favor do comunismo, mas da prática cristã de dividir com aqueles que não possuem condição, além de ajudá-los a se preparar para conseguir levantar o seu sustento. Repartir com quem não tem é uma atitude cristã e não uma ideia política (Lucas 3:11), sendo que ao estudarmos o comunismo percebemos atitudes bem opostas a estas. Vemos líderes vivendo no luxo e pessoas que discordam do regime político passando necessidade e em muitos destes países, eles eram torturados e mortos. A Bíblia passa longe destes princípios, devido a isso, sugerir que existem princípios comunistas na palavra de Deus, como muitos insistem em falar, é uma afirmação desconforme.

    O profeta Isaías criticou a cidade que antes era honesta e justa, mas que naquele tempo estava seguindo por caminhos tortuosos. Seus líderes se apegavam aos salários altos e não davam ouvidos aos oprimidos. Isaías afirma que:

    “Seus líderes são rebeldes, amigos de ladrões; todos eles amam o suborno e andam atrás de presentes. Eles não defendem os direitos do órfão, e não tomam conhecimento da causa da viúva” (Isaías 1:23) (NVI).

    Dieter Schneider (2022) expõe que abandonar a Deus, como Judá fez, pode ser caracterizado como um adultério: e o povo escolhido por Deus é visto como prostituta. E por mais que durante a travessia no deserto, Israel tenha murmurado e reclamado, o que aconteceu no contexto de Isaías foi muito pior. O versículo 23 revela como os administradores não eram justos e muito menos exemplos de retidão, eles eram desobedientes e amigos de ladrões.

    A corrupção havia chegado naquele local e o profeta Isaías estava sendo usado por Deus para denunciar estas práticas incoerentes e inaceitáveis. E percebemos como esta realidade faz parte de inúmeros contextos políticos, sejam comunistas ou capitalistas, mostrando como o pecado leva o ser humano a construir um ambiente injusto que desagrada a Deus.

    A Bíblia é realmente inigualável, uma vez que relata todas as histórias sem esconder inúmeras falhas de líderes importantes, medos de profetas que estavam sendo usados por Deus e os inúmeros equívocos do povo de Deus. A Bíblia mostra o ser humano como ele é, apontando para a graça de Deus e Jesus Cristo, a única esperança para as pessoas.

    Falar de política é discorrer sobre governos políticos que, em muitos casos, começam com uma boa motivação, mas depois enveredam pelo caminho do engano, mas a Bíblia orienta o ser humano e o desafia a seguir pelo caminho da justiça e honestidade.

    A Bíblia fala sobre as boas práticas políticas e sociais, mas não compartilha com ideais políticos que estão muitas vezes distantes da verdade divina. Por isso, use a palavra como um guia para avaliar as propostas dos candidatos políticos, sem esquecer que acima de tudo você é cristão e não um militante de falhas ideologias políticas.

    Bibliografia

    SCHNEIDER, Dieter. Isaías: Comentário Esperança. Curitiba: Editora Esperança, 2022.

  • A VERDADE CORROMPIDA

    “Na presença de Deus e de Cristo Jesus, que há de julgar os vivos e os mortos por sua manifestação e por seu Reino, eu o exorto solenemente” (Referência: 2 Timóteo 4:1-4) (NVI).

    Quando eu era mais novo, gostava muito de debates e ver como muitos conseguiam argumentar e expor a verdade de uma questão, eu tinha sede por conhecer a verdade. E gostava de assistir desde debates seculares até cristãos dos chamados apologetas. Sendo que conheci muitos destes apologetas ou argumentadores e, com o tempo, mergulhei no estudo e leitura por conta deles. É muito legal presenciar alguém que fala bem e consegue expor a verdade de forma clara.

    Mas conforme eu estudava, mergulhava na leitura e estudo ou mesmo cursava a minha graduação em teologia ou pós-graduação, algo nestes discursos passou a não ter mais sentido, visto que alguns assuntos não são tão simples de se resolver. Descobri, ao estudar filosofia, que nem sempre quem fala bem ou vence um debate tem razão, muitas vezes estes não estão do lado da verdade. Existem técnicas que muitos usam para vencer debates, mesmo sem ter razão.

    Isso mudou a minha vida e me ensinou a buscar a verdade, em meio às palavras acaloradas e técnicas de oratória. É muito importante aprendermos a falar bem, mas a verdade não está na forma como falamos, mas no conteúdo. E é sobre esta verdade, uma das mensagens que lemos na Segunda Epístola de Paulo a Timóteo.

    Esta Epístola (2 Timóteo) é o que chamamos de uma epístola pastoral, sendo que a carta foi escrita enquanto Paulo aguardava o seu julgamento. A epístola, em todo o tempo, busca encorajar Timóteo a não desanimar e encoraja-o a seguir levando o evangelho às pessoas (CARSON et al., 2012, p. 1941–1942).

