-
UNIDOS EM CRISTO
“Todos os que criam estavam unidos e tinham tudo em comum” (Atos 2:44) (NVI).
A igreja teve o seu início vivendo uma união sem tamanho, com os cristãos compartilhando tudo, vivendo com tudo em comum como o texto bíblico pontua. A vida cristã e a vida cotidiana destes primeiros cristãos, se confundiam, já que todos venderam o que tinham para viverem unidos em um só propósito, como narra o texto de Atos dos Apóstolos.
O livro de Atos é um texto importante, visto que, discorre sobre o início da igreja, logo após a ascensão de Cristo. Atos é uma continuação do Evangelho de Lucas, sendo assim, a segunda parte de um projeto, como fica claro no primeiro versículo de Atos dos Apóstolos (1:1).
O texto começa a sua narrativa focando na igreja da Judeia e a divulgação do evangelho até a Samaria, contudo, depois o foco do livro muda e Lucas passa a se preocupar com a mensagem no mundo todo. No início é possível perceber que o personagem-chave era Pedro, mas depois passa a ser Paulo, um apóstolo muito importante na história da igreja (RICHARDS, 2013, p. 874).
Em nossos tempos complicados, onde a igreja insiste em se dividir cada vez mais, tal narrativa me deixa impressionado e envergonhado, já que, como cristão, eu tenho consciência de que nós somos responsáveis, direta ou indiretamente, por estas divisões na Igreja.
Não estou incentivando os cristãos a venderem tudo e irem viver com os outros irmãos e sim, meditar neste espírito de comunhão que muitas vezes falta na Igreja no geral. Me parece que a maioria das igrejas se fecham em seus guetos.
Perceba que muitas vezes conhecemos pouco o outro e seguimos cada vez mais distantes. Estamos ao lado das pessoas, mas mentalmente muito afastados. A comunhão e a amizade é muito mais uma mentalidade. É um modo de ser que o cristão tem esquecido. Não é viver cercado de pessoas, é estar realmente ao lado ouvindo e partilhando a vida e os anseios do próximo.
Gosto da palavra reciprocidade, ela delimita muito bem o assunto e nos mostra como temos vivido uma vida autocentrada, naquela religião do self que descreve muitos os nossos dias egoístas, onde focamos apenas em nós. Esta palavra nos mostra como precisamos cultivar a reciprocidade em nossas vidas. Segundo o dicionário Reciprocidade é:
“Reciprocidade é um substantivo feminino que significa mutualidade, representando a característica do que é recíproco. Reciprocidade significa dar e receber, por isso, é uma condição essencial para a qualidade das relações entre as pessoas” (Significados, 2011).
Mutualidade também é uma das definições do termo, e é a qualidade de algo que é recíproco. Você dá e recebe, você ouve e é ouvido. Uma definição que eu entendo que deveria descrever a dinâmica da igreja cristã, como o próprio texto de Atos nos mostra. O capítulo termina de um modo bem interessante:
“Todos os dias, continuavam a reunir-se no pátio do templo. Partiam o pão em suas casas, e juntos participavam das refeições, com alegria e sinceridade de coração, louvando a Deus e tendo a simpatia de todo o povo. E o Senhor lhes acrescentava todos os dias os que iam sendo salvos” (Atos 2:46,47) (NVI).
Parecia que havia na igreja algo orgânico, uma vontade real de estarem juntos e compartilharem a vida. Hoje, percebo mais o costume de seguir um ritual do que uma vontade genuína de ir à igreja e compartilhar de modo genuíno a vida. É claro que não existe qualquer negatividade na liturgia de um culto, ela existe para nos proporcionar um momento de adoração e compartilhamento da palavra. Uma boa liturgia nos ajuda a cultuarmos a Deus de modo sincero. O grande ponto é que não é apenas isso.
O nosso coração precisa querer estar entre os irmãos, ter vontade de servir e vivenciar um momento unidos como igreja. A igreja precisa aprender a estar conectada, sem deixar que uma placa de igreja separe o real propósito do que é ser cristão.
É imprescindível colocarmos as nossas diferenças culturais de lado e aprendermos a nos unir, tendo como foco a cruz. Como cristãos, temos muito mais coisas em comum do que apenas as diferenças que nos separam, sendo assim, que possamos focar nestes pontos.
BIBLIOGRAFIA
RICHARDS, Lawrence. Comentário bíblico do professor: Um guia didático completo para ajudar no ensino das Escrituras Sagradas do Gênesis ao Apocalipse. São Paulo: Editora Vida, 2013.
“Reciprocidade”, in: Dicionário Significados, 2011-2023. Disponível em: https://www.significados.com.br/reciprocidade/ Acesso em 20/11/2023.
-
VIVENDO NO AUTOMÁTICO
Um dos meus maiores medos é seguir vivendo no automático, sem perceber a vida acontecendo, transformando coisas legítimas, como trabalho e ministério dentro da igreja, em verdadeiras prisões que nos distanciam de Deus. Somos mestres em nos enganar e nos autossabotar.
Eu creio que quando transformamos coisas boas em fardos, é porque já perdemos o propósito central daquela atividade e por isso, é preciso rever e avaliar os nossos planos e o que Deus quer de nós. É comum transformarmos ministérios legítimos em fardos perigosos.
