-
A SABEDORIA DA PRUDÊNCIA
Uma das nossas maiores marcas hoje em dia certamente é o excesso, principalmente porque hoje, temos inúmeras facilidades e possibilidades. Não dependemos de uma programação ou mesmo de acesso para assistir algo, tudo está na palma das nossas mãos, basta um clique. Com isso, eu divulgo o que acredito ser certo, acesso o conteúdo que mais me agrada e sigo conforme os meus gostos pessoais. E em meio a este enorme mar, sem prudência, certamente, podemos nos afogar.
A prudência é um grande guia em meio a nossa sociedade de exageros. Sem ela, seguimos os nossos impulsos, cometendo equívocos e excessos. Uma pessoa inteligente segue a prudência e entende a importância de escolher o que é bom e honesto. É comum seguirmos pela via do descontrole quando em nossa vida não temos prudência.
É fácil nos precipitarmos, cometendo ações equivocadas e incoerentes. Não é incomum nos apegarmos à nossa opinião e seguir, sem dialogar com o próximo. Ainda mais hoje, nesta sociedade polarizada, que dialoga pouco sobre assuntos importantes e segue alheia à ponderação. Tomás de Kempis nos ensina que:
“Grande sabedoria é não ser precipitado nas ações, nem aferrado obstinadamente à sua própria opinião; sabedoria é também não acreditar em tudo que nos dizem, nem comunicar logo a outros o que ouvimos ou suspeitamos” (2012, p. 27).
A maravilha da internet amplificou um dos mais corriqueiros problemas do ser humano, que é divulgar notícias e conteúdos diversos sem a certeza da veracidade do tema. O que antes era um comentário feito com um vizinho ou amigo, hoje o compartilhamento de algumas coisas pode ter um alcance bem maior e prejudicar alguém. A internet é uma máquina de conteúdo e acessibilidade, mas sem prudência, as pessoas seguem e divulgam notícias equivocadas ou mesmo navegam pelos excessos, se acorrentando no mar dos conteúdos. Provérbios 8: 12 diz:
“Eu, a sabedoria, moro com a prudência, e tenho o conhecimento que vem do bom senso” (NVI).
Sabedoria e prudência andam lado a lado, é inevitável sermos prudentes para assim conseguirmos tomar decisões sábias e termos bom senso. É com esta virtude que caminhamos com cuidado, que conseguimos ter cautela em inúmeras situações e principalmente limites, que estão em falta ultimamente.
Em alguns momentos, precisamos aprender a diminuir a marcha e avaliarmos a nossa vida, costumes e hábitos. É comum às vezes seguirmos no automático, sem percebermos as consequências das nossas atitudes. Bom senso é isso, é um modo de agir racionalmente que não é fruto de paixões ou emoções.
Por isso, cultive a prudência, aprenda a parar e avaliar sua vida, seus costumes e anseios. É fácil seguirmos sem reflexão, tendo atitudes impulsivas, o desafio é refletir e agir consciente em meio a este mundo de exageros.
O excesso traz descontrole, já a prudência traz a sabedoria e o bom senso, que nos faz termos consciência das nossas escolhas e ações.
Bibliografia
KEMPIS, Tomás. Imitação de Cristo. Petrópolis: Vozes, 2012.
-
DESAFIOS DA ESPIRITUALIDADE CRISTÃ IV: OS TRÊS NÍVEIS DE CRESCIMENTO ESPIRITUAL
“Pais, escrevo-vos, porque conhecestes aquele que é desde o princípio. Jovens, escrevo-vos, porque vencestes o maligno. Eu vos escrevi, filhos, porque conhecestes o Pai” (Referência: 1 João 2:13,14).
Sou músico e a primeira vez que toquei bateria foi em uma igreja. Por ser muito novo, praticamente uma criança, tudo foi adaptado para que eu tivesse a chance de tocar. Como a comunidade não tinha um baterista disponível, os músicos precisaram se adequar. Mas com o tempo cresci, estudei e me aperfeiçoei, principalmente quando conheci alguns estilos musicais que exigiam um pouco mais de técnica. Precisei estudar muito para conseguir tocar algumas músicas que eram mais complexas. Conforme eu seguia ganhando mais idade, eu também crescia em conhecimento como músico.