    Estes três versículos (2 Timóteo 4: 2-4) são uma espécie de resumo e ênfase do que o próprio Paulo já tratou nas outras duas Epístolas, onde ele fala sobre o perigo de ouvir os falsos mestres. E sobre a importância de seguirmos a justiça, a fé e a sã doutrina. 

    Na Epístola, Paulo, já em seus últimos dias de vida, busca se expressar sobre três principais fatos: a certeza do juízo, da volta de Cristo e da vinda do seu reino. Sendo que os versículos 3 e 4 são uma espécie de parêntese, onde ele adverte Timóteo sobre o perigo dos falsos mestres (CARSON et al., 2012, p. 1966). Carson acrescenta:

    “Ele insere uma advertência final sobre os falsos mestres. Ele está ciente de que muitos não irão querer o ensino sólido, desejando ouvir somente o que der coceira nos ouvidos. Paulo mais uma vez menciona as fábulas que essas pessoas farão circular” (CARSON et al., 2012, p. 1966).

    E, olhando para a nossa realidade, a advertência de Paulo tem todo o sentido. Em um tempo em que o relativismo dá o tom ou que a pós-verdade é o ponto de partida da reflexão de muitos, falar sobre a verdade do evangelho se torna um desafio.

    É muito comum hoje as pessoas darem crédito a quem fala bem ou que constrói uma autoridade a partir de títulos, do que por meio da própria verdade. Estes versículos nos trazem importantes lições, quero destacar duas.  

    I – A verdade como fundamento

    “Eles se recusarão a dar ouvidos à verdade, voltando-se para os mitos” (2 Timóteo 4:4) (NVI).

    Falar sobre a verdade em nossos dias é algo realmente complicado, visto que, para muitos, a verdade é relativa, depende de cada pessoa, do ponto de vista e crença de cada um. Não existe verdade, existem verdades, com isso, não há opiniões incorretas, pois tudo é válido. E por isso, vemos alguns absurdos, colocados como verdade, enquanto a coerência manda lembrança.

    Na filosofia grega, há mais de 2000 anos, existiram filósofos que seguiam esta mesma crença, eram os sofistas. Estes filósofos acreditavam que a verdade não existia, segundo eles, a verdade não era fruto da investigação e sim, de quem conseguia argumentar melhor. Eles ensinavam a dialética erística, que era a arte de ganhar a discussão, mesmo sem ter razão.

    Como eu disse no começo do texto, nem sempre quem ganha uma discussão tem um argumento válido. Às vezes, ele somente tem uma dialética melhor, sabe argumentar, e em inúmeros casos, consegue distorcer a verdade, para ganhar um debate. É comum encontrarmos estes em redes sociais, buscando ganhar discussões, em nome de visibilidade, mas usando argumentos falhos por si só.

    Sócrates, um filósofo, refutou estes sofistas e disse que, se não há verdade, também não há erro e com isso, não há aprendizado. É reconhecendo o nosso erro que aprendemos. Se não reconhecemos, não crescemos com determinadas falhas. E eu incluo, por minha própria conta, que, se não há verdade, não existem fundamentos, não existem princípios básicos para nos guiar.

    Algumas igrejas são muito bonitas, a decoração, os vitrais e os detalhes do lugar tornam o ambiente um local agradável. Mas existe algo muito mais importante que a decoração: são os fundamentos do prédio. Sem os fundamentos, a decoração, os enfeites e as pessoas iriam abaixo com a construção. Sem bons fundamentos, nada fica em pé.

    Na vida cristã, este exemplo não é diferente. Sem os fundamentos, sem a verdade que nos sustenta, não conseguiríamos permanecer em pé, seguindo rumo ao caminho da verdade. É a verdade que nos sustenta, que nos direciona, que nos ajuda a enfrentar os temporais do mundo.

    II – Esteja preparado

    “Pregue a palavra, esteja preparado a tempo e fora de tempo, repreenda, corrija, exorte com toda a paciência e doutrina” (2 Timóteo 4:2) (NVI).

    O texto de 2 Timóteo 4:4 nos revela muitas coisas ao falar que muitos iriam se desviar da verdade e seguir fábulas. E um dos pontos importantes sobre este assunto é a falta de estudo e leitura da Bíblia, sem o conhecimento é fácil seguir fábulas e ensinamentos distorcidos. É fácil se perder quando não conhecemos a palavra, quando não escondemos a palavra em nosso coração, como nos ensina a palavra de Deus (Salmos 119:11).

