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A MÚSICA DA VERDADE: RITMO, MELODIA E VERDADE SEGUNDO A FILOSOFIA
A música é incrível, ela é um misto de emoção e sentimento, de matemática e ritmo. Ela é uma arte, mas também para um filósofo, pode ser a síntese da definição da palavra verdade.
A verdade é um tema muito discutido na filosofia, sendo que as definições não são unânimes. Há filósofos que acreditam que a verdade é relativa, como os sofistas, há aqueles defendem que ela existe, e se parece muito com a música, como Platão e muitas outras explicações para o termo. E como eu sou músico, termino por ter uma predileção pela forma como Platão explica a verdade.
A música é muito poderosa, ela tem o poder de tocar a nossa vida. O seu ritmo e melodia nos transporta para outro lugar ou traz à tona momentos importantes, visto que algumas músicas servem como verdadeiras trilhas sonoras, evocando lembranças e histórias.
Platão é um filósofo que acreditava que entre todas as expressões artísticas, a música era a única verdadeira e que valia a pena. A música é uma arte poderosa e possui a capacidade de tocar no fundo da alma do ser humano. O filósofo Platão acrescenta:
“— Não é então por este motivo, Glauco, que a educação pela música é capital, porque o ritmo e a harmonia penetram mais fundo na alma e afetam-na fortemente, trazendo consigo a perfeição, e tornando aquela perfeita, se se tiver sido educado?” (2004, p.94).
Para Platão a verdade é como a música, quando bem tocada ela tem um ritmo e melodia, onde por fim tudo faz sentido. Já a mentira é como uma canção mal tocada, ela não tem afinação, muito menos ritmo e desagrada o nosso ouvido. A verdade tem um compasso e um ritmo, a verdade não desafina, ela é aquela ferramenta que abre os nossos olhos e permite que vejamos o que antes não conseguíamos perceber.
Quando falamos de música, discorremos sobre algo que possui três principais elementos: A melodia, ritmo e harmonia. A melodia é o modo como o som é emitido, sendo que cada canção tem a sua melodia, ela é a sequência de notas musicais. A harmonia é quando dois ou mais sons são produzidos, surgindo assim um acorde, é a combinação de todos os elementos da canção. Já o ritmo é o que dita o tempo e estilo musical de uma música.
Trazendo para a nossa reflexão, e verdade é uma combinação lógica de um argumento que produz coerência e ritmo. A verdade é afinada e toca a nossa vida. Já a mentira é desafinada, sem ritmo e ilógica.
Em tempos de pós-verdade, onde fatos estão sempre em segundo plano e as emoções é que ditam o ritmo, entender a melodia da verdade é fundamental para não nos perdermos nas desafinações do relativismo.
A verdade é como uma música bem tocada, ela tem ritmo, sincronia e lógica. A verdade nos toca, é como uma canção que chega em nosso coração, abre os nossos olhos e muda a nossa vida!
BIBLIOGRAFIA
PLATÃO. A República. 1. ed. São Paulo: Martin Claret, 2004.
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A IMPORTÂNCIA DO ESFORÇO
“Sem esforço pessoal as boas intenções não duram muito nem vão para frente. A própria qualidade do trabalho prestado deixa muito a desejar” (CÉSAR, 2014, p. 92).
Aprendi, ainda novo, como o esforço é importante, o quanto gostar de algo não basta para alcançarmos nossos objetivos. Não tenha dúvidas, o esforço é um elemento necessário para conseguirmos colocar em prática o plano que for. Acreditar que empreender algo é uma ação fácil e simples é não entender a complexidade que é ter que embarcar em algo novo ou em um projeto que exija tempo, estudo e dedicação.
Sou músico e sempre gostei de bateria, mas gostar não foi suficiente, precisei gastar horas estudando e praticando. O mesmo foi com a minha graduação e pós-graduação, não bastou eu gostar de teologia e filosofia, o esforço foi importante para eu conseguir me dedicar, aprender e crescer. No mundo, as boas intenções são muitas, mas boas intenções, sem esforço pessoal, não servem para muita coisa.
Na caminhada, obstáculos e intempéries sempre aparecerão, o que vai definir o sucesso ou o fracasso de uma empreitada é justamente a persistência e o esforço. Gosto de uma frase de Bruce Cockburn que eu sempre cito, sendo que eu a carrego comigo há muito tempo:
“Nada daquilo que tem valor vem sem algum tipo de luta” (ELDREDGE, 2004, p. 79).