Ao olhar para trás, percebo os vários estágios que percorri e o quanto o estudo intencional, visando crescer, fez a diferença na minha vida. Estudar é fundamental para qualquer área, não só para a música, como também para quem é cristão. Quem tem como norte a Bíblia, deve ter a atitude intencional de estudar. A vontade de entender a palavra de Deus, precisa guiar você.
John MacArthur (2016) aborda os três estágios para o crescimento espiritual usando o texto bíblico de 1 João (2:13,14). São padrões possíveis de verificar em todos os cristãos. E o primeiro é a criança, o segundo o jovem e por fim vem o adulto, em uma classificação semelhante à própria vida humana.
Seguindo a lógica das etapas do desenvolvimento humano, a criança é o primeiro estágio, sendo que todos já foram crianças e na vida espiritual não é diferente. O nosso primeiro passo na espiritualidade cristã é como uma criança em formação.
Os filhinhos são todos os que nasceram de novo através da fé em Cristo, o termo no original quer dizer justamente nascidos. Sendo assim, todos os que nasceram na família de Deus são filhinhos (WIERSBE, 2020, p. 635).
A criança é um ser dependente, e precisa aprender muita coisa, a Bíblia é uma novidade, sendo que, as suas ações, crenças e opiniões sobre Deus, ainda não são tão fundamentadas na palavra. Em uma boa igreja, um novo convertido normalmente é discipulado por alguém que já conhece bem a palavra de Deus. Entretanto, o cristão não pode permanecer neste estágio. Warren Wiersbe explica que:
“Mas há outro fator a ser considerado: começamos como “filhinhos” — nascidos —, mas não devemos permanecer neste estágio! O cristão só vence o mundo à medida que cresce espiritualmente” (WIERSBE, 2020, p. 635).
O cristão precisa buscar crescer, caso contrário, seguirá estático e indefeso, diante das intempéries do mundo. Todos nascem de novo, mas também todos precisam buscar a Deus e sair desta infância espiritual.
O segundo estágio são os jovens, e o texto bíblico diz que eles venceram o maligno (1 João 2:13), sendo esta, uma das suas características. O jovem é alguém que já entende bem da Bíblia e não se deixa enganar por falsos ensinos. John MacArthur complementa:
“Um jovem espiritual é uma pessoa que vence satanás porque ele sabe o bastante sobre a Palavra de Deus para não deixar se seduzir pela religião falsa” (2016, p. 56).
O jovem é motivado, sabe se defender, mas falta-lhe mais conhecimento, além de maturidade. Nesta etapa, o cristão ainda precisa amadurecer e aprender mais, ele precisa buscar conhecimento e ter um bom acompanhamento.
Por fim, temos os pais no terceiro estágio. E eles são aqueles que não só entendem a palavra de Deus, como também, possuem um bom conhecimento das doutrinas e dos fundamentos da fé, além de ter intimidade com o Deus da doutrina. Eles conhecem a Bíblia e o Deus dela. Warren Wiersbe complementa os três estágios:
“Eis, portanto, a família cristã! Todos são “nascidos”, mas alguns já saíram da infância e entraram na idade adulta espiritual. O mundo não atrai o cristão que está amadurecendo e crescendo” (WIERSBE, 2020, p. 635).
Em um primeiro momento, estes três estágios do crescimento espiritual, servem como norte para entendermos em qual estágio estamos. Em um tempo onde cristãos leem pouco a palavra de Deus e também oram pouco, ter consciência destas três etapas é muito importante. Já se perguntou em qual estágio você está?
Durante a minha caminhada cristã, conheci muitos cristãos que frequentavam a igreja há muitos anos, mas que ainda eram crianças, visto que, eles não tinham intimidade com a palavra e com Deus. Infelizmente, isso é comum no meio cristão, eternas crianças que não buscam crescer.
Por isso, a vontade é um fator decisivo para todos os cristãos. Ter uma vida cristã intencional, querendo, desta forma, crescer, aprender e desenvolver a fé, é um elemento decisivo para que um seguidor de Cristo consiga crescer espiritualmente.
Estes três estágios revelam uma caminhada, um processo que precisa ser intencional para o crescimento acontecer. Uma criança só cresce saudável, quando se alimenta bem e também está sempre sendo orientada pelos pais. Um cristão também, se a igreja não investir em ensino e discipulado, certamente ela terá em sua comunidade eternas crianças frequentando seus cultos.
BIBLIOGRAFIA
MACARTHUR, John. Como estudar a Bíblia. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2016.
WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo: Novo Testamento 2. Santo André: Geográfica Editora, 2020.
-
O SER HUMANO E O PODER
São muitas as histórias de pessoas pobres e humildes que conseguiram fama, poder e fortuna. Existiram desde jogadores de futebol, cantores ou influenciadores digitais que conseguiram dar uma guinada em suas vidas. O curioso é que tanto a ascensão quanto a queda seguiram padrões semelhantes. Estas pessoas ganharam dinheiro e fama, mas uma boa parte delas perdeu com a mesma rapidez com que ganharam, por conta de exageros e descontroles. É muito complicado conseguir administrar o poder.
Desde o Éden, o ser humano tenta ser igual a Deus (Gênesis 3:4-5), ao aceitar o convite de poder feito pela serpente. Uma ambição que já se repetiu muito durante a história humana e na vida, é possível vermos este fato acontecer direta ou indiretamente em todos os períodos da história.
Na história é possível ver como muitos líderes se colocaram como deuses, exigindo adoração ou reverência, e desde a antiguidade até hoje este fato se repete. O culto ao imperador, por exemplo, era algo comum em Roma, assim como muitos reis, durante a história, se colocaram como deuses aqui na terra. E muitas injustiças, caos e problemas aconteceram em nome desta adoração, já que é inevitável virem problemas de seres humanos falíveis e pecadores.
Em nossos dias, apesar de ser de modo indireto, as pessoas às vezes agem como deuses, construindo injustiças, caos e todo o tipo de calamidade. O poder tem a força de elevar o homem e colocá-lo em um patamar superior, e por isso, muitos perdem o controle. Ele transforma líderes, pastores e empresários em deuses falsos, quando estes não sabem lidar com o poder. E este é um dos males da vaidade humana. Maria de Camargo César tem uma frase que resume bem o quão complicado é o poder:
“O poder é uma espada que poucos manejam com graça. É fácil errar a mão. É fácil cair na tentação de manipular” (2009, p. 19).
A fama, a riqueza e o poder têm esta vil capacidade de tornar o ser humano alguém “superior” em relação aos outros. O perigo é que esta sensação é falsa, ela não se sustenta e é fruto de um equivocado ponto de vista, que o poder traz.
O problema quanto a estes supostos deuses é a própria impossibilidade de um ser humano falível se tornar qualquer coisa semelhante a um deus. Por não suportar o peso do poder sem se destruir ou perder a cabeça, este caminho é sempre amaldiçoado. O poder não só corrompe, como também consome o ser humano, visto que ele cobra o seu preço. E consegue transformar um indivíduo bom em um tirano.
Quando o ser humano está de posse do poder, ele é tentado e muitas vezes cai no ímpeto de agir como um tirano e manipulador. A tirania tem como ponto de partida a imposição e ela segue a premissa de que só existe uma ideia boa e um ser humano que é merecedor de ser o centro de tudo. A busca por adoração, os aplausos ou reconhecimento humano são as consequências desta forma de pensar.
O caos se perpetrou em vários momentos na história, seguindo justamente este viés de superioridade. O ser humano desde sempre insiste em ser igual a Deus, mas não percebe que, além de não ter esta capacidade, também não tem força e muito menos mentalidade para estar em uma posição de poder.
Quando afirmamos que Deus deve ser o centro de tudo, confessamos as nossas incapacidades e limitações. E por conta disso, entregamos a ele todo o controle, entendendo ser só com a sua força que conseguiremos seguir sendo boas pessoas.
Não existem pessoas realmente boas, fora de Deus, sem ele, estaremos certamente sujeitos a cair em todas as armadilhas do mundo.
Bibliografia
CÉSAR, Marília de Camargo. Feridos em nome de Deus. São Paulo: Mundo Cristão, 2009.
-
LEITURA EM TEMPOS DE HIPERCONECTIVIDADE
Ler é essencial, é através da leitura que o ser humano constrói o conhecimento e quanto mais conhecimento, melhores serão as nossas decisões e reflexões. Todavia, apesar de toda a tecnologia que podemos lançar mão para construirmos mais repertório, temos alguns desafios que ela traz aos leitores. E é justamente este tema que este artigo trabalha, escrito com a professora Daiane Martins Batista, publicado na revista Contemplação em 2022.
