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  • O SENSO COMUM E A SUA FORMA DE RESOLVER PROBLEMAS

    Um certo dia precisei ir ao centro da cidade resolver alguns problemas. E em um determinado momento, me deparei com dois homens conversando realmente alto. Eles falavam sobre um morador de rua sentado em uma calçada do outro lado do caminho. A frase era curta e o julgamento que uma das pessoas fez ressoou em minha mente por muito tempo, o cidadão dizia, apontando para o mendigo: “Estas pessoas estão na rua, passando necessidade, porque são fracas”.

    Olhar para alguém que está em uma situação bem diferente da sua ou que possui uma realidade financeira bem abaixo do que a sua realidade e emitir um juízo de valor, não é justo. Principalmente se você nunca vivenciou aquela situação ou não conhece aquela realidade. Outra coisa muito importante que precisamos entender é que não é inteligente colocar todas as pessoas em uma mesma realidade e fazer uma conclusão geral sobre eles. Cada um tem a sua história e suas particularidades. E apesar de crer que alguns vivem na rua por estilo de vida, e isso existe, por mais que soe estranho, esta não é a realidade de todas as pessoas. Existem histórias, intenções e muitas vezes freios, que seguram alguns, impedindo que avancem mais em suas realidades.

    Quando eu vejo alguém concluir e opinar sobre um assunto desta forma, calcado em muito senso comum e opiniões simplistas, é quando eu acabo por ter certeza da insistência do ser humano em se abster de se informar. É evidente a falta de repertório de uma pessoa assim.

    Todos nós temos uma opinião sobre um assunto ou fato, já reparou nisso? Olhamos alguém, lemos uma notícia ou vemos algo acontecer e já emitimos um juízo de valor. O ser humano é alguém que está sempre pensando, o que ele não costuma fazer é se informar antes de emitir o seu ponto de vista, com isso, ele argumenta tendo como ponto de partida apenas as suas informações, e em alguns casos, isso não é suficiente. É preciso buscar mais, para conseguir falar melhor e não falar bobagem.

    Concluir sobre alguém, avaliando apenas o estilo das suas roupas, orientação sexual ou escolhas pessoais, é complicado. Existe uma história por trás das pessoas, uma batalha que só quem está passando consegue refletir. O mundo de alguém muitas vezes fica escondido em nossa ignorância e falta de vontade de conhecer mais outras realidades.

    O senso comum insiste sempre em impor as suas opiniões. A maioria que segue esta linha de raciocínio, crê em um universo fundamentado em projeções pessoais, que são injustas por si só.

    Quando você vive um pouco mais, você percebe que até as pessoas mais fortes, são derrubadas pela vida, pelos problemas e situações que nos pegam de surpresa. Viver não é uma arte tão simples assim, não é à toa que inclusive pastores e cristão realmente relevantes, acabam desanimando por conta dos problemas da vida. E alguns, como vimos alguns anos atrás, até tiram a sua vida.

    É fácil olhar para o próximo e emitir um juízo de valor, agora, estar naquela situação já é outra realidade, por isso que, nos demorar em emitir uma conclusão é a ação mais sábia que podemos ter. É melhor se informar, tentar ajudar, do que concluir com uma reflexão simplista como esta.

    Lembre-se que é sempre muito mais fácil resolver os problemas dos outros, principalmente quando não estamos vivenciando aquela realidade. O desafio é resolver nossos problemas. Por isso, se abstenha de condenar as pessoas e não se esqueça que todos nós temos as nossas dificuldades.

    “Pois da mesma forma que julgarem, vocês serão julgados; e a medida que usarem, também será usada para medir vocês”. (Mateus 7:2).

  • A VANTAGEM DA HUMILDADE

    “Riqueza gera arrogância; comedimento leva à humildade. Muito melhor ser humilde do que arrogante” (CONFÚCIO, 2019, p. 53).

    A parte boa do dinheiro é que ele pode nos proporcionar uma vida confortável, com ele, podemos ter acesso a facilidades, conseguimos viajar e estudar, entre tantas coisas boas. A parte ruim do dinheiro é que ele pode nos deixar arrogantes, pois riqueza e poder geram soberba e aquele sentimento de superioridade. Tudo vai depender de como você enxerga o dinheiro e qual é o lugar que ele ocupa em sua vida.  Caso ele esteja no cômodo principal, ele vai ditar as regras, terminando por virar um fim em si mesmo. Caso você coloque em seu devido lugar, ele vai ser o meio de realizar algo ou mesmo, de ajudar as pessoas.