Não que a vida deva ser sempre fácil, sabemos que ela não é, e sim que precisamos avaliar bem e prestar atenção em nossas prioridades, buscando entender se não trocamos a lógica das coisas, transformando o fim em um meio. É fácil perdermos o foco e transformar a vontade de Deus ou um trabalho em algo que fica muito longe do que Deus quer de nós. E neste sentido, às vezes algumas dificuldades e empecilhos que encontramos em nossos ministérios nos mostram justamente os nossos equívocos e como trocamos as prioridades.
Deixa-me dar um exemplo. Eu tive uma banda que tinha o propósito de pregar o evangelho, mas com o tempo e após lançarmos CDs e tocarmos em inúmeros lugares importantes, a prioridade básica (pregar o evangelho) se perdeu. O foco era divulgar a banda, fazer o nome e não mais Deus. Sendo assim, quando a banda começou a enfrentar alguns problemas internos, entendi que era a hora de parar. Como o objetivo não era mais Deus, não me dispus a consertar tais embates e sim, encerrar as atividades.
Em alguns casos, alguns problemas em nossas empreitadas nos obrigam a sermos mais persistentes, em outros casos ele revela a nossa teimosia em insistir em algo que não vale a pena. Avaliar de modo coerente é sempre um desafio. Não existe fórmula, nem sempre conseguimos perceber se estamos sendo persistentes ou teimosos.
Conheço pessoas ativistas na obra de Deus, contudo, tal ativismo é tão extremo que este cristão não tem tempo de ter o seu secreto com Deus, de orar e meditar na sua palavra. Sendo assim, o ativismo na igreja terminou por distanciar estes cristãos de Deus. Irônico, não é?
É fácil continuarmos no erro por acreditarmos que o trabalho ou ministério é legítimo e por não percebermos como ele já não tem mais o propósito inicial. Em alguns casos a pessoa está vivendo no automático, sem se dar conta deste erro. E esta reflexão vale para o ministério que exercemos dentro da igreja ou mesmo para o trabalho, que muitos colocam em um patamar importante em suas vidas. Lembre-se, tudo o que te distancia de Deus, seja a atividade mais legítima que for, não é algo que agrada Deus. É um ídolo que nos faz estarmos distantes do nosso Pai.
Nem sempre desistir é perder, às vezes é só renunciando algo, que conseguiremos ter uma oportunidade melhor. É sair do automático para iniciar algo com mais coerência e que agrade a Deus.
Cuidado para não trocar as prioridades e viver no automático, colocando Deus de lado e transformando as coisas legítimas em armadilhas que te afastam Dele. A nossa vida é dele, e precisamos abandonar tudo o que nos afasta da sua perfeita vontade.
-
RECONHECENDO O EXTRAORDINÁRIO DO ORDINÁRIO
Este é o dia em que o Senhor agiu; alegremo-nos e exultemos neste dia (Salmos 118:22-24) (NVI).
Acordo todos os dias bem cedo e, indo na contramão da opinião da maioria das pessoas, eu gosto muito. O silêncio da manhã me restaura, é um momento para pensar, meditar e me preparar para os desafios do dia. Sem contar que acabo tendo um dia com muito mais tempo, já que durmo apenas o suficiente.
Costumamos não ligar muito para o que é aparentemente trivial e, por conta disso, deixamos de perceber momentos importantes. Você já parou para pensar como muitas vezes deixamos de valorizar aquelas coisas simples, mas fundamentais da vida?
A vida é composta de muitas trivialidades e como escolhemos viver e valorizar estas coisas, faz muita diferença. Teimamos em focar naqueles planos que não dão certo e esquecemos de agradecer a Deus pelas demais coisas que ignoramos. Tish Warren, em seu belo livro Liturgia do ordinário, cita uma frase muito esclarecedora de Annie Dillard que ajuda nesta reflexão:
“Obviamente, como passamos o nosso dia é como passamos as nossas vidas” (apud WARREN, 2021, p. 34).
Idealizamos vidas heroicas e inundadas de grandes feitos, mas nos esquecemos do ordinário de cada dia, que também é importante e constante. É necessário valorizar o simples e procurar viver de modo sincero, apreciando o dia que Deus nos deu. Seja nas atividades mais comuns ou mesmo no seu trabalho, no cuidado das coisas que estão em sua responsabilidade, tudo faz parte do seu dia e da vida que Deus te deu.
Nunca tive o prazer de ver um milagre acontecendo, como, por exemplo, alguém ressuscitar ou ser curado de uma enfermidade bem visível. Mas se olharmos em volta, poderemos perceber como a vida, nossa existência e esperança são milagres. Na verdade, tudo é um milagre, nós é que deixamos de perceber. Aceitar que o padrão consumista do mundo nos guie é fechar os olhos para as coisas que Deus tem feito.
Não podemos permitir que o caos faça sombra em todas as maravilhas do nosso Pai eterno. É comum nos acostumarmos com os presentes de Deus, principalmente quando deixamos de agradecer. Após um tempo, paramos de ver todas as dádivas divinas em nossa vida e é justamente isso que não podemos permitir.
No livro, Tish Warren (2021) nos desafia a relembrarmos do nosso batismo, que é uma data importante, afinal, ele inaugura a nossa entrada no reino de Deus. Mas ela enfatiza que, com o tempo, esta data torna-se banal, isso quando não nos esquecemos. Perceba como é fácil menosprezarmos as coisas importantes, os pontos definidores da vida cristã, para focarmos apenas nos problemas ou em questões menores.
