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  • FALSA SEGURANÇA

    Conheci alguém há algum tempo que era muito competitivo, e costumava falar que não entrava em uma competição para perder. No final, ele quase sempre vencia honestamente ou não, o importante, segundo ele, era vencer. E quando perdia, ficava muito bravo, era difícil para este indivíduo aceitar uma derrota.  

    A parte perigosa da personalidade desta pessoa era que nunca se satisfazia com uma vitória somente. Logo o efeito da vitória passava e ele precisava de mais, em uma insaciável busca pela glória, era uma espécie de droga.

    Tal cenário é muito comum entre empresários, esta sede de realizar e vencer é constante e esconde um vazio no coração. É muito prazeroso poder colocar em prática projetos e ver um plano dar certo, o perigo, apenas, é cair naquele erro de acreditar que somos invencíveis, que somos superiores aos outros. Isso coloca o ser humano em um pedestal, fazendo-o crer ser intocável, fato que com o tempo descobrimos ser um grande engano. O ser humano é realmente pequeno e frágil, o menor sinal de instabilidade planta em seu coração inúmeras preocupações. Timothy Keller resume muito bem este problema, quando afirma que:

    “A falsa sensação de segurança origina-se da deificação de nossa realização e da expectativa de que ela nos mantenha protegidos dos problemas da vida de um modo que só Deus consegue fazer” (2018, p. 94).

    A busca por estabilidade e segurança em qualquer coisa fora de Deus só demonstra uma sede humana, que faz parte da história e das características de todos os homens pecadores. O ser humano sem Deus é vazio, além de frágil. É por isso que entendo ser essencial cultivarmos uma vida equilibrada e fugirmos de algumas armadilhas que o dinheiro e o poder constroem para nós.

    E eu acredito que a busca pela simplicidade e o equilíbrio é justamente o caminho para fugir das armadilhas do poder. Quando vivemos uma vida simples, e acima de tudo, com a nossa vida fundamentada na palavra de Deus, conseguimos escapar desta perigosa sensação de autossuficiência.

    Muitos precisam sempre vencer para preencher alguns buracos na alma. O problema é que os aplausos duram pouco, por isso, o ser humano sempre precisará de mais. Buscar na realização pessoal algo que apenas Deus pode dar é um erro. O homem quer estar completo e seguro, mas busca a segurança em coisas finitas, por isso, precisa estar sempre repondo e realimentando a sua sensação.

    Aprendi que, independentemente das vitórias e fracassos, é em Deus que a minha vida está fundamentada. Sou grato a Ele por tudo e hoje entendi que alguns vazios só o nosso Pai eterno pode completar.

    O ídolo do poder é sutil, ele entra em nossa vida com aquele ar de merecimento, você chegou onde está porque mereceu. E em alguns casos isso pode até ser verdade, visto que você pode ter se dedicado muito para galgar algumas conquistas em sua vida. O problema é que gradualmente o poder toma o lugar de Deus, ao dar aquele ar de segurança e proteção. E com o tempo, se não tomarmos cuidado, as conquistas e nossas vitórias viram deuses e divindades protetoras.

    Por isso, coloque os seus planos sempre nas mãos de Deus e entenda que suas realizações não podem tomar o lugar de Dele. Ou depositamos toda a nossa vida em Suas mãos, ou seguiremos tentando matar uma sede que só o Eterno pode satisfazer.

    Não existe segurança alguma fora de Deus e apesar das intempéries, quando Deus está no centro da nossa vida, passamos pelas tormentas e dificuldades seguros Nele.

    Bibliografia

    KELLER, Timothy. Deuses falsos: As promessas vazias do dinheiro, sexo e poder, e a única esperança que realmente importa. São Paulo: Vida Nova, 2018.

  • A IMPOSIÇÃO DAS MASSAS

    A vida em sociedade pode ser resumida em uma grande e infindável aglomeração de indivíduos. Viver em sociedade é ter que enfrentar diariamente uma copiosa multidão. Quem nunca pegou um ônibus lotado, um congestionamento ou mesmo foi a uma praia abarrotada de banhistas? Mas nem sempre foi assim, como explica José Ortega y Gasset no livro A rebelião das massas.

    Existiu um mundo onde as pessoas viviam divididas em pequenos grupos. Sejam em povoados afastados das cidades, nas aldeias ou bairros. Naqueles tempos, as pessoas viviam menos aglomeradas, contudo, hoje vemos inúmeras multidões em todos os lugares, muito mais do que antes (GASSET, 2016, p. 79).

