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A VERDADE DELIRANTE
As nossas crenças e o modo como vemos o mundo definem muita coisa. Refletimos e construímos opiniões sobre a vida, a política ou religião, entre tantos temas importantes, a partir das crenças e visões de mundo. Estas crenças nos guiam e certamente, em alguns momentos, nos levam por estradas complicadas, visto que nem sempre elas possuem fundamentos. E para explicar esta falta de fundamentos, gosto do conceito de verdade delirante, que Edgar Morin trabalha em seu livro O mundo moderno e a questão judaica. Este conceito explica muito bem o perigo escondido em algumas formas de pensar.
Algumas verdades são delirantes, ou seja, são verdades parciais, que, de forma local e isolada, até podem ser verdadeiras, mas que quando são usadas de uma forma descontextualizada, terminam por ser uma grande mentira. Edgar Morin ensina que:
“O que é uma verdade que se tornou delirante? É uma verdade de observação isolada, destacada de seu contexto e depois integrada num contexto ideológico artificial […]. É uma verdade parcial que se considera como verdade total quando o espírito reduz uma totalidade complexa a um único fragmento isolado e hipostasiado. É uma verdade local ou isolada que se generaliza de maneira abusiva” (2007, p.75-76).
O autor usa o antissemitismo, visto muito em nossos dias, como um bom exemplo de verdade delirante que é quando as pessoas constroem estereótipos de judeus, sendo que podemos ver estas caricaturas também em filmes. É quando as pessoas afirmam que todos os judeus são ricos ou que um judeu normalmente é pão-duro.
Um bom exemplo de uma verdade que se torna delirante, na minha opinião, é generalizar, que normalmente parte de um princípio verdadeiro, mas que se torna algo incoerente, pela forma e extensão com que a verdade é usada. No final, esta opinião se torna sem sentido e contraditória. Outro exemplo de generalização são aquelas pessoas que usam um acontecimento infeliz, como, por exemplo: aqueles pais que costumam abandonar os seus filhos, para justificar o aborto, visto que, nem todos os pais abandonam seus filhos e o abandono parental, não pode ser uma justificativa para o aborto. Na verdade, estas são duas questões que precisam ser tratadas e discutidas de forma independente. O abandono parental e o aborto são assuntos diferentes, e precisam ser discutidos separadamente.
Na igreja a verdade delirante se resume em falar que Deus é poderoso e por isso, ele fará um grandioso milagre na vida das pessoas, basta dar uma oferta de fé, segundo estes. E perceba a verdade delirante nesta fala, é claro que Deus é poderoso e nos responde e esta é uma grande verdade, mas é sempre da sua forma, em seu tempo e segundo a sua vontade, sendo que, algumas respostas são negativas, nem sempre ele age como queremos. Deus é Deus, por isso que, ele sempre faz conforme bem lhe apraz.
A militância de plantão também usa muitas verdades delirantes, eles pegam pautas genuínas, como a desigualdade, o preconceito racial e muitos outros temas relevantes, e usam como verdades para divulgar uma ideologia. Uma coisa é se posicionar por uma pauta identitária buscando assim posicionamento e ação da sociedade e do governo. Outra coisa é usar estas pautas para promover uma ideologia.
Tudo começa quando acreditamos que estamos certos. Unindo isso ao fato que muitas vezes nós não percebemos nossas contradições. A maioria dos nossos erros acontece por conta da nossa certeza. Aquele que se perde é porque na maioria das vezes, acredita que não está perdido.
Precisamos ser humildes e confessar que alguns casos escapam a nossa compreensão, por isso que é essencial tomar cuidado com a verdade delirante. É fácil usarmos um princípio verdadeiro, mas de forma errada. Ou usar uma verdade de forma descontextualizada, em nome de atender outros propósitos. Como o autoengano é comum a todos os seres humanos, distorcemos a verdade sem percebermos, acreditando estarmos fazendo uma ação genuína.
Bibliografia
MORIN, Edgar. O mundo moderno e a questão judaica. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007.
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MANIFESTO CONTRA A DESESPERANÇA
A felicidade é maravilhosa, mas se sustenta em cima de um fio bem fino, fácil de ser rompido, a felicidade é muito frágil e pode ser perdida sem qualquer dificuldade. Sem contar que é preciso construir uma vida de felicidade, ela se resume a uma ação diária de contentamento e da busca por olhar para o que vale a pena. Já a tristeza não, ela é dinâmica e está sempre aparecendo, mesmo sem ser convidada.
Perceba como a desesperança é dinâmica e se instala em todas as áreas da nossa vida. Mesmo quando temos uma vida boa, de tempos em tempos, precisamos lidar com episódios complicados que nos trazem aquela falta de esperança. Seja uma enfermidade, um período de recolocação de trabalho ou mesmo a morte de um familiar, que tira o nosso chão. É fácil perdermos a esperança, mesmo que, no geral, tudo esteja dando certo.
E mesmo para alguém bem realista, como eu sou, nem sempre é simples lidarmos com certas situações. A desesperança é uma convidada indesejada, mas insistente, teima em aparecer em nossa vida.