Cristo morreu em nosso lugar, ele foi rejeitado e crucificado para nos salvar. Esta é a grande verdade da vida cristã, este é um presente que não podemos esquecer. Gosto de como Tish Warren comenta o Salmo que está na epígrafe, que revela justamente isso:
“O salmista declara: “Este é o dia que o Senhor fez”. Este aqui. Não acordamos para uma misericórdia vaga ou genérica de um Deus distante. Deus, com prazer e em sabedoria, fez, nomeou e abençoou este dia comum. O que eu na minha fraqueza vejo como mais um dia monótono numa série de dias, Deus me deu como um presente singular” (2021, p. 32).
A história de Israel mostra como a misericórdia de Deus não tem fim. Se não fosse por ele, estaríamos perdidos, mas costumamos nos esquecer desta mensagem e deixamos de valorizar a morte que nos trouxe vida. Só isso já deveria ser o motivo para nunca mais reclamarmos e valorizarmos o nosso dia como nunca, mas é claro que muitas vezes nós esquecemos.
Este é o dia que Deus fez, agradeça, desfrute, aproveite e não permita que os problemas definam o seu humor e nem que eles façam você esquecer destes detalhes importantes. A vida é quase toda feita de momentos ordinários, de coisas simples, que às vezes não damos valor. Mas o grande ponto está nesta simplicidade, ela que é o detalhe mais importante. É como vivemos, o simples e o ordinário, ou como pensamos e agradecemos a Deus, que vai fazer a grande diferença.
Se hoje temos vida, é devido à infinita misericórdia de Deus, sendo assim, não se esqueça de relembrar desta verdade todos os dias, cultivando assim um coração grato por tudo o que Deus fez e tem feito em sua vida.
BIBLIOGRAFIA
CONNELLY, Douglas.; RICHARDS, Larry. Guia Fácil Para Entender Salmos: Tudo Sobre os Salmos, Reunido e Organizado de Maneira Completa e Acessível. Rio de Janeiro: Editora Thomas Nelson, 2017.
WARREN, Tish H. Liturgia do ordinário. São Paulo: Pilgrim Serviços e Aplicações; Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2021.
-
A IMPORTANTE ARTE DE DECIDIR
Há muito tempo decidi ser professor. Influenciado e encantado com as aulas dos meus excelentes mestres, acreditei que esta profissão era a que eu queria exercer para o resto da minha vida.
Por conta disso e com o intuito de errar menos, gastei um tempo pesquisando, planejando e conversando com amigos formados na área. E o que ouvi me animou. É legal conhecer a profissão por meio de alguém que vivencia aquela realidade. A parte complicada foi que eu descobri que a minha sonhada empreitada, envolvia um grande investimento de tempo, dinheiro e perseverança. Viver é decidir, planejar e persistir em nossos planos, pois nem tudo vem fácil. Sendo que no final, a vida é o que acontece depois que decidimos.
E não adianta fugir ou procrastinar, visto que, mesmo quando você decide não fazer nada, você já tomou uma decisão. Não fazer, procrastinar e fugir das partes complicadas de um plano, é também decidir. Por isso, é melhor tomar boas decisões, do que decidir ficar estacionado.
Fui movido por um sonho, e para alcançar meus objetivos tive que atravessar inúmeros obstáculos. Dormi pouco, por ter que trabalhar e estudar, gastei um bom dinheiro com a minha formação, e em alguns momentos, precisei trocar um final de semana de lazer, para focar em meus estudos.
Creio que mais do que tomar decisões, o planejamento e a persistência, são atitudes importantes para o sucesso de uma empreitada. Não existe outro caminho, ou você decide fazer, mergulhar em algo e aceitar todos os desafios, ou fica estagnado, vivendo só de sonhos, mas sem nenhuma realização.
A vida não é só ser produtivo, eu sei bem disso. O ócio, o lazer e os momentos de descontração, são fundamentais, mas ela também não é só sonhar e muito menos, ficar estacionado, sem produzirmos ou fazermos algo que traga bons resultados em nossa vida.
É fundamental sonhar, os propósitos começam com sonhos, mas depois, eles precisam virar objetivos, metas para alcançarmos. Mesmo que com elas, você tenha alguns fracassos, não importa, ou tentamos, ou estagnamos e não realizamos nada.
Descubra a importância de se dedicar para sair do comum. O crescimento e o aprendizado que você vai conseguir quando aprender a empreender, é realmente enriquecedor, e o estudo é sempre um ótimo primeiro passo.
Por isso, decida fazer, se disponha a construir o seu caminho sem desanimar!
-
A FÉ E A REVELAÇÃO DE DEUS
Sabemos o quanto a fé e a razão são importantes, crer é tão fundamental quanto pensar, sendo que uma ação não exclui a outra, porém, precisamos nos lembrar de que quando falamos de Deus, nos referimos a alguém que se revelou a nós e não de um ser encontrado através da razão.
Étienne Gilson no livro O filósofo e a teologia, discute justamente o papel da revelação de Deus e critica alguns filósofos e teólogos que tentavam colocar a razão acima de tudo, como se fosse possível encontrar Deus apenas com ela.
“A revelação cristã não é somente necessária para que se possa crer no Deus da religião cristã, como também não tem sentido imaginar que se possa conhecer a existência desse mesmo Deus de outro modo que não pela fé em sua própria revelação” (GILSON, 2021, p. 88).