    Enquanto no passado cada um se concentrava em sua comunidade, vivendo conforme seus costumes e lidando com inúmeras dificuldades que a vida trazia, já que naquela época ninguém tinha tudo, um simples banheiro ou algumas facilidades que temos em nossos dias eram coisas raras. Hoje as pessoas têm tudo, pelo menos muito mais do que antes, e se acham no direito de impor suas opiniões a todos. O acesso criou uma nova forma de pensar nas pessoas.

    O autor define massa como indivíduos que não se valorizam ao ponto de acreditarem serem como todos. Este homem-massa gosta de ser igual à multidão, ele não se sente inferior por conta disso, ao contrário, esta é uma das suas peculiaridades mais latentes (GASSET, 2016, p. 81). Poderíamos dizer que estes são os conformados, aqueles que acreditam que a vida é assim mesmo e todos precisam seguir uma lógica semelhante e aceitar que a vida é assim. E são muitos os que, ao invés de optarem viver conforme querem, optam por seguir a moda, o costume das massas, se moldando, assim, ao costume imposto.

    É impossível não olharmos para os nossos dias e percebermos claramente este fato acontecendo quando grupos vivem segundo o que a moda ou o marketing incentiva. Existem também aqueles que acreditam que todos devem viver segundo as suas crenças e, por isso, exigem uma linguagem neutra, opiniões e costumes impostos, sendo que, quem pensa diferente, eles buscam calar e eliminar da sociedade, como se fosse um erro contestar e pensar diferente. Gasset explica esta dinâmica pontuando que:

    “A massa sufoca tudo que é diferente, magnânimo, individual, qualificado e seleto. Quem não for como todo mundo, quem não pensar como todo mundo, corre o risco de ser eliminado” (2016, p. 84-85).

    Assim sendo, como cristão, eu muitas vezes tenho inúmeros problemas com esta massa, principalmente quando me posiciono contra o aborto; o totalitarismo mascarado em algumas opiniões políticas e assim por diante. A massa não aceita o diferente e tenta impor a sua forma de pensar a todos.

    Viver é decidir, é ser obrigado a usar a nossa liberdade para tomarmos decisões e entendermos o que vamos fazer neste mundo. E isso também serve para a vida coletiva, que disponibiliza um grande horizonte de possibilidades para escolhermos. E nesta sociedade onde temos a possibilidade de escolher nossos governantes, este direito de votar só mostrou como quem escolhe, no final, é o homem-massa. Existiu um tempo em que as massas não podiam decidir, somente aceitavam as escolhas da minoria e seguiam a vida. Hoje precisamos aceitar a opinião da maioria, do homem-massa e colher as consequências (GASSET, 2016, p. 118).

    Apesar de gostar de viver em uma democracia, aceitar que uma boa parte dos nossos atuais problemas é fruto de escolhas ruins de uma massa alienada, que muitas vezes é manipulada em nome de propósitos escusos, é sempre desafiador. Ainda mais em nossos dias, com os governantes tomando atitudes totalitárias como estamos vendo, usando narrativas mentirosas para seguirem vivendo nababescamente enquanto a sociedade passa dificuldade.

    Viver em meio aos homens-massa é assim, sendo esta uma das críticas que o autor traz. A massa decide, aceita narrativas muitas vezes mentirosas e segue segundo a opinião de todos, sem realmente refletir, pensar e decidir por vontade própria. Gasset novamente afirma que:

    “O homem-massa é o homem cuja vida carece de projetos e anda à deriva. Por isso não constrói nada, ainda que suas possibilidades, seus poderes, sejam enormes” (GASSET, 2016, p. 119).

    Esta é a nossa sociedade, pautada na mentalidade daqueles que insistem em seguir a massa, que ouvem e acreditam, sem refletir e pensar, que seguem a correnteza sem ter um pensamento próprio.

    Antigamente, a vida não era fácil, viver era um desafio e envolvia ter que lidar com inúmeras dificuldades. Hoje a vida é fácil, e as pessoas esquecem de ser gratas pelas facilidades da vida, que não existiram em outros tempos. O homem-massa é, antes de tudo, alguém que só pensa em seus direitos e acredita que tudo gira em torno de si, na conhecida mentalidade do menino mimado.

    O que antes era considerado um presente da sorte, que gerava no coração das pessoas uma atitude de gratidão, virou um direito. Hoje em dia, as pessoas seguem muito mais exigindo, se esquecendo de ser grato pelas coisas que possuem (GASSET, 2016, p. 126). Como pontuei, antes não existia o mínimo para alguém viver dignamente ou com algum conforto, por isso que era fácil agradecer pelo pouco que a pessoa conseguia.