    Estudar a Bíblia é um ponto fundamental da vida cristã, é a única forma de termos fundamentos. É só assim que conseguiremos seguir por este mundo relativista, que relativiza tudo, menos as suas opiniões. Para eles, a verdade é relativa, mas a verdade deles não, por isso que eles acabam impondo a sua forma de pensar a todos. Mas existem dois motivos principais para estudarmos a Bíblia.

    O primeiro certamente é porque somos o povo da Bíblia, com isso, ler deve ser um dos primeiros hábitos que devemos cultivar. É contraditório um cristão que não lê, visto que a Bíblia é o seu principal livro.

    O segundo porque, quem não lê e estuda a Bíblia, não tem nada para oferecer às pessoas. Além de termos fundamentos e conhecermos a vontade de Deus, estudar a Bíblia é fundamental para conseguirmos ajudar as pessoas a partir da própria palavra de Deus. E Lee Strobell em um livro que gosto muito chamado Autoridade espiritual, já ensinou que:

    “A sua vida pode ser a única Bíblia que o seu amigo lê” (2001, p. 149).

    Quanto mais lemos e estudamos a Bíblia, mais estaremos no centro da vontade de Deus e, com isso, seguiremos a vida sendo diferença em meio às pessoas.

    Mas nós também precisamos do nosso secreto com Deus, visto que a vida cristã é resumida em estudar a palavra e orar. Dois hábitos fundamentais para todos os cristãos.

    Em um mundo que não tem tempo para nada, é fácil sermos engolidos pela falta de prioridade. Lembre-se, ninguém tem tempo e tempo é muito mais uma prioridade que você estabelece do que algo que você tem sobrando. O curioso é que quanto mais avançamos tecnologicamente, mais carentes de tempo estamos, o que me faz crer justamente que o que nos falta é prioridade.

    Vivemos tempos totalmente tecnológicos, com facilidades que nos ajudam a ganhar tempo, embora nunca tenhamos estado tão sem tempo assim. Mas conforme fui aprendendo e meditando sobre o assunto, pude perceber que ninguém tem tempo, visto que ele é mais uma prioridade do que algo que você encontra. Você precisa priorizar a leitura, o estudo e a oração, caso contrário, esses hábitos nunca farão parte da sua vida.

    Existe um relativismo no mundo, o qual é um grande perigo para a nossa fé, mas também há um relativismo na igreja, sendo fruto da falta de estudo e comprometimento com o Evangelho. Por isso, estudar a palavra e buscar a Deus se torna uma atitude realmente fundamental.

    Ensinos dos mais diversos têm sido propagados, seja na igreja ou no mundo, com o intuito de agradar um público. Ser cristão não é isso, é estar no centro da vontade de Deus e seguir buscando fazer a sua vontade. É não ignorar aqueles versículos e ensinos bíblicos que nos confrontam. É não ter receio de obedecer, mas para isso é básico estarmos calcados na palavra de Deus e na intimidade com ele, através do nosso secreto.

    BIBLIOGRAFIA

    CARSON. DA.; FRANCE, RT.; MOTYER, J. A.; WENHAM, G. J. Comentário Bíblico Vida Nova. 1. ed. São Paulo: Editora Vida Nova, 2012.

    STROBEL, Lee. Inteligência espiritual: Como alcançar os que evitam Deus e a igreja. São Paulo: Editora Vida, 2001.

  • VALORES TROCADOS

    Uma vida centrada começa com bons princípios pessoais, são eles que nos guiam e permitem seguirmos de modo coerente, sendo que alguns dos principais preceitos são: honestidade, respeito, justiça, etc. Um indivíduo que possui bons princípios não os negocia por oportunidade ou dinheiro algum. Sem contar que, para quem é cristão, tais valores são fundamentais.

    Alguns amigos não entendem porque tenho os meus receios em fazer download de livros sem pagar por eles. Segundo estas pessoas, as editoras têm muito dinheiro e por isso, não seriam prejudicadas por um download ilegal.

    Outros já acham estranho quando afirmo que gosto de ter uma vida simples, sem exageros e de modo centrado. A vida equilibrada e correta soa estranha para muitas pessoas, por isso que nem sempre é fácil ser cristão.

    Vivemos dias onde alguns valores estão trocados, viver pela aparência é a lógica da vida, parecer bem é muito mais importante do que estar realmente bem. Por isso, a parte externa acaba sendo muito mais valorizada que o nosso interior, o que realmente sentimos e somos.

    Ter bons princípios pessoais envolve não negociarmos o que acreditamos por lucro algum. Um indivíduo equilibrado não negocia seus princípios. Confúcio tem uma citação que descreve muito bem a realidade da nossa atual sociedade:

    “Quando o nada passa a ser algo, o vazio passa por tudo e a miséria passa por prosperidade, é difícil ter princípios” (CONFÚCIO, 2013, p. 51).