Deus se revelou ao ser humano, esta é uma verdade básica que precisamos entender. Se ele não se revelasse, não o encontraríamos de modo algum. Crer que é possível encontrar Deus através apenas da razão é não perceber a dimensão e infinitude que o nosso Deus tem, e desconsiderar o tamanho da nossa ignorância.
Falar sobre Deus, um ser eterno e incriado, é discorrer sobre um ente inalcançável, visto que, além de pecadores, somos criaturas, seres que um dia tiveram um início de vida. Olhar para o Deus eterno com os nossos olhos e compreendê-lo é uma conclusão bem complexa, isso se nós tivéssemos capacidade de olhar e ainda estarmos vivos. Gosto da passagem de Êxodo, quando Moisés pede para Deus mostrar a sua glória.
“Você não poderá ver a minha face, porque ninguém poderá ver-me e continuar vivo” (Referência: Êxodo 33:18-20) (NVI).
Ninguém pode ver Deus e sobreviver, quanto mais achá-lo, por isso, somos gratos por que um dia ele se revelou.
Cresci muito ao aceitar que a razão tem um limite, perceba como, em vários assuntos, ela consegue ir apenas até um ponto. Isso nos traz humildade e aquele senso de prudência, já que entendemos como podemos estar errados. Nem sempre a inteligência é capaz de compreender algo e, sobre isso, Agostinho pontua que:
“E se a inteligência não for capaz de compreender, apegue-se à fé, até que brilhe nos corações aquele que disse pelo profeta: Se não crerdes, não entendereis (Is 7,9)” (AGOSTINHO, 2020, p. 258).
Crer é o primeiro passo para conseguirmos entender algo, mas nem sempre a mente consegue adentrar em alguns temas, ainda mais quando falamos de Deus, um ser infinito e soberano. Sendo assim, precisamos nos apegar apenas à fé na revelação de Deus.
A fé e a razão são fundamentais, mas não se aplicam ao conhecimento de Deus. Nós o conhecemos devido a uma ação sua e não nossa. Crer que um dia constataremos que existe um Deus seria uma incoerência. Se Deus não se revelasse, certamente nunca o encontraríamos. E a Bíblia é um relato espirado por este Deus que se revela.
Sem a ação de Deus, certamente, a nossa limitada mente seguiria fechada em sua própria ignorância!
BIBLIOGRAFIA
AGOSTINHO, Santo. A trindade. 1. ed. 2020. São Paulo: Paulus, 2020.
GILSON, Étienne. O filósofo e a teologia. São Paulo: Academia Cristã; Editora Paulus, 2021.
-
O ANTISSEMITISMO VELADO NO BRASIL
Alguns assuntos são muito complexos, por isso, quando circulam em meio ao povo, seguem com fundamentos simplistas. Sem contar que a maioria não pesquisa e por isso, insistem em opinar de forma equivocada. Não é possível conversarmos sobre algo baseado apenas em nossos achismos, precisamos primeiro entender e nos aprofundar sobre um tema, para depois opinar de forma coerente.
Nunca pensei que um dia o antissemitismo seria visto e praticado novamente em alguma sociedade, mas estamos vendo os inúmeros posicionamentos do governo e das pessoas públicas, que revelam justamente isso. A perseguição aos judeus novamente começou e tem ficado cada dia mais escancarado.
Eu sempre quis entender como o nazismo conseguiu manipular uma nação inteira e colocá-la contra os judeus. Sempre me pareceu algo surreal, até estar nesta mesma realidade, onde as pessoas públicas e professores, que possuem muita influência, expõem seus mentirosos discursos, e a população ouve, sem conferir se a fala é verdadeira.
Hoje é possível ver pessoas defendendo o Hamas (Movimento de Resistência Islâmica), que é um grupo terrorista e que possui, como uma das suas missões centrais, eliminar todos os judeus. Diante deste fato, o que eu tento entender é se esta defesa é fruto de falta de informação ou má índole mesmo. Defender terroristas que decapitam crianças, torturam seres humanos e matam sem clemência alguma, é uma atitude por demais surreal e ignorante. Sendo que, existem muitos vídeos e materiais que provam esta barbárie, o suficiente para constatarmos o quanto o Hamas é um movimento incoerente.
Precisamos deixar claro que foi inevitável os judeus se posicionarem, após a ofensiva do Hamas. Não seria coerente eles não se defenderem. E as acusações que muitos estão fazendo contra Israel são injustas, visto que, esta nação tem se mostrado ética em meio a guerra. Edgar Morin no livro O mundo moderno e a questão judaica, já deixou claro como o povo judeu durante a história, foi acusado inúmeras vezes de muitas barbáries:
“Os judeus viram-se acusados não somente das catástrofes que açoitaram a cristandade, tais como as epidemias de peste e de cólera, mas também de sacrilégios horríveis (sacrifícios de crianças cristãs na Páscoa judaica, profanação das hóstias etc.). Foram não somente aviltados, mas também demonizados. Condenados à reclusão nos guetos, estavam, além disso, ameaçados de expulsão ou de pogroms” (MORIN, 2007, p. 17).