Não existe mágica, nem um caminho ladrilhado, com uma calçada perfeita para você caminhar e ir em busca dos seus objetivos. Na maioria das vezes, o caminho é lamacento e cheio de buracos. Por isso, em tudo o que formos fazer, a persistência e o esforço devem estar sempre presente, pois afinal, nem tudo é fácil, os resultados positivos são frutos de muito empenho, recomeço e dedicação.
A intenção não é romantizar as lutas, somente pontuar como as coisas fundamentais requerem esforço, o que vale a pena, na maioria das vezes não vem fácil. Quem já cursou uma faculdade, fez um mestrado ou empreendeu sabe muito bem disso. E este esforço é sempre recompensado, seja com o conhecimento que adquirimos ou mesmo pelas oportunidades que alcançamos.
Entender que a maioria das coisas que valem a pena precisa de esforço e dedicação, é ser consciente que um bom projeto demanda tempo, preparo e insistência. E ao ter esta consciência, você não desistirá fácil.
O meu segredo é colocar o projeto no papel, eu escrevo todos os passos e medito sobre o que quero fazer. Depois divido as tarefas em pequenas atividades, para ir completando a empreitada gradualmente.
É fácil desanimar ao nos depararmos com uma empreitada enorme, que demanda muito tempo e muito esforço. Um bom projeto não precisa ser assim tão difícil, por isso que dividir em várias partes e ir cumprindo um passo de cada vez é um bom caminho, que inclusive lhe auxiliará a não desanimar, além de lhe dar aquela sensação de que você terminou algo.
Aprenda que o esforço é a condição básica para empreender algo, mas também descubra formas de tornar a atividade menos cansativa. Esforço, dedicação e entender que é preciso dar um passo de cada vez para construir algo são os elementos básicos para você montar algo de sucesso.
BIBLIOGRAFIA
ELDREDGE, John. Coração selvagem: descobrindo os segredos da alma do homem. 2. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.
CÉSAR, Elben M. Lenz, Teologia para o Cotidiano: A sabedoria Bíblica para a vida diária. Viçosa: Editora Ultimato, 2014.
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SEGUINDO A CRISTO
Eu sou grato a Deus por tudo, sendo que, com certeza, o principal ponto é ter sido resgatado por Ele. Ter sido salvo da morte e de uma vida longe de sua vontade. No final, o grande tormento é estar longe da vontade de Deus, pois sem Ele, não somos nada.
Seguir a Jesus é o nosso maior desafio, é atender ao seu chamado em um mundo que já nos chama para tantos lugares ou nos propõe tantas opções, que no final, não resultam em nada. Seguir a Cristo é ter a vida transformada por inteiro.
A parte importante neste conceito de seguir a Cristo é justamente entender que o chamado deve ser aceito de forma incondicional. Jesus não nos chama para seguirmos conforme nossas vontades, e sim de acordo com a sua, que é boa, perfeita e agradável (Romanos 12:2), com isso, impor nossas condições para segui-lo é contraditório. É acreditar, mesmo que de forma subjetiva, que nós sabemos o que é melhor. É estar pautado em nossa arrogância e prepotência. Karl Barth complementa pontuando que:
“Seguir a Jesus consiste em um comando incondicional, e assim não pode ser aceito se não for incondicionalmente (BARTH, 2006, p. 20).
O convite é para a obediência, por isso que acordos ou concessões não fazem parte deste chamado, o convite é bem pontuado, “vem e segue-me”, é ir em direção a sua vontade e não a nossa. O jovem rico não seguiu (Marcos 10:17-18), suas prioridades eram outras, sendo que o convite, a prioridade é apenas uma, ou é Ele ou nada.
Quebramos sempre a cara quando acreditamos saber o que é melhor para nós. Não percebemos nossas contradições, nossos orgulhos e autoenganos que nos atrapalham e nos sabotam. Só o evangelho é capaz de ajudar a termos equilíbrio, é ele que nos faz amar de verdade, perdoar, olhar e servir o próximo, tal qual Cristo serviu.