    É esta massa, que segue o fluxo do mundo, sem critérios, reflexão e esforço, exigindo seus direitos, mas impondo a sua opinião a todos. E ao olhar para a nossa realidade, fico impressionado como um livro escrito em 1930 consegue descrever com tanta lucidez a realidade da nossa sociedade.

    Bibliografia

    GASSET, José Ortega Y. A rebelião das massas. Campinas: Vide Editorial, 2016.

  • OS DESAFIOS DA MISSÃO INTERNACIONAL

    O cristianismo, desde o seu início, fez a diferença nos países e contextos nos quais esteve inserido, mostrando como o evangelho muda a vida das pessoas e a realidade na qual elas estão presentes. Sem contar que são muitos os projetos missionários que levam não somente a mensagem, mas também ajuda e cuidado às pessoas.

    A parte desafiadora da vida missionária em alguns países é conviver com as perseguições, sendo que muitos acabam pagando com a vida, em nome de obedecer ao chamado cristão de ir pregar o evangelho (Marcos 16:15). Fico impressionado com os relatos de Ronaldo Lidório em um de seus livros, quando ele narra a oração de abertura de um culto em uma igreja perseguida:

    “Senhor, abençoa-nos neste culto e aceita o nosso louvor, pois não sabemos se estaremos vivos para terminá-lo” (2003, p. 78).

    Enquanto ir à igreja é uma prática comum em alguns países, em outros, o culto pode ser pago com a própria vida. Nik Ripken (2017), no livro A insanidade de Deus, narra a história de inúmeros cristãos perseguidos, mostrando como a vida cristã em alguns contextos é desafiadora. Na obra, ele conta sobre a perseguição que ocorria na China, na União Soviética e na África. Sendo que ainda existem perseguições em muitos destes países, devido ao contexto político, mas também religioso, uma vez que em países islâmicos, o cristianismo não é aceito, com isso, cristãos pagam a sua fé em Deus com a sua vida.

    Em locais como a China, Ripken (2017) explica que qualquer compromisso com algo que está acima do estado é visto como uma ameaça, o país está acima de tudo, por isso que as igrejas sofrem perseguições.

    A missão em outros países é realmente grande, a organização internacional Portas Abertas divulga uma série de notícias de cristãos sendo perseguidos em outros países, mostrando uma triste realidade daqueles que servem a Cristo. No e-book gratuito denominado Rota de perseguição, produzido pela instituição, eles listam os treze países mais perigosos para os cristãos. E mais de 380 cristãos têm enfrentado problemas sérios, devido à fé que eles têm em Deus, ou seja, um em cada sete cristãos é perseguido, segundo dados da instituição (PORTAS ABERTAS, 2025). Sobre a lista, a missão afirma que:

    “O Top 13 da Lista Mundial da Perseguição é formado pelos países onde a perseguição aos cristãos atinge o nível extremo. Nesses locais, seguir a Jesus envolve risco de discriminação, agressão, prisão e morte” (PORTAS ABERTAS, 2025, p. 4).

    Entre os países perseguidos estão: a Coreia do Norte, Somália, Iêmen, Líbia, entre outros (PORTAS ABERTAS, 2025). Por isso, orar por estes países e buscar envolver a igreja para ajudar é essencial.

    O e-book resume algumas informações essenciais sobre a perseguição nestes países e também várias fotos e declarações de cristãos perseguidos, e uma delas é a declaração de Fatemeh, uma cristã que vive no Irã, um país predominantemente islâmico, onde ela diz que:

    “No Irã, o governo vê nossa fé como uma ameaça. Nós vivemos sob constante vigilância e enfrentamos diferentes tipos de pressão” (PORTAS ABERTAS, 2025, p. 13).

    Orem por estes cristãos, divulguem estes dados e envolvam a igreja nesta importante missão. Que Deus nos ajude a apoiá-los e que o evangelho faça a diferença nestes lugares.

    Bibliografia

    LIDÓRIO, Ronaldo. Missões: O desafio continua. Belo Horizonte: Betânia, 2003.

    PORTAS ABERTAS. Rota da Perseguição. São Paulo: Missão Portas Abertas, 2025. Disponível em: https://missao.portasabertas.org.br/ty-rota-da-perseguicao. Acesso em: 27 out. 2025.

    RIPKEN, Nik. A insanidade de Deus: Uma verídica e impactante história sobre a perseguição aos cristãos. Barueri: Ágape, 2017.