    O dinheiro é uma ferramenta que nos dá a capacidade de fazermos muitas coisas. Nunca vivi para o dinheiro, eu apenas faço uso para os diversos fins, como tudo deve ser. A vida é curta para termos como principal meta, acumular muito dinheiro e riqueza. Não precisamos de tudo, por isso, ser comedido é o caminho para o verdadeiro equilíbrio.

    Saber como você quer viver é o primeiro passo para uma vida humilde. Lembrando que ser humilde, não é se diminuir, e muito menos achar que somos menores que as outras pessoas, e sim, saber bem quem você é, e como você considera (ou não), o próximo.

    Quem é comedido, acaba sendo humilde, por saber que é importante não viver por impulso. Além de saber bem o lugar das coisas e do dinheiro. O comedimento e a humildade andam juntos, por ter o mesmo princípio que é o equilíbrio. Quem busca o equilíbrio, primeiramente deve ser humilde e entender sua falibilidade. Quem sabe quem é, e o quão sujeito está ao autoengano, acaba sendo humilde. Sendo que no mais, são consequências deste estilo de ser. A humildade não tem preço, viver para coisas e objetos é muito pouco e nos leva por estradas muito esburacadas.

    Quando descobrimos quem somos e percebemos que o dinheiro proporciona são apenas mitos. Sentimentos que são falsos em si mesmo, percebemos que a busca por equilíbrio é fundamental.

    O sentimento de superioridade que alguém tem por conta de dinheiro e status, é falso, é um mito. Ele não traduz quem somos, muito menos nossas habilidades e conhecimentos. O dinheiro constrói uma falsa imagem de nós, e nos engana.

    Ser humilde é apenas para os fortes, para aqueles que não têm medo de mostrar a sua cara, e de admitir tanto suas qualidades, quanto seus defeitos. A vida humilde, o comedimento, nos leva a entender que precisamos de limites, e é o limite que constrói pessoas humildes.

    A simplicidade é o resultado de quem dia a dia busca o equilíbrio, de quem não precisa de tudo para “ser”. Quem esconde o seu rosto atrás de coisas ou do dinheiro e posição social, no final mostra que não tem nada para mostrar, por isso, precisa de um monte de coisas para se tornar alguém.

    BIBLIOGRAFIA

    CONFÚCIO. As lições do mestre. São Paulo: Editora Jardim dos Livros, 2019.

  • AGOSTINHO E O TEMPO

    Cresci assistindo filmes e séries sobre viagens no tempo, era realmente interessante pensar na possibilidade de poder voltar e revisitar histórias e acontecimentos famosos ou mesmo, consertar decisões equivocadas que tomamos.

    A nossa vida é construída com histórias, acontecimentos que muitas vezes guardamos como lições. É normal as vezes pararmos e lembrarmos do passado, de dificuldades e lições aprendidas. São tempos que passam e ficam na lembrança.

    E sobre o tempo, lembranças e acontecimentos, se pararmos para refletir, entraremos em algumas áreas realmente complicadas, pois afinal, o que seria o passado, o presente e o futuro? O passado existe ao ponto de podermos revisitar? E o futuro é um lugar ou ele acaba sendo apenas uma projeção da nossa mente, apenas uma interpretação dos dias que se foram? São muitas perguntas que o assunto levanta.

    Ao discorrer sobre o conceito de tempo, em sua obra “Confissões”, Agostinho pontua que o tempo é algo que sabemos muito bem, quando não nos perguntam sobre. Mas que se precisarmos explicar, mostraremos a nossa inaptidão (2016, p. 342).

    A questão do tempo se faz presente na filosofia de Agostinho por conta de seu embate com os maniqueístas, que através de sua visão dualista de bem e mal, concebiam o mundo como uma mistura de bem, que era Deus e mal, que seria a matéria. Sendo que ambos possuíam uma natureza infinita e ilimitada, e seguiam em uma eterna batalha (COSTA, 2012, p. 53).

