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  • O DEUS QUE DESTRÓI SONHOS

    O ser humano é mestre em complicar as coisas, por isso que constantemente ele se encontra em situações adversas. Perceber a importância das coisas simples nem sempre é possível, agora complicar, exagerar e se preocupar em demasia, sem qualquer motivo, já é um pouco mais fácil.

    E um destes pontos importantes, porém simples, é que para sermos cristãos, conhecermos a palavra é essencial, sendo este fato algo bem óbvio, mas que ainda precisa ser dito por vermos um evangelho sendo praticado tendo tudo como base, menos a Bíblia. O cristianismo do self é muito difundido em nossos dias e é justamente esta crítica que Rodrigo Bibo faz no livro O Deus Que Destrói Sonhos.

    Faça uma avaliação sincera da realidade da igreja que você vai perceber como muitos cristãos vivem a sua vida calcada em opiniões próprias ou ensinos de falsos mestres que estão longe da palavra de Deus. E estes mestres da mentira, infelizmente, têm muitos seguidores, justamente porque falam o que as pessoas querem ouvir.

    O autor explica como esta teologia good vibes, como ele chama, insiste em apontar para o ser humano, levando-o a acreditar que seus anseios estão acima da própria obra de Deus e que ele não criou ser humano algum para sofrer e sim, para ser prósperos e vitoriosos (BIBO, 2021, p. 27). Rodrigo Bibo acrescenta, explicando que:

    “O avanço dessa teologia não é culpa somente de pregadores e cantores, é de todo o povo que consome esse conteúdo sem critérios. Um povo que, no fundo, só quer Deus por aquilo que ele pode dar” (BIBO, 2021, p. 27).

    Este é o Cristianismo do self, que coloca o ser humano no centro e Deus, como um simples servo. A vida cristã está longe de ser isso, sendo que, ter critérios, como o autor coloca, e buscar refletir a partir da Bíblia, é essencial. Deus não é um mero serviçal, ele é o nosso salvador, que pela graça nos alcançou. E se fomos tocados por ele, servi-lo e buscar fazer a sua vontade, e não a nossa, é o primeiro passo lógico.

    Quando lemos a Bíblia, percebemos o quanto estamos distantes da vontade do criador. A palavra de Deus continuamente nos confronta e nos desafia a mudarmos e fazermos a vontade de Deus. A ênfase em sermos servidos e atendidos por Deus não é um princípio bíblico e, por mais que somos convidados a levarmos os nossos problemas e anseios aos pés do criador, aceitar que nem sempre somos respondidos conforme a nossa vontade e sim, a dele, é um princípio básico. O deus que muitos cristãos descrevem está longe do Deus que a Bíblia revela a nós. E servir a ele não é ter uma vida de prosperidade e muito menos ser atendido e servido, conforme os anseios do nosso coração. Ser cristão é seguir a Cristo, entendendo que a sua vontade é sempre a melhor.

    E este livro de Rodrigo Bibo cumpre muito bem este propósito ao mostrar qual é o caminho da verdadeira vida cristã. Com linguagem crítica e descontraída, o autor revela inúmeras contradições que seguem bem distantes da palavra de Deus. A obra nos desafia a colocarmos em prática um cristianismo centrado, entendendo que a vontade de Deus está acima dos nossos desejos e vontades.

    Bibliografia

    BIBO, Rodrigo. O Deus Que Destrói Sonhos. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2021.

  • DESAFIOS DA ESPIRITUALIDADE CRISTÃ III: AUTOCONHECIMENTO E VIDA CRISTÃ

    O conhecimento é algo realmente maravilhoso, muda a nossa vida e expande a nossa visão. De igual importância é o autoconhecimento. Não é raro vermos muitos que não sabem ao menos quem são e, por isso, seguem cometendo erros. Buscar nos conhecer e sair do automático é uma atitude importante, inclusive para aqueles que buscam ter uma espiritualidade saudável.

    O autoconhecimento na espiritualidade cristã é um ponto fundamental. Não é possível conhecer a Deus sem antes sabermos bem quem nós somos. É quando entendemos isso que olhamos para Deus, sendo que, ao pontuarmos nossas falhas e dificuldades, aprendemos a buscar em Deus uma saída para os nossos problemas. Quando não nos conhecemos, mal nos damos conta destas falhas.

    E sobre este assunto, muitos teólogos e pensadores cristãos já mostraram a importância do autoconhecimento para a vida cristã, destaco um deles, entre tantos que abordaram o tema. Santo Agostinho diz que:

    Ouso ensinar-te duas coisas, isto é, conhece-te a ti mesmo e a Deus (Sol. I, 15).

    É fundamental entendermos bem quem somos, a espiritualidade coerente, parte desta verdade, para depois disso, conseguirmos conhecer a Deus. É impressionante constatarmos como a maioria dos seres humanos perece sem saber quem são.

