-
A INFLUÊNCIA DO DESEJO NAS AÇÕES HUMANAS
Nem sempre temos a plena consciência das coisas que nos guiam. Por vezes, colocamos a razão e o saber como as nossas principais bússolas sem perceber os verdadeiros guias da nossa vida. O autoengano é uma das principais características dos seres humanos, e por esse motivo, é comum não percebermos as influências e motivações das nossas ações.
Como seres humanos que somos, um dos nossos atributos mais naturais é termos nossos gostos, sonhos e anseios, sendo que estas coisas não somente nos movem, mas também nos influenciam demais, muito mais do que imaginamos. Estes nossos amores acabam virando guias, bússolas que nos levam a seguir e optar por algumas direções.
O ser humano tem a racionalidade como uma importante característica, entretanto, nossos amores e anseios interferem muito em nossas decisões e em como desejamos ser, conforme explica James Smith em seu livro Você é aquilo que ama. Smith explica que:
“Nossas vontades, anseios e desejos estão no cerne de nossa identidade, a fonte de onde fluem nossas ações e comportamentos. Nosso querer reverbera o que há em nosso coração, o epicentro da pessoa humana” (SMITH, 2017, p. 20).
E por mais que o conhecimento seja importante e agregue muito em nossa vida, o que desejamos e o que amamos, na verdade, define muito mais as nossas ações, coisa que o conhecimento nem sempre proporciona. O saber é fundamental, não tenha dúvidas, mas entender os anseios do nosso coração e quais são as coisas que nos movem é uma atitude igualmente essencial (SMITH, 2017), conforme novamente explica James Smith:
“São meus desejos que me definem. Em resumo, você é o que ama” (SMITH, 2017, p. 29).
E esta explicação de James Smith traz muitos esclarecimentos para as ações humanas, sendo que muitas delas são contraditórias. A Bíblia caminha nesta mesma direção, quando nos aconselha, na conhecida passagem de Provérbios, a guardarmos nosso coração:
“Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida” (Provérbios 5:23) (ACF).
Smith (2017) explica que quando a Bíblia fala do coração (kardia, em grego), ela não está se referindo a algum tipo de sentimentalismo, típico dos nossos dias. O coração precisa ser entendido como o núcleo básico de todos os nossos anseios mais intrínsecos: ele é uma bússola interna que orienta subconscientemente o ser humano.
No final, é a palavra de Deus que nos ensina a sermos verdadeiramente humanos (SMITH, 2017). Ela nos mostra quem devemos amar e qual é o Deus que deve estar no âmago de toda a nossa vida. Amar a Deus é deixar no centro de tudo aquele que precisa ser a bússola e o nosso único guia e influenciador.
O livro Você é aquilo que ama oferece ao leitor um importante pano de fundo para entendermos como as coisas que amamos nos influenciam muito, sendo que depois, ele disponibiliza algumas ótimas ferramentas e rituais formadores, que nos auxiliarão a amarmos as coisas certas. Vale a pena ler o livro e aplicar o conteúdo em sua rotina diária. Porém, o cerne da obra é entendermos como os nossos amores dirigem a nossa vida e o nosso pensamento.
Reflita sobre a sua forma de viver, identifique o quanto as coisas que você ama manipulam você. Diante disto, busque sempre colocar Deus no centro de tudo, sem esquecer que este exercício de autoavaliação é diário, já que o autoengano faz parte da nossa vida.
Bibliografia
SMITH, James K. A. Você é aquilo que ama: O poder espiritual do hábito. São Paulo: Vida Nova, 2017.
-
EVANGELHO DILUÍDO
Não é incomum vermos pastores e líderes cristãos deturpando a palavra de Deus em nome de propósitos pessoais. Sem contar com aqueles pastores que são despreparados e que interpretam a Bíblia de forma equivocada, construindo assim, as mais contraditórias e antibíblicas teologias.
Por isso, estudar e conhecer a palavra é fundamental, para não cairmos nestas armadilhas, como eu sempre afirmo. A Bíblia é a palavra de Deus e ela tem a sua mensagem, que em alguns momentos, nos confronta. Aceitar isso é o caminho para seguirmos fazendo a vontade de Deus.