O primeiro objetivo do artigo é discorrer sobre a influência da hiperconectividade no contexto dos leitores, mostrando as consequências que ela pode trazer. O segundo propósito é mostrar saídas para os leitores conseguirem construir períodos relevantes de leitura e escrita.
A tecnologia é maravilhosa, visto que nos proporciona acesso e inúmeras ferramentas, contudo, ela possui algumas armadinhas que precisam ser administradas para não cairmos em algumas emboscadas.
Link do texto:
https://revista.fajopa.com/index.php/contemplacao/article/view/344/383
-
LIÇÃO ESQUECIDA
“Eu lhes suplico, irmãos, que se tornem como eu, pois eu me tornei como vocês. Em nada vocês me ofenderam; como sabem, foi por causa de uma doença que lhes preguei o evangelho pela primeira vez” (Referência: Gálatas 4:12-16) (NVI).
Nem todos os cristãos entendem e concordam que o nosso exemplo e o modo como nos comportamos são os primeiros passos para conseguirmos transmitir o evangelho às pessoas. As nossas atitudes também comunicam e é isso que os cristãos precisam entender.
E sobre atitudes, Paulo inicia esta passagem fazendo uma súplica importante: “sejam como eu” (Gálatas 4:12). Nem sempre os cristãos se veem como bons exemplos, é comum muitos enfatizarem que é somente Jesus que devemos imitar. Contudo, na Bíblia, vemos o apóstolo Paulo agir de um modo bem contrário a esta opinião, ele fala para o imitarem, já que ele imita a Cristo (1 Coríntios 11:1), sendo que nesta passagem percebemos algo bem semelhante quando ele diz para estes irmãos serem como ele. O que concluímos é que, se alguém não pode nos imitar, não estamos imitando a Jesus. Ou nós nos posicionamos como cartas vivas (2 Coríntios 3:3), como arautos do evangelho, ou seguiremos bem distantes da vontade de Deus vivendo um cristianismo de teoria. É evidente que Jesus Cristo é o nosso norte, é ele que precisamos imitar, mas o nosso exemplo como cristãos deve também influenciar as pessoas a desejarem imitar a Cristo. John Stott complementa:
“Paulo pede aos gálatas que se tornem como ele. No contexto, esse apelo só pode significar o seguinte: Paulo ansiava que os gálatas se tornassem como ele na fé e na vida cristãs, que fossem libertos da influência maligna dos falsos mestres e compartilhassem as convicções sobre a verdade como ela é em Jesus, sobre a liberdade com a qual Cristo nos fez livres” (STOTT, 2018, p. 72).
Não é incomum encontrarmos cristãos que conheceram a verdade do evangelho, vivendo uma prática cristã que é muito mais uma moda do que um ensino bíblico. Ser cristão é caminhar conforme os ensinos da Bíblia e não seguir nenhum pseudo pastor e seus hábitos autoimpostos. É seguir distante das influências de falsos mestres e convictos da verdadeira liberdade em Cristo.
E o apóstolo Paulo continua e relembra um episódio importante que ocorreu quando ele foi pregar naquele lugar. Ele relata que estava doente quanto estava com eles e, apesar da enfermidade, ele foi recebido como se fosse alguém muito importante (Gálatas 4:13-14). O apóstolo se concentra em fatos importantes e relembra uma lição que certamente com o tempo eles esqueceram. Sobre a sua doença, ele diz que:
“Embora a minha doença lhes tenha sido uma provação, vocês não me trataram com desprezo ou desdém; pelo contrário, receberam-me como se eu fosse um anjo de Deus, como o próprio Cristo Jesus. Que aconteceu com a alegria de vocês? Tenho certeza que, se fosse possível, vocês teriam arrancado os próprios olhos para dá-los a mim” (Gálatas 4:14, 15) (NVI).
Na Antiguidade, os olhos eram tidos como os órgãos mais valiosos, de um modo que Paulo poderia estar somente afirmando que: eles estavam propensos a se sacrificarem muito por ele. Entretanto, o aposto “se fosse possível” (Gálatas 4:15) revela a probabilidade de o apóstolo estar falando dos seus olhos. Em um estado intenso, a sua enfermidade poderia estar relacionada a um grave problema na visão (POHL, 2012, p. 155).
É visível a preocupação e o amor de Paulo por eles, mas em meio ao seu diálogo, ele faz uma pergunta essencial, que joga luz nesta passagem. Ele pergunta se havia se tornado um inimigo, por somente estar falando a verdade (Gálatas 4:16).