O homem que é desequilibrado em seus próprios desejos, com certeza já sucumbiu, e não percebe o quanto é falho e contraditório. O chamado do discipulado é um largar de si, é despir-se dos nossos orgulhos e seguir a Deus. Novamente Barth complementa afirmando que:
“Seguir a Jesus significa ir além de si mesmo em uma ação e atitude específicas, é portanto, virar as costas pra si mesmo e deixar o eu pra trás” (BARTH, 2006, p. 27).
E esta atitude é a melhor que podemos praticar, não é um convite a subserviência, ao contrário, é largar uma bagagem, entendendo que é só seguindo a Cristo que teremos o verdadeiro equilíbrio, que vamos ter a real nova vida.
O convite não é para viver uma vida fácil, é o contrário, pois seguir na contramão do mundo é sempre complicado, contudo, apesar de difícil, é o melhor caminho que uma pessoa pode trilhar, não tenha dúvidas.
BIBLIOGRAFIA
BARTH, Karl, Chamado ao discipulado, Fonte Editorial, São Paulo, 2006.
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O VENENO DAS NOTÍCIAS
“As notícias que recebemos sobre a nação não são a nação” (BOTTON, 2015, p. 39).
Cresci ouvindo sobre o quanto é fundamental estarmos informados, por isso, desde novo busquei assistir ou ler noticiários. Existem até teólogos que falam que um bom pregador precisa estar com a Bíblia em uma mão e o jornal em outra, parafraseando uma frase que é atribuída a Karl Barth. E eu concordo que precisamos estar informados, a questão é que nem todos os jornais realmente informam.
Conforme fui amadurecendo, lendo e aprendendo, descobri o quão tendencioso pode ser um veículo de informação. É possível manipular opiniões através de uma notícia, uma simples foto ou opinião tendenciosa. Saber separar o joio do trigo, é básico para aqueles que assistem ou leem noticiários. Nos ensinaram que precisamos ser informados, mas não nos mostraram como lidar com a mídia manipuladora e muito menos, como identificar os veículos manipuladores dos descentralizados, que optam por oferecer notícias sem vieses políticos, se é que existem ainda jornais assim. Alain de Botton complementa:
“As manchetes não constituem o reflexo supremo da realidade, apenas palpites iniciais sobre o que pode ser importante, todos emitidos por mortais, homens sujeitos aos mesmos preconceitos, erros e fragilidades que todos nós” (BOTTON, 2015, p. 64).
Não é coerente generalizarmos, quando assistimos ao noticiário. O mundo não é só caos, más notícias e calamidades, que muitas vezes estes veículos fazem parecer. Nem tudo é catástrofe, existe sempre o outro lado da moeda ou a opinião oposta. Saber filtrar, avaliar o que é dito e refletir é fundamental para um pensamento coerente.
Perceber o modo como as notícias são colocadas é muito importante, como alguns assuntos são valorizados em detrimento de outros e como nem sempre teremos boas conclusões por não conhecermos o contexto do acontecimento. Por conta disso, manipular opiniões é muito mais fácil, já que nem todos conhecem o assunto por inteiro e muito menos se interessam em buscar conhecer. Não é raro vermos pessoas serem envenenadas por notícias que não abordam o todo, que ao invés de informar opina de forma simplista e manipuladora em nome de uma corrente política ou algum propósito obscuro.
Alguns noticiários fazem os problemas parecerem fáceis de serem solucionados, culpando assim, alguém e alguma instituição, fazendo com que as pessoas acreditem em uma imagem montada sem informar o problema real.
Isso sem contar com as enxurradas de notícias sem contexto, que confundem e impedem que as pessoas compreendam o todo, como bem pontua Alain de Botton, em seu livro Notícias: Manual do usuário. O excesso serve para tapar a visão de quem assiste, impedindo que o indivíduo tenha uma compreensão geral do fato ou de um assunto muito relevante (2015, p. 29).
O veneno que alguns noticiários destilam é sutil, não percebemos, quando aos poucos, somos levados a ter conclusões equivocadas. Fugir deste veneno é perceber como no final, há sempre um contexto a se entender para depois termos uma conclusão sobre um assunto.
O noticiário não informa, a maioria manipula e mostra o que quer mostrar. Ter um bom senso crítico em relação a tudo o que ouvimos é fundamental para assim conseguirmos ter uma opinião relevante.
Estar informado é muito importante, só cuide para que durante o processo você não seja manipulado!