    Quando opto em não baixar livros piratas, não procedo assim devido às editoras. A minha principal motivação é que creio que não tenho o direito de pegar ou distribuir algo que não é meu. Se determinado objeto não me pertence, não é correto eu me apropriar dele. O ponto de partida são os meus valores, as coisas nas quais acredito e que me guiam.

    O mesmo digo sobre a vida simples. Eu nunca me importei em ostentar, acredito ser uma perda de tempo comprar coisas só pela posição social que este bem traz. Compro as coisas pela utilidade e pela qualidade e não pela marca. E vivo uma vida simples porque creio que a ostentação é inútil.

    Alguns vivem com o que acreditam ser suficiente porque entendem de verdade o que é ser rico. E outros possuem muito dinheiro ou ganham bem, mas vivem uma vida miserável, sem paz e tranquilidade, justamente porque não sabem lidar com o dinheiro. No final, estes indivíduos seguem cercados por uma redoma falsa de alegria e sucesso.

    As redes sociais conseguem transformar miséria em poder. É aquela vida de aparência onde o exterior é muito mais valorizado. E enquanto estes ostentam, a falta de paz e a infelicidade aumentam ainda mais. Quanto mais cresce a fatura do cartão de crédito, mais a paz e a tranquilidade vão se esvaindo.

    Hoje, ostentação é ter muitos seguidores, ou seja, o nada e a vida vazia virou a nova visão de riqueza. A vida miserável é sinônimo de ostentação e muitos não percebem a contradição desta visão. É uma existência que prioriza somente o externo, em parecer bem. É bom ter dinheiro, contudo, ele deve ser colocado em seu devido lugar. O dinheiro é apenas um servo, uma ferramenta que nos dá acessos, mas colocar o dinheiro no centro de tudo é o primeiro passo para cultivarmos a falta de paz e o caos em nossa vida.

    Gosto da citação de Confúcio justamente porque ela nos mostra como é fácil as pessoas inverterem os valores e negociarem seus princípios. Negociar nossos valores é seguir pela correnteza do senso comum que prioriza muito mais o externo do que o interno.

    Quando uma sociedade insiste em negociar seus princípios, fica difícil ter uma vida equilibrada!

    Bibliografia

    CONFÚCIO. As lições do mestre. São Paulo: Editora Jardim dos Livros, 2013.

  • O QUE CONTA É O QUE NÃO SE CONTA

    Não tem preço a oportunidade de poder passar o dia inteiro em contato com a natureza, na companhia de amigos e familiares. Os conhecidos retiros, que algumas igrejas promovem em chácaras, ou mesmo as caminhadas na natureza, que algumas cidades organizam, têm o poder de mostrar o que realmente vale a pena, mas que às vezes nos esquecemos, por estarmos mergulhados nesta incessante vida urbana.

    A vida simples e a busca pelo equilíbrio nesta nossa sociedade complexa, que estabelece o consumismo como modelo de vida, acabam sendo uma revolução, uma prática que segue na contramão da lógica atual. E sair deste ciclo ilógico é o melhor caminho para vivermos bem e de forma saudável. Ana Cláudia Quintana Arantes resume bem a arte de valorizarmos aquelas coisas que não têm preço:

    “Se essa gente boa se preocupasse em cuidar bem de perto de tudo que a gente não pode comprar seria muito mais fácil ser feliz, porque na vida o que conta mesmo é o que não se conta” (2020, p. 48).

    Aprendi ainda bem novo, perdendo muitos parentes queridos e amigos, que nada é para sempre, pelo menos aqui na terra. A nossa vida segue sempre em constante mudança e transformação, sendo assim, valorizar os momentos e as coisas que o dinheiro não pode comprar é indispensável.

    Por mais importante que seja conseguirmos um bom trabalho, avançar na carreira profissional, entre tantas conquistas que são essenciais, estas coisas se vão com o tempo. Seja pela mudança na economia, sociedade ou as nossas prioridades que mudam. Mas a lembrança e a experiência de estar em um lugar lindo, na companhia daqueles que amamos, permanecem na memória. Estas lembranças seguem com você.

    A vida simples e equilibrada, como tenho buscado enfatizar nesta série de textos, é a oportunidade de viver, saboreando cada momento, sem deixar que as coisas nublem o nosso dia. É legal ter, mas viver só para comprar, nos esquecendo dos momentos simples e ricos, desfrutando das coisas que o dinheiro não compra, é muito mais precioso do que viver somente para acumular coisas.

    O que conta não é o que se compra, e sim, são as pessoas, a convivência e o sabor de um dia bem desfrutado. Isso não tem preço. Aprenda a somar experiências, a desfrutar de momentos e construir lembranças, que permanecerão com você. Entenda que estes episódios precisam ser construídos, é uma atitude intencional de valorizar a convivência e as pessoas ao invés das posses.