    Temos nossos medos, afinal, somos humanos, temos também os nossos sonhos, as nossas habilidades e dificuldades. E para completar, temos uma história que, em muitos casos, influencia a nossa vida. Ter consciência destas verdades é um passo importante para sermos cristãos relevantes. E é neste ponto que o autoconhecimento entra. John Stott nos ensina que:

    “Até que tenhamos descoberto nós mesmos, não conseguiremos descobrir facilmente nenhuma outra coisa (STOTT, 2004, p. 72).

    David Walton discorre sobre o autoconhecimento como o princípio para a inteligência emocional; sendo que o autocontrole parte justamente disso. Ele nos ensina também que a autoconsciência é a capacidade de conseguirmos entender quem somos, sabendo o que nos motiva ou nos desanima, e o porquê disso acontecer (WALTON, 2016, p. 35). Ao nos descobrirmos, conseguimos mudar, vencendo os obstáculos pessoais que prejudicam a nossa vida e a nossa espiritualidade. Pense que somos os nossos maiores sabotadores.

    E por mais que o autoconhecimento seja complexo, já que a prática parte da minha vida e eu estou sujeito a muitos erros, não é impossível entendermos quais são os nossos erros e dificuldades, pelo menos o mínimo, para desta forma conseguirmos melhorar.

     Peter Scazzero ensina que o autoconhecimento e a nossa comunhão com Deus são pontos totalmente interligados. Sem dúvida, o desafio de colocarmos de lado a nossa vida antiga e vivermos de forma genuína a nossa nova vida está no âmago da espiritualidade saudável e do nosso relacionamento com Deus (2013, p. 83). Anselm Grun pontua que:

    “Sem o autoconhecimento correremos sempre o perigo de nossos pensamentos acerca de Deus serem meras projeções” (1994, p. 26).

    Tire um tempo para refletir sobre a sua vida, tenha humildade para confessar suas falhas e áreas nas quais tem dificuldade. Nós só mudamos quando entendemos nossos pontos fracos. Busque ferramentas coerentes para desenvolver o autoconhecimento e aprenda a refletir de tempos em tempos sobre a sua vida, suas qualidades e dificuldades.

    Algumas práticas são constantes, sendo que o autoconhecimento é um posicionamento, uma forma de agir e refletir. Por isso, descubra quem você é e cultive uma espiritualidade emocionalmente saudável.

    BIBLIOGRAFIA

    AGOSTINHO, Santo. Solilóquios; A vida feliz. 1. ed. São Paulo: Paulus, 2014.

    GRUN, Anselm. O céu começa em você: A sabedoria dos padres do deserto para hoje. Petrópolis: Editora Vozes, 1994.

    SCAZZERO, Peter. Espiritualidade Emocionalmente Saudável: Desencadeie uma revolução em sua vida com Cristo. São Paulo: Hagnos, 2013.

    STOTT, John. Por que sou cristão. Viçosa: Editora Ultimato, 2004.

    WALTON, David. Inteligência emocional: Um guia prático. Porto Alegre: L&PM Editores, 2016.

  • A COMPLEXIDADE DA SIMPLICIDADE

    Tive o primeiro contato com o princípio do equilíbrio financeiro quando eu ainda era jovem e conversei com o gerente da empresa na qual eu trabalhava. Aquele profissional usava um carro popular, mesmo ganhando muito bem, parecia que ele não ligava para a posição social. Ele falava que um carro muito caro não valia a pena, por conta de todos os custos de manutenção e seguro, sendo que um carro popular tinha a mesma funcionalidade de um carro luxuoso.

    Esta foi a primeira vez que vi alguém com condições viver de modo consciente e equilibrado, sem ligar para luxos e posição social, usando o dinheiro de maneira inteligente e funcional. Depois deste dia, conheci outras pessoas que optavam por viver uma vida mais simples e sóbria, fugindo do consumismo e das armadilhas que o dinheiro traz. A partir deste dia, busquei uma forma de viver de modo equilibrado.

    A simplicidade é uma prática complexa, visto que ela segue na contramão das coisas vistas como normais pela sociedade. Existe uma espécie de conduta que a massa segue, mas quando alguém vive de modo diferente, tal forma de viver causa um estranhamento nas pessoas.

    É comum vermos alguém que não ganha muito, comprar um celular ou mesmo roupas e carros bem caros. Conheci muitos que viviam sem dinheiro, mas que ostentavam uma vida nababesca. Sendo que muitos não veem lógica em alguém que ganha bem, querer economizar, vivendo de forma equilibrada. 

    Um dos desafios da simplicidade é conseguir lidar com este estranhamento, já que um carro zero quilômetro e uma casa em um bairro nobre são vistos como sinais de sucesso por muitos. Alguns até falam que dinheiro atrai dinheiro, tudo para justificar uma vida de ostentação, que na maioria das vezes é só de aparência, uma vez que, estas pessoas não revelam o alto preço que muitas vezes elas pagam, por viverem a vida no limite.

    A simplicidade acaba sendo complexa, justamente porque vai de encontro com a norma. Saber gastar e ter o que é necessário é visto por muitos com olhares negativos, sendo esta uma vida sem prazer, segundo eles. O que estes não entendem é que o prazer é muito mais do que comprar, ter e ostentar, é saber gastar, aproveitar o que temos e entender que não precisamos de tudo.