BIBLIOGRAFIA
BOTTON, Alain. Notícias: Manual do usuário. 1. ed. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2015.
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IDENTIDADE CRISTÃ
“Mas o publicano ficou a distância. Ele nem ousava olhar para o céu, mas batendo no peito, dizia: ‘Deus, tem misericórdia de mim, que sou pecador’” (Referência: Lucas 18:9-14).
Nem sempre um rótulo é algo ruim, em algumas situações, ele mostra quem somos, quais são os nossos gostos e anseios. E isso acaba sendo totalmente positivo em alguns ambientes.
Quando eu era novo, por exemplo, gostava de ser visto como um músico que tocava metal. Aquele estilo era o meu preferido e me definia. Quem curte rock ou metal, tem um modo de se vestir, falar e se comportar bem único e isso na adolescência, era motivo de muito orgulho. Com isso, eu tinha a maior alegria em ser visto como um músico deste estilo, isso me fazia crer que eu tinha um propósito na vida.
Hoje eu sou professor e teólogo, conhecido como alguém que lê muito, é assim que muitos me veem, seja no trabalho, igreja ou entre os amigos. A diferença é que hoje eu não me esforço para parecer algo. Eu apenas me dedico da melhor forma possível em minhas práticas profissionais ou mesmo as atividades pelas quais eu gosto, como ler e escrever. Tenho como princípio ser um ótimo professor, muito mais do que parecer um ótimo profissional.
A primeira atitude tem como ponto de partida a aparência, em tentar parecer o máximo possível com aquilo que gostamos, a outra foca na habilidade, na prática, na atividade. Pois no final, são as nossas atitudes que nos definem, com isso, elas podem ser verdadeiras, ou fabricadas. No exemplo pessoal que eu dei, eu não era um músico de rock falso e sim, que a aparência contava muito mais do que o meu desempenho no instrumento musical. Eu queria muito mais me autoafirmar, do que realmente ser, neste tempo.
Ser cristão não é muito diferente deste exemplo. Alguns usam a palavra apenas como rótulo, que acaba por não definir quem a pessoa realmente é. Sendo que são estes que, na maioria das vezes, causam muitos escândalos, já que suas vidas não refletem o evangelho. Como são as nossas atitudes que nos definem, estas pessoas acabam vivendo uma vida irreal. Por isso que de tempos em tempos, pastores sem ética, pedófilos, ladrões entre tantos falsos pastores, aparecem na mídia com algum escândalo. Pois quem eles dizem que são, não combina com as suas práticas.
Veja como até na igreja, por conta de cargos e títulos, corremos o risco de vivermos vidas pré-fabricadas, sem qualquer sinceridade. O pastor, na teoria, é um servo, alguém que lidera ou cuida das pessoas na igreja, mas o título, faz com que muitos deles se sintam superiores, vivendo vidas que não combinam com o evangelho. O que vem como uma responsabilidade, que é o cargo de pastor, músico ou líder de algum ministério, termina nos transformando em atores exercendo um papel cômico e contraditório na vida, crendo que o título lhes concede vantagens especiais.
Estar neste mundo é conviver com realidades pré-fabricadas e em alguns momentos, sermos contaminados por elas. Às vezes, no frenesi de querermos ser, vestimos um personagem sem percebermos que estamos atuando ao invés de vivermos práticas genuínas e sinceras.
O cristão deve acima de tudo ser alguém sincero, alguém que não se disfarça, que sabe suas falhas e não representa. O problema não é só pecar, existe também um grande perigo na falta de sinceridade, em falar que somos algo, sem sermos o que estamos afirmando ser. Deus ouve muito mais o nosso coração do que as nossas palavras. Deus vê muito mais as nossas atitudes e tentativas de melhorar, do que quem tentamos parecer para o próximo.
A parábola do Fariseu e do Publicano fala principalmente de sinceridade. De alguém que representava um papel, se considerava mais santo do que todos, que confiava em sua própria justiça, sem perceber quem ele realmente era. E de outro lado, havia um Publicano, que sabia quem era, não escondia das pessoas isso, era consciente de suas falhas e buscava em Deus a sua misericórdia.