    O consumismo foca nas coisas, a vida simples nas experiências e pessoas, que permanecem, não tenha dúvidas. Lembro de momentos com amigos e parentes que já não estão mais entre nós, e carrego estas vivências para o resto da minha vida. A única coisa que carregamos conosco são as boas recordações e as lições que aprendemos durante a nossa caminhada. Por isso, valorize o que realmente é importante, acumulando lembranças ao invés de riquezas!

    Bibliografia

    ARANTES, Ana Cláudia Quintana. Histórias lindas de morrer. Rio de Janeiro: Sextante, 2020.

  • MEDITAÇÕES SOBRE OS DIAS DE TRISTEZA

    Eu sempre encontrava a mesma pessoa todas as manhãs, um indivíduo que transpirava alegria e motivação. Gosto muito de levantar cedo, mas desconfio de pessoas muito alegres, principalmente daqueles que você raramente vê triste ou mesmo indiferente, tal qual, aqueles dias que não sabemos se estamos melancólicos ou alegres. A vida não é uma constante explosão de felicidade e motivação, como muitos fazem parecer, ela tem seus altos e baixos, e não há nada de errado nisso.

    Existe uma certa ingenuidade nas pessoas muito motivadas e felizes, é como se a vida precisasse ser sempre divertida, como se a tristeza não fosse um sentimento genuíno e não tivesse a sua utilidade.

    Nos momentos de tristeza eu escrevo, medito e componho poesias. Presto mais atenção nas coisas quando estou um pouco mais melancólico. Nos momentos de alegria, a vida, a meu ver, parece mais rápida e instantânea, parecida com aqueles filmes ou músicas tocadas em uma velocidade rápida, onde as pessoas só vivenciam para cumprir um protocolo social, mas que no final, não estão conseguindo entender e desfrutar de nada.

    Gosto de assistir à vida em câmera lenta, desfrutar dos minutos e tentar ver todos os detalhes do momento. É por isso que busco sempre não ter tantos compromissos, seguindo o caminho, sem tantas bagagens e atividades. Menos é sempre mais, e nos dá o poder de aproveitar os momentos com mais cuidado. O excesso de atividades não nos permite desfrutarmos da vida.

    O tédio é ótimo e a vida é muito mais do que seguir em busca da tal felicidade, que só existe conceitualmente. Viver é desfrutar de todas as oportunidades que Deus nos proporciona com muita calma, vivenciando todos os instantes. Sejam eles de tristeza, que pode ser um momento de reflexão, um dia de euforia, que pode ser um período de comemoração ou alegria. Ou aqueles momentos de solitude, contemplação e tédio. Não há problema algum em vivenciar tais ocasiões, o erro é ficar mergulhado nestes episódios de tristeza, euforia ou ócio. É por isso que eu me preocupo muito com pessoas exageradamente alegres ou eufóricas, visto que, são indivíduos que só veem a música tocar, sem aproveitar a melodia.

    Aprecio a sabedoria de Eclesiastes, em um dos mais conhecidos capítulos ele nos ensina que para tudo há um tempo certo (Eclesiastes 3:1), a vida é assim, como ele explica no texto. Existe o tempo de nascer e morrer, de plantar e colher o que foi plantado (v. 2), e no versículo quatro ele diz que há o tempo de chorar e também rir (v. 4). Há um tempo certo para tudo e nestes momentos, não precisamos disfarçar, sendo que, é possível aproveitar as etapas da vida como elas são, como pontuei, seja escrevendo, pensando ou desfrutando do dia.

    A natureza tem as suas estações e quando aprendemos a acompanhar o ciclo da vida, aproveitando cada instante como ele é, seguimos mais leves, lembrando que tudo é dádiva de Deus. No verão aproveitamos o calor, as flores e a vida pulsante. No inverno, nos recolhemos, cultivamos a solitude e o calor de uma boa conversa com os nossos amigos e familiares.

    Viver é isso, é saber passar por todas as estações da vida, aproveitando-as da melhor forma possível.

  • AS ESTAÇÕES DO CASAMENTO

    O casamento é uma grande bênção, contudo, ele também traz alguns desafios para os casais que normalmente são pessoas diferentes que, ao casar, têm suas vidas compartilhadas.

    Gary Chapman, no livro As quatro estações do casamento, trabalha justamente estes desafios da vida conjugal, sendo que o autor lista o que ele denomina de quatro estações que todos os casamentos acabam enfrentando. Chapman usa as estações do tempo como metáfora para discorrer sobre o assunto.