  • INTOLERÂNCIA CONTRADITÓRIA

    Existe uma diferença bem grande entre as igrejas que procuram incentivar seus membros a viverem uma vida de santidade, acompanhando e apoiando as pessoas, auxiliando-as a conseguirem imitar a Cristo. Daquelas igrejas que tentam impor, segregar e humilhar aqueles cristãos que falham. É um grande desafio ser cristão, às vezes, em meio à caminhada, cometemos erros.

    A tolerância foi um dos grandes presentes que recebi de uma igreja que frequentei por anos. O pastor não demorava em apoiar e dar uma nova chance àqueles que cometiam erros. Por conta disso, muitos cresceram e aprenderam a seguir o evangelho de modo genuíno.

    O ponto importante sobre a tolerância é justamente entender que só é tolerante aquele que entende que todo mundo erra, inclusive ele. O pastor ou o líder que têm esta mentalidade normalmente é flexível. A consciência da falibilidade humana gera um espírito paciente.

    Lembro-me de um amigo que foi pedir ajuda para este mesmo pastor, em uma área em que ele (o pastor) também tinha dificuldade. E este amigo ficou admirado com a sinceridade do pastor ao confessar a mesma falha e, neste caso, ele conseguiu ajudar ainda mais o amigo com a troca de experiências e ainda quebrar aquela visão errônea que muitos têm em acreditar que todos os pastores são perfeitos. Saber que não somos os únicos a passar por certas dificuldades nos ajuda, além de termos o apoio de quem entende bem nossos desafios.

    O tolerante é alguém consciente e clemente, por entender a condição humana e se colocar como apoio e não como juiz inclemente. Normalmente, em ambientes onde os líderes são intolerantes, uma boa parte dos membros acaba sendo tolhido de falarem dos seus erros e por isso, estes nem sempre conseguem mudar e o ambiente acaba se tornando tirânico, onde o diálogo e a mudança não existem. Augusto Cury fala sobre isso, quando pontua que:

    “Quando não existe tolerância e afetividade, o melhor dos ambientes, mesmo que religioso, é tirânico” (2006, p. 65).

    Onde não há espaço para sermos quem somos e não há apoio para mudarmos e crescermos espiritualmente, também não há verdade. No final, são apenas pessoas interpretando um papel, usando máscaras para esconder suas reais aparências.

    E a igreja, por ser um hospital de almas, precisa ser um lugar onde falar das dificuldades seja algo comum, sendo este o primeiro passo da mudança. Confessamos para buscar a cura, enquanto nos apoiamos mutualmente, para conseguirmos vencer as nossas dificuldades. Só mudamos quando confessamos os nossos erros e seguimos na busca por mudança.

    Não existem líderes infalíveis, todo mundo erra, sendo que o intolerante acaba errando duas vezes. Primeiro por não confessar que é falível; segundo, por não dar espaço para os irmãos se confessarem e tratarem suas dificuldades. Uma igreja saudável é um local de compreensão e apoio.

    Uma igreja precisa ser primeiramente bíblica, a palavra de Deus deve estar sempre no centro da comunidade e também precisa ser um espaço de apoio e cura. Um lugar onde confessar nossos erros e sermos acompanhados seja uma prioridade.

    Bibliografia

    CURY, Augusto. Os segredos do Pai-Nosso: A solidão de Deus. Rio de Janeiro: Sextante, 2006.

  • MENTALIDADE REVOLUCIONÁRIA

    Fui adepto da filosofia anarquista quando era jovem, por acreditar que o mundo estava todo errado e que era preciso nos unirmos para mudarmos a sociedade e brigarmos por mais liberdade. Todos estavam equivocados e não percebiam isso, só nós e quem concordava conosco, eram os que estavam certos e aptos para fazer mudanças. O governo era opressor, mas militávamos pela liberdade.

    Percebam o perigo da mentalidade militante, o cerne do pensamento é crer que somente um lado está certo e o outro não. Que a sociedade não está percebendo seus erros e contradições, somente eles. Este princípio impede o diálogo e a construção de soluções, que normalmente são complexas. É claro que tanto um lado quanto o outro podem estar errados, por isso que o diálogo é importante. Problemas sociais são complexos por natureza, para resolvê-los é essencial muita discussão e troca de experiências. 

    Olavo de Carvalho fala da mentalidade revolucionária e foi inevitável lembrar deste meu passado anarquista, quando ele fez a sua exposição. Ele explica que a mentalidade revolucionária é um evento histórico, possível de ser verificado e estudado através dos documentos e fatos que os mais de cinco séculos disponibilizaram para nós. Sendo que é muito mais um princípio mental e psicológico do que político. É uma maneira de pensar e um estado de espírito de indivíduos que creem que são aptos a corrigir a sociedade ou mesmo, a natureza humana, através de suas práticas políticas; quem tem esta mentalidade revolucionária acredita serem portadores de um futuro melhor e estão acima de qualquer julgamento (2014, p. 186–187).