Misturar a palavra de Deus com os nossos pontos de vista, buscando desta forma, deixá-la mais agradável ou mesmo para se adequar a um determinado propósito, não é só um erro, mas também uma ação perigosa. É como misturar veneno em um bom vinho. Inácio de Antioquia complementa explicando que:
“Aqueles que, para terem crédito, misturam Jesus Cristo consigo mesmos, são como aqueles que oferecem veneno mortal misturado com vinho melado. O incauto o toma com prazer, mas nesse prazer nefasto lhe dá a própria morte” (1995, p. 99).
É interessante que, quando uma bebida é bem doce, não percebemos direito o sabor ao certo e muito menos percebemos se há algo diferente misturado ao líquido. O excesso de açúcar disfarça e mascara o sabor. No evangelho, o problema não é muito diferente deste. Alguns conceitos equivocados, diluídos com a mensagem bíblica, se assemelham à palavra de Deus, mas são venenos, meros conceitos pessoais misturados com o evangelho.
Quando o ser humano mistura um pouco de si ao ensino bíblico, diluindo a mensagem de Deus para deixá-la palatável, ele deturpa um ensino que serve para nos instruir e endireitar a nossa vida. Sendo que, em muitos momentos, a mensagem confronta a nossa vida e nos leva a seguirmos em direção à mudança, nem tudo na palavra de Deus é agradável. Por isso, não podemos ler só o que gostamos na Bíblia, muito menos diluir o evangelho, para agradar mais pessoas, como muitos pastores fazem hoje em dia. A nossa missão é ensinar a mensagem como ela é, sem qualquer máscara ou disfarces.
A palavra de Deus é o nosso norte, é a sua mensagem que nos direcionará para o centro da sua vontade, por isso que conhecer a Bíblia é fundamental, para não cairmos em ciladas. Para não bebermos veneno, achando que estamos ingerindo um bom vinho.
Agradeço a Deus por todos os ensinos que me confrontaram e me levaram a mudar de vida. Seguir fazendo a vontade de Deus é realmente o melhor caminho, mesmo não sendo tão fácil.
A boa mensagem nos alimenta, ensina e corrige a nossa vida, já o veneno engana e nos direciona aos caminhos errados. Ensinos que estão distantes da mensagem de Deus, sendo uma mera imitação, uma falsificação do verdadeiro evangelho.
Tome sempre cuidado com aquelas pregações onde o ser humano está sempre no centro ou mesmo os nossos desejos e sonhos. Isso não pode moldar a mensagem. A palavra de Deus aponta para um caminho e nos desafia a mudarmos de vida. O que passa disso é um evangelho diluído em opiniões pessoais.
Bibliografia
QUINTA, Pe. Manoel (ed.). Patrística: Padres Apostólicos. São Paulo: Paulus, 1995.
-
O SEGREDO DA CAMINHADA: O CONTENTAMENTO NA VIDA CRISTÃ
Se olharmos para a nossa vida de uma maneira mais realista, notaremos como tudo possui um potencial de nos afastar de Deus, tanto as coisas boas quanto as ruins. É por conta disto que repito constantemente que a caminhada cristã é uma prática diária, uma constante reflexão e busca.
Não é fácil enfrentar problemas, em meio ao caos, doenças e falta, é inevitável nos perguntarmos onde Deus está nestes momentos. A dúvida é uma companheira e ela insiste em colocar incertezas em nossa fé. Em contrapartida, os momentos bons e de sucesso também nos fazem esquecer de Deus. Em dias de vitória, onde o eu é exaltado, muitos caem na armadilha de se colocarem como especiais, se esquecendo de Deus e de como Ele é o centro da nossa vida. Gosto de um texto da Epístola de Paulo a Filipenses, justamente porque ele aponta como aprendeu a viver em ambas as situações:
“Não estou dizendo isso porque esteja necessitado, pois aprendi a adaptar-me a toda e qualquer circunstância. Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade. Tudo posso naquele que me fortalece” (Filipenses 4:11-13) (NVI).
Note como Paulo fala que aprendeu a passar tanto por períodos de necessidade quanto de fartura (v. 12), visto que ele entendeu que, em ambos os momentos, podemos nos afastar de Deus pela falta da postura correta. É fácil reclamarmos em meio aos problemas e nos afastarmos de Deus, em meio aos dias de abundância. Saber passar pelas duas situações é fundamental.