É fácil disfarçar os momentos de tristeza, basta ser positivo e motivado ou ser alguém que insiste em ver sempre o lado bom dos problemas. Mas é inevitável encararmos a desesperança, quando esta pessoa positiva abaixa a guarda. A motivação é temporária, como o banho, precisa ser praticada diariamente e nem sempre conseguimos deixar a motivação em dia, por isso, são nestas horas que precisamos enfrentar os momentos de desilusões.
Segundo o dicionário, a desesperança é a falta ou a perda de esperança, pode ser um período de desilusão ou descrença. Ou mesmo um momento no qual estamos desesperados, sem qualquer esperança (DICIO, 2024). Perceba que o termo se refere tanto às pessoas que normalmente são um pouco mais negativas, sem esperança e pessimistas, quanto aos que passam por períodos obscuros. Alguns são naturalmente desesperançados, outros se tornam, com as batalhas da vida.
Por isso, quando falamos em esperança, discorremos sobre princípios, pontos de partida que fundamentam a nossa vida. Quem perde a esperança, na verdade, revela como a sua esperança era frágil e fraca. É por isso que o salmista nos ensina onde devemos nos abrigar e colocar a nossa esperança. Ele afirma que:
“Tu és o meu abrigo e o meu escudo; e na tua palavra coloquei a minha esperança” (Salmos 119:114) (NVI).
Perceba como ele colocou a sua esperança na palavra de Deus, não foi em si ou em outras pessoas, o seu abrigo é Deus. E é isso que revela a desesperança, ela mostra como coisas e ideias muitas vezes são fracas. Por isso que precisamos colocar nossa esperança no que é Eterno e Soberano. E por mais que possamos enfrentar decepções e momentos complicados, nunca estaremos desesperançados.
É ótimo falar sobre este o Salmo, visto que ele é o mais longo dos salmos, sendo o maior capítulo da Bíblia. Ele é um acróstico construído de forma muito hábil, estando ele dividido em 22 estrofes, sendo que cada uma das estrofes começa com uma letra do alfabeto hebraico, formando assim, o alfabeto todo, do início ao fim. O texto é um cântico de amor à Bíblia, a maioria dos versículos aponta para a palavra de Deus, mostrando a sua importância como fundamento para a vida cristã centrada (CONNELLY, 2017, p. 300).
E a Bíblia é este princípio que precisa fundamentar a nossa vida, seja em dias de alegria ou desesperança. Ou buscamos o nosso abrigo em Deus, ou seguiremos à deriva, neste mundo caótico.
Eu tenho os meus dias de dificuldades, momentos onde o caos parece ser a ordem do dia, mas como a esperança não vem de mim, sigo confiando no cuidado de Deus. A desesperança mostra onde estão os nossos fundamentos, ela muitas vezes revela que precisamos alicerçar a nossa vida no que é verdadeiro. Por isso, em meio à falta de esperança, você precisa ver quem tem sido o seu escudo.
Quando a nossa esperança vem de Deus, a desesperança não tem abrigo e podem surgir problemas, mas nunca a falta de confiança em Deus.
Bibliografia
CONNELLY, Douglas. Salmos: Tudo sobre os Salmos, reunido e organizado de manira completa e acessível. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017.
DESESPERANÇA. In: DICIO, Dicionário Online de Português. Porto: 7Graus, 2024. Disponível em: https://www.dicio.com.br/epitimia. Acesso em: 10/07/2024.
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A ERA DAS TREVAS EMOCIONAIS
Mesmo com todos os avanços científicos e toda a tecnologia que temos em mãos, a nossa sociedade não tem conseguido evitar alguns males psíquicos, sendo que a depressão e a ansiedade são algumas destas enfermidades que têm crescido cada vez mais em nossos dias.
Augusto Cury chama os nossos dias de Era das Trevas Emocionais, fazendo uma comparação com a chamada Era das Trevas da Idade Média, que semeou alguns medos e problemas na sociedade da sua época.
Seguimos em meio a uma grande guerra emocional, onde a tecnologia tem ceifado a saúde mental de muitos. Nunca vimos tantas pessoas doentes como hoje, carentes de paz, diálogo e empatia, tudo por cauda da lei do menor esforço, sendo ela uma das causadoras de inúmeros males.
É esta lei que leva pessoas a interagirem muito mais com personagens da televisão do que com pessoas na vida real. Ou fazer com que alguém mergulhe no celular por longas horas, ao invés de gastar um tempo com uma pessoa ou um bom livro. Um bom diálogo, uma boa amizade não tem preço, a solidão das redes sociais é nociva. Augusto Cury explica que:
“A solidão na era das redes sociais é atroz, densa e asfixiante. Como não sabemos ter diálogo inteligente com os outros e até com nós mesmos, pensamos muito, sem qualidade” (CURY, 2019, p. 11).
O diálogo com o outro é fundamental, somos seres sociais e precisamos estar junto das pessoas. O diálogo interno e a boa reflexão também são importantes. E só conseguimos fazer estes diálogos, quando não estamos em meio aos inúmeros estímulos e notificações que atrapalham o nosso pensamento.
O silêncio e a solitude, bem como a reflexão e o diálogo que fazemos conosco, já são realidades visíveis, poucos costumam construir estes momentos. O individualismo e a condição de estar sempre conectado têm gerado adultos doentes, que não ouvem, muito menos dialogam.