    Eu não passo vontade, quando eu quero algo, eu faço os planos e adquiro o bem, a questão é que eu creio que eu não preciso de tudo e entendo que é fundamental saber fazer uma compra sábia. Algumas de nossas vontades são desejos passageiros ou sem sentido, saber refletir sobre isso é um primeiro passo para o equilíbrio.

    Quem acredita que, para ser feliz, é preciso estar sempre comprando, no final, nunca terá uma vida satisfeita.

  • LIBERTOS POR CRISTO

    “Antes, quando vocês não conheciam a Deus, eram escravos daqueles que, por natureza, não são deuses. Mas agora, conhecendo a Deus, ou melhor, sendo por ele conhecidos, como é que estão voltando àqueles mesmos princípios elementares, fracos e sem poder? Querem ser escravizados por eles outra vez? Vocês estão observando dias especiais, meses, ocasiões específicas e anos! Temo que os meus esforços por vocês tenham sido inúteis (Gálatas 4:8-11) (NVI).

    Como vivermos em sociedade, corremos muitas vezes o risco de sermos influenciados por práticas que não agradam a Deus. Nem sempre os cristãos têm consciência de como alguns hábitos e costumes são nocivos para a fé. Sem contar que, com a falta de conhecimento bíblico, é fácil vermos cristãos aderindo a modas gospel, que estão distantes da palavra do nosso soberano pai.

    Esta importante passagem de Gálatas nos ensina que antes éramos escravos de deuses falsos. E agora que conhecemos e somos conhecidos por Deus, precisamos cuidar para não voltarmos às velhas práticas que não agradam ao nosso soberano, Deus (Gálatas 4:8-9).

    Paulo nesta carta enfatiza que estes cristãos já conheciam a Deus, mas agora insistiam em retornar às velhas práticas e princípios elementares, arriscando voltar a ser escravos novamente (Gálatas 4:11).

    Como seguidores de Cristo, precisamos entender que a nova vida que temos nele nos leva a abandonar aquelas práticas antigas e seguir pautado em sua verdade. Quem tem esta nova vida não pode voltar aos antigos hábitos que estão distantes da vontade de Deus. Os deuses antigos, os costumes da velha vida e as práticas que nos escravizavam precisam ficar para trás. John Stott complementa:

    “Não é impossível voltar à velha vida; os gálatas haviam voltado. Mas é absurdo fazer isso. É uma negação fundamental do que nos tornamos, do que Deus nos fez, se estamos em Cristo” (2018, p. 71).

    O texto nos ensina como é perigoso olhar para trás e voltarmos aquela velha vida. Se estamos com Cristo, precisamos seguir apenas a Ele. Adolf Pohl complementa afirmando que as pessoas que não conhecem a Deus acabam transformando qualquer coisa que conhecem e gostam em deuses. Nem sempre a racionalidade consegue eliminar os deuses da vida das pessoas, o ser humano tem uma tendência de buscar um deus para lhe ajudar, contudo, só o senhor é Deus (POHL, 1999, p. 150). Sem contar com aqueles que transformam ideologias, crenças e opiniões em verdadeiros deuses e seguem cegos por estes ídolos. Mas para quem nasceu de novo, abandonar as velhas práticas e seguir o caminho da graça é essencial.

    Ser conhecido por Deus pode ser resumido em sermos chamados de filhos, somos conhecidos como filhos de Deus e não como um dos servos da casa. Consequentemente, quem é filho deste soberano pai também tem comunhão com ele. Sendo que as práticas pagãs e também a visão legalista dos judeus atrapalhavam o andamento deste processo, substituindo-o por uma lógica meritocrática pautada muito mais em obras (CHAMPLIN, 2014, p. 620). Os religiosos desta época entendiam que as obras e os méritos próprios eram o único caminho para um religioso. Sendo que estas pessoas, que já conheciam a verdade, estavam voltando a agir com esta mesma lógica. John Stott resume novamente o nosso desafio como cristãos quando diz que:

    “Pela graça de Deus, devemos estar determinados a lembrar o que antes éramos e desejar nunca mais voltar a essa condição; lembrar o que Deus fez e conformar nossa vida a isso. Se nos lembrarmos disso, teremos um desejo cada vez maior de viver adequadamente, de ser o que somos, ou seja, filhos de Deus, libertos por Cristo” (2018, p. 71).

    A nossa velha vida precisa ficar para trás, seguir a Cristo é viver buscando sempre ter uma vida equilibrada, procurando em todos os momentos fazer a vontade do nosso soberano Pai.

    A vida antiga já se foi, somos novas criaturas em Cristo, por isso, tome cuidado com as coisas que influenciam você a voltar para a velha vida.

    Bibliografia

    STOTT, John. Lendo Gálatas com John Stott. Viçosa: Ultimato, 2018.

    POHL, Adolf. Carta aos Gálatas: Comentário Esperança. Curitiba: Editora Esperança, 1999.

    CHAMPLIN, R. N. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo: volume 4. São Paulo: Hagnos, 2014.