    É possível definir o casamento como uma parceria onde um casal segue unido, vivendo uma vida compartilhada e íntima. E quando o autor usa as estações para falar da vida de casado, ele se refere a todas as emoções que a vida conjugal estabelece a partir dos cinco sentidos. A qualidade do relacionamento depende sempre das combinações, emoções e atitudes, o que acaba determinando as estações de cada relacionamento (CHAPMAN, 2006).

     Um relacionamento que se encontra no inverno é quando o casal parece distante, frios um com o outro e com raiva do cônjuge. Nesta estação não existe mais cumplicidade e parceria e as discussões são constantes (CHAPMAN, 2006).

    Chapman (2006) ensina que a primavera é um período de cores e brilhos, é o momento em que as flores começam a desabrochar no jardim e no casamento. Esta estação é um tempo de recomeços, é quando o casal está bem e as atitudes positivas são vistas em suas relações com o outro. O verão é um tempo em que o casal segue colhendo todos os frutos do trabalho que eles empreenderam para fazer o relacionamento florescer. É um tempo de felicidade, união e apoio mútuo.

    O período de outono também revela algumas cores, mas é uma fase onde as folhas estão caindo e as árvores começam a ficar desnudas, anunciando um tempo de inverno. No casamento, a dinâmica é semelhante. O outono anuncia tempos frios e complicados ao casal. Em todas as estações, o autor aponta as atitudes que levaram o casal a estar nesta estação, as suas principais ações e dinâmicas vistas neste tempo e, em alguns casos, ele descreve alguns pontos positivos destes períodos complicados (CHAPMAN, 2006).

    O livro é ótimo e consegue promover um panorama da realidade do casal, sendo que ele termina a primeira parte da obra oferecendo ferramentas para o casal conseguir identificar em qual estação eles estão e também buscar mudar a sua realidade como casal.

    Nem sempre é fácil convivermos e entendermos o outro e, por inúmeros motivos, é possível entrarmos em uma estação de inverno no casamento. Por isso, ter boas ferramentas para mudar a estação do seu casamento é essencial, sendo que este é o propósito deste excelente livro, escrito por um pastor com vasta experiência em aconselhamento conjugal. Gosto de uma das definições que o autor dá de casamento, logo no início do livro:

    “O casamento é também um relacionamento com propósitos” (CHAPMAN, 2006, p. 18).

    Como cristãos, precisamos entender os princípios bíblicos da união conjugal e buscar ferramentas para transformar o casamento em uma união que glorifica a Deus. Entender as estações do casamento, bem como saber agir nestes períodos, é um passo importante. E que Deus esteja sempre no centro desta importante união!

    Bibliografia

    CHAPMAN, Gary. As quatro estações do casamento. São Paulo: Mundo Cristão, 2006.

  • SOCIEDADE INQUIETA

    Não tenha tanto orgulho em afirmar que você é alguém que não consegue ficar parado. Muitos veem pessoas ativas com bons olhos, mas não deveriam. Esta condição é perigosa por ser a porta de entrada de inúmeros problemas. Além de ser a marca daqueles que são superficiais, visto que, para aprender, pensar e refletir, é preciso cultivar um pouco de paz e tempo para a construção do saber.

    A nossa civilização está cada vez mais caminhando para o caos. A sua incapacidade de parar e a inquieta necessidade de gerar cada vez mais interação e estímulo têm deixado a humanidade doente. Byung-Chul Han complementa:

    “Por falta de repouso, nossa civilização caminha para uma nova barbárie. Em nenhuma outra época os ativos, isto é, os inquietos, valeram tanto. Assim, pertence às correções necessárias a serem tomadas quanto ao caráter da humanidade fortalecer em grande medida o elemento contemplativo” (HAN, 2017, p. 37).

    O curioso é que imaginávamos, quando éramos mais novos, que teríamos no futuro muitas tecnologias que facilitariam ainda mais a nossa vida, nos dando muito mais tempo para fazermos as atividades nos quais gostamos. Entretanto, o que aconteceu foi justamente o oposto, a tecnologia nos deu tempo, mas também cuidou para o tempo fosse usado conforme ela desejasse. E assim, hoje, muitos são escravos da tal tecnologia, que prometia facilitar a nossa vida, mas que a complicou ainda mais.

    A busca pela vida simples, como tenho buscado divulgar, é a habilidade de cultivar uma vida centrada nas coisas que são fundamentais, principalmente para nós, cristãos. A contemplação, uma prática que a igreja perdeu, ou a capacidade de pararmos e avaliarmos a nossa vida e prioridades, é uma ação fundamental e deve ser constante. É fácil sermos roubados sem percebermos, ainda mais quando falamos de tempo, o qual é um bem precioso. 

    Precisamos aprender a aquietar a mente para falarmos com Deus e também para ouvi-lo e entender a sua vontade. E também é aquietando o coração que meditamos e estudamos a Bíblia. Não é possível lermos a palavra e aprendermos com ela, sem um período de silêncio e reflexão.