Outro ponto complicado desta nossa era, conforme pontua Augusto Cury, é o excesso de informação. É fundamental termos informação, mas o excesso dela é bem complicado. Saber selecionar e, em alguns momentos, colocar limites é fundamental para a nossa saúde. Em tempos de pandemia, eu precisei fazer isso, visto que, eram muitas notícias e Fake News que disseminavam o medo e o equívoco, que eu optei por estabelecer um limite. Muitos seguem com cefaleia, dores de cabeça e esgotamento, tudo porque permanecem mergulhados no excesso. Cury novamente complementa, expondo que:
“O excesso de informação gera mentes estéreis, pois novos conhecimentos nascem nos solos das perguntas, não nas imensas planícies das respostas” (2019, p. 11).
Equilíbrio e limites são práticas fundamentais para conseguirmos construir o saber de modo saudável e construtivo. Ter conhecimento e informação é fundamental, mas o excesso é complicado.
Cultive amigos que serão seu apoio na caminhada, ter pessoas para dialogar e caminhar com você é muito importante. A reflexão a dois (ou mais) é algo muito valioso, mas também separe o seu tempo de solitude, aprenda a parar, pensar e refletir com calma sobre alguns assuntos e questões da sua vida, nem tudo precisa ser feito com pressa e rapidez.
Por fim, coloque limites nas notícias e nos conteúdos que você acessa diariamente, o excesso de informação não é positivo, a qualidade da informação é muito mais importante do que a quantidade.
Em meio aos nossos dias de exageros, nesta nossa nova Era das Trevas, precisamos ser inteligentes e cultivar uma vida construtiva, ao invés de ser sugado pelo redemoinho de excessos que é a internet. Ter uma qualidade de vida depende de você, por isso, construa uma vida equilibrada.
Bibliografia
CURY, Augusto. Inteligência socioemocional: Ferramentas para pais inspiradores e professores encantadores. Rio de Janeiro: Sextante, 2019.
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A MARCA DA DESOBEDIÊNCIA
Meu avô gostava muito de eletrônica, era comum vê-lo montar placas de circuito e soldar inúmeras coisas. E é bem evidente que eu, uma criança curiosa, ficava ao seu lado observando tudo. O que me faz lembrar de uma história.
Em um determinado dia, enquanto o meu avô soldava algumas peças (e eu insistentemente observava), com o ferro de solda nas mãos, ele avisou para que eu nunca tocasse naquela ferramenta, contudo, na primeira oportunidade que tive, eu mexi e queimei a mão, é evidente. O ser humano tem uma curiosidade estranha pelas coisas que são proibidas.
Quando eu reflito sobre desobediência, me recordo deste episódio. É comum muitos acreditarem que algumas leis bíblicas são injustas e servem apenas para impedir alguém de fazer o que é legal, mas ao contrário do que pensamos, as leis de Deus servem para nos proteger. É como na história do ferro de solda, meu avô queria apenas que eu não queimasse a minha mão, assim sendo, a sua proibição era boa, era apenas para me proteger.
Obedecer é um princípio fundamental na vida cristã, seguir aos mandamentos divinos, ao invés de pontos de vista próprios, é um ponto de partida essencial para quem segue Cristo. E sobre isso, o apóstolo Paulo nos ensina que:
“Logo, assim como por meio da desobediência de um só homem muitos foram feitos pecadores, assim também por meio da obediência de um único homem muitos serão feitos justos” (Romanos 5:19) (NVI).
Neste versículo, Paulo conclui uma reflexão que começa alguns versículos antes. Ele diz que foi pela desobediência de Adão (Romanos 5:12), que o pecado entrou no mundo, e é esta desobediência que faz do ser humano um pecador, mas foi pela obediência de Cristo, que somos salvos (Romanos 5:19). Obedecer é essencial, tanto que até Jesus obedeceu. E a desobediência é a marca daqueles que insistem seguir seus desejos e vontades.
Sobre o papel de Adão e o pecado Adolf Pohl nos explica que a humanidade não se resume em um grupo de pessoas que seguem isoladas, ao contrário, somos um corpo. Cada ser humano vive tendo um vínculo com as demais pessoas, para o benefício ou malefício de todos. E neste grupo de relações, o papel de Adão (Romanos 5:12) foi único, ele abriu a porta para o mundo de pecado no qual vivemos hoje (POHL, 1999, p. 96).
No entanto, perceba como o nosso papel na sociedade também atinge a vida de outras pessoas. Pois vivermos em sociedade, assim sendo, as nossas ações muitas vezes interferem na vida dos outros. Seja quando eu não sou uma pessoa responsável no trânsito, quando não cuido da natureza ou mesmo não respeito a privacidade do outro ouvindo música muito alta, entre tantas atitudes que interferem na vida do próximo. O significado do termo, em grego, joga uma grande luz no assunto:
“O significado é com certeza “recusar a ouvir” ou “recusar dar atenção a”, isto é, “desobedecer”” (LOUW; NIDA, 2013, p. 418).