  • A IMPORTÂNCIA DOS AMIGOS

    Os amigos são peças importantes em nossa vida, a vida solitária é complicada, mas com a presença e o apoio deles, a caminhada fica um pouco mais leve. Sendo que, alguns amigos são muito mais próximos do que irmãos (Provérbios 18:24).  

    Uma das características mais evidentes dos amigos é a liberdade que eles têm conosco, tanto para falar ou discordar sobre assuntos, quanto para advertir e muitas vezes nos aconselhar. Um amigo fala abertamente, sem medo de magoar. Nem sempre temos uma opinião unânime, mas temos total confiança de falar e discordar.

    Eu sempre digo que o verdadeiro amigo em alguns momentos é chato, visto que o amigo não deixa de nos avisar e ajudar, ele não se isenta de falar e advertir quando é necessário. Já o colega não liga se a pessoa está tomando decisões equivocadas, para ele, pouco importa. Amigo não é quem concorda com tudo, mas aquele que tem autonomia para dialogar, conversar e nos alertar. Ao falar da carta de Paulo a Filemom, Silvado explica que:

    “Amigo não é quem concorda com tudo, é quem tem liberdade para discordar de nós. É quem tem liberdade para nos mostrar um novo caminho” (2024, p. 11-12).

    Você tem bons amigos que discordam de você e dos seus planos e mostram ideias melhores, ou caminhos mais coerentes? No afã de realizarmos os nossos planos, muitas vezes não percebemos certos erros, mas quem tem um bom amigo pode também ter um bom conselheiro ou pelo menos alguém que observa um fato, por outro ângulo. É fácil nos enganarmos, mas eles podem nos ajudar a melhorarmos as nossas decisões.

    Filemom é uma pequena carta, a menor que o apóstolo Paulo escreveu e a última a ser redigida, sendo que Romanos é a maior. E esta carta tem um tom pessoal, entretanto, apesar disso, ela não é uma carta particular direcionada apenas a seu amigo, visto que ele menciona Timóteo, seu colaborador, sendo este também um dos destinatários da epístola, além de Áfia, Arquipo e a igreja que existia na casa de Filemom (v. 1) (BOOR; BÜRKI, 2007, p. 435). E no texto é possível notarmos o tom de amizade e intimidade que Paulo tinha com Filemom. O apóstolo queria falar do escravo Onésimo, que havia fugido, mas depois se convertido ao evangelho, e o pedido que ele fazia ao amigo era que recebesse este fugitivo como irmão amado (v. 16). A epístola de Filemom é um pedido de um amigo a outro, solicitando que o seu irmão recebesse bem o fugitivo, que agora era um convertido.

    Em meio à minha curta vida, já recebi avisos e orientações de amigos que, com ótimas intensões, queriam me ajudar a não tomar decisões erradas. Eu dou graças a Deus aos que sempre me alertaram e já comemoraram comigo as minhas vitórias e choraram os meus fracassos. No caso da carta de Paulo ao seu Amigo Filemom, ele queria alertá-lo justamente sobre isso, avisando-o que Onésimo não era mais um simples fugitivo voltando para casa, mas um irmão em Cristo, alguém que havia sido alcançado pela graça divina.

    Os amigos são estes, que possuem total liberdade para conosco e não têm medo ou receio de serem chatos e em alguns momentos exigentes e felizes com as nossas realizações. São eles que nos apoiam e nos alertam, nos auxiliando a decidirmos e agirmos de um modo mais coerente.

    Por isso, cultive amigos, aprenda a caminhar com pessoas que apoiarão você, sendo que uma amizade possui uma relação de apoio mútuo, um ajuda o outro e esta é a verdadeira dinâmica da amizade.

    Bibliografia

    SILVADO, L. Roberto. Filemom, passado apagado. Curitiba: Editora Discipular, 2024.

    BOOR, Werner de.; BÜRKI, Hans. Carta aos Tessalonicenses, Timóteo, Tito e Filemom: Comentário Esperança. Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 2007.

  • A MENTALIDADE DE MERECIMENTO E A GRAÇA DIVINA

    Não é incomum vermos indivíduos atribuindo a culpa de todas as catástrofes do mundo a algumas pessoas ou classes sociais. Normalmente são estes que dividem o mundo em mocinhos e bandidos. Sendo que os bandidos são sempre os outros.

    Na igreja, a divisão é feita entre pecadores, que são as pessoas que não são cristãs e os cristãos, os justos. Quem tem Jesus, segundo estes, são abençoados, quem não tem, vive no caos e na falta.

    A parábola do filho pródigo (Lucas 15:11-32) fala um pouco disso. É quando Jesus conta a história do irmão mais novo, o pródigo, que pediu toda a sua herança ao seu pai, ofendendo-o por tal pedido e depois por sair de casa. Ele o desonrou com estas atitudes e gastou todo o dinheiro de forma irresponsável. Mas Cristo também fala do irmão mais velho do filho pródigo, que foi aquele que não aceitou o perdão do pai, quando o seu irmão retornou arrependido.