    Percebemos este fato quando lemos sobre a Revolução Russa de 1917, que usou o desgaste do czarismo na Rússia e toda a insatisfação política da época para implantar o seu regime, que terminou por instituir muito mais injustiças através do seu regime político. O czar Nicolau II cometeu muitos erros, contudo, os bolcheviques, que ganharam o poder após a revolução, também instauraram uma grande calamidade no país, em nome de um ideal. Olavo complementa, dando ênfase justamente neste ponto:

    “Autoglorificação do super-homem, a “mentalidade revolucionária” é totalitária e genocida em si, independentemente dos conteúdos ideológicos de que se preencha em diferentes circunstâncias e ocasiões” (2014, p. 187).

    Muitas injustiças foram feitas em nome do “bem” e de causas genuínas, tudo porque indivíduos creram que suas receitas consertariam o mundo. Usei como exemplo a Revolução Russa, mas é possível constatar o mesmo em outras revoluções e movimentos políticos, que insistem em impor uma forma de pensar. Sendo que o propósito do texto não é falar de um lado político e sim, de uma mentalidade, visto que, independente da ideologia ou lado, a mentalidade revolucionária é perigosa, tendo um cerne totalitarista.

    Estes revolucionários não entendem que o mal e a injustiça são fatos inerentes à condição humana, impossíveis de serem extirpados, mas somente atenuados. A maioria acredita que tais problemas são frutos do capitalismo, dos ricos e dos burgueses, que é possível eliminar estes distúrbios, extirpando estas classes e desconstruindo o mal (CARVALHO, 2014, p. 191–192). Para nós cristãos, os problemas sociais e humanos são frutos do pecado na vida do homem, mas para estes revolucionários, o culpado é o capitalismo e o dinheiro. Novamente, Olavo expõe que:

    “A revolução é; por sua própria natureza, totalitária e universalmente expansiva: não há aspecto da vida humana que não pretenda submeter ao seu poder, não há região do globo a que não pretenda estender os tentáculos da sua influência” (2014, p. 189).

    Diante disso, o uso da força é justificado e muita barbárie é provocada em nome de “um bem”, segundo estes, e esta é justamente a contradição, visto que os fins não justificam os meios. Mal algum ou imposição alguma, em nome da causa que for, não valida a violência e a agressão.

    A revolução impõe um pensamento e não dialoga, por isso que revolucionários e todas as pessoas que acreditam que possuem uma receita infalível para consertar o mundo são prejudiciais.

    Ou dialogamos sobre os problemas e aprendemos a dar um passo de cada vez em direção a uma sociedade equilibrada, ou seremos prisioneiros daqueles que acreditam que possuem uma fórmula mágica!

    Bibliografia

    CARVALHO, Olavo de. O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota. Rio de Janeiro: Editora Record, 2014.

  • ESCUTA IMPACIENTE

    Já conversou com alguém que parece ter a resposta para tudo? Ele sabe resolver o problema de todos, entende onde você está errando e sempre tem uma receita pronta para arrumar a sua situação. Geralmente são estes que nos interrompem quando estamos falando e falam: “eu já passei por isso, eu sei resolver”.

    Receitas são ótimas, principalmente quando queremos fazer bolos, visto que, quando você segue a receita fielmente, normalmente, tudo sai como planejado. Agora, ao se tratar de um ser humano, receitas nem sempre funcionam, já que cada ser humano é único e possui as suas características.

    Ouvir é uma arte e eu sei que às vezes é um pouco difícil, visto que, quando gostamos de alguém, temos vontade de ajudar, por isso, insistimos em opinar e dar respostas aos problemas e questionamentos que escutamos. A questão é que ouvir e dar atenção ao ouvinte ajuda muito mais do que insistir em somente falar ou apontar soluções. Richard Foster pontua que:

    “Você não precisa ter todas as respostas para ser um bom ouvinte. De fato, frequentemente as respostas representam um obstáculo à escuta, pois ficamos mais ansiosos para responder que para ouvir. A escuta impaciente, feita pela metade, é uma afronta a quem está falando” (2007, p. 196).