A desobediência é uma recusa em ouvirmos um aviso e, assim como Adão se recusou a ouvir o aviso de Deus e decidiu desobedecer, da mesma forma nós muitas vezes fechamos os nossos ouvidos para o evangelho e muitas vezes decidimos seguir da forma que melhor nos agrada. Este exemplo serve tanto para a nossa vida espiritual, quando insistimos em caminhar do nosso modo e decidimos não mais imitar a Cristo, quanto como cidadãos, quando insistimos em transgredir leis ou o espaço alheio em nome de um capricho próprio.
Porém, o texto não fala apenas da desobediência de Adão, mas fala também da obediência de Cristo. No texto, o apóstolo Paulo usa Adão e Cristo como entidades representativas, enfatizando como os seus atos trazem consequências e determinam o curso da vida daqueles que pertencem a eles. Assim sendo, Adão acabou pecando e, por conta disso, o pecado trouxe morte a todas as pessoas. Entretanto, Jesus Cristo obedeceu e, por causa disso, trouxe vida e justiça a todos os que o seguem (CARSON et al, 2012, p. 1706). Por isso que, seguir a Jesus, mesmo que em alguns momentos não seja tão fácil, é ser um ser humano mais correto e centrado, é caminhar na obediência e na justiça, como o próprio Cristo caminhou. Ele obedeceu e morreu por nós.
Este exemplo paulino nos traz uma pergunta: a quem você segue? Adão ou Cristo? Só há vida em Cristo, é só nele que temos perdão e justiça. Na primeira pessoa, a única coisa que herdamos é a morte, mas em Jesus nós temos vida, basta apenas fazermos a boa escolha.
Com a história que contei no começo do texto, aprendi como a desobediência é uma ação muito egoísta. Eu desobedeci ao meu avô, que estava fazendo um trabalho, mas com a minha desobediência, ele precisou parar com a sua atividade e me atender, já que eu havia queimado a mão.
Perceba como muitas vezes o ser humano não percebe como o pecado e a desobediência, além de desagradar a Deus, prejudica a outros. A marca principal da desobediência é justamente o egoísmo, é uma atitude que a pessoa toma para agradar a si, sem, muitas vezes, pensar nas consequências e no próximo.
Por isso, imite a Jesus, aquele que obedeceu e morreu por nós sem reserva alguma. Siga aquele que não foi egoísta e morreu por indivíduos que não mereciam a mínima graça divina.
Bibliografia
CARSON, D. A.; FRANCE, R. T.; MOTYER, J. A.; WENHAM, G. J. Comentário bíblico Vida Nova. 1. ed. São Paulo: Vida Nova, 2012.
POHL, Adolf. Carta aos Romanos: Comentário Esperança. Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 1999.
LOUW, Johannes.; NIDA, Eugene. Léxico Grego-Português do Novo Testamento: Baseado em domínios semânticos. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2013.
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FÉ E EMOCIONALISMO
É comum ouvirmos que algumas igrejas são mais “frias” do que outras por conta da sua dinâmica de culto. Sendo que os cristãos também passam pela mesma avaliação. Existem aqueles vistos como frios e os avivados. E tais cristãos avivados normalmente são aqueles que sempre têm aquelas explosões emocionais, como se isso fosse realmente a melhor definição do termo.
A fé e o arrependimento, por exemplo, não são explosões emocionais que precisam acontecer em determinada hora do culto, mas é uma prática diária, que deve fazer parte da vida de todos os cristãos. É como respirar, deve ser constante e habitual, tais condutas devem estar introjetadas em nossas vidas. Tish Warren comenta que:
“Para alguns de nós, a ideia de arrependimento pode trazer à mente uma certa experiência emocional ou músicas emotivas num apelo de cultos avivalistas. Mas o arrependimento e a fé são ritmos constantes e diários da vida cristã, como expirar e inspirar” (2021, p. 80).
A vida cristã é uma prática, um estilo de vida que possui fundamentos e não uma caminhada de emoções e explosões emocionais. Nem sempre estaremos motivados e alegres, mas precisamos manter o ritmo constante na busca por Deus e o estudo da sua palavra.
Mais do que emoção, precisamos ter fundamentos e perceber como uma boa teologia gera no cristão uma vida coerente e fundamentada. Costumamos colocar a teologia em outros patamares, como se ela fosse útil apenas em alguns casos especiais. Contudo, ela nos faz termos uma boa e centrada caminhada cristã.
Gosto de alguns problemas filosóficos e teológicos, eles nos mostram como alguns assuntos são complexos, mas também úteis para a reflexão. Sendo que muitos destes problemas são aplicáveis à vida cristã, basta refletirmos um pouco. O problema do mal, segundo Agostinho de Hipona, por exemplo, é um bom exemplo disso.
O mal para ele é fruto do livre-arbítrio humano, das escolhas que todos os seres humanos fazem partindo da sua vontade. Só neste ponto já podemos entender como os seres humanos possuem responsabilidades morais em suas ações. Mas Agostinho continua, ele diz que o mal não existe ontologicamente, ele é uma espécie de ferrugem no bem, que surge quando o ser humano se afasta de Deus. Perceba como não precisamos ser filósofos para entendermos como é fácil o ser humano se afastar de Deus. Principalmente quando ele segue a sua vontade, sem refletir e meditar. O mal tem o seu início quanto nos afastamos de Deus, o Sumo Bem.