No final, percebemos como a tática ainda é a mesma, ou seja, acusar este povo de atitudes injustas, violência e inúmeras falsas narrativas. E eles não falam nada do Hamas, um grupo terrorista que tem espalhado dor e morte por onde passam. A história judaica é triste, mas também é de superação e mesmo assim, vemos muitas ações humanitárias praticadas por eles. Como aconteceu em 2019 (dia 28), quando eles vieram com uma equipe de 130 soldados para ajudar na operação de resgate na catástrofe que aconteceu com o rompimento da barragem de Brumadinho. Ou recentemente, quando enviaram equipamentos para ajudar as vítimas da enchente do Rio Grande do Sul.
Neste mesmo livro, Morin conclui a obra expondo sobre o perigo do perseguido virar o perseguidor, impondo e cometendo as mesmas injustiças que cometeram contra eles, uma observação que eu considero fundamental. Entretanto, sobre o embate de Israel e o Hamas, é impossível ficar do lado deste grupo terrorista. E por mais que possa existir assuntos importantes sobre Israel e a Palestina, quanto ao território. Sendo que o embate existe desde da metade do século XX, por conta do crescimento da população judia na Palestina, o posicionamento violento do Hamas, não tem qualquer justificativa e muito menos as comemorações de oito meses do ataque terrorista, que alguns partidos fizeram recentemente.
Muitas vidas inocentes foram mortas das formas mais cruéis e injustas. Ficar do lado do Hamas é apoiar um regime extremista, que não tem medo algum de matar, em nome de sua ideologia e religião. Sou a favor da vida, do diálogo e da liberdade, por isso que, ao ver este antissemitismo acontecendo em nosso país, fico preocupado com a narrativa que muitos estão usando, para manipular opiniões.
Bibliografia
MORIN, Edgar. O mundo moderno e a questão judaica. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007.
-
SOMBRAS DA IGNORÂNCIA
Quando estamos de frente para a luz, é inevitável percebermos uma sombra ao nosso lado. O sol da verdade revela justamente as nossas falhas e inconsistências, as sombras da nossa ignorância. O problema é que nem sempre aceitamos ou mesmo notamos os nossos equívocos.
Para o filósofo Platão, no conhecido Mito da caverna, o sol é a verdade que ilumina e revela o mundo real ao ser humano, as coisas que estão além da nossa percepção. Para quem vivia preso na caverna da ignorância, a luz que arde os olhos e incomoda a mente revela a verdade que o ser humano não estava percebendo. Platão, no livro VII da obra A república, complementa:
“Portanto, se alguém o forçasse a olhar para a própria luz, doer-lhe-iam os olhos e voltar-se-ia, para buscar refúgio junto dos objetos para os quais podia olhar […]” (2004, p. 211).
Quando alguém sai de um lugar bem escuro em direção à luz, é imprescindível que, em um primeiro momento, os olhos ardam. A luz incomoda quem fica muito tempo na escuridão. É só após olhar para a luz que as vistas começam a se acostumar.
A verdade tem esta função, além de iluminar o nosso caminho, ela incomoda, nos tira do comum e realinha os nossos passos rumo a rota certa, é a luz que revela os perigos e equívocos do caminho. O único ponto essencial é que você precisa querer. É preciso aceitar a sua ação e dar passos para fora da caverna da ignorância, caso contrário, você permanecerá no lugar, acreditando que ali é o mundo real. Sobre Deus, a Bíblia diz uma verdade fundamental, que vai de encontro a este assunto:
“Mas para vocês que reverenciam o meu nome, o sol da justiça se levantará trazendo cura em suas asas” (Malaquias 4:2).
Deus é o sol da justiça, ele é aquela luz que ofusca os nossos olhos e nos faz perceber a verdade sobre o mundo e a nossa vida. Ele nos tira da caverna da ignorância, para nos mostrar quem nós somos. Deus é também a cura, ele restaura a nossa vida e nos coloca no caminho certo.
Não há como encontramos a verdade através das nossas habilidades, por sermos falhos e pecadores, nos perdemos no meio do caminho. Esta sombra da ignorância que nos acompanha, nos atrapalha. Podemos perceber sinais, notas e possibilidades de que existe um Deus, visto que, a criação revela justamente isso (Romanos 1:20), mas o ser humano mesmo percebendo, está sempre trocando a verdade por enganos (Romanos 1:21-23). Este é o grande dilema dos seres humanos, eles se perdem por não perceberem as sombras de ignorância que os perseguem.
Avalie o contexto de Malaquias, o profeta havia sido levantado por Deus para expor os erros e pecados que o povo de Israel estava cometendo naquele tempo, chamando-os para olharem novamente para Deus. Tal período foi um tempo de decadência espiritual na região de Judá, sendo que, eles precisavam ouvir a mensagem de Deus e relembrar o caminho, até então esquecido (WIERSBE, 2020, p. 589-590).
O povo de Israel, que sempre foram salvos e cuidados por Deus, estavam há tempos distantes da luz. Mas a luz estava vindo para corrigir e castigar aqueles que estavam distantes do seu caminho.
Esta sombra da ignorância em nossa vida pode ser qualquer coisa que nos aliena, que nos impede de ver e sermos libertos pela verdade. Sendo que algumas mentiras se vestem de verdade para nos enganar.
Já teve algumas certezas sobre assuntos onde um tempo depois, você descobre que o conceito ou ponto de vista era totalmente equivocado? Esta é a sombra da ignorância, é a pseudoverdade que compramos muitas vezes, acreditando ser algo certo.