    O princípio da boa escuta, parte primeiramente da paciência, é prestar atenção e permitir que o outro derrame o seu coração. E isso vale tanto para aqueles amigos que precisam de alguém para desabafar, devido a problemas ou situações complicadas, quanto para as conversas normais com as pessoas. Um diálogo é composto por dois indivíduos que conversam e se ouvem. O bom ouvinte é aquele que, pacientemente, deixa o interlocutor concluir a sua fala.

    A escuta ativa é quando o ouvinte foca no diálogo e mantém a comunicação eficiente e clara, focando sempre em entender o que o interlocutor está buscando comunicar. Já quem não sabe escutar, ouve somente para responder e poder introduzir o seu assunto. Quem realmente escuta, presta atenção e valoriza o que a pessoa está dizendo.

    E sobre falar sem opinar, não estou falando para você não opinar ou não dar resposta alguma, estou sugerindo que, acima de tudo, você busque ouvir e acolher o problema do outro. Não precisamos dar resposta para tudo, às vezes, a solução vem com o tempo, mas apoiar um amigo e ouvir de modo paciente faz toda a diferença.

    A escuta impaciente transmite uma falta de vontade em ouvir o próximo, sendo que, quem insiste em sempre responder ou dar receitas, ao invés de acolher o problema, também mostra uma impaciência e diminui o desafio e o problema do outro. Gosto do conselho de provérbios, que nos ensina que:

    “Quem responde antes de ouvir comete insensatez e passa vergonha” (Provérbios 18:13) (NVI).

    Todos os que respondem sem realmente ouvir, seguindo a lógica da escuta impaciente, no final passam vergonha, falam coisas incoerentes e demonstram que nem prestou atenção no que foi falado. E quem faz isso em meio a um desabafo, fecha as portas para um diálogo sincero e para a oportunidade de poder ouvir, orar pela pessoa e ajudá-la.

    A paciência demonstra respeito e amor ao próximo, quando entendemos que respostas simples ou receitas formatadas nem sempre ajudam a resolver problemas complexos, aprendemos a ouvir e a estar presente com a pessoa.

    Mais do que uma receita, precisamos demonstrar aos nossos amigos que estamos apoiando e sendo suporte em sua vida. Alguém que não consegue escutar, demonstra somente que é egoísta e que não consegue em momento algum se despir de seus desejos e dedicar um tempo sincero para ouvir e ser diferença na vida de outra pessoa.

    Bibliografia

    FOSTER, Richard. Celebração da disciplina: O caminho do crescimento espiritual. 2. ed. São Paulo: Editora Vida, 2007.

  • DESAFIOS DA ESPIRITUALIDADE CRISTÃ V: A VERDADEIRA SANTIDADE

    Quando somos tocados por Deus e atendemos ao seu chamado, nós nos convertemos e mudamos de vida. O problema é que alguns não somente mudam de vida, mas também passam a viver longe do seu antigo ambiente. O convertido, em alguns casos, se afasta dos amigos, familiares e de quem muitas vezes o ama muito, tudo porque ele agora é cristão e precisa ficar distante do “mundo” e das suas práticas pecaminosas.

    A vida cristã é prática, ela não acontece apenas no âmbito espiritual e muito menos, somente entre as quatro paredes da igreja. A santidade é um estilo de vida, que não nos tira do mundo, ao contrário, nos faz atuantes e nos capacita a viver um cristianismo coerente, para, desta forma, fazermos diferença na vida das pessoas. William Penn complementa explicando que:

    “A verdadeira santidade não tira os homens do mundo, mas capacita-os a viver melhor nele e incita os empreendimentos que ajudam a restaurá-lo” (apud FOSTER, 2007, p. 53).

    O cristianismo não se resume em viver apenas na igreja e também não é se separar do mundo, ao contrário, é ser diferença, é seguir sendo cartas vivas do evangelho (2 Coríntios 3:2-3). A Bíblia diz para sermos sal e luz no mundo (Mateus 5: 13–14), mas para isso precisamos estar no mundo, fazendo diferença na vida das pessoas, dos amigos e familiares. O apóstolo Paulo fala justamente disso quando diz que:

    “Vocês demonstram que são uma carta de Cristo, resultado do nosso ministério, escrita não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de corações humanos” (2 Coríntios 3:3) (NVI).

    Neste capítulo, Paulo responde a algumas críticas que ele recebeu por não ter cartas de recomendação para apresentar aquela comunidade (2 Coríntios 3:1). É provável que alguns falsos apóstolos de Corinto tenham levantado estas acusações. Contudo, Paulo informa que as cartas de recomendações não são necessárias, visto que a igreja que existia na cidade era uma prova do seu trabalho. A igreja é esta carta, que aponta para Deus e evidencia a verdade do evangelho. A mudança de vida é a prova da verdade que restaura vidas (KRUSE, 2012, p. 1796). 