Nesta passagem, Paulo tem como prioridade agradecer aos donativos que a igreja enviou a ele e também enfatizar que depender de Deus e não da ajuda humana é um princípio espiritual fundamental. E o apóstolo é tão hábil em fazer isso, que este versículo se tornou um marco (CARSON et al., 2012,p. 1891).
A palavra contente, no grego, é “autarkes”, e significa “autossuficiência”, isto é, “contentamento”. Nesta passagem, Paulo usa uma expressão usada pelos filósofos estoicos, visto que, a “autossuficiência” é o princípio-base desta escola filosófica, é um modo de viver onde os estímulos e fatos externos não têm poder de atrapalhar a paz da pessoa (CHAMPLIN, 2014, p. 87). A grande diferença do apóstolo e destes filósofos era que a sua paz, a sua autossuficiência vinha de Cristo (v. 13), ao contrário da autossuficiência dos estoicos. É na força e no poder de Jesus que podemos passar por todas as intempéries. Francis Foulkes complementa:
“O segredo da vida de Paulo não era nada secreto, mas aberto a todos que seguissem o caminho de Cristo. Era um segredo de contentamento, visto que conhecer a Cristo e ser chamado a servi-lo eram “insondáveis riquezas” (Ef 3.8)” (CARSON et al., 2012, p. 1892).
Os desafios da vida insistem em nos derrubar e nos levar a perdermos as nossas esperanças. É fácil se desesperar e sentir que tudo está perdido e que você está abandonado. Ao mesmo tempo que não é raro vermos muitos homens se esquecerem de Deus ao viverem em meio à fartura. Mas o grande segredo que Paulo nos ensina é que o nosso contentamento precisa estar alicerçado primeiramente em Jesus. É ele que nos fortalece e é em Cristo que a nossa vida precisa estar alicerçada.
A verdadeira autossuficiência está em Jesus, Ele é o princípio da vida equilibrada. Sem Ele, certamente nos perderemos nos mares do exagero e do descontentamento que o mundo constrói.
“Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece” (Filipenses 4:13) (ACF).
Bibliografia
CARSON, D. A.; FRANCE, R. T.; MOTYER, J. A.; WENHAM, G. J. Comentário bíblico Vida Nova. 1. ed. São Paulo: Vida Nova, 2012.
CHAMPLIN, R. N. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo: Volume 5. São Paulo: Hagnos, 2014.
FOULKES, Francis. Filipenses. In: CARSON, D. A.; FRANCE, R. T.; MOTYER, J. A.; WENHAM, G. J. Comentário bíblico Vida Nova. 1. ed. São Paulo: Vida Nova, 2012.
-
INTRODUÇÃO À HERMENÊUTICA AGOSTINIANA
A Bíblia é um livro que necessita de interpretação, sendo que a hermenêutica é uma disciplina que estuda métodos de compreensão e interpretação de textos. E para aqueles que querem entender mais a palavra de Deus, é imprescindível ter acesso a estas ferramentas.
Sobre a interpretação bíblica, Agostinho de Hipona foi um pensador que escreveu um livro chamado A doutrina cristã, o qual é um manual que ajuda o leitor a interpretar a Bíblia. Nesta obra, ele expõe o seu método de interpretação, sendo que o artigo que escrevi aborda justamente a interpretação bíblica de Santo Agostinho a partir deste importante livro.
O artigo se chama: Introdução a hermenêutica agostiniana, e foi publicado em 2022 na revista STVDIVM do Instituto Quero Saber.
Link do texto:
-
DESAFIOS DA ESPIRITUALIDADE CRISTÃ VII: O DESISTIR BÍBLICO E A VIDA CRISTÃ
Desistir é visto por muitos como algo negativo, é a atitude de pessoas fracas, bom mesmo é resistir e perseverar. Entretanto, existem momentos onde desistir não é fracassar, na verdade, pode ser o melhor passo que alguém pode dar em algumas ocasiões. Algumas vitórias dependem de largarmos certos pesos, assim sendo, desistir se faz necessário, como muito bem explicam Geri e Peter Scazzero no livro Eu desisto!
A obra inicia explicando qual é o tipo de desistência de que eles estão falando. E não se trata de ser fraco e jogar tudo para o alto, mas abandonar as ilusões, parar de fingir que está tudo bem e ser verdadeiro, quando a sua vida não está boa (SCAZZERO et al., 2014).