Paulo nesta passagem foca em episódios e fatos importantes que aconteceram e que certamente eles estavam esquecendo. E nós também podemos incorrer no mesmo erro quando, em meio às influências negativas, começamos a esquecer e menosprezar fatos essenciais em nossas vidas, histórias que revelam o quanto Deus é benevolente.
O apóstolo queria que os Gálatas relembrassem dos momentos importantes e pedia para que o posicionamento dele, de corrigir e ajudá-los, não se tornasse um problema. John Stott novamente complementa:
“Há uma lição importante nesta passagem. A autoridade de um apóstolo não cessa quando ele começa a ensinar verdades não populares. Não podemos ser seletivos na leitura da doutrina apostólica do Novo Testamento” (STOTT, 2018, p. 73).
O Novo Testamento nos oferece ensinos essenciais, bases da fé que precisamos seguir, sendo que é um erro escolhermos somente o que gostamos na Bíblia.
Os Gálatas estavam esquecendo lições fundamentais que aconteceram com eles e estavam tendo dificuldades em lidar com as exortações do apóstolo.
Cuidado com as influências negativas que levam você a esquecer e seguir cada vez mais distante da verdade do evangelho. Não rejeite a correção e os ensinos que a palavra de Deus dá e siga firme no caminho da verdade.
Bibliografia
STOTT, John. Lendo Gálatas com John Stott. Viçosa: Ultimato, 2018.
POHL, Adolf. Carta aos Gálatas: Comentário Esperança. Curitiba: Editora Esperança, 2012.
-
A MÁSCARA DA INTOLERÂNCIA
Por trás de todo intolerante quase sempre existe algum problema escondido. A intolerância mascara, na maioria das vezes, algumas falhas ou medos que precisam permanecer ocultos. E para esconder tais fantasmas, ser intolerante é uma boa opção, já que o intolerante pode se concentrar em apontar para o erro do outro e condenar os seus equívocos, enquanto ele mesmo não é visto.
Um indivíduo realmente seguro, com uma vida resolvida e consciente de suas qualidades e defeitos, normalmente não é intolerante, por saber bem quem ele é e como os outros são. O sentimento de segurança é fruto da consciência de quem nós realmente somos, ou seja, da consciência de entender que estamos suscetíveis tanto aos erros quanto aos acertos. Nilton Bonder explica que:
“A intolerância é a reação do amedrontado, do desconfiado e do confuso, cuja função maior é ocultar perguntas e essências” (2011, p. 118).
O intolerante, por mais que pareça um corajoso, alguém que quer “combater” um mal, no fundo, ele é um indivíduo confuso, que não consegue lidar com as suas falhas e dificuldades. Alguém bem resolvido não perde tempo em acusar ou agir de modo intolerante, justamente porque ele sabe que todos têm os seus erros e também seus acertos.
Sem contar que, uma pessoa bem resolvida, não precisa provar nada para ninguém, por entender que nem tudo tem respostas, conseguindo assim, seguir sem ficar se justificando.
Quem tem problemas se exalta, não consegue ouvir críticas e, se puder, bate de frente em quem tem uma opinião contrária. Tais pessoas têm dificuldades com opiniões divergentes, justamente porque não têm opiniões fundamentadas ou não cultivam o autoconhecimento.
Às vezes, as atitudes intolerantes são inconscientes, nem todos conseguem avaliar as suas ações, por isso, preste bem atenção nas coisas que tiram você do sério. Aprenda a pontuar os seus pontos fortes e os pontos fracos, justamente para que você possa entender quais áreas você precisa melhorar.
Depois, pense sobre todos os seus sabotadores, os quais são comportamentos ou pensamentos negativos que atrapalham você. É fácil ser traído por estes sabotadores e deixarmos de melhorar e evoluir cada vez mais. Buscar se autoavaliar e cultivar a prática do autoconhecimento, sendo ações constantes, é fundamental para seguirmos nos aperfeiçoando e não sermos traídos pelos nossos pontos fracos.
A intolerância é o problema daqueles que não têm a vida resolvida, que carregam equívocos e situações por resolver. O indivíduo bem resolvido primeiramente aceita muito bem quem ele é, e segue buscando se aprimorar a cada dia. É uma ação diária de entender nossas dificuldades e sabotadores, para depois buscar o aprimoramento. Não é possível crescer como ser humano sem antes nos avaliarmos, aceitarmos quem somos para, depois disso, conseguir mudar.