    As atuais tecnologias estão roubando a capacidade das pessoas de pararem, contemplarem e meditarem sobre algo. É tudo muito corrido e sem pausa alguma, é a quantidade que vale hoje em dia e não a qualidade.  

    Quando a Bíblia fala para meditarmos na palavra de Deus (Salmos 49:3; Salmos 77:11-12; Salmos 119:15-16), devemos entender que isso só será possível se aprendermos a parar, desligar todos os distratores e silenciar a mente. É só assim que conseguiremos meditar e introjetar em nossa mente a mensagem do nosso Pai. É no silêncio que ouvimos e refletimos.

    O muito falar e o excesso de barulhos impedem de entendermos e meditarmos de modo relevante sobre todos os ensinos que Deus quer ministrar em nossa vida por meio da sua palavra. Por isso, ter um momento de silêncio e contemplação é fundamental e tal ação precisa ser intencional, é um período do seu dia que você separa justamente para isso.

    A vida cristã é intencional, construir uma rotina de leitura e estudo da palavra de Deus e um momento de oração depende de você, da sua intenção e não da sua vontade ou disponibilidade de tempo.

    O ser humano precisa aprender a se desligar para se conectar com o Criador e a sua palavra, caso contrário, seguirá cada dia mais conectado com o mundo, mas distante de Deus.

    Bibliografia

    HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Editora Vozes, 2017.

  • O LAMENTO SEGUNDO A BÍBLIA

    Para alguns cristãos, o fracasso é algo inaceitável. Se você segue a Cristo, você precisa ter uma vida vitoriosa. Os fracassos revelam a nossa falta de fé, segundo eles. Com isso, muitos cristãos acabam escondendo suas derrotas ou insistem em sempre olhar o lado positivo das coisas, para assim disfarçar os problemas, como se fosse um erro ficar triste ou refletir de forma genuína sobre os nossos equívocos e fracassos.

    Lamentar era uma prática antiga, os Salmos ou o Livro de Lamentações revelam justamente isso. Derramar o coração a Deus era comum, não havia disfarce diante do fracasso, somente uma sincera lamentação e uma tristeza genuína. O salmista faz justamente isso ao passar por um período de adversidade, ele afirma que:

    “Minhas lágrimas têm sido o meu alimento de dia e de noite, pois me perguntam o tempo todo: “Onde está o seu Deus?”” (Salmos 42:3) (NVI).

    Alguma coisa afligia o salmista e a sua atitude era lamentar aos pés do Criador. São muitos os Salmos de lamento, a Bíblia deixa bem clara em muitas passagens como o lamento é possível e tem a sua função. Mas qual seria a função do lamento?

    A principal função é aceitarmos os nossos fracassos, sem disfarce algum, e derramarmos o nosso coração diante de Deus. Quando aceitamos os problemas, conseguimos não mais repeti-los, sendo que os problemas precisam nos aproximar mais de Deus. Não há mal algum em ficar triste, em se lamentar e pensar nos equívocos que cometemos, o problema é ficar preso em um momento de tristeza que nunca cessa. Ken e Randy Petersen complementam explicando que:

    “De certa maneira, o lamento é a arte bíblica de cantar as nossas tristezas para o nosso Senhor” (PETERSEN et al., 2024, p. 26).

    Já pensou que você tem um Deus que te ouve, seja em seus momentos alegres ou tristes? Ser cristão é também passar por dificuldades, contudo, temos a certeza de que não estamos sozinhos, Deus está conosco, nos ouvindo e apoiando. Os salmos e o livro de Lamentações revelam como podemos chorar e entregar nossas tristezas e frustrações ao nosso pai, sem medo de sermos rejeitados.

    A lamentação evidencia toda a nossa fragilidade, além de mostrar uma importante característica emocional humana e como somos movidos pelas emoções. E diante de tais fragilidades, precisamos reconhecer que sem Deus, não somos nada.  

    Por isso, chore diante dos problemas, lamente e derrame todas as suas queixas aos pés do eterno Pai, que sem dúvida alguma estará te ouvindo. Cante as suas tristezas, como a Bíblia faz, mas sem esquecer daquele que sempre seca as nossas lágrimas.

    Bibliografia

    PETERSEN, Ken.; PETERSEN, Randy. 40 dias, 40 palavras: Leituras de Páscoa para tocar o seu coração. Curitiba: Publicações Pão Diário, 2024.

  • DESAFIOS DA ESPIRITUALIDADE CRISTÃ VIII: LITURGIAS SECULARES

    Os ritos fazem parte da vida de todos os seres humanos, mesmo para aqueles que não são religiosos. E isso fica muito evidente quando avaliamos os lugares frequentados pelas pessoas e o motivo pelo qual elas frequentam estes locais.