O próprio desistir bíblico, ou seja, deixar para trás o velho homem, o pecado e tudo o que nos afasta de Deus é uma atitude essencial. Nestas ocasiões, desistir é fundamental (SCAZZERO et al., 2014). Sobre o desistir bíblico, Geri Scazzero explica que:
“Desistir trata-se de morrer para as coisas que não são de Deus. Não se engane, essa é uma das coisas mais difíceis que fazemos por Cristo. Mas a boa notícia é que o desistir em si não é o fim; é também o início. O desistir bíblico é o caminho de Deus para a ressurreição, para que surjam coisas novas em nossa vida” (SCAZZERO et al., 2014, p. 21).
É preciso morrer para tudo o que não agrada a Deus, a vida cristã é um morrer para as coisas do “mundo” e viver para Deus. Quando desistimos de tudo o que é errado, conseguimos perseverar nas coisas certas.
Sobre o tema desistir, o livro explica como muitas coisas que fazemos têm outras motivações, como, por exemplo: temer o que os outros pensam de nós, e, diante disso, acabar agindo e fazendo coisas só para manter uma aparência. Ou se sobrecarregar de tarefas, que, na maioria das vezes, não precisamos fazer sozinhos. No livro, eles falam de oito coisas importantes que precisamos desistir, e os outros tópicos que eu não mencionei são: desistir de mentir, de morrer pelas coisas erradas e alguns outros fundamentais temas, mostrando como é necessário desistirmos para conseguirmos chegar em algum lugar.
Muitos acabam não conseguindo realizar inúmeros planos justamente porque não largaram no meio do caminho, bagagens inúteis, que só atrapalham a caminhada. Geri, mais uma vez, enfatiza que:
“Desistir ensinou-me a ser leal às coisas certas” (SCAZZERO et al., 2014, p. 23).
Ou aprendemos a desistir, ou seguiremos sobrecarregados, carregando fardos que não são nossos ou que podem ser divididos com outros. Gosto de quando os autores falam de limites, do quanto os limites são princípios fundamentais, são dádivas divinas. Sendo que toda a criação, bem como todo o ser humano, possui estes limites. O homem não é uma máquina que funciona sem parar (SCAZZERO et al., 2014). Diante desta verdade, precisamos ter limites e desistir de tudo o que não é da nossa responsabilidade.
O livro é essencial, ele nos ensina a arte de termos responsabilidade com a nossa vida, ministério e saúde. Ele aconselha os cristãos a ajudarem uns aos outros, mas também a entender que nem tudo é da nossa responsabilidade e ajudar, não é assumir o problema do próximo.
Viver em comunidade é uma das características do cristianismo, por isso que aprender a conviver e colocar limites é imprescindível, sendo que o livro fala muito da importância deles, para podermos frutificar no ministério que Deus nos deu.
É possível ver alguém muito atarefado, ativo na obra, mas que segue sem fazer o que Deus quer que ele faça no reino, ou mesmo que faça a obra desleixadamente por conta das suas muitas atividades. Entender isso é perceber o quanto o ativismo na igreja nos separa do propósito de Deus e aprender a delegar as responsabilidades é fundamental. Seja na igreja, família ou em outras áreas.
Não é possível fazermos com qualidade inúmeras coisas, por isso que desistir e aprender a dividir as tarefas é imprescindível.
Bibliografia
SCAZZERO, Geri.; SCAZZERO, Peter. Eu desisto!: Pare de fingir que está tudo bem e mude de vida. São Paulo: Editora Vida, 2014.
-
A INCERTEZA DA VIDA INCERTA
Aprendi, ainda novo, como é indispensável alguém sempre relembrar de onde ele veio. Tal prática é ótima para as pessoas conseguirem manter os seus pés firmes no chão, afinal, é impossível não termos um coração grato, quando recordamos as nossas origens e onde estamos hoje.
Para quem veio de uma família pobre, relembrar o passado ajuda a pessoa a valorizar as coisas que tem e ser grato a Deus por isso. Já aqueles que vieram de uma família abastada, tal recordação ajuda o indivíduo a ser agradecido por todas as oportunidades que teve na vida. Uma lição aprendida não tem preço e relembrar o passado ajuda a recordarmos estas lições para não repetirmos os mesmos erros.