No fundo, a intolerância é uma máscara, que esconde falhas e dificuldades que o intolerante não consegue trabalhar.
Bibliografia
BONDER, Nilton. Fronteiras da inteligência: A sabedoria da espiritualidade. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.
-
A FORÇA DA INTEGRIDADE
Quem realmente somos se revela na maioria das vezes em nosso secreto, em como nos comportamos quando não estamos sendo vistos. Em dias onde muitos insistem em construir uma imagem, é comum vermos alguns viverem uma vida de mentira e pura atuação.
Como vivemos e agimos, diz muito sobre nós, por isso que quem somos se revela nos momentos em que a pessoa não está sendo vista e quando não tem nada para ganhar em troca. Desconfio da bondade pública, da atitude ética que visa ganhar destaque ou likes nas redes sociais, por causa justamente disso.
Indo na contramão do que a nossa sociedade valoriza, a vida íntegra não é uma forma de viver que busca holofotes, likes e visualizações. A verdadeira integridade parte de como alguém vive quando não está sendo visto, e isso revela quem ele é realmente. É um modo de ser que não busca aparecer, mas ser alguém genuíno. Gosto de como Lynn Anderson define integridade:
“A integridade é aquela força, aquela sinceridade que podem ser medidas melhor por aquilo que alguém faz numa situação-limite quando ninguém mais saberá — exceto Deus. É quando a genuinidade de nossos corações será testada” (2001, p. 27).
Quem você é quando não está sendo observado? Como você se comporta quando não está sendo visto, independentemente dos seus problemas e situações? Uma pessoa íntegra não muda quando está sendo vista. E também não age de forma antiética, em busca de lucros ou retornos. Quem é ético e bom, não precisa aguardar retornos. Ou você é e sabe que precisa agir assim, ou não é e vive um personagem, uma mera atuação. Gosto de um conselho de provérbios, que contextualiza bem o que estamos abordando:
“Fazer o que é justo e certo é mais aceitável ao Senhor do que oferecer sacrifícios” (Provérbios 21:3) (NVI).
Fazer o que é certo e justo é muito melhor do que insistir em cultuar a Deus só para ser visto, agindo de um modo hipócrita e dissimulado. E Jesus Cristo entrou em conflito com os fariseus que ofertavam ou agiam como religiosos tementes a Deus só para serem vistos. No final, a ação deles era hipócrita, porque eles não praticavam o que pregavam (Mateus 23:1-7).
Integridade, segundo o dicionário, é a qualidade daquilo que é inteiro, de algo que não foi diminuído e muito menos alterado (PRIBERAM, 2024). Por isso, precisamos aprender a ser inteiros, honestos e íntegros, independente do lugar ou situação. Agir corretamente, para parecer uma pessoa boa, não é ser íntegro e muito menos ser um cristão, é agir esperando uma troca.
E Integridade na Bíblia significa a condição das pessoas que possuem um caráter verdadeiro, uma moral reta e coerente, em contraposição às pessoas que vivem em meio ao engano e falsidade. Para nós que somos cristãos, é fundamental sermos retos, com um caráter firme e uma vida espiritual verdadeira, que foge do que é corrupto e incoerente (CHAMPLIN, 2013, p. 347).
Por isso, não tenha medo de mostrar seus pontos fracos aos irmãos, busque sempre melhorar, mas tome muito cuidado para não viver um personagem. A vida cristã precisa ser íntegra e transparente, é viver o evangelho da verdade, fugindo daquela vida de atuação que vemos em muitos lugares.
Bibliografia
ANDERSON, Dr. Lynn. A canção do pastor: Encontrando o ânimo para prosseguir. São Paulo: Editora Quadrangular, 2001.
CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de Bíblia, teologia & filosofia: Volume 3. 11. ed. São Paulo: Hagnos, 2013.
PRIBERAM, Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Integridade. Lisboa: Priberam, 2008-2024. Disponível em: https://dicionario.priberam.org/integridade. Acesso em: 30/07/2024.
-
O PAPEL DA FÉ E DA RAZÃO NA EXPERIÊNCIA RELIGIOSA SEGUNDO SANTO AGOSTINHO
Nem sempre a fé e a razão são entendidas no ambiente cristão. Muitos acreditam que a razão atrapalha a fé e que certamente um exclui o outro, contudo, a filosofia e a teologia nos mostram que tanto a fé quanto a razão são importantes e essenciais para a vida cristã. Ter fé é fundamental, mas também usar a razão de um modo coerente para avaliar as coisas e construir conhecimento é um caminho inteligente.