Conheço muitos que frequentam cultos todos os dias, mas estão bem distantes de Deus, justamente porque seguem ensinos ou costumes que não são oriundos da Bíblia. É fácil irmos à igreja todos os domingos e seguirmos a nossa semana afastados de Deus, nos esquecendo das questões práticas do cristianismo. E este afastamento é o princípio do mal.
É no ordinário que erramos muitas vezes, é no dia a dia que colocamos de lado pontos essenciais da espiritualidade cristã. E a fé é um bom exemplo disso. Ter fé não é ter explosões emocionais, ao contrário, é uma prática diária fundamentada na palavra.
É fácil nos separarmos de Deus, principalmente quando acreditamos que a nossa atitude está certa. No entanto, a nossa crença e ação precisam ser fruto da palavra de Deus, caso contrário, seguiremos nos distanciando cada vez mais da vontade do nosso soberano Pai.
A vida cristã é simples, nós é que complicamos ao optar seguirmos as nossas debilitadas opiniões!
BIBLIOGRAFIA
WARREN, Tish H. Liturgia do ordinário. São Paulo: Pilgrim Serviços e Aplicações; Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2021.
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A DÁDIVA DA DOR
Nem todos sabem lidar com a dor, sendo que muitos entendem a dor como algo negativo, como se ela não tivesse uma importante função em nosso organismo. A dor é fundamental, sem ela, certamente teríamos muitos problemas, como muito bem pontuam Paul Brand e Philip Yancey, no livro A dádiva da dor.
Esta obra se inicia com a história de uma menina que não sentia dor e, desde pequena, costumava morder os dedos. A criança não entendia a importância de ter cuidado com a sua saúde física e muito menos aceitava que era perigoso ficar se machucando. Por não sentir dor, ela não entendia o distúrbio e acreditava não haver problema algum em se cortar. Assim sendo, aos 11 anos, a criança perdeu todos os dedos das duas mãos pelo costume de mordê-los e precisou amputar as pernas, por se recusar a usar sapatos especiais e insistir em andar sempre descalça. A simples falta da dor trouxe inúmeros problemas àquela menina. Sua história é uma excelente metáfora humana sobre o perigo de vivermos uma vida sem dor.
Outra história impactante do livro é a de uma mulher na Índia que costumava assar batatas em um braseiro e, quando uma delas caía no fogo, ela chamava um senhor com lepra que costumava resgatar as batatas. Ele já não tinha a mão e os dedos perfeitos e seguia apático aos avisos do médico. Existia também um paciente que havia quebrado a perna, mas pela indiferença à dor, ele conseguiu piorar ainda mais o problema ao correr pela clínica, precisando assim, amputar a perna depois de um tempo (YANCEY; BRAND, 2005, p.19-20). Paul Brand complementa falando destas duas cenas e o impacto que elas geraram em sua vida:
“Essas duas cenas me perseguiram por muito tempo. Quando fecho os olhos, ainda posso ver as duas expressões faciais, a indiferença cansada do velho que tirou a batata do fogo, a alegria efervescente do jovem que correu pelo pátio. Eventualmente, um perdeu a mão, o outro a perna; eles tinham em comum uma despreocupação absoluta com a autodestruição” (YANCEY; BRAND, 2005, p. 20).
A mentalidade que tem alguém que não sente dor, impacta uma pessoa que sente e, com isso, se cuida para não prejudicar a sua saúde. A autodestruição que a hanseníase causa começa na mente, visto que o paciente não percebe a gravidade do seu problema e, por isso, segue prejudicando a integridade do seu corpo.
No decorrer do primeiro capítulo, Paul Brand, um médico especialista em hanseníase e no defeito genético conhecido como: “Indiferença congênita a dor”, expõe várias histórias de pessoas que prejudicaram a sua saúde e a integridade do seu corpo, pela simples falta de dor. A falta de dor gerava um descuido e, em contrapartida, problemas graves de saúde. A dor é um alerta que nos obriga a prestarmos atenção em um problema. Sem a dor, o ser humano segue se machucando, podendo perder partes do corpo e até a sua vida.
Tendo vivido os seus primeiros anos de vida na Índia, em meio a uma população pobre e sofrida, Paul Brand teve contato com a dor desde cedo, percebendo assim a sua importância. É fácil o ser humano cultivar o medo da dor, principalmente quando ele não entende os problemas que muitos indivíduos têm por não conseguir senti-la. Mas quando você entende o seu fundamental papel, você passa a olhá-la com outros olhos. Paul Brand complementa:
“A lepra apenas silenciava a dor, e os danos posteriores surgiam como um efeito colateral da insensibilidade. Em outras palavras, todos os danos subsequentes eram evitáveis” (2005, p. 188).
Por fim, o autor mostra no decorrer de todo o livro como a falta de dor é prejudicial e como muitos se machucavam, ficavam cegos e perdiam partes do corpo, tudo e porque não sentiam dor. A dor é uma dádiva, ela nos avisa e permite que consigamos tomar os devidos cuidados. Sem a sensibilidade que todos os seres humanos têm, um portador de hanseníase acaba se prejudicando por completo.