Em contrapartida, viver no passado é seguir atrasado, quem vive somente olhando para trás, não avança e segue sempre parado no tempo. O mesmo problema tem quem apenas olha para o futuro e não vive o momento, cultivando medos de coisas que ainda nem aconteceram, prevendo um caos, que não existe. Sêneca afirma que:
“Muito breve e bastante agitada é a vida daqueles que se esquecem do passado, descuidam do presente e temem o futuro. Ao chegarem ao termo final da vida, então, tardiamente, vão entender como são infelizes, já que seus dias afanaram-se em nulidades” (SÊNECA, 2007, p. 63).
Transformamos a nossa vida em uma breve existência, quando não aprendemos a viver de forma equilibrada, fugindo dos excessos. Perceba também como relembrar o passado, de um modo centrado e comedido, é muito importante para não esquecermos de onde viemos. E pensar no futuro, sem medo, confiando sempre em Deus, é igualmente necessário. Caso contrário, podemos ser roubados por inúmeras frivolidades.
Aprenda a viver o hoje, descubra maneiras de ser equilibrado, cuidando da sua carreira e futuro, mas sem afastar seus olhos do presente. Caso contrário, você permanecerá paralisado por coisas que nem existem, ou por meras projeções da sua mente. Muitos dos nossos medos são frutos de projeções equivocadas.
A vida tem aquele ar de incerteza, já que nada é para sempre. Sendo assim, precisamos ter planos, metas e projetos, mas sempre de um modo realista, já que nada é eterno. É perigoso vivermos apenas para os planos e nos esquecermos do hoje, das coisas que estão acontecendo e que podemos aproveitar. Saber planejar, mas também vivenciar o hoje é muito importante.
A palavra que precisamos memorizar é “equilíbrio”, é dosar bem os nossos planos, escolher com cuidado as preocupações e não seguir desmedidamente, já que viver é para hoje, e amanhã pode ser muito tarde.
O medo nos coloca em um limbo, o excesso de planejamento e cuidado com o futuro nos faz perder o hoje, as coisas que estão acontecendo e que podemos aproveitar. No final, perceba a importância do equilíbrio na sua vida. Preocupe-se de modo coeso, lembrando que viver é estar no presente.
É quando conseguimos ser realistas e dosar as nossas preocupações que conseguimos viver, planejando de modo coeso, mas também vivendo e desfrutando do hoje.
BIBLIOGRAFIA
SÊNECA. A brevidade da vida. São Paulo: Editora Escala, 2007.
-
MEDITAÇÃO CRISTÃ
Não é raro termos dias corridos nesta nossa sociedade atual, a pressa é o ritmo dos nossos dias e, por conta disso, muitas vezes levamos a pressa conosco, em nossos devocionais. Por isso, precisamos aprender a separar um tempo de qualidade para oração e leitura bíblica e assim mantermos viva a nossa vida espiritual.
Muitos leem a Bíblia somente para cumprir um protocolo e poder falar que a lê diariamente. Outros oram de uma forma tão rápida, apenas para seguir uma convenção. E no final, estas importantes práticas diárias, viram ações mecânicas.
A leitura e a oração são práticas importantes para todos os cristãos. É primordial lermos e meditarmos na palavra de Deus, além de orar. Mas aprender a ter este momento sem qualquer pressa, é uma prática também imprescindível, principalmente em nossos dias que são cada vez mais corridos e conectados. Parece que o ser humano hoje não desliga nunca, e acaba sem priorizar o seu momento com Deus. Gosto da definição que Richard Foster faz sobre meditação cristã:
“A meditação cristã, numa definição simples, é a capacidade de ouvir a voz de Deus e obedecer à sua vontade” (2018, p. 47).
Com isso, para conseguirmos ouvir a voz do nosso soberano Pai, precisamos entender como a pressa atrapalha a nossa meditação. Por isso, busque separar um tempo, acorde mais cedo e construa um momento para meditar e praticar este tempo importante. Aprenda a ter períodos desligados de distrações, de redes sociais e quaisquer equipamentos que tirem o seu foco principal. Priorizar a Deus e a sua palavra é uma questão de atitude, de posicionamento.