Para descobrir a verdade, você precisa buscar enxergar para além de si, você precisa também da humildade em confessar que não sabe de tudo. O núcleo da ignorância é justamente crer que você sabe, sem ao menos conferir, revisar e buscar entender se as coisas que você acredita são verdades.
É fácil se desviar da luz, a sombra da ignorância nos persegue, o pecado que habita em nós, nos faz desviarmos do caminho. Em vista disso, olhe sempre para luz, mesmo que em um primeiro momento ela te incomode, revele seus erros e fracassos. E tal revelação que nos levará a buscar cura e mudança.
Nós mudamos apenas quando somos confrontados pela luz da verdade!
Bibliografia
PLATÃO. A república. São Paulo: Editora Martin Claret, 2004.
WIERSBE, Warren W. Comentário bíblico expositivo: Proféticos. Santo André: Geográfica Editora, 2020.
-
APRENDENDO A NÃO DESISTIR
Não quero simplificar a vida, muito menos compará-la a um jogo de cartas. Viver não é competir, apesar de haver muita competição em alguns ambientes ou etapas da nossa vida. Viver é seguir superando nossas metas, é caminhar e buscar melhorar dia após dia, enquanto aprendemos a superar os inúmeros desafios que surgem na estrada.
Nem sempre temos boas cartas nas mãos, muitas vezes largamos bem atrás dos outros, carecemos de ferramentas e oportunidades para conseguirmos alcançar nossos objetivos, contudo, isso não significa que temos que desistir ou seguir nos lamentando e sim, que precisamos aprender a lidar com a situação e buscar melhorar dia após dia. Haddon Robinsson pontua que:
“A maneira como nos saímos na vida não é meramente uma questão de receber as cartas certas, mas de como as jogamos” (2017, p. 37).
Tudo vai depender de como jogamos, como planejamos e lidamos com as dificuldades. Quem não está preparado para um desafio inesperado, se organiza e aprende, adapta a sua situação a realidade e segue na perseverança.
Nem todas as pessoas que tiveram sucesso em sua vida, tinham as cartas certas, elas souberam apenas jogar. E persistir é sempre o melhor ponto de partida, tendo aquela consciência de que nem tudo é fácil.
Com o tempo, perdi aquela mania de me comparar ou de reclamar e aprendi a seguir tentando, planejando e dando os passos, com as condições que eu tinha naquele momento. Sendo que com o tempo, à medida que seguia melhorando, aprendia a caminhar de uma forma mais assertiva.
Não é papo de autoajuda, ao contrário, quero apenas deixar claro que o caminho para a realização é sempre bem íngreme e trabalhoso, mas que desistir, nunca é uma boa opção. Além do fato que, ninguém começa grande, há sempre o primeiro passo, seguido de insistência e busca pelo constante aperfeiçoamento.
O esporte e a música, pode nos ajudar a contextualizar este ensinamento, visto que, para ambas as atividades, persistir e continuar é o ponto de partida. Pense que um bom músico é, na verdade, alguém que estudou e praticou muito. Para cada solo de guitarra, entenda que existe muita prática, tentativas e erros. O mesmo podemos falar dos atletas. A constância e a disciplina são elementos essenciais daqueles que chegaram na habilidade plena. Não há vitória sem constância e sem insistência.
É fácil vermos alguém habilidoso executar algo, isso porque, nós não vemos todos os seus dias de estudo. Talento nato é raro, e mesmo aqueles que possuem uma certa facilidade, precisam estudar e persistir para evoluir em sua área.
Aprenda a não desistir, crie disciplina e o hábito de diariamente estudar e praticar para crescer. Aprenda a jogar as cartas certas, descubra como a disciplina e a insistência, são ferramentas muito mais assertivas do que desejar ter tudo nas mãos.
Quem desiste não entende como as coisas que realmente são importantes, custam um pouco mais de esforço!
BIBLIOGRAFIA
ROBINSON. Haddon W. Decisões: Fazendo escolhas com sabedoria. Curitiba: Publicações Pão Diário, 2017.
-
CRISTO E A LEI
Ó gálatas insensatos! Quem os enfeitiçou? Não foi diante dos seus olhos que Jesus Cristo foi exposto como crucificado? Gostaria de saber apenas uma coisa: foi pela prática da lei que vocês receberam o Espírito, ou pela fé naquilo que ouviram? (Referência: Gálatas 3:1-14) (NVI).
Alguns costumes cristãos fascinam, a própria mistura que algumas igrejas fazem da teologia cristã, com elementos judaicos, são atrativos e evidencia justamente isso, já que a cultura judaica é legal e muito rica. O problema apenas é que a junção de judaísmo e cristianismo não é correta, como estamos vendo nesta série da Epístola de Paulo aos Gálatas.
Os cristãos dos nossos dias insistem em seguir ritos e símbolos judaicos, isso é visível em muitas igrejas. E neste texto, o apóstolo Paulo discorre justamente sobre isso. Ele fala sobre a fé em Jesus e a lei, mostrando o equívoco que os cristãos cometem em seguir a lei.
O capítulo três da Epístola aos Gálatas se inicia com uma pergunta e a palavra fascinar aparece em algumas traduções, sendo que em outras o termo usado é enfeitiçar. Tais palavras, a meu ver, resumem um dos problemas destas igrejas sionistas. Elas foram fascinadas por conceitos que não são corretos, o coração destas pessoas foi seduzido por ensinos equivocados. A caminhada cristã precisa partir dos reais fundamentos bíblicos e não de costumes e ritos vazios.