    Vinha também dos maniqueístas questionamentos sobre Deus e sobre o que ele estaria fazendo antes de criar tudo. A diversão deles era fazer soar ridícula a criação do tempo segundo Gênesis. Para Agostinho, o tempo havia sido criado por Deus, junto com tudo o que ele criou, sendo que antes, não havia nada, muito menos tempo (COSTA, 2012, p. 53). Dario Antiseri e Giovanni Reale complementam:

    Antes de criar céu e terra, não havia tempo e, portanto, como já acenamos acima, não se pode falar de um “antes” antes que o tempo fosse criado. O tempo é criação de Deus […]” (p. 466).

    O tempo é algo criado por Deus, e Deus vive em um eterno agora, para Ele, sempre é. Por fim, o tempo é algo que existe dentro do ser humano, visto que é ele que mantem suas lembranças e interpretações sobre o que aconteceu e também suas expectativas e planos para o futuro.

    O tempo, como diria Agostinho, é apenas o presente. O passado não existe, ele é uma interpretação que fazemos no presente sobre um dia que passou. O futuro é só uma projeção da nossa mente. E o presente é o dia em que vivemos, é o hoje. Com isso, ele resume a questão dividindo o tempo em: presente do passado, presente do presente e presente do futuro. O presente do passado, seria a memória, o presente do presente na nossa percepção e o presente do futuro a expectativa (2016, p. 348-349). Tal questão está bem pontuada em seu livro “Confissões”.

    Quando falamos em passado, discorremos sobre uma interpretação que fazemos no presente de algo que já passou. Em um dia que não mais existe e que se foi. O tempo é uma existência fragmentada visto que ele está sempre passando. Só há o presente, o passado é um momento que sobrevive na memória e o futuro permanece como uma espera tendo como base as nossas percepções no presente (GILSON, 2010, P. 365).

    No final, segundo Santo Agostinho, não existe passado, presente e futuro, e sim, apenas o presente que também não é, já que também passa e escoa com a fluidez da vida. Se o presente permanecesse, ele seria eternidade, com isso, concluímos que o presente é um eterno deixar de ser (GILSON, 2010, P. 365).

    Sobre as nossas histórias, é interessante pensar e colher a lição, contudo, esta reflexão é feita a partir de hoje, com uma interpretação atual, que pode não refletir o que realmente aconteceu. Olhamos nossas histórias, escolhas e acontecimentos, através do olhar atual e muitas vezes reinterpretando algo e assim, cometendo alguns erros.

    As lembranças, no final, são interpretações que fazemos no agora, sendo que estamos passíveis de erros, justamente por conta de como o momento que passou significa para nós. Interpretar nem sempre é uma ação calcada na verdade, as vezes erramos, por conta da percepção.

    Contudo, independentemente da conclusão que podemos ter do tempo, uma coisa é verdadeira, o tempo demonstra o quanto somos pequenos e frágeis e o quando Deus é soberano.

     Se nós vivemos em uma eterna fluidez, de dias que são e já deixam de ser, Deus vive em um agora eterno, pois para ele o tempo é sempre agora, já que ele é o criador de tudo, inclusive do tempo.  

    BIBLIOGRAFIA

    AGOSTINHO, Santo, Confissões, Editora Paulus, São Paulo, 2016.

    GILSON. Étienne, Introdução ao estudo de Santo Agostinho, Editora Paulus, São Paulo, 2010.

    COSTA. Marcos. Roberto, 10 lições sobre Santo Agostinho, Editora Vozes, Rio de Janeiro, 2012.

    GIOVANI, Reale.; ANTISERI, Dario. Filosofia: Antiguidade e Idade Média. 2. ed. São Paulo: Paulus, 2020.

    RUSSEL, Bertrand. História da filosofia ocidental: Livro 2 A filosofia católica. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2015.

  • OLHAR ALTIVO: O ORGULHO E A VIDA CRISTÃ

    Costumo perceber ao chegar em um ambiente, como as pessoas me olham. O olhar fala muito e revela como alguém enxerga o seu semelhante. Você pode fingir, tentar atuar para agradar as pessoas, mas o nosso corpo e as nossas expressões podem revelar um sentimento contrário ao que estamos expressando.

    O olhar humilde é acolhedor, nos faz sentirmos que somos aceitos em determinado local. Já o olhar arrogante, que insiste em nos medir, como se não fossemos bons o bastante para estarmos no recinto, espanta, separa e divide.