Normalmente, no momento em que acordo, eu já agradeço a Deus pelo meu dia, em uma breve oração de agradecimento. E depois do café, começo o meu período de devocional. Meditar é fundamental, tirar um tempo para ficar em silêncio e refletir sobre o que lemos é uma ação importante, que nos ajuda a guardarmos e entendermos a palavra de Deus, internalizando todo o ensino. Procuro ler sempre capítulos curtos da Bíblia ou mesmo dividir um texto grande em várias partes, visto que o propósito principal é conseguir reter o máximo de conteúdo e depois meditar naquela parte do texto bíblico. Normalmente leio, desta forma, todos os livros da Bíblia, buscando sempre meditar nos ensinamentos sem pressa alguma. Richard Foster novamente complementa, falando do ócio santo:
“Os pais da Igreja falavam com frequência sobre o Otium Sanctum, o “ócio santo” — o senso de equilíbrio na vida, a capacidade de se apaziguar em meio às atividades do dia, a habilidade de descansar e deter-se para admirar a beleza, a aptidão de manter um ritmo compassado” (2018, p. 59).
Por conta do nosso dia corrido, muitas vezes esquecemos de valorizar estas práticas importantes para todos os cristãos. Mas o caminho é aprender a criar estes momentos sem negociar este período com qualquer outra coisa.
Cultivar estes momentos de ócio, de meditação e reflexão, ajudará você a construir equilíbrio e um período de reflexão e de solidão com Deus. Fugir destes dias eternamente conectados e apressados, é imprescindível para aqueles que buscam crescer e serem bons cristãos.
Em vista disso, seja intencional e construa este período de secreto com Deus, cultivando um pouco do ócio santo, se desligando de todas as atividades e coisas que roubem o seu momento com Deus. E neste tempo, aprenda a descansar no senhor, meditar na sua palavra e ouvir a sua voz sem pressa alguma.
Bibliografia
FOSTER, Richard. Celebração da disciplina: O caminho do crescimento espiritual. 2. ed. São Paulo: Editora Vida, 2018.
-
DESEJANDO O SABER
A nossa vida é muito cheia de estímulos, a internet, bem como todas as redes sociais, proporcionam constantes informações e interações. Checar as notificações do celular tem sido o vício que hoje o ser humano está totalmente vulnerável.
Eu gosto muito de estudar, ler e pesquisar, a busca pelo conhecimento é uma das minhas maiores alegrias, como eu sempre falo aqui no site, embora confesse que, até para mim, às vezes não é fácil. Conciliar todos os estímulos, com a minha rotina de estudos e leitura, requer ferramentas e soluções, para não ser engolido pelas constantes notificações.
Algumas pessoas são movidas pela ânsia em ter segurança e condições financeiras, gastando seu tempo e dinheiro estudando para passar em um concurso público ou mesmo em uma universidade pública. Outros, seguem esta empreitada pelo simples desejo de ter um sonhado diploma e depois poder arranjar um bom emprego. Já o intelectual, normalmente, é movido pela sede de conhecimento, não há outro motivo em um país que não investe tanto em pesquisa. Sertillanges em seu clássico livro A vida intelectual, diz:
“O desejo de saber define nossa inteligência como potência vital. Instintivamente queremos conhecer, como queremos pão” (2019, p. 76).
O desejo pelo saber é determinante, ele nos ajuda a superar todas as desculpas que costumamos usar para evitar a rotina de estudos. Não é fácil manter tal rotina, pois estudar e construir o saber é uma empreitada lenta que demora para oferecer seus frutos.
Quem deseja mergulhar no saber deve deixar as desculpas de lado e caminhar neste propósito, buscando sempre ferramentas e métodos de aprimoramento que ajudarão em sua busca pelo aprendizado. É como o ditado popular diz:
“Quem quer faz, quem não quer arranja desculpas”.
Ou você aprende a transpor os obstáculos para se dedicar nesta árdua, mas prazerosa tarefa, ou segue dando desculpas, culpando tudo e todos pelo seu insucesso.
Não é fácil cultivar o hábito da leitura em um mundo hiperconectado, e muito menos é simples montar uma rotina de estudo e pesquisa, em meio a tanta distração, mas basta foco e persistência, para você ver os frutos de seu esforço, ao invés de focar nas desculpas.
O intelectual é alguém que deseja muito o saber, este é a sua maior motivação, o combustível que fará com que ele siga em constante busca. Este desejo é a potência que define a nossa missão e constrói o nosso conhecimento.