Nem todos percebem o papel da dor, existem pessoas que até ficam indignados ao ver a dor ou pessoas sofrendo com alguns males, a grande questão é que, o mundo sem dor, seria autodestrutivo, se resumiria em uma sociedade sem sensibilidade e apática aos sinais que nos ajuda a termos cautela e cuidado. E isso ficou bem claro no livro, com as inúmeras histórias dos pacientes que não tinham qualquer preocupação com a sua saúde.
A dor é um alarme que nos alerta e permite que tenhamos prudência e moderação, por isso que, entre não sentir nada e sentir, mesmo que seja dor, certamente é melhor sentirmos. A falta da dor deixa os seres humanos apáticos e autodestrutivos.
Bibliografia
YANCEY, Philip.; BRAND, Paul. A dádiva da dor: Por que sentimos dor e o que podemos fazer a respeito. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 2005.
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FILHOS DE DEUS I
“Todos vocês são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus, pois os que em Cristo foram batizados, de Cristo se revestiram. Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus. E, se vocês são de Cristo, são descendência de Abraão e herdeiros segundo a promessa (Referência: Gálatas 3:26-29) (NVI).
Pai é aquele indivíduo que cuida, que olha para os seus filhos com amor e protege, ensina e está sempre pronto para mostrar o caminho. Nem sempre o filho consegue perceber o quanto um pai se doa, apenas quando se torna pai que ele entenderá esta realidade.
E de todos os pontos significativos do fato que somos cristãos, sermos chamados de filhos, por um Deus de graça, é algo que eu considero muito profundo. Fomos alcançados por sua graça, ele nos redimiu, mediante a sua bondade e ainda nos fez filhos, mediante a fé em Cristo (v. 26).
Assim, o cristão não foi apenas salvo de uma vida de pecado, mas também foi feito filho e esta é a primeira importante ênfase desta passagem. Deus, o justo juiz, agora nos fez filhos por meio de Cristo. John Stott complementa esta importante passagem:
“Deus já não é o juiz, que, por meio da lei, nos condenou e nos aprisionou. Deus já não é o tutor, que, por meio da lei, nos restringiu e nos castigou. Deus é nosso Pai, que, em Cristo, nos aceitou e nos perdoou (STOTT, 2018, p. 62-63).
Enquanto a lei nos coloca como prisioneiros (v. 23) encarcerados em uma vida de obrigação e prestação de contas a um tutor. A graça divina nos faz filhos de Deus e este é o maior presente que podemos ganhar.
Outra importante ênfase que o texto dá é que Deus nos coloca como iguais, nós somos um em Cristo, por isso que, segundo a sua palavra, não somos diferentes, somos iguais em Cristo. Sejam judeus ou não, homens ou mulheres, somos todos iguais, visto que Jesus nos faz um (v. 28). Por isso que, qualquer tipo de divisão, preconceito ou status que divide os cristãos é equivocado.
O evangelho desconstruiu a separação que existia entre gentios e judeus (Efésios 2:11-18), sendo este o centro do argumento de Paulo nesta epístola. Entretanto, ele também discorre sobre os livres e os escravos, o homem e a mulher, o judeu e o grego (v. 28), mostrando como não existe importância nestas condições ou qualquer posição social diante de Deus (CARSON et al, 2009, p. 1827). John Stott complementa novamente nos ensinando que:
“Em Cristo, pertencemos não só a Deus como filhos, mas uns aos outros, como irmãos e irmãs. E pertencemos uns aos outros de tal maneira que não nos importamos com as características que normalmente nos distinguem, como raça, posição social e gênero” (STOTT, 2018, p. 63-64).
Perceba a riqueza do evangelho, que é nos colocar como iguais, independentemente de quem nós somos e como somos vistos pela sociedade. No reino de Deus, somos todos irmãos.
Nosso soberano pai é um Deus de justiça, que não demora em cumprir a sua palavra, mas ele também é um senhor de graça, que perdoa e nos faz filhos. Ser perdoado e visto como filho de Deus é uma oportunidade única, que só Deus faz por nós.
Bibliografia
CARSON, D. A.; FRANCE, R. T.; MOTYER, J. A.; WENHAM, G. J. Comentário bíblico Vida Nova. 1. ed. São Paulo: Vida Nova, 2009.
STOTT, John. Lendo Gálatas com John Stott. Viçosa: Ultimato, 2018.
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DEPENDÊNCIA DE TELAS: DESLIGUE O CELULAR E FIQUE LIGADO
Eu tinha um costume muito ruim quando era mais novo. Ao acordar, a primeira coisa que eu fazia era ligar o celular, e este hábito era quase que um ritual. Antes de qualquer atividade, a minha prioridade era verificar as notificações como se fosse um caso de vida ou morte.
Com o tempo, pude perceber como esta prática estava me proporcionando inúmeros malefícios e, inclusive, estava minando a minha concentração. Eu também notei como as redes sociais consumiam uma boa parte do meu tempo, por conta disso, entendi que precisava buscar mudança.