    A igreja é um local de refúgio, é um ambiente onde a humildade deveria falar mais alto e também onde todos deveriam ser aceitos e acolhidos como são. Somos mordomos, servos de Deus, com isso, acolher como a graça nos acolhe, é um princípio básico para todos os cristãos.

    Nestas minhas andanças ao sair da igreja no qual havia sido membro há muitos anos, visitei muitas comunidades e com isso, pude notar como alguns lugares carecem desta humildade que a graça nos dá. Olhares julgadores, orgulhosos e com falta de abertura, foi o que eu mais percebi. É claro que não foram em todas as igrejas, mas em uma boa parte delas.

    Há comunidades onde perguntar o seu sobrenome é comum, para verificarem se você é realmente um descendente legítimo de determinada etnia, em outros as suas roupas e carro são avaliados. Atitudes que considero muito negativas, mesmo feita sem maldade, visto que ela segrega e separa as pessoas.

    O corpo de Cristo não tem etnia e nem classe social, somos cidadãos do céu, o nosso reino não é deste mundo, estamos só de passagem. Com isso, receber a todos, independentemente de onde uma pessoa nasceu é um ponto de partida fundamental. Santo Agostinho acrescenta:

    “Os que amam a Deus e fazem a sua vontade, formam com ele uma só família, da qual Deus é o Pai. Serão pais uns dos outros, quando deles cuidam; filhos, quando se aceitam mutualmente; mas serão especialmente irmão. Isso porque o testamento de um único e mesmo Pai os chama à mesma herança (2021, p. 115).

    Precisamos ter consciência e fugir da altivez, que é uma atitude contraditória com a palavra. A vida cristã e a arrogância, não combinam. A mesma graça que nos salvou, termina por ser as lentes nos quais vemos o próximo, ou pelo menos deveria ser assim. Por isso que o orgulho não deve ter o menor espaço na vida de um cristão.

    Cultuamos um Deus que se fez carne, que conviveu com os mais diversos e complicados tipos de pessoas. Só este fato já nos deveria levar a termos uma vida humilde.

    Tudo o que temos e somos, devemos a Deus, por isso, a humildade deve ser o nosso ponto de partida e o holofote que aponta para a misericórdia de Deus.

    BIBLIOGRAFIA

    AGOSTINHO, Santo. A verdadeira religião; O cuidado devido aos mortos. 1. ed. São Paulo: Paulus, 2021.

  • ENTENDENDO O AMOR

    “O amor é o que o amor faz” (HUNTER, 2004, p. 68).

    Imagine uma pessoa que gasta seus dias para cuidar de doentes, mais especificamente de leprosos, que ninguém quer saber. Ou uma pessoa que estuda anos para ser médico, para terminar sua carreira sendo missionário em países onde a doença e a pobreza são constantes. Imagine um empresário que separa uma parte dos lucros de sua empresa para a caridade. Na verdade, você nem precisa imaginar, basta ler a história de inúmeros missionários que se dedicaram a ajudar o próximo e empresários, engajados na missão de melhorar a vida de algumas pessoas. Quando leio sobre amor, não consigo deixar de fazer um link com todos estes exemplos práticos que resumem o significado da palavra.

    Muitos acreditam que amar envolve muito mais sentimento do que a razão, infelizmente, muitos destes idealizam o amor e o veem como algo sentimental e romântico. Mas para quem é pai, ou vive em um relacionamento de muitos anos, sabe muito bem o quanto tal conclusão é equivocada.

    O romance não dura muito tempo, os dias de flores de um pai ou casal, não são diários. O amor romântico dos filmes é até bonito, mas na vida real as pessoas adoecem, ficam de mau humor ou têm seus dias de melancolia.

    No fim, o amor é o que o amor faz, como a citação aponta, é uma atitude, uma ação que nem sempre envolve sentir. É chegar em casa depois de um dia de trabalho complicado e ainda conseguir dar atenção aos filhos, é sair de casa em um dia de descanso para ajudar um amigo. É tratar bem alguém que parece não ir muito com a nossa cara. Sendo que em muitos destes casos, sair da nossa posição cômoda ou mesmo, engolir nosso orgulho para ajudar uma pessoa que muitas vezes não gosta de nós é a verdadeira demonstração de amor.