Sem esta sede, sucumbimos e gastamos os nossos dias em coisas que não trazem fruto algum!
BIBLIOGRAFIA
SERTILLANGES, A. D. A vida intelectual. Campinas: Editora Kírion, 2019.
-
DESAFIOS DA ESPIRITUALIDADE CRISTÃ VI: A ESPIRITUALIDADE CRISTÃ E AS EMOÇÕES
Alguns sentimentos são vistos por determinados cristãos como negativos e não bíblicos. E a ira, a tristeza e o medo figuram como os principais. O verdadeiro cristão não tem tais sentimentos, falam estas pessoas.
O problema é quando abrimos a Bíblia e encontramos homens de Deus em momentos de ira, medo ou tristeza. Cristo mesmo se sentiu angustiado um pouco antes de morrer na cruz (Lucas 22:44), Ele também chorou (João 11:35) na frente de todos. Sem contar que temos um livro da Bíblia chamado Lamentações e muitos Salmos de Davi, com lamentos e tristezas de homens de Deus, que não tinham medo de expor suas dores. É fundamental entendermos que tais sentimentos são genuínos, saber gerenciar coerentemente estas emoções, ao invés de escondê-las, é o grande segredo.
Geri Scazzero (2014) no livro Eu desisto, argumenta que hoje as pessoas têm se mostrado analfabetas emocionais, justamente porque não sabem lidar com suas emoções e insistem em se distanciar e até esconder estes genuínos sentimentos.
No fundo, o ser humano hoje tem sentido medo de parecer vulnerável, insuficiente e fraco, entretanto, mascarar tais emoções nos prejudica ainda mais. Somos seres humanos, falíveis e fracos, mas que insistem em se mostrar intocáveis. Aprender a lidar com os nossos sentimentos, na verdade, nos fortalece. E cada uma das emoções aponta para áreas e realidades que precisam ser trabalhadas.
Com uma habilidade incrível, Geri consegue mostrar os lados positivos dos sentimentos vistos como negativos. A ira, por exemplo, revela como, em muitos momentos, alguns limites pessoais podem estar sendo afrontados. E são nestes momentos que o ser humano precisa se autoavaliar e buscar entender quais coisas importantes estão sendo ultrajadas para assim colocar limites (SCAZZERO et al., 2014, p. 97). Geri Scazzero explica que:
“Diz-se que a ira é um “sentimento secundário”. A ira geralmente coexiste com outros sentimentos tais como dor, tristeza, decepção e vergonha. Por isso, explorar essas emoções mais profundas e vulneráveis é essencial para lidar com a ira de modo maduro” (SCAZZERO et al., 2014, p. 98).
Assim sendo, buscar o autoconhecimento para entender quais são as coisas que nos tocam e os limites que muitos ultrapassam é muito importante para aprendermos a agir com sabedoria em um momento de ira.
A tristeza é outro sentimento genuíno que muitos cristãos tentam negar. Mas ficar triste e lamentar não é nada errado. Como afirmei no começo do texto, Salmos e lamentações são livros com desabafos e lamentos. E temos um Deus, que podemos derramar o nosso coração de modo sincero e genuíno.
Por fim, temos o medo, visto por alguns, como um verdadeiro pecado. Mas o medo é um sentimento natural quando estamos em meio ao perigo ou às ameaças, e a Bíblia também fala de muitos profetas e homens de Deus, que sentiram medo, mas seguiram confiando em Deus. Como Moisés, que aos 80 anos precisou enfrentar o Faraó. Davi e o seu embate com Golias em meio a muitos que afirmavam que ele não poderia vencer aquele gigante, entre tantos exemplos que a palavra de Deus nos oferece (SCAZZERO et al., 2014, p. 107). O nosso desafio é identificá-los e colocar todos nas mãos de Deus para seguirmos a nossa missão. Geri complementa:
“Cada um desses exemplos bíblicos nos ensina que coragem não é ausência do medo. Pelo contrário, é a capacidade de pensar e agir apesar dos nossos medos, é avançar sobre eles por causa de uma visão mais ampla de Deus” (SCAZZERO et al., 2014, p. 108).
Não existe problema algum com o medo, sendo que é possível até termos ações mais cuidadosas, por conta dele. Coragem é agir, apesar do medo, confiando sempre no cuidado de Deus.