O propósito deste texto acadêmico foi trabalhar a importância da fé e da razão na experiência religiosa, expondo como um não elimina o outro. O texto foi publicado nos Anais da Soter em 2022, por conta do 34º Congresso Internacional da Sociedade Brasileira de Teologia e Ciências da Religião, devido à minha participação no GT de Filosofia da Religião. O texto está na página 545.
Link do texto
https://www.soter.org.br/imagens/download_imagem.php?arquivo=34CongrSoter-Anais.pdf-221124175947.pdf
-
O FUNDAMENTO DA NOSSA FÉ
“A própria escritura é a única competente para julgar a nossa doutrina da escritura” (2014, p. 25).
Keving DeYoung
A bússola é um instrumento de navegação que usa princípios magnéticos para determinar a direção certa que uma pessoa precisa tomar. Em tempos em que a tecnologia era escassa, este instrumento era fundamental para dar direção ao caminhante ou ao capitão de um navio. O mesmo podemos falar da Bíblia, para nós que somos cristãos, é uma ferramenta fundamental. Sem este instrumento sagrado, nos perderemos nos mares do mundo.
A Bíblia é o nosso norte, é a palavra que nos guia, além de também ser o nosso refrigério e consolo em momentos difíceis. Nela encontramos ensinamentos para conseguirmos viver uma vida equilibrada, rumo ao centro da vontade de Deus. Ou seguimos a palavra que Deus nos deixou para conseguirmos seguir dentro da sua vontade, ou nos perderemos em nosso autoengano.
Outra característica da Bíblia, que inclusive é uma regra da hermenêutica, é que ela interpreta a própria Bíblia. Uma regra que você pode até considerar contraditória, que soa como um raciocínio circular, mas não é, contudo, a pergunta fica no ar: de que maneira um livro pode determinar a sua autoridade?
Comprovar a autoridade da Bíblia a partir de outro livro seria transformar a palavra de Deus em algo menor e inferior. Ao fazermos isso, acabamos diminuindo o livro sagrado. Kevin DeYoung enfatiza que:
“Você não pode estabelecer a autoridade suprema da sua autoridade suprema indo a alguma outra autoridade menor. Sim, a lógica é circular, mas não mais do que o secularista defendendo a razão pela razão ou o cientista divulgando a autoridade da ciência baseada na ciência” (2014, p. 24-25).
É a própria palavra de Deus que precisa ser o padrão e o ponto de partida para interpretar a Bíblia. Como o texto não se contradiz, sem sombra de dúvida alguma, o seu ensino se sustenta, não precisamos de outra coisa para usar como um padrão interpretativo.
É através da Bíblia que nossa vida é fundamentada, se o que acreditamos não estiver neste importante livro, estaremos certamente equivocados. Ou a nossa doutrina é fundamentada na palavra de Deus, ou, certamente, seguiremos enganados.
O lado relevante que a Bíblia tem é que ela foi escrita tendo cada livro uma distância grande de tempo e local. Nem todos os textos foram escritos na mesma época, mas perceba que, mesmo assim, a Bíblia não se contradiz, mostrando como o ensino é fruto da revelação e vontade de Deus.
É o texto sagrado que julga os nossos conceitos e revela os fundamentos da nossa vida. É ele que diz se estamos fundamentados na rocha, ou em nossa equivocada opinião. Saber manejar este instrumento e usá-lo para que você consiga seguir rumo à vontade de Deus é uma ação imprescindível a todos os cristãos. Sem ela, certaremos que nos perderemos em meio às tempestades da vida.
Bibliografia
DEYOUNG, Kevin. Levando Deus a sério: Por que a Bíblia é compreensível, necessária e suficiente, e o que isso significa para você!. São José dos Campos: Fiel, 2014.