Entenda que eu gosto da internet e não tenho nada contra as redes sociais. Quando bem usadas, elas são ótimas ferramentas. O problema é quando as telas determinam o ritmo de todo o seu dia, sendo que esta reflexão serve também para a televisão ou qualquer coisa que escravize você.
Tish Warren explica como, conscientemente ou não, o ser humano é moldado por rituais, sendo que estas práticas moldam quem nós somos. E não é só a igreja ou a Bíblia que nos incentivam a termos práticas que se tornam automáticas, como orar ou ler a palavra de Deus, mas a sociedade, a cultura e o meio no qual vivemos também incutem tais atividades (2021, p. 43-44). E esta vida automática nos molda e muitas vezes determina como o nosso dia será, ou mesmo o nosso humor, ou o ritmo pessoal. Warren complementa, usando a sua experiência como exemplo, quando também tinha o costume de pegar o celular assim que acordava:
“Nós temos hábitos cotidianos, práticas formativas, que constituem liturgias diárias. Ao buscar primeiro o meu celular a cada manhã, eu desenvolvi um ritual que me treinou para determinado fim: entretenimento e estímulos por meio da tecnologia” (2021, p. 46).
Perceba a armadinha e o perigo de transformarmos algo em um rito que determina toda a nossa vida, a influência é sutil, nem sempre percebemos, mas ela existe. Por isso, aprendi a colocar limites nas redes sociais, descobri como é poderoso poder acordar e, antes de tudo, priorizar o meu momento com Deus, agradecer pelo maravilhoso dia e ler a sua palavra. Sem contar com o período que eu separo para refletir, estudar e escrever. Hábitos são comuns em nossa vida, por isso, precisamos agir com intencionalidade para construirmos bons momentos.
Existe um velho ditado que é útil nesta reflexão, ele diz que: “tudo o que é demais atrapalha”. O excesso é realmente um perigo; por isso, é indispensável buscarmos o equilíbrio.
Aprenda a preencher o seu dia com hábitos que vão agregar em sua vida, e não deixe de usar as redes sociais, apenas coloque limites. Entenda como é inútil gastar quase todo o seu tempo nisto. Separe um tempo para outras atividades mais construtivas e busque deixar o seu celular longe de você. E caso tenha crises de abstinência, isso só vai revelar o quanto o seu costume chegou em um nível grave. Se você persistir em seu período longe dele, você descobrirá o quão libertador é ficar longe deste equipamento.
Em um período de recolocação profissional, acabei voltando a conferir sempre o celular devido às esperas por respostas de processos seletivos. Isso me obrigou a retomar todo o trabalho de me desligar do celular e perder este costume novamente. Perceba como tal equipamento é viciante e define muito a nossa vida. É como a autora pontua:
“O cerne da nossa formação está na monotonia das nossas rotinas diárias” (WARREN, 2021, p. 46).
Às vezes não nos damos conta de como as pequenas práticas nos influenciam, por isso, precisamos de forma consciente construir rotinas, liturgias que vão agregar muito mais em nossa vida. E hoje, o vício em telas é uma realidade que tem atrapalhado muitas pessoas. Ficar atento e frear estes rituais é uma ação necessária para que o nosso dia se inicie de modo construtivo.
Bibliografia
WARREN, Tish H. Liturgia do ordinário. São Paulo: Pilgrim Serviços e Aplicações; Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2021.
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O EVANGELHO DE DEUS E A TEOLOGIA DA PROSPERIDADE
O que me impressiona no evangelho é perceber como ele muda a nossa mente e todas as nossas prioridades. Vivemos em um mundo de pecado, que valoriza muito mais as coisas materiais do que as eternas. Contudo, quando o evangelho entra em nossa vida, tais prioridades perdem o seu significado, é neste momento que começamos a nossa caminhada cristã.
A minha crítica à teologia da prosperidade é que ela valoriza as coisas que são terrenas e que não duram, esta teologia faz as pessoas focarem no que não é essencial. Sendo que, a mensagem cristã aponta justamente para outro lado. Ela foca em Cristo e aponta para a morte que nos deu vida e a grande oportunidade de podermos estar em contato com este Deus de graça.
A teologia da prosperidade valoriza bens e dinheiro, ela ensina que seguir a Deus é ter em sua vida, muitas posses e riquezas, é desfrutar das coisas boas deste mundo. Entretanto, não é este o cerne da mensagem cristã. O evangelho é salvação, é ser liberto de uma vida de pecado e seguir rumo à eternidade. Se você serve a Deus pelas coisas que ele pode te dar, você está seguindo tudo, menos o evangelho.
Entenda que o pecado é responsável por todos os males do mundo. O homem pecador está suscetível a todos os tipos de barbáries por causa desta condição. É por isso que o inferno é a consequência daqueles que vivem uma vida de pecados, sendo que o inferno é a ausência de Deus, é estar distante do nosso soberano pai. Quer castigo maior do que este? Contudo, o evangelho nos libertou desta infeliz condição. Paulo, na Epístola aos Romanos, diz:
“pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente por sua graça, por meio da redenção que há em Cristo Jesus” (Romanos 3:23-24) (NVI).