    O irmão mais velho havia sido fiel, ele trabalhou duro para o pai e queria recompensas. No seu modo de ver a vida, era injusto o pai perdoar o irmão ingrato, afinal, ele não havia se esforçado tanto e também não era fiel como ele. Timothy Keller acrescenta algo importante sobre esta parábola:

    “Se, a exemplo do irmão mais velho, você pensa que Deus precisa abençoá-lo e ajudá-lo porque, afinal de contas, você se esforçou tanto para obedecer e ser uma pessoa do bem, então Jesus até pode ser seu ajudador, seu exemplo e até inspiração, mas ele não é seu Salvador. Você está servindo na condição de seu próprio Salvador” (2018, p. 41).

    Perceba como, no final, cada irmão estava usando o seu pai de uma forma diferente, sendo que ambos acreditavam que mereciam retorno. O filho pródigo entendia que ele deveria ter acesso à sua herança, mesmo com o seu pai vivo e o filho mais velho, queria ser recompensado por suas atitudes. No final, os dois irmãos estavam usando o seu pai, ambos tinham uma mentalidade de mérito.

    A graça é uma loucura justamente porque desconstrói o mérito. E se você acreditar ser merecedor por ser obediente, fiel e frequentador assíduo da igreja, você não só não entendeu a graça, mas também está usando Deus como fonte de ganho. Com a sua “fidelidade” o propósito é conquistar os favores de Deus. A questão é que o evangelho não nos ensina isso.

    O evangelho nos ensina que ninguém merece, ser humano algum é digno de favor algum, não existe justo algum (Romanos 3:10-12), todos são pecadores (Romanos 3:23-26). A divisão em mocinhos e bandidos é errada, na verdade, segundo a palavra de Deus, todos são bandidos, ninguém merece a graça divina. E se fomos alcançados, precisamos ter este sentimento de humildade.

    O propósito do termo já deixa isso explícito. Graça é um favor para aquelas pessoas que não merecem ajuda alguma. Com isso, pressupomos que aqueles que foram alcançados também não mereciam, por isso, eles precisam ser humildes e gratos a Deus.

    O mundo poderia ser dividido em pessoas culpadas e culpados alcançados pela graça divina. E isso não pode gerar em nosso coração orgulho, mas um sentimento de gratidão a Deus. Só é orgulhoso quem acredita que merece a ajuda, tal qual o irmão mais velho da parábola.

    A vida cristã não pode ser vivida como uma eterna busca por retorno, como se merecêssemos a graça de Deus, mas com gratidão e humildade, visto que, fomos alcançados, sem merecimento algum.

    Bibliografia

    KELLER, Timothy. O Deus pródigo: Recuperando a essência da fé cristã. São Paulo: Vida Nova, 2018.

  • SANTO AGOSTINHO E A VIDA EQUILIBRADA

    Existe um conceito na música que se resume em: “menos é mais”, ou seja, na maioria das vezes é o excesso que atrapalha, visto que ele não permite executarmos uma música da forma mais coerente e correta. É melhor o pouco, mas bem feito, do que o excesso que acaba poluindo a canção. O mesmo conceito podemos aplicar em nossa vida.

    Aprendi ao longo da vida a viver uma vida simples, descobri como nós não precisamos de tudo, com isso, descobri como selecionar bem as coisas que quero e pensar bem se preciso de determinadas coisas, sendo este um caminho interessante, que nos ajuda a termos o suficiente. Menos é mais, como resume o conceito musical, visto que o que importa não é a quantidade, mas justamente o quanto realmente desfrutamos de algo.

    Um dos problemas da nossa sociedade é que costumeiramente o marketing e as redes sociais, muitas vezes, nos fazem termos necessidades de objetos que nem sempre precisamos. Perceba como muitos insistem em vender coisas para você, sendo que criar esta necessidade em sua mente é um bom primeiro passo. E sobre vida equilibrada, gosto de citar o ótimo exemplo de Santo Agostinho.

    Possídio, em sua obra: Vida de Santo Agostinho, relata como o Bispo de Hipona buscava se vestir e adquirir coisas simples, mas adequadas, sendo que um perigo que todos os seres humanos sofrem é justamente a soberba ou a humilhação, sendo que nos dois casos os interesses pessoais e não os de Cristo, ficam acima de tudo (POSSÍDIO, 2022, p. 63). Posssídio complementa:

    “Suas vestes, calçados e lençóis eram simples, mas adequados; nem ótimos, nem péssimos” (POSSÍDIO, 2022, p. 63).

    Agostinho vai falar que o excesso de bens, o luxo e a ostentação plantam no coração humano a arrogância e a soberba que fazem o ser humano tirar os olhos de Deus, contudo o mesmo pode acontecer com aqueles que passam uma vida de faltas e humilhação (POSSÍDIO, 2022, p. 63). É fácil desviarmos os olhos de Deus por conta do luxo e da ostentação, e também não é raro vermos muitos reclamando, tudo e porque estão passando por um período de dificuldade. Tanto a humilhação quanto as dificuldades levam o ser humano a reclamar e também tirar os olhos de Deus. Cuidar com os excessos e buscar viver uma vida comedida, mas também ser grato a Deus e não permitir que os problemas e dificuldades nos façam tirar os olhos dele, é uma atitude essencial. Sendo esta uma vida equilibrada, de alguém que vive entendendo que Deus precisa estar no centro de tudo.