Um publicano era um judeu recrutado pelo império Romano para cobrar impostos. Eles eram vistos por todos como traidores, já que trabalhavam para o império que os dominavam. A comparação na parábola de Cristo era totalmente escandalosa aos olhos de quem ouvia. Já que um fariseu era um religioso muito dedicado, que sabia a Torá e as leis de cor e era fiel a todas as práticas (pelo menos parecia ser) e o publicano um traidor. A questão é que o fariseu se achava superior, merecedor de tudo e esquecia dos pobres e das pessoas. E o publicano sabia quem era, ele tinha certeza que precisava da misericórdia de Deus. Um estava vivendo um papel, o outro vivia uma vida sincera, ele sabia bem quem era, por isso, clamava pela misericórdia de Deus. D. A Carson complementa:
“Deus está sempre pronto para receber os injustos quanto estes apelam a ele, mas fecha seus ouvidos àqueles cujo orgulho por suas práticas religiosas e boas obras fazem com que se sintam autossuficientes” (2012, p. 1518).
Um fariseu era alguém realmente dedicado, onde muitas vezes, fazia muito mais do que a própria lei pedia, mas muitos deles, pois não dá para generalizar, terminavam por ficar autossuficientes, como se eles mesmos já se bastassem.
Quando confiamos em nossa própria justiça, perdemos a nossa essência e aos poucos deixamos de ser quem somos. Com isso, esquecermos a pessoa pecadora que cada um é e da misericórdia de Deus, que nos alcançou e nos alcança todos os dias. Seguimos sendo arrogantes, crendo sermos melhores que os pecadores e publicanos.
É importante lembrar que antes de qualquer rótulo, nós somos cristãos, esta deve ser a nossa real definição, por isso que, se as nossas atitudes não demonstrarem quem imitamos, vamos acabar virando atores, desempenhando um papel qualquer e muito longe da verdade.
Nesta vida nós exercemos vários papeis, somos pais, profissionais, e inúmeras outras coisas, mas tem algo que nos define de verdade que é ser um discípulo de Cristo. E por sermos discípulos, temos que amar, servir e ter misericórdia, assim como Deus teve misericórdia de nós.
BIBLIOGRAFIA
CARSON, D. A.; FRANCE, R. T.; MOTYER, J. A.; WENHAM, G. J. Comentário bíblico Vida Nova. 1. Ed. São Paulo: Vida Nova, 2012.
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EM BUSCA DE EQUILÍBRIO
Foi inevitável quando eu estava formado, estudar um pouco mais sobre a história da igreja, por isso, empreendi uma busca por livros relevantes da área, e foi neste momento que eu cheguei nos livros de Roger Olson.
Este autor é muito conhecido pelos livros “Contra Calvinismo” e “Teologia Arminiana”, contudo, Olson possui muitas outras obras, sendo que a ênfase que eu quero dar são nos livros “História da Teologia Cristã” e “História das Controvérsias na Teologia Cristã”.
Buscar conhecer a história da igreja e da teologia cristã é fundamental, entender as controvérsias e como as doutrinas se formaram, é inevitável caso você queira ter uma teologia equilibrada. E o livro “História da Teologia Cristã” cumpre bem este papel.
Escrito em uma linguagem acessível, tal livro é um ótimo material para aqueles que querem dar os primeiros passos no estudo e pesquisa teológica. Entender como tudo se formou é o melhor caminho para não cair nas falácias e ensinos distorcidos que não explicam como a teologia cristã foi construída.
Outro livro que foi fundamental para a minha teologia foi “Histórias das Controvérsias na Teologia Cristã”. O livro discorre sobre inúmeras controvérsias na teologia como: a escritura cristã, Deus, humanidade, entre inúmeros temas, sendo que em todos os pontos, o autor sempre propõe um caminho equilibrado para questões complexas. Mostrando como em vários assuntos, existe um caminho para uma opinião coerente e centrada.
É fundamental entender que alguns ensinos são complicados e possuem várias variantes e pontos de vista, e é neste ponto que entra a obra de Roger Olson, que em um tom conciliador, propõe um caminho para uma opinião coerente, ele mostra como há saída para vários temas dentro da teologia.
Ter bons autores em sua biblioteca é fundamental, afinal, é importante ler além da Bíblia, também ótimos livros, como eu sempre afirmo aqui no blog, sendo que Roger Olson é um autor importante. E por mais que ele não discorra de forma exaustiva um assunto, suas obras são ótimos pontos de partida para o estudo e pesquisa. E para quem não quer estudar de forma profunda e busca apenas um conhecimento embasado sobre algo, seus livros são os mais adequados.