-
OPINIÃO SEM ESFORÇO
Faço parte de uma geração que não presenciou uma guerra mundial. Somente alguns conflitos locais que não tiveram tanto impacto no mundo. Mas somente estes casos já são suficientes para nos mostrar os horrores que uma guerra pode causar. Certamente, a única guerra com a qual temos tido contato são as batalhas de ideologias. O mundo tem estado cada vez mais polarizado e o combate segue cada dia mais acirrado. A parte que me deixa preocupado nesta batalha toda é a ânsia que um dos lados tem em calar a oposição, como se a opinião discordante não pudesse existir. Existe uma imposição cada vez mais forte em nossos dias e uma falta de capacidade de aceitar as opiniões contrárias.
Tenho medo daqueles que insistem em ter opinião sobre tudo, esta característica somente revela como a pessoa, na verdade, não sabe de nada. Para termos um bom ponto de vista, precisamos de esforço, de trabalho intelectual e leitura. Estas são atitudes básicas para uma opinião bem fundamentada. E José Ortega y Gasset, no livro A rebelião das massas, faz uma brilhante crítica ao homem medíocre, com opinião sobre tudo, sem qualquer esforço prévio para forjá-la.
Ortega y Gasset discorre sobre um grupo de pessoas bem presente em nossos dias, que insiste em impor e conviver apenas com aqueles que concordam com eles. E a opinião sem esforço, é um fato que explica muito bem a ação destas massas.
Sobre a opinião sem esforço, Gasset ensina que o homem medíocre é aquele que acredita que pode ter a opinião sobre qualquer tema ou conteúdo, sem empenho algum em forjar o seu ponto de vista (2016, p. 141). Assim sendo, estas pessoas versam sobre temas diversos, sem o mínimo de leitura, pesquisa e reflexão, sendo que a maioria dos assuntos importantes necessita de algum tempo e muita análise, para conseguirmos construir um olhar coerente.
Estas pessoas se contentam com o repertório de ideias que possuem, sem sentir qualquer necessidade de estudar e aprimorar seus conhecimentos. Com isso, estes se sentem completos e autossuficientes, mas com um repertório totalmente limitado (GASSET, 2016, p. 142). Ortega y Gasset complementa:
“O homem-massa se sente perfeito. Um homem de seleção, para se sentir perfeito, tem que ser especialmente vaidoso, e a crença em sua perfeição não está consubstancialmente unida a ele, não é ingênua, mas vem de sua vaidade, e tem um caráter fictício, imaginário e problemático até para ele mesmo. Por isso o vaidoso precisa dos outros, porque busca neles a confirmação da ideia que quer ter de si mesmo” (2016, p. 142).
Nestas constantes discussões e debates políticos, vemos pessoas que não dialogam, não pensam na opinião oposta e, se puderem, até diminuem as pessoas que possuem bons argumentos. E, como estes indivíduos seguem fechados em seus grupos e não dialogam com quem discorda deles, eles não se abrem para nada fora da sua esfera de pensamento.
É o que Gasset chama de homem-massa, um grupo de pessoas vaidosas, com repertório limitado e que não se abrem para o diálogo honesto, preferindo se fechar para as outras pessoas e qualquer coisa que fuja do limitado contexto deles. O livro explica toda a história, a dinâmica desta massa de uma forma tão atual, que não parece que a obra tenha sido escrita em 1930.
Creio que o autor conceituou de forma muito certeira a dinâmica da guerra de ideologias que temos visto. E não é um debate ou uma discussão honesta para assim o grupo chegar a uma opinião razoável, e sim uma discussão com o propósito de afagar egos e apenas ganhar um debate. Ou seja, é uma discussão inútil.
É o que eu sempre digo, alguns problemas sociais são complexos, por isso, precisamos de humildade e de muito diálogo honesto para conseguirmos chegar a uma resposta razoável. Sem humildade e abertura para ouvir e dialogar, a guerra continuará sem qualquer utilidade.
Já faz muito tempo que eu não entro em alguns debates, justamente porque nem todos possuem a motivação correta. Saber expor o seu argumento, a partir de fontes coerentes e de muito trabalho intelectual, e também saber ouvir, são atitudes fundamentais para as discussões produzirem frutos. Se eu não tenho certeza de que estas ações serão cumpridas, prefiro me calar ao invés de entrar em uma discussão só para tentar ganhar.
Desconfie de quem opina, mas sem buscar informação e conteúdo. Tenha cuidado com aqueles que possuem opinião sobre tudo, mas não buscam estudar e construir conhecimento. São estes que acreditam saber e não se esforçam para buscar conhecimento.
Bibliografia
GASSET, José Ortega Y. A rebelião das massas. Campinas: Vide Editorial, 2016.