    Aprendi a ser grato a Deus por tudo, descobri como muitas vezes deixamos de perceber a provisão e a graça de Deus nos auxiliando na caminhada. Nem sempre conseguimos realizar os nossos sonhos ou alcançamos nossos objetivos do modo no qual acreditamos ser o mais acertado, mas em momento algum Deus deixa de cuidar de nós.

    A vida equilibrada nos faz ver mais, nos ajuda a valorizarmos o que temos e a não nos pautar por posses ou metas profissionais. A vida é muito maior do que posses ou carreira profissional.

    É na simplicidade que conseguimos viver e desfrutar do cuidado de Deus, entendendo que a nossa maior missão é mantermos os olhos fixos nele, o resto são coisas secundárias.

    Bibliografia

    POSSÍDIO. Vida de Santo Agostinho. São Paulo: Paulus, 2022.

  • SANGUE INOCENTE

    “Quando Herodes percebeu que havia sido enganado pelos magos, ficou furioso e ordenou que matassem todos os meninos de dois anos para baixo, em Belém e nas proximidades, de acordo com a informação que havia obtido dos magos” (Referência: Mateus 2:13-16).

    Como cristão, fico muito preocupado quando seres inocentes são alvos da ação irresponsável do ser humano. O pecado transforma este mundo, criado por Deus, em um caos, mas nós cristãos precisamos aprender a nos posicionar a favor de todos os seres que não podem se proteger. Sejam os animais, que sofrem com a gananciosa ação humana, ou mesmo as crianças, que não conseguem vir ao mundo por conta do aborto, que em alguns países é permitido, e no Brasil, a briga pela liberação ainda é grande.  

    E sobre a iniquidade humana, o próprio Cristo, quando veio ao mundo, foi perseguido pelas mãos injustas de Herodes, mostrando como o ser humano não tem freios e muito menos limites quando ele quer alguma coisa. Esta passagem bíblica revela justamente o tamanho da insanidade humana e o quanto ele consegue fazer por sua ideologia.

    O episódio narrado na passagem bíblica da epígrafe do texto (Mateus 2:13-16), diz respeito à matança de inocentes que só o evangelho de Mateus narra. Após Herodes ser avisado de que Jesus havia nascido, ele se perturbou (Mateus 2:3), assim como toda Jerusalém, o que o levou a perseguir Jesus e organizar a morte de inúmeros inocentes. Esta perseguição de Herodes obrigou a família de Jesus a fugir para o Egito, após o aviso de um anjo que apareceu a José por meio de um sonho (Mateus 2:13).

    Herodes, que, naturalmente, assassinou tanto a sua esposa quanto os seus filhos, não teve dificuldade alguma em matar alguns meninos desconhecidos. E estas crianças não eram somente de Belém, mas também da região ao entorno, visto que ele queria estar certo de que Maria não ficasse ilesa. A quantidade de crianças mortas não foi alta, já que Belém é uma cidade pequena. Devido a tão pequeno número de crianças mortas, este incidente não foi narrado por Flávio Josefo e muito menos pelos outros historiadores da época (CHAMPLIN, 2014, p. 278).

    Tenho um grande receio quanto aos militantes, a política é uma benção, mas consegue também produzir muito caos e descontruir as bases da sociedade. Quando a liberdade humana perde limites, seguimos rumo à barbárie, como foi visto em muitos países totalitários. Aleksandr Soljenítsyn em sua obra Arquipélago Gulag, narra um pouco desta falta de limites, de uma política que brigou por liberdade, mas quando conseguiu, não demorou em instaurar o caos. Ele diz que:

    “Depois de Herodes, só mesmo a Doutrina Progressista para explicar como exterminar até bebês” (2019, p. 605).

    Sou contra o aborto justamente porque vidas inocentes não podem ser punidas pelas ações irresponsáveis de casais que não se cuidam. Existem muitos métodos contraceptivos, por isso que uma vida humana não pode perecer em nome de um capricho. Sei que existem exceções, contudo, estou me referindo à norma. O aborto ceifa uma vida inocente e indefesa. Aprovar o aborto é comunicar que vida alguma tem valor.

    Sem contar que o aborto, em um país onde existe uma grande fila para a adoção, é uma injustiça. Ter a liberdade de assassinar uma vida inocente é uma ação desumana. É comum, militantes afirmarem que a mulher deve poder mandar em seu corpo, porém, a vida de um feto está além do seu corpo.

    Cristo foi perseguido em seu tempo, e a fuga para o Egito só colaborou para o cumprimento de uma profecia (Mateus 2:15), visto que Deus sabe de tudo. E em nossos dias, não podemos aceitar que existam leis que permitam que vidas inocentes sejam ceifadas devido a ideologias militantes. Antes, é preferível que órgãos de adoção tenham a possibilidade de encaminhar estas crianças para um lar responsável.