    Entendo que precisamos nos afastar de alguns contextos que nos influenciam negativamente, principalmente quando temos algumas dificuldades em algumas áreas. Precisamos ser sábios e estar realmente curados, para conseguirmos entrar em algumas realidades que muitas vezes nos tocam, visto que cada indivíduo tem o seu desafio. Entretanto, salvo nestes casos, nós não podemos nos afastar do mundo e sim, se aproximar destas realidades, anunciando o evangelho que mudou a nossa vida.

    A nossa missão é anunciar o evangelho e fazer de tudo para que o amor de Deus alcance as pessoas. E isso não é possível, se ficarmos trancados no prédio da igreja. Precisamos atuar e cuidar das pessoas. É assim que o evangelho entra no coração das pessoas.

    O cristão precisa fugir dos guetos cristãos, daquelas igrejas que insistem em seguir separando os seguidores de Cristo do mundo. Ou transbordamos o evangelho na vida das pessoas, através da nossa vida e ações, ou seguiremos distantes da vida cristã prática.

    A verdadeira santidade não nos separa do mundo, mas nos aproxima, nos convida a sermos cartas vivas, a sermos mensageiros da verdade que liberta. O sal fora do saleiro faz muita diferença, e isso só pode ser feito fora da igreja, em nosso cotidiano e em meio aos nossos amigos.

    Bibliografia

    CARSON. D. A.; FRANCE, R.T.; MOTYER, J. A.; WENHAM, G. J. Comentário Bíblico Vida Nova. São Paulo: Editora Vida Nova, 2012.

    FOSTER, Richard. Celebração da disciplina: O caminho do crescimento espiritual. São Paulo: Editora Vida, 2007.

    KRUSE, Colin G. 2 Coríntios. In: CARSON. D. A.; FRANCE, R.T.; MOTYER, J. A.; WENHAM, G. J. Comentário Bíblico Vida Nova. São Paulo: Editora Vida Nova, 2012.

  • ALMA SEDENTA

     O ser humano tem em seu interior uma sede tão insaciável, que acaba sendo ela que muitas vezes o destrói e o leva para direções perigosas. Um bom exemplo são aquelas pessoas que casam para ser feliz, o que é um grande problema, visto que ser feliz é algo pessoal, é uma missão que cada um deve enfrentar e aprender a trilhar sozinho. Felicidade não algo que depende dos outros. Você pode até esmagar alguém com o peso da responsabilidade de fazer você feliz. Este fardo é bem pesado e não percebemos como tal desejo é egoísta.

    O mesmo podemos falar daqueles que insistem em dedicar toda a sua vida para a sua carreira, tornando-se os denominados workaholics. Pessoas sedentas por curar uma falta que certamente o trabalho não vai reparar, aliás, é possível até piorar. Para estes, o trabalho é como uma droga, que o usuário precisa usar cada vez mais, uma vez que, gradualmente, ele para de fazer efeito e a sede segue aumentando.

    Constantemente me perguntam se sou feliz, sendo que para todos, a resposta é sempre a mesma, sim, é claro. Ao contrário do que muitos pensam, eu creio que a felicidade é um estado de contentamento e não somente momentos alegres, que duram pouco. Sendo que este estado não depende de fatores externos, problemas ou tristezas. Ficamos tristes, somos tocados em alguns momentos por problemas e situações adversas, mas seguimos felizes.

     Jesus, no diálogo com a mulher samaritana, afirmou ser a fonte de água viva e disse que se alguém bebesse desta fonte nunca mais teria sede (João 4:10-14).

    “Jesus respondeu: “Quem bebe desta água logo terá sede outra vez, mas quem bebe da água que eu dou nunca mais terá sede. Ela se torna uma fonte que brota dentro dele e lhe dá a vida eterna”” (João 4:13-14) (NVT).

    Uma afirmação importante nesta nossa discussão, que nos mostra o tamanho da nossa incompletude, sem contar que a sua afirmação revela que é só Ele que consegue matar a nossa sede. Timothy Keller nos avisa que:

     “Ninguém, nem mesmo a melhor pessoa do mundo, tem como conceder à sua alma tudo de que ela necessita” (2018, p. 61).

    Este sentimento de vazio é perigoso, visto que ele nos empurra para alguns desertos. Na tentativa de encontrarmos a felicidade e de matarmos esta sede que nos aflige, seguimos em busca de inúmeras coisas, mas sem sucesso. Nada e ninguém conseguirá matar a nossa sede, nos dar a felicidade e a completa satisfação, que só pode vir Dele. E se tomarmos esta água, certamente, seguiremos amparados em Cristo, a fonte de água viva. E é justamente o nosso vazio que demonstra como somos incompletos sem Deus.