    Amar não é sentir, é fazer, é ser diferença, sem depender dos sentimentos. Amar é muitas vezes fazer o oposto dos sentidos e cultivar atitudes construtivas e não destrutivas. Lembre-se que amar é um verbo e verbo denota ação.  

    É normal confundirmos as coisas, seguindo pontos de vistas criados por filmes ou propagandas. O que precisamos entender é que no mundo real, as coisas são muito mais diferentes e amar, é muito mais do que sentir algo por alguém ou ver coraçõezinhos voando.

    As vezes os nossos sentidos apontam para certas atitudes, contudo quem ama pensa, reflete e busca as melhores ações, mesmo que todo o corpo diga que você não deveria fazer nada. Amar é fazer, independente de quem a pessoa seja ou tenha feito para você.

    Lembre-se que Jesus não só demostrou o seu amor curando, acolhendo e recebendo os excluídos da sociedade, mas agiu de forma amorosa ao morrer em nosso lugar.

    Se “o amor é o que o amor faz”, na cruz um Deus demostrou o amor mais gigantesco que alguém pode demonstrar por alguém.  

    BIBLIOGRAFIA

    Hunter, James. C. O monge e o executivo: Uma história sobre a essência da liderança. Rio de Janeiro: Editora Sextante, 2004.

  • APRENDENDO A NÃO SABER

    Foi a sede pelo conhecimento que me levou a fazer uma graduação. Eu queria conhecer mais, por isso, cursei um Bacharelado em Teologia em uma relevante faculdade.

    Na época, alguns colegas de trabalho não entenderam a minha decisão, em um mundo onde o dinheiro move tudo, alguém que gasta quatro anos de sua vida apenas para conhecer ou se preparar para o ministério em sua igreja, é alguém fora da realidade. Em uma sociedade onde o dinheiro é o Norte, quem estuda para apenas conhecer, acaba sendo alguém fora da norma.

    A ironia foi que quando eu comecei os estudos, eu acreditava fielmente que sabia. Fui membro de uma igreja que incentivava as pessoas a ler e a estudar. O curioso foi que a cada estudo, cada pesquisa e aula que eu ouvia, apenas fazia com que eu percebesse o tamanho da minha ignorância e como o conhecimento é inesgotável. Entrei na faculdade acreditando que sabia e saí, tendo a certeza que precisava aprender ainda mais. 

    A frase “só sei que nada sei”, de Sócrates, não é apenas uma ironia, de um filósofo que conhecia muita coisa, mas também uma grande verdade. Aquele que verdadeiramente sabe é um indivíduo que tem a plena ideia do quanto não sabe.

    O orgulho é ignorante, ele não dialoga, coloca uma pessoa em um pedestal, como um intocável. Orgulho é coisa de quem não sabe e se convenceu ouvindo apenas um argumento, lendo apenas um livro ou ouvindo somente uma pessoa, seguindo assim de forma arrogante, se autoafirmando, para disfarçar a sua insegurança. Aprender a fina arte de não saber, requer muita humildade e a capacidade de abrir o peito para confessar as suas fragilidades. Quem realmente sabe, tem certeza de quem é e segue mais leve por conta disso.

    Aprendi a ser humilde diante de professores experientes, descobri que as mentes mais sábias eram simples, tranquilas e não precisavam provar nada a ninguém. Aprendi também com muita gente humilde, que não estudou em uma faculdade, mas aprendeu com a vida, sofrendo tombos e se levantando, provando que a vida é incerta e o certo é apenas a nossa ignorância.

    Aprendi a não saber e esta foi a minha principal lição na faculdade, por isso, sigo aprendendo, buscando conhecer e crescendo, mas com a certeza que quem realmente sabe, é aquele que sabe que de nada sabe. Reconhecer a própria ignorância, é se ver face a face com o saber e com a humildade. Quem consegue alcançar tal estágio, já conseguiu tudo.

    Desconfio de quem tem muita certeza, de quem com presteza, tenta convencer a todos e segue se achando o dono do conhecimento. Destes, me mantenho longe, quem tem muitas certezas não é confiável.

  • CERTEZAS POLÍTICAS

    Na politica não é incomum vermos a história se repetir, seja no Brasil ou fora dele. No final é a certeza moral que rege as discussões políticas. Em nome dela, inúmeras batalhas são travadas e seguem sem propor mudanças realmente duradouras a população. São apenas pontos de vistas calcados em interesses próprios, de pessoas que creem que todos são os bandidos, enquanto eles são os “mocinhos”. 