Neste texto o apóstolo Paulo busca explicar a dinâmica da lei e da fé em Jesus, para demonstrar como obedecer à lei não é uma ação correta. Ele começa falando da morte de Cristo na cruz e como o seu sacrifício foi importante e ele exorta a igreja perguntando se eles não estavam enfeitiçados por estes falsos ensinos (v. 1). E ao olharmos para algumas igrejas a sensação é realmente esta, parece que alguns cristãos foram enfeitiçados pelos ritos e símbolos judaicos.
Mas o apóstolo continua explicando como o cristão recebeu o Espírito Santo não por seguir a lei e sim, por acreditar na mensagem (v. 2). Aquela igreja havia aceitado Jesus através do Espírito Santo, mas depois insistiram em seguir a sua caminhada cristã por meio da lei e de suas próprias forças (v. 3). O evangelho segue justamente na contramão deste fato, somos salvos pela graça, não temos qualquer participação na dinâmica da nossa salvação. Se não fosse a graça e o amor de Deus, estaríamos perdidos. Lamentações enfatiza justamente isso.
“Graças ao grande amor do Senhor é que não somos consumidos, pois as suas misericórdias são inesgotáveis” (Lamentações 3:22) (NVI).
O ponto de partida é sempre de Deus e a lei dá a entender justamente o contrário. Se eu obedeço e sigo a lei, colho alguns frutos por meus próprios méritos e este é o equívoco que Paulo quer demonstrar à igreja e, para isso, ele revisita a história de Abraão, ao afirmar como ele creu em Deus e, por conta disso, foi aceito (v. 6), conforme Gênesis 15:6. Desde o começo, a graça já estava presente, visto que, por nossas forças, nós não conseguimos coisa alguma. Moisés Silva explica de um modo mais detalhado esta questão:
“A citação de Gênesis 15:6 se torna um fator-chave para Paulo, e ele vai usar esse texto de novo em Romanos 4, em que ele amplia o significado de Abraão. O ponto é simples: Se Deus creditou justiça a Abraão porque ele creu, então certamente os verdadeiros filhos de Abraão são aqueles que creem como ele creu” (cf. Rm 4.11, 12). Além disso, Paulo cita mais uma afirmação de Gênesis que focaliza no significado da vida de Abraão para os gentios: Em ti, serão abençoados todos os povos (Gn 18.18; 22.18; cf. Gn 12.3; 26.4; 28.4). É como se o evangelho da liberdade estivesse sendo pregado muito tempo antes da vinda de Cristo (SILVA, 2012, p. 1824-1825).
Constate como a palavra da verdade já estava sendo pregada há muito tempo. E a figura de Abraão é importante, justamente porque a Bíblia diz que através dele muitos povos seriam abençoados (Gn 18.18; 22.18).
Ao citar o exemplo de Abraão justamente neste assunto sobre salvação, ele assim o faz não como um exemplo aleatório. A salvação oferecida por Deus precisa passar por Abraão, não é à toa que ele é citado 73 vezes na Bíblia (POHL, 1999, p. 104). Existe uma promessa feita a Abraão lá em Gênesis, por isso que ele é citado quando o assunto é justamente este.
E o apóstolo continua pontuando que os verdadeiros descendentes de Abraão são aqueles que têm fé (v. 7), aqueles que não são judeus são aceitos justamente por meio da fé em Cristo (v. 8). E Paulo novamente enfatiza:
“Assim, os que são da fé são abençoados juntamente com Abraão, homem de fé” (Gálatas 3:9) (NVI).
Assim sendo, Paulo retifica a tradição judaica ao ensinar que Deus considerou Abraão justo, não pela lei, mas devido à sua fé (POHL, 1999, p. 107). O apóstolo corrige o equívoco que estava acontecendo dentro da igreja, interpretando de forma correta a tradição judaica.
Quem coloca a sua confiança na lei, certamente, está embaixo do juízo de Deus, visto que, a pessoa que não segue exatamente o que a lei manda, está debaixo da maldição Divina (v. 10). Lembrando que são 613 mandamentos da lei judaica, por conta disso, torna-se praticamente impossível alguém seguir exatamente todos os pontos desta lei.
Somos salvos pela fé em Cristo, visto que, ser humano algum tem a capacidade de se salvar, mesmo o mais motivado, não consegue por seus próprios méritos obter salvação. E o apóstolo Paulo novamente enfatiza:
“É evidente que diante de Deus ninguém é justificado pela lei, pois “o justo viverá pela fé”” (Gálatas 3:11) (NVI).
Somos salvos pela fé em Jesus, se não fosse a graça divina, certamente estaríamos perdidos. A salvação é fruto da ação de Deus e não nossa e é justamente isso que Paulo quer ensinar a uma igreja que insistia em seguir a lei.
A lei tem a sua utilidade, como vamos ver em outro texto, contudo, a salvação é fruto da graça de Deus. Se Jesus Cristo não tivesse morrido por nós, estaríamos perdidos, tentando, sem sucesso, seguir as orientações da lei.
“Cristo nos redimiu da maldição da lei quando se tornou maldição em nosso lugar, pois está escrito: “Maldito todo aquele que for pendurado num madeiro”. Isso para que em Cristo Jesus a bênção de Abraão chegasse também aos gentios, para que recebêssemos a promessa do Espírito mediante a fé” (Gálatas 3:13,14) (NVI).