    É possível vermos muitas pessoas sedentas tentando preencher o vazio de inúmeras formas, uma insuficiência que nada e ninguém pode preencher. Esta incompletude só revela quem o ser humano é de verdade e aponta para o fato que, sem Deus, não somos nada. Temos uma sede que só Ele pode matar, uma vida incompleta, que só pode ser curada por Ele. O nosso vazio aponta sempre para Deus e para o quanto precisamos de Sua graça.

    Bibliografia.

    KELLER, Timothy. Deuses falsos: As promessas vazias do dinheiro, sexo e poder, e a única esperança que realmente importa. São Paulo: Vida Nova, 2018.

  • A FÉ E A PRESERVAÇÃO DA NATUREZA

    Ser cristão é zelar por todas as coisas que Deus criou. A nossa fé precisa ser consciente, entendendo a criação como uma graça do nosso soberano Pai. E foi com este objetivo que este artigo foi escrito.

    Em Gênesis, Deus deu a Adão a missão de cuidar das coisas que ele criou, uma missão que também é nossa. O cuidado com a natureza é um ensino que faz parte da tradição cristã e da Bíblia.

    O artigo foi publicado em 2023 na revista Teologia Brasileira, da editora Vida Nova.

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  • CRÍTICAS AO INCOMUM

    “A busca da sabedoria atrai críticas” (EPICTETO, 2018, p. 52).

    Andar na contramão nem sempre é fácil, deixar de pensar como o senso comum, é sempre um desafio e diante destas situações, é possível não sermos compreendidos. E não existe receita para aqueles que intentam seguir por outros caminhos, é na tentativa e erro e em alguns momentos, precisamos resistir para não seguir a correnteza.

    Quando fiz a minha graduação em teologia, por exemplo, muitos colegas de serviço não entenderam por que eu estava cursando uma graduação que “não dava dinheiro”. Muitos não entenderam como o lucro que alguém ganha com o conhecimento é muito maior do que o retorno financeiro.

    O mesmo acontece quando eu tiro um dia inteiro para ler e estudar, soa estranho para alguns, que diversão há em querer ficar lendo? Mas eu não ligo. Sigo o caminho do saber, focando nas coisas que eu acredito serem certas. E aos poucos, principalmente quando não somos afobados, vamos colhendo os frutos desta dedicação. Normalmente são nestes momentos que algumas pessoas se calam e percebem como a sua forma de pensar é muito imediatista e os seus padrões fracos.

    É importante escutarmos as pessoas, ouvirmos críticas e sugestões, o problema é que nem todos possuem boas intenções e dependendo das sugestões, elas acabam atrapalhando ainda mais os nossos planos.

    Algumas missões são realmente diferentes, mas se você quer crescer, precisa aprender a caminhar em meio a tais críticas. Quando planejo fazer algo, normalmente eu penso, pesquiso e avalio bastante a situação, e quando dou o primeiro passo, dificilmente desisto.

    Críticas são comuns, é normal as pessoas terem as suas opiniões e juízos, só cuidado para não deixar que tais ideias atrapalhem a sua missão. É sempre um desafio começar algo e é bem mais fácil desistir. Principalmente quando temos a nossa volta várias opiniões contrárias.

    O meu maior fracasso não foi empreender algo que no final não deu tão certo, já que, é sempre possível aprendermos com os erros. O meu grande erro, quando era novo, foi ouvir muito as pessoas e desistir dos meus planos, tudo e, porque, alguns dos meus projetos fugiam da norma do contexto que eu estava. Não eram sonhos impossíveis, embora, demandaria da minha parte, muita dedicação.

    Nem sempre as pessoas entendem seus projetos, mas eles sempre insistirão em opinar, com isso, saber selecionar boas opiniões e não desistir, são passos importantes. Críticas são ambíguas, elas podem ser boas ou ruins, saber separar as boas críticas para não se fechar para ótimas sugestões é o grande desafio.

    Críticas são constantes, elas existem por si só já que as pessoas não desistem de opinar, principalmente quando você está fazendo algo. Aprender a lidar com elas e não ser paralisado por opiniões simplistas é fundamental para não sermos prejudicados. 

    BIBLIOGRAFIA

    LEBELL, Sharon. A arte de viver: Epicteto; uma nova interpretação de Sharon Lebell. Rio de Janeiro: Sextante, 2018.