A morte de Cristo nos deu uma nova vida e por isso, o resto perde o sentido. E esta é a mensagem cristã, o evangelho não vende bens e muito menos prosperidade material, ele prega a vida eterna. E quando somos libertos do pecado, não nos tornamos necessariamente prósperos e sim, filhos de Deus. Quer riqueza maior do que esta?
O pecado nos leva a ter uma vida infeliz, é por conta dele que o mundo está um caos, e o inferno é a consequência desta vida de pecado, mas o evangelho veio para nos trazer uma ótima notícia, que é a salvação por meio do sacrifício de Cristo. Este é o resumo da mensagem cristã, quando entendemos, percebemos o quanto a teologia da prosperidade não tem sentido e o quanto a mensagem foge do evangelho de Deus.
Quando você percebe que era cego pelo pecado e destinado a estar eternamente em um lugar totalmente distante de Deus, mas que você foi salvo pela misericórdia e graça deste soberano pai, o resto perde o sentido. Nada vale mais do que o sacrifício que nos libertou do pecado. Paul Washer complementa:
“Viva por aquilo que é eterno, viva por aquele que morreu por você. Isso é o evangelho, e o evangelho deve controlar sua vida e ser a sua vida, e ser aquilo que você mais deseja” (2018, p. 18).
Mais do que bens e riquezas que são passageiras e acabam com o tempo, o evangelho fala de coisas eternas, sendo que o nosso propósito central é seguirmos a Cristo, é vivermos centrados nos ensinos que Jesus, esta é a verdadeira vida cristã. E ser próspero financeiramente, não resume nem um pouco o que o verdadeiro evangelho nos ensina.
Ou aprendemos a seguir o evangelho de Deus, ou seguiremos amarrados em ensinos humanos, que nos prendem às coisas passageiras, e este é um dos grandes problemas da teologia da prosperidade.
Bibliografia
WASHER, Paul. O evangelho de Deus & o evangelho do homem. São Paulo: Hagnos, 2018.
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A VIRTUDE DO FORTE
Não é raro vermos algumas caricaturas ganharem força e acabar ditando o significado de algumas coisas. A caricatura do cristão bonzinho, aquele que todos se aproveitam dele, é um bom exemplo. É significativo entender que uma pessoa boa não é necessariamente um indivíduo no qual todos fazem de palhaço. Basta ler sobre Cristo nos evangelhos, para perceber isto, alguém que era bom, mas também firme, uma pessoa difícil de ser enganada e nosso maior exemplo.
A mansidão é um dos frutos do Espírito (Gálatas 5:22), sendo que estes frutos servem como prova da legítima conversão. Quem encontra Deus, muda de vida. E ser manso é ter autocontrole, é saber ponderar e saber agir na hora certa. O próprio Jesus Cristo afirmou que:
“Tomem sobre vocês o meu jugo. Deixem que eu lhes ensine, pois sou manso e humilde de coração, e encontrarão descanso para a alma” (Mateus 11:29) (NVT).
Neste texto, Cristo nos convida a aprendermos com ele, a sermos seus seguidores. Sendo que ele mesmo se coloca como alguém manso e humilde, e os seus discípulos também precisam ter estas qualidades. A mansidão é a qualidade exterior de um ato, e ser humilde de coração se trata de uma qualidade interior, que se encontra no cerne de toda a ação (RIENECKER, 2012, p. 199). Gosto de como Kivitz define mansidão:
“Mansidão não é fraqueza. Mansidão é força, potência sob controle” (KIVITZ, 2020, p. 131).
Quando eu era bem novo, gostava muito de assistir filmes de luta, principalmente aqueles em que o lutador tinha um bom autocontrole e não cedia às provocações do seu oponente. Eu admirava a atitude daqueles lutadores, justamente porque sempre acreditei que alguém forte tem autocontrole.
A raiva nos tira do eixo e é capaz de nos fazer perder o controle em uma espécie de loucura momentânea, ela não nos deixa refletir e às vezes nos faz reagir por impulso. Quem não controla a sua raiva perde a cabeça facilmente. Já o indivíduo manso sabe muito bem se controlar e consegue, em meio as provocações da vida, tomar as melhores atitudes. Quem não tem autocontrole segue o vento das emoções.
Em nossa sociedade, o forte muitas vezes é descrito como aquele que bate de frente com as pessoas, que provoca a todos e se impõe. A questão é que este tipo de pessoa não define a pessoa forte e sim, o arrogante, aquele que acredita que pode dominar a tudo e todos.
O forte é alguém equilibrado, que sabe se controlar e resistir às intempéries da vida, tomando as melhores atitudes possíveis. O forte é quem confia em Deus e fundamenta nele toda a sua vida, que no mais, são apenas indivíduos arrogantes, que acreditam serem superiores a todos.
Jesus Cristo era alguém manso e forte, um Deus que sabia agir de modo coerente em meio aos problemas que enfrentou aqui na terra. E ser um discípulo dele é ser manso, é saber agir de um modo sábio e coerente.
Uma pessoa mansa não é alguém vulnerável, ao contrário, é um cristão que sabe proceder conforme o cenário no qual se encontra.
Bibliografia
KIVITZ, E. R. Santidade. São Paulo: Mundo Cristão, 2020.
RIENECKER, Fritz. Evangelho de Mateus: Comentário Esperança. Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 2012.