BIBLIOGRAFIA
CARSON. DA.; FRANCE, RT.; MOTYER, J. A.; WENHAM, G. J. Comentário Bíblico Vida Nova. São Paulo, Editora Vida Nova, 2012.
POHL, Adolf. Carta aos Gálatas: Comentário Esperança. Curitiba: Editora Esperança, 1999.
SILVA, Moisés. In: CARSON. DA.; FRANCE, RT.; MOTYER, J. A.; WENHAM, G. J. Comentário Bíblico Vida Nova. São Paulo, Editora Vida Nova, 2012.
-
OS BENEFÍCIOS DO ÓCIO
Para quem escreve, compõe músicas ou arte em geral, os inúmeros estímulos da internet são perigosos. Caso a pessoa não tenha um momento de silêncio, reflexão e ócio, será levado por todos os conteúdos que não permitirão que as ideias fluam em sua mente.
Costumo separar um tempo pela manhã e alguns finais de semanas para me isolar da internet, com isso, ligo o meu modo ermitão e sigo me dedicando a leitura, escrita e reflexão, ou apenas ao ócio. Para muitos, o celular desligado é um verdadeiro martírio, para outros, sendo que eu estou entre estes, é um momento para refletir, criar e ver as coisas a sua volta.
O isolamento pode provocar um grande tédio na maioria das pessoas, principalmente quando a pessoa está em um lugar sem tecnologia, internet ou até luz elétrica. Ou mesmo quando decide desligar o celular em um final de semana, como mencionei. Sendo que algo realmente bom, como o celular, termina por ser um verdadeiro veneno, quando usado da forma como está sendo usado atualmente. É impressionante perceber como um simples aparelho, impede as pessoas de verem e desfrutarem de um local. Já fui em locais paradisíacos, realmente belos, onde eu encontrava pessoas conectadas em todo o momento, olhando o mundo através dos seus celulares.
Perceba como tudo depende do modo como o aparelho é usado, dependendo da quantidade ou da forma como uma pessoa usa, um benefício pode virar um veneno, uma máquina de escravizar e alienar.
O ócio possui grandes benefícios, o primeiro deles é realmente nos desligar de estímulos. Perceba como seus estímulos diários, impedem você de se desligar, aprisionando seu dia em inúmeras recompensas diárias, que não são benéficas. Aliás, em muitos casos, só trazem aborrecimento.
É preciso ter consciência que é só postergando estes estímulos, que conseguiremos criar algo realmente relevante, visto que as coisas duradouras, exigem tempo, dedicação e a consciência de que a recompensa não é imediata. Durante um curso de graduação ou pós-graduação, isso fica muito bem visível, visto que a recompensa nunca é momentânea. É preciso de tempo, de muito trabalho e estudo, para que por fim, consigamos ter o diploma como prêmio.
Como segundo benefício, podemos pontuar que o ócio é um dos principais elementos da criatividade, por conta do período ocioso, ideias novas fluem justamente nestes momentos de inação. Domenico de Masi, tem uma explicação profunda e poética sobre o ócio e a arte, onde ele diz que:
“Na atividade criativa, o ócio representa aquela espécie de sonolência do espírito durante o qual as intuições evaporam do inconsciente e vão se condensar em novas ideias. É o ócio que permite o necessário destaque aos problemas preocupantes e a imersão nesse limbo mental onde flutua o plâncton da nossa criatividade” (2000, p. 311-312).
Aprender a parar, a contemplar o belo e a ficar em solitude, é uma ação importante. Se você não aprender a se desligar, pode cair no limbo do ativismo e se perder nos excessos. Com isso, você aos poucos vai perdendo seus momentos criativos e cai no automatismo da vida conectada.
Quem para, segue em um momento de contemplação e através do descanso, acessa novas ideias. Quem não consegue parar, segue preocupado e preenchido pelos excessos que não agregam, que não frutificam em novos projetos, textos ou arte.
O descanso é um terceiro benefício. O ser humano hoje em dia, parece estar sempre cansado, por conta dos excessos e toda a enxurrada de conteúdo, trabalho e compromissos que ele acaba assumindo. A internet facilitou a nossa vida, quebrou as barreiras e permitiu que tivéssemos contato com todos a qualquer hora, contudo, se não estabelecermos limites, construiremos mais problemas do que benefícios. Aprender a parar, limitar a internet e cultivar um pouco de ócio é também olhar para a saúde, construindo um momento para se recompor e arejar a cabeça.
Conheço pessoas que não conseguem parar por um segundo sequer, e estes não percebem o perigo e a contradição deste tipo de atitude. Eles estão sempre ocupados, preocupados e fazendo algo.
Seja você um artista, escritor ou não, descubra o poder que é parar, desligar a tecnologia e desfrutar realmente de um lugar. Aprenda também cultivar um pouco de ócio e solitude, refrigere a sua mente e permita que este momento sirva como uma ponte para o novo ou para um real momento de descanso e descontração.
A sua vida vai mudar quando você descobrir o poder que existe nos momentos de ócio!
BIBLIOGRAFIA
MASI, Domenico. O futuro do trabalho: Fadiga e ócio na sociedade pós-industrial. 5. ed. Rio de Janeiro: Editora UNB, 2000.