    James Smith (2017) explica como o cristão pode estar tão focado em se defender de falsos ensinos, que corre o risco de não perceber todas as influências do seu meio e das práticas e costumes inconscientes que ele adere, transformando todas as ameaças intelectuais em problemas secundários.

    O termo “liturgia” é usado pelo autor para se referir aos rituais que contêm aquelas explicações sobre quem é o ser humano e qual é o seu propósito. Os rituais trazem em seu cerne uma orientação única. São como aquelas ferramentas de calibração: elas redirecionam os ponteiros do coração humano. E quando estas liturgias são incoerentes, acabam servindo para tirar o foco dos cristãos e distanciá-los de Cristo (SMITH, 2017, p. 74).

    Não é raro encontrar um cristão que não percebe todas as suas contradições, fruto somente destas práticas culturais, que viram verdadeiras liturgias que remoldam e mudam o coração humano. É possível um cristão estar bem longe da vontade de Deus, por meio de hábitos e muitas práticas que acabam entrando em sua vida por meio da cultura. É por isso que este autor nos convida a examinar o mundo com algumas lentes litúrgicas, auxiliando os cristãos a perceberem quais liturgias influenciam o seu coração, quais amores estão tomando o lugar de Deus.

    O ritual mais comum hoje em dia é ir ao shopping. E Smith (2017) revela como este lugar tem todos os elementos de um templo religioso, onde a principal finalidade é levar os frequentadores à prática do consumismo, a renovar a sua mente com outros pontos de vista e a se reconectar com as prioridades atuais. No livro Você é aquilo que ama, ele ensina os cristãos a ler estas liturgias seculares e fazer uma exegese do que ele denomina como o evangelho do consumidor.

    Como primeira liturgia secular, Smith coloca uma conhecida prática dos nossos dias, muito vista, sendo ela: “se estou mal, eu compro” (SMITH, 2017, p. 74). O consumismo hoje é aquela ferramenta usada para curar dores e trazer alegria. Sendo que hoje a sociedade vende uma falsa alegria, estampada em rostos de comerciais e séries, como se fosse possível adquirir uma alegria verdadeira a partir de objetos e bugigangas ou como se a nossa vida, tristezas e dificuldades, fossem fruto de algum erro ou equívoco da nossa parte. James Smith complementa, pontuando que:

    “Entretanto, no geral, as liturgias dos shoppings e dos comerciais imprimem em nós uma sensação de que há algo de errado conosco, algo estragado, expondo diante de nós ideais que não conseguimos alcançar” (SMITH, 2017, p. 76).

    No final, tais comerciais e séries de televisão não só revelam vidas perfeitas e felizes, mas também mostram haver algo de errado com a nossa vida e muitas vezes eles usam necessidades e desejos autênticos e sugerem princípios menos nobres sobre poder, beleza e privilégios. Sendo que tais princípios não somente demonstram que podemos estar errados, mas de igual forma, desconstroem ensinos bíblicos importantes, vendendo uma vida falsa, como se Deus precisasse atender a todas as necessidades humanas (SMITH, 2017, p. 76).

    A felicidade que a televisão e os shoppings vendem é falsa, sendo somente narrativas para levar você a aderir a alegrias ilusórias, que acabam logo depois das suas compras. Se consumir é sinônimo de felicidade, eu não posso parar de comprar e adquirir coisas, e o perigo é realmente este.

    Na terceira liturgia secular, Smith (2017) faz uma interessante adaptação da frase de Descartes: compro, logo existo. Mostrando como consumir define a própria existência de muitas pessoas. Muitos existem somente para comprar e consumir coisas, em uma prática constante, para que desta forma, a sua felicidade continue em dia. A compra vira uma espécie de terapia, uma prática que cura o consumidor e oferece uma falsa alegria. Elas prometem uma redenção que é falsa, usando serviços e bens como meio de proporcionar uma possível cura para suas tristezas e frustrações.

    James Smith aponta para quatro liturgias seculares, oferecendo uma exegese do que ele chama de “evangelho do consumidor”, revelando como algumas práticas são inconscientes e minam a verdade do evangelho da vida de muitos cristãos. Optei por falar somente da primeira e terceira liturgia, apenas para mostrar como muitas vezes nem percebemos como algumas práticas e amores entram em nossa vida, sem ao menos percebermos.

    Cultivar um olhar crítico é fundamental para mantermos nossa vida centrada e longe de todas as influências que nos distanciam de Deus.

    Bibliografia

    SMITH, James K. A. Você é aquilo que ama: O poder espiritual do hábito. São Paulo: Vida Nova, 2017.