    Em primeiro lugar, eu lamento muito estarmos ancorados nessas discussões como se a sociedade estivesse fadada a escolher o seu lado e se contentar com tal alternativa. Opções descentralizadas, caminhos que focam no bem comum são esquecidos, enquanto a briga por interesses particulares continua. A política virou uma guerra de interesses, enquanto muitos problemas seguem sem solução e a corrupção vira rotina nos noticiários diários.

    Em segundo lugar, a meu ver, tal guerra de certezas, já que ambos os lados acreditam estar de posse da infalível solução política, só demonstra o quanto o problema é muito maior do que imaginamos. Onde no final, se não aprendermos a dialogar e construir caminhos mais centralizados, seguiremos sem solução. Ben Shapiro acrescenta:

    “Se tem uma atitude que caracterize a política moderna é a completa e absoluta certeza moral. Os que estão na esquerda política têm certeza de que aqueles que se opõe a eles são monstros nazistas, determinados a dominar vidas individuais; aqueles na direita política estão certos de que o oposto é verdadeiro” (2019, p. 73).

    A minha única certeza é que a militância, no final, não tem ajudado e a ignorância é a pauta que tem dado o tom da discussão. Sem diálogo, continuaremos à deriva, sem boas soluções inclusive contra a corrupção e as regalias políticas, que são realizadas às custas do povo trabalhador, que tem sido endêmica em nosso setor político. 

    Veja bem, por mais que seja possível classificarmos os dois modelos políticos em esquerda e direita, por conta de características específicas que ambos os pensamentos políticos possuem, a questão vai muito mais além do que tal classificação. Temos problemas que precisam ser resolvidos, seja a corrupção que corre solta dos dois lados ou o enorme gasto público com coisas que não são essenciais e por aí vai. Diante de tais fatos, eu não consigo de deixar de concluir que esta briga serve apenas para não permitir que a população foque nestas questões. Enquanto as pessoas brigam, eles fazem festas com o dinheiro do pagador de impostos.

    Tenho uma certa desconfiança daqueles discursos que apontam os erros de todos, mas se colocam como os salvadores. Não há salvador aqui na terra e muito menos a certeza de que nossos atos sejam moralmente corretos e infalíveis. Ser cristão é justamente entender que somos falhos e incompletos e que é só a partir de Deus, que conseguiremos caminhar pelos trilhos da verdade.

    A minha proposta não é levar você a abandonar a sua opinião política e sim, incentivar você a olhar para os dois lados. Aprenda a primeiramente, aceitar as críticas e contradições da sua vertente política, pare de defender o seu lado como se ele fosse infalível. Ignorar os erros e equívocos faz de você alguém desonesto, esta é a verdade, e para conseguirmos mudanças precisamos de honestidade.

    Entenda também que muito mais do que esquerda e direita, o Brasil está mergulhado em corrupção e gastos excessivos, muitos políticos, se não a maioria, não servem o país e sim, se aproveitam, se apropriando de tudo o que é nosso. Quanto mais regalias e mais corrupção, mais pagaremos impostos e sustentaremos as pessoas que deveriam cuidar do nosso país, como eu já pontuei.

    Existem na verdade dois lados, o lado dos políticos desonestos e o lado do povo, que não aguenta mais pagar impostos e viver na falta. Por isso que, se for para dividirmos a política em dois lados, que os lados sejam estes: O povo e os políticos.

    Que possamos cultivar sabedoria na hora de dialogar sobre o assunto e não deixar de ver os pontos que realmente importam. A política existe para servir o povo e não ser servida, por isso, olhar para a política e refletir sobre o papel que ela está exercendo na sociedade deve ser a primeira atitude. É só assim que vamos conseguir dialogar de forma construtiva e propor mudanças relevantes em nossa sociedade.

    BIBLIOGRAFIA

    SHAPIRO, Ben. O lado certo da história: Como a razão e o propósito moral tornaram o Ocidente grande. Rio de Janeiro: Alta Books, 2019.

  • ATIVISMO RELIGIOSO

    Um dos pontos fundamentais da vida cristã é o nosso secreto com Deus. Não existe um cristão, se este não separa um tempo para orar e estudar a Bíblia. Para sermos, precisamos separar o nosso tempo com Deus, ser cristão é isso.