Ao meditarmos de forma bem realista sobre estas emoções, constatamos que sentir não é um problema, o problema é paralisar em meio a estes sentimentos. Saber vivenciar tais momentos de modo genuíno, sem ficar ancorado em tais situações, é o grande segredo.
Tudo vai do seu posicionamento e como você trata estas emoções. Não podemos negá-las e muito menos ser paralisados por elas. É possível sentir e seguir, confiando que Deus está caminhando conosco.
Bibliografia
SCAZZERO, Geri.; SCAZZERO, Peter. Eu desisto!: Pare de fingir que está tudo bem e mude de vida. São Paulo: Editora Vida, 2014.
-
FALSA SEGURANÇA
Conheci alguém há algum tempo que era muito competitivo, e costumava falar que não entrava em uma competição para perder. No final, ele quase sempre vencia honestamente ou não, o importante, segundo ele, era vencer. E quando perdia, ficava muito bravo, era difícil para este indivíduo aceitar uma derrota.
A parte perigosa da personalidade desta pessoa era que nunca se satisfazia com uma vitória somente. Logo o efeito da vitória passava e ele precisava de mais, em uma insaciável busca pela glória, era uma espécie de droga.
Tal cenário é muito comum entre empresários, esta sede de realizar e vencer é constante e esconde um vazio no coração. É muito prazeroso poder colocar em prática projetos e ver um plano dar certo, o perigo, apenas, é cair naquele erro de acreditar que somos invencíveis, que somos superiores aos outros. Isso coloca o ser humano em um pedestal, fazendo-o crer ser intocável, fato que com o tempo descobrimos ser um grande engano. O ser humano é realmente pequeno e frágil, o menor sinal de instabilidade planta em seu coração inúmeras preocupações. Timothy Keller resume muito bem este problema, quando afirma que:
“A falsa sensação de segurança origina-se da deificação de nossa realização e da expectativa de que ela nos mantenha protegidos dos problemas da vida de um modo que só Deus consegue fazer” (2018, p. 94).
A busca por estabilidade e segurança em qualquer coisa fora de Deus só demonstra uma sede humana, que faz parte da história e das características de todos os homens pecadores. O ser humano sem Deus é vazio, além de frágil. É por isso que entendo ser essencial cultivarmos uma vida equilibrada e fugirmos de algumas armadilhas que o dinheiro e o poder constroem para nós.
E eu acredito que a busca pela simplicidade e o equilíbrio é justamente o caminho para fugir das armadilhas do poder. Quando vivemos uma vida simples, e acima de tudo, com a nossa vida fundamentada na palavra de Deus, conseguimos escapar desta perigosa sensação de autossuficiência.
Muitos precisam sempre vencer para preencher alguns buracos na alma. O problema é que os aplausos duram pouco, por isso, o ser humano sempre precisará de mais. Buscar na realização pessoal algo que apenas Deus pode dar é um erro. O homem quer estar completo e seguro, mas busca a segurança em coisas finitas, por isso, precisa estar sempre repondo e realimentando a sua sensação.
Aprendi que, independentemente das vitórias e fracassos, é em Deus que a minha vida está fundamentada. Sou grato a Ele por tudo e hoje entendi que alguns vazios só o nosso Pai eterno pode completar.
O ídolo do poder é sutil, ele entra em nossa vida com aquele ar de merecimento, você chegou onde está porque mereceu. E em alguns casos isso pode até ser verdade, visto que você pode ter se dedicado muito para galgar algumas conquistas em sua vida. O problema é que gradualmente o poder toma o lugar de Deus, ao dar aquele ar de segurança e proteção. E com o tempo, se não tomarmos cuidado, as conquistas e nossas vitórias viram deuses e divindades protetoras.
Por isso, coloque os seus planos sempre nas mãos de Deus e entenda que suas realizações não podem tomar o lugar de Dele. Ou depositamos toda a nossa vida em Suas mãos, ou seguiremos tentando matar uma sede que só o Eterno pode satisfazer.
Não existe segurança alguma fora de Deus e apesar das intempéries, quando Deus está no centro da nossa vida, passamos pelas tormentas e dificuldades seguros Nele.
Bibliografia
KELLER, Timothy. Deuses falsos: As promessas vazias do dinheiro, sexo e poder, e a única esperança que realmente importa. São Paulo: Vida Nova, 2018.