    Em um mundo onde o sexo está cada vez mais banalizado, permitir que inocentes pereçam em nome do capricho de alguns é um erro. Ou protegemos todas as vidas inocentes, ou permitiremos à injustiça do ser humano definir o que é uma vida inocente, segundo seu ponto de vista. E permitir isso seria um grande erro.

    Bibliografia

    SOLJENÍTSYN, Aleksandr. Arquipélago Gulag: Um experimento de investigação artística 1918 – 1956. São Paulo: Carambaia, 2019.

    CHAMPLIN, R. N. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo: Volume 1. São Paulo: Hagnos, 2014.

  • A CULTURA DA GANÂNCIA

    Na conhecida obra Um conto de Natal de Charles Dickens, Scrooge, o personagem central da história, é descrito como alguém muito rico, mas também muito avarento, que acreditava que celebrar o Natal era um desperdício de tempo e dinheiro. Ele tinha dinheiro, mas vivia economizando tudo, visto que, acumular riquezas era o seu objetivo de vida.

    Gosto desta história porque ela mostra como o ser humano vive sem perceber suas contradições. Ele segue acreditando estar certo e só nota suas incoerências, quando acontecimentos o obrigam a pensar sobre a sua vida e escolhas, no caso do Scrooge, foram os espíritos do Natal, mas nós, pode ser a nossa saúde ou a morte de entes queridos. Gosto de como Charles Dickens descreve Scrooge logo no início da obra, o retrato é uma caricatura de alguém autocentrado e egoísta:

    “Scrooge era um tremendo pão-duro! Um velho sovina, avarento, mesquinho, unha de fome e ganancioso! Duro e áspero como uma pedra de amolar, não era possível arrancar dele a menor faísca de generosidade. Era solitário e fechado como uma ostra” (2011, p. 10).

    O dinheiro é algo ambivalente, ao mesmo tempo que ele permite vivermos bem, comprarmos coisas úteis e livros, ele também pode virar um deus falso, como diria Timothy Keller, um ídolo que toma todo o espaço da nossa vida. Muitos transformam a busca pelo dinheiro no objetivo final, a prioridade máxima da sua existência.

    No livro Deuses falsos, Timothy Keller explica como a maioria das pessoas, inclusive cristãos, curiosamente não se veem como gananciosos e avarentos. O que permite que as pessoas sigam no engano, sem perceberem o erro das suas atitudes. Keller acrescenta que:

    “A ganância se esconde da própria vítima. O modus operandi do deus dinheiro inclui a cegueira em nosso próprio coração” (KELLER, 2018, p. 73).

    A ganância é um assunto trabalhado por muitos autores, inclusive filósofos, sendo que a “cultura da ganância” é justamente o assunto levantado por estes pensadores e é um dos grandes problemas da nossa época. E enxergar a ganância em nós é sempre desafiador, a maioria das pessoas não percebe e, por conta disso, não mudam (KELLER, 2018, p. 72). O desafio é caminhar em um mundo onde acumular coisas não é um erro, na verdade, é sinal de status e sucesso. À luz da Bíblia, um avarento é um idólatra. O Apóstolo Paulo, em Efésios explica que:

    “Porque bem sabeis isto: que nenhum fornicador, ou impuro, ou avarento, o qual é idólatra, tem herança no reino de Cristo e de Deus” (Efésios 5:5) (ARC).

    Um avarento pode ser visto como idólatra, porque coloca o dinheiro no lugar de Deus em sua vida, como um ídolo, que não pode ser tocado e precisa ser reverenciado. Ele existe, mas tem a função primordial de lhe dar status e posição, não é algo que você usa para um fim pontual e sim, um deus que precisa ser servido. Warren Wiersbe complementa:

    “Paulo equipara a avareza à idolatria, pois consiste na adoração de algo além de Deus” (2006, p. 58).

    Este tipo de idolatria transforma o ser humano em um servo do dinheiro. Assim como pessoas serviam a reis e juízes terrenos, muitos vendem a sua alma para o ídolo da riqueza. E ao esperar que estes ídolos lhe deem significado de vida e segurança, servi-los e obedecer-lhes é a motivação central, sendo que, quando você vive para estas coisas, se torna um escravo delas. Mas quando Deus é o centro de tudo, o resto fica abaixo, em uma posição inferior (KELLER, 2018, p. 77). Timothy Keller novamente complementa:

    “Se sua identidade e segurança estão em Deus, as riquezas não podem controlá-lo por meio da preocupação e do desejo” (KELLER, 2018, p. 77).

    Eu já enfrentei muitos vieses financeiros, momentos nos quais, precisei buscar recolocação no trabalho, o que já é difícil por si só, enquanto lidava com um problema sério de saúde. É claro que nestas horas, a dúvida e a preocupação davam as caras, insistindo em jogar no coração o fardo da preocupação. Mas confiar é justamente seguir, acreditando no cuidado e provisão de Deus. E em todos os momentos, víamos Deus cuidando de nós.

    O dinheiro e as posses trazem consigo preocupações, basta uma crise financeira que tudo acaba ruindo, mas quando a nossa vida e segurança é fundamentada em Deus, as preocupações e o desejo descontrolado não ganham lugar em nosso coração.