    Conheço inúmeras pessoas que passam a semana toda dentro de uma igreja, mas mal separam um período para se colocar aos pés do Criador e muito menos ler a sua palavra. Isso sem contar com o seu convívio familiar, o qual também é fundamental.

    É claro que é essencial sermos úteis para o reino. Trabalhar na igreja é muito bom e muito importante, mas a vida cristã não se resume apenas a isso. Por isso, precisamos entender que estabelecer limites é o único caminho do cristão que tem uma vida equilibrada.

    Aprender a parar, separar um tempo para ler, estudar ou estar com a família, além do próprio secreto, como já falei, é igualmente fundamental. O ativismo, apenas fazer e trabalhar para o reino, como muitos dizem, é somente um dos lados da moeda, existem outros que devem ser considerados.

    Você não sabe como é precioso se colocar aos pés de Deus em silêncio, buscando ouvir sem pressa ou mesmo ler a Bíblia com calma, fazendo pausas para refletir. E isso só se faz com algum tempo reservado, sem afobação e ativismo.

    Por isso que enfatizo, trabalhe na igreja sim, busque ser útil para o reino. A sua comunidade precisa certamente de pessoas dedicadas, úteis para servir as pessoas e cuidar da casa de Deus. Mas não se esqueça de que ser cristão não é apenas isso. Você precisa olhar para a sua família, tirar um tempo com as pessoas que você ama e também descansar.

    Aquela história de que o cristão vai descansar apenas quando estiver no céu é lorota. Para o bem da nossa saúde física e mental, precisamos aprender a parar, cultivar um pouco de ócio criativo e recarregar as baterias.

    Cuidado com o ativismo religioso, pois estar na igreja apenas não significa ser cristão. Ao contrário, muitos estão na igreja, mas distantes de Deus. Ser cristão é um estilo de vida, é um modo de ser e viver, sendo que para ser, você precisa estar cultivando o seu secreto, cuidar das pessoas de sua família e seguir tendo uma vida equilibrada.

    Nós não descansamos de sermos cristãos, pois ser é um estilo de vida. Mas precisamos descansar, parar e relaxar, afinal, ativismo não combina com vida cristã. O tempo do secreto, do descanso e do convívio em família são também pontos fundamentais que fazem parte da vida de todo o cristão genuíno. Por isso, busque equilíbrio e não deixe que o excesso de atividades atrapalhe a sua vida espiritual e pessoal.

  • SILÊNCIO ENSURDECEDOR

    “Se todo mundo pensasse antes de falar, o silêncio seria ensurdecedor” (George Barzan) (BONDER, 2010, p. 30).

    Eu gosto muito de conversar, pelo menos quando o assunto é interessante, mas confesso que tenho dificuldade com conversas banais ou mesmo com aquelas pessoas prolixas, que falam sem medida e sem reflexão. Quem muito fala, além de não ouvir, na maioria das vezes não pensa no que está dizendo.

    Creio que quando aprendemos a pensar e refletir sobre o que falamos e acreditamos, percebemos durante o processo, muitas das nossas contradições. Quem fala demais não percebe suas incongruências, por estar naufragando no excesso de palavras.

    O silêncio é ouro, segundo diz um provérbio, sendo que ele grita e também mostra a realidade que mascaramos com todos os nossos excessos. Nos orgulhamos da nossa tecnologia, mas não percebemos que estamos vivendo cada vez mais no impulso, falando, comprando e consumindo sem pensar.

    Quem fala demais, tende a controlar, sem perceber que em uma conversa, no final, o que ele está fazendo é monopolizar um diálogo. O mesmo acontece quando ficamos o dia inteiro nas redes sociais, televisão ou qualquer outra coisa que nos controla. Estamos sendo monopolizados, sem percebermos. Estamos sendo controlados, para finalidades que desconhecemos.

    Quando aprendemos a pensar antes de falar ou mesmo antes de fazer alguma coisa, buscando sempre enxergar além daquela situação, percebemos detalhes que antes era impossível de vermos.

    O silêncio é ensurdecedor, ele revela quem somos e o quanto a nossa superficialidade é mascarada pelos nossos excessos. O muito falar, denota as vezes, alguma necessidade, um desejo de controle ou aceitação. Já quem se aquieta, se despe, deixa de querer controlar e permite que o ambiente apareça mais que a sua voz.