    A ganancia é perigosa, pois, nos faz colocar o coração nas coisas passageiras. A nossa riqueza está no eterno Deus e não em objetos que se vão com o tempo. Confiar no dinheiro, é construir sua casa na areia, em coisas que não se sustentam, quando as tempestades da vida surgem (Mateus 7:24-27).

    Vivemos em uma sociedade onde viver a vida para ter as coisas, não é um erro. Na verdade, aquele que tem muito, que acumula bens, é visto como uma pessoa de sucesso. Nadar contra esta maré é o nosso desafio como cristãos. Entenda que, não estou falando que temos que viver uma vida de pobreza e sim, para não colocarmos o nosso coração nas posses.

    Nós estamos no mundo, mas o nosso coração precisa estar em Deus. Colocar coisas no lugar de Deus, é fundamentar a sua vida em objetos efêmeros. Confie no eterno, coloque ele no centro de sua vida e não permita que um ídolo algum tome o seu lugar.

    Bibliografia

    DICKENS, Charles. Um conto de Natal. Porto Alegre: Editora L&pm, 2011.

    KELLER, Timothy. Deuses falsos: As promessas vazias do dinheiro, sexo e poder, e a única esperança que realmente importa. São Paulo: Vida Nova, 2018.

    WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo: Novo Testamento 2. Santo André: Geográfica Editora, 2006.

  • FILHOS DE DEUS II

    “Digo porém que, enquanto o herdeiro é menor de idade, em nada difere de um escravo, embora seja dono de tudo. No entanto, ele está sujeito a guardiães e administradores até o tempo determinado por seu pai. Assim também nós, quando éramos menores, estávamos escravizados aos princípios elementares do mundo” (Referência: Gálatas 4:1-7) (NVI).

    A dependência é uma das principais características das crianças, visto que elas são totalmente dependentes dos pais. Por isso que orientar os filhos, estar sempre junto, apoiando e ensinando é uma ação importante.

    No contexto judaico, os filhos eram importantes, na verdade, as pessoas que não tinham filhos não eram bem vistas. Contudo, enquanto eles não completassem a idade certa para o Bar Mitzvah, que é a cerimônia que marca o início da maioridade religiosa, uma criança não era responsável por seus atos de forma consciente.

    O próprio Cristo recebeu as crianças de modo aberto, além de ter usado elas como exemplo de como devemos receber o reino dos céus (Marcos 10:13-16). Jesus Cristo desafiou os costumes do seu tempo, mostrando como o evangelho é algo muito mais profundo do que a cultura religiosa demonstrava.  

    Este texto conclui a discussão que a passagem aborda sobre a função da lei. Champlin explica que Paulo parte do fato que o filho de uma família nobre daquela época, embora fosse o herdeiro de todas as propriedades, não usufruía deste status, na verdade, ele vivia em uma posição de treinamento, educação e disciplina, sendo que muitas vezes um escravo era designado para isso, tendo desta forma autoridade sobre ele. A lei acaba tendo uma dinâmica semelhante, visto que a pessoa acaba ficando debaixo da autoridade dela até que a graça divina o liberte e o faça vivenciar as bençãos de Deus (2014, p. 613).

    À sombra da lei, o ser humano era um herdeiro com menor idade e por isso acabava tendo muitas restrições. Ele era alguém sem liberdade alguma e, mesmo sendo herdeiro e um futuro senhor, ele não era maior que um servo da época. É desta forma que Paulo descreve a dinâmica da lei no Antigo Testamento, antes da vinda de Cristo (STOTT, 2018, p. 67-68).

    Paulo também fala dos espíritos elementares que escravizavam os seres humanos e o propósito não é afirmar que a lei é ruim, maligna, visto que ela foi dada por Deus a Moisés. O que ele quer expor é que o inimigo pegou uma coisa boa e adulterou com o intuito malévolo de escravizar as pessoas (STOTT, 2018, p. 68). E o diabo é um mestre em adulterar o que é bom e justo. Ele pega o que é genuíno e transforma em correntes que prendem e escravizam os seres humanos. John Stott complementa e explica que:

    “Deus intentou que a lei revelasse o pecado e nos levasse a Cristo; Satanás a usa para revelar o pecado e nos levar ao desespero” (STOTT, 2018, p. 68).

    Por isso, foi inevitável Cristo vir nos libertar desta condição, sem a sua graça, acabamos por ficar presos em algo genuíno, mas usado de forma equivocada.

    Sob a sujeição da lei, o ser humano é como uma criança de menor idade, um herdeiro com inúmeras restrições e que não tem diferença alguma dos servos. Mas a partir da graça, Jesus Cristo nos liberta para vivenciamos a realidade que Deus tem para nós.

    A conclusão sobre a lei é que ela revela o nosso pecado e nos leva a Cristo, por isso que não mais seguimos a lei, visto que somos discípulos daquele que morreu por nós e nos libertou para uma nova vida.

    Bibliografia

    CHAMPLIN, R. N. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo: Volume 4. São Paulo: Hagnos, 2014.

    STOTT, John. Lendo Gálatas com John Stott. Viçosa: Ultimato, 2018.