     Aprenda a ouvir, caso você seja aquela pessoa que gosta muito de falar. O impulso de falar pode ser resultado de querer controlar uma conversa. Aprenda a parar e a pensar sobre isso.

    Todos têm algo para dizer e sim, nem sempre nos interessamos no assunto que o outro está abordando, isso é totalmente normal. Mas deixar o próximo falar é saber amar, respeitar aquela pessoa e o que ela é.

    Fale, não há problema algum em falar, mas também deixe o outro se expressar, um diálogo construtivo é feito de trocas, de ouvir e também falar, de aprender e também colaborar.  É uma via onde as pessoas falam e ouvem de forma igual e respeitosa.

    BIBLIOGRAFIA

    BONDER, Nilton. Exercícios d’alma. Rio de Janeiro: Rocco, 2010.

  • SOBRE VIVER

    “A vida divide-se em três etapas: O que se foi, o que está, aí; e o que será. Dessas três a que vivemos é a mais breve. A vindoura é duvidosa. A vivida é certa, mas irrevogável” (SÊNECA, 2007, p. 45).

    Viver uma vida que realmente vale a pena é buscar o equilíbrio, um desafio que eu sei que é muito grande, já que, quase sempre pendemos para um dos extremos. É difícil viver de modo equilibrado.

    Sobre a vida que vivemos, um dos grandes erros é seguirmos pensando muito no passado, preso a acontecimentos, decepções ou momentos felizes. Não que seja errado relembrar tais fatos e sim que, seguir preso no saudosismo é perigoso. Use tais lembranças apenas para relembrar as lições e assim, não cometer mais os mesmos erros. E caso queira recordar bons momentos, não fique preso ao passado, aprenda a olhar para o hoje e desfrutar do agora. Aprenda a superar o que aconteceu não sendo assim, vítima do passado. Pois o hoje é muito curto e passa rápido.

    Em contrapartida, o futuro é incerto, não dá para adivinhar como será. E por mais que nós possamos nos programar e também nos preparar, fazer planos e estudar tendo em vista uma oportunidade melhor na carreira, não podemos ter certeza de como será. Imprevistos e os mais diversos acontecimentos ainda podem acontecer.

    Já o hoje é certo, é a vida que temos, é o presente que ganhamos, por isso, viva o presente, aprenda a se contentar com o que tem e se planejar para crescer um pouco mais. Tudo com muito equilíbrio e sobriedade, sem deixar de olhar para o agora. Sêneca complementa de forma genial o assunto pontuando que:

    “É um privilégio a mente segura e tranquila percorrer todas as etapas de sua vida. A mente dos atarefados, como se estivesse sob um jugo, não consegue nem refletir sobre si mesma nem se contemplar” (2007, p. 46).

    Aprender a desfrutar do hoje, mergulhar em um estado de contentamento e alegria, nos ajuda a sermos gratos. Se você não consegue aproveitar a vida do jeito que ela é neste momento, dificilmente, quando você conseguir alcançar seus objetivos, você será contente. A mente segura, como bem pontua Sêneca, percorre todas as fases da vida, ela sabe refletir, aproveitar e ser grata. O descontentamento, em contrapartida, segue vivendo sempre no amanhã, com uma existência pesada e negativa. O descontente não vive o hoje, pensa apenas no futuro não aceitando o seu estado atual.

    Aprenda a largar o controle, entenda que faz parte da vida passar por dificuldades e aceite o seu momento, busque sempre ser grato e olhar para os pontos positivos para depois, aprender a lidar com tal situação.

    No final, o velho equilíbrio, que eu sempre falo, é muito desafiador. Conseguir andar pelo caminho do meio e dar passos coerentes, nem sempre é tão fácil. Mas olhar para o hoje e buscar ser sempre grato, é um bom começo. As vezes somos traídos por nossa memória, nos esquecemos de todos os momentos bons que vivemos e mergulhamos em uma existência triste e negativa.

    Desfrutar do hoje e construir bons momentos é a habilidade daqueles que entendem as contradições e ambivalências da vida e conseguem mesmo assim aproveitar da melhor forma possível.

    BIBLIOGRAFIA

    SÊNECA. A brevidade da vida. 1. ed. São Paulo: Editora Escala, 2007.