Depois de suas obras, consegui mergulhar ainda mais em alguns assuntos, munido sempre do ótimo pano de fundo que o autor oferece. Não adianta mergulhar em algo sem ter uma base para se firmar. É por conta disso que os livros de Roger Olson são ótimos materiais para um primeiro passo desta jornada.
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AMPLIANDO OS HORIZONTES
“Toda ciência, cultivada isoladamente, não é somente imperfeita, mas oferece perigos que todos os homens sensatos reconheceram” (SERTILLANGES, 2019, p. 101).
Mergulhar em um tema, conhecendo todos os autores e pontos daquela linha de pensamento é realmente algo fundamental para sairmos do raso do saber. Por muitos anos eu me dediquei a estudar um determinado tema teológico, sendo ele, um assunto que eu gosto muito e me fez ler, estudar e analisar cada ponto com muita profundidade.
É muito prazeroso mergulhar em uma área de estudos, ler e pesquisar é uma das atividades que eu mais me identifico. Quem escolhe a carreira acadêmica ou é atraído por ela, tem esta particularidade que é gostar de pesquisar. A parte perigosa é se alienar, é se fechar em sua área de estudos sem olhar em volta ou dialogar com outras áreas do conhecimento.
Ter uma especialidade garante que o profissional ou pesquisador, tenha um foco e assim, consiga se aprofundar cada vez mais em um assunto. É legítimo e muito vantajoso ser um professor ou profissional expert em uma área, já que é impossível saber de tudo. Porém é também importante ter um conhecimento amplo em várias áreas, garantindo uma reflexão um pouco mais ampliada.
Se você almeja a carreira acadêmica, tenha em mente que é fundamental escolher uma área de estudos. Se dedique a estudar e mergulhar nela cada vez mais, este é o melhor caminho que você pode tomar. Mas opte também em conhecer outras ciências, para não se fechar apenas em um universo do conhecimento e deixar de ampliar um pouco o seu repertório. É claro, como eu disse, não é impossível ter um conhecimento profundo de tudo. Quem tenta conhecer tudo, termina por ter um conhecimento superficial de várias coisas, mas isso não impede você de se desafiar e olhar para outras áreas conhecendo assim outros saberes, de tempos em tempos.
Com uma certa frequência, eu me arrisco em ler algumas obras diferentes, de temas que normalmente eu não leio, tudo e apenas, para que em alguns momentos, eu consiga sair do comum. É um ótimo desafio e serve como uma oportunidade de se abrir para algo novo, saindo assim da nossa zona de estagnação.
Com este hábito, descobri muitos caminhos novos e adquiri novas perspectivas, conseguindo cultivar e dialogar a minha área de estudos com algumas outras áreas. Quanto mais conhecemos mais ampliamos a visão. Mergulhar em um assunto, nos faz sairmos do raso, para nos aprofundarmos cada vez mais em um tema. Parar de tempos em tempos para aprender algo novo é importante para ampliarmos a nossa visão.
Não se feche para o novo, aprenda e buscar coisas diferentes em alguns momentos da sua vida, para que você possa dialogar e ampliar ainda mais a sua área de estudo.
Estude e mergulhe cada vez mais em uma área, isso é fundamental, mas também separe um tempo para aprender coisas novas e se desafiar a sair da rotina de vez em quando.
BIBLIOGRAFIA
SERILLANGES, A. D. A vida intelectual. 1. ed. Campinas: Kírion, 2019.
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ENTENDENDO AS PESSOAS
“Você nunca entenderá um homem enquanto não calçar seus sapatos e olhar o mundo por meio de seus olhos” (MANNING, 2008, p. 124).
Em um belo dia, acordei com dor de dente, era uma dor horrível, eu nem conseguia raciocinar direito. Com isso, fui ao hospital, e enquanto eu esperava um senhor se dirigiu a mim e falou que tinha uma dor crônica na perna, sendo que a sua dor era muito maior que a minha. Parecia que aquele homem queria competir, afirmando que a minha dor não era importante e realmente forte, mas a sua sim. Que forma estranha de ajudar alguém!
A parte complicada que alguém enfrenta ao passar por muito sofrimento, onde existem dúvidas, dor e busca por respostas, é precisar lidar com as pessoas que possuem receitas prontas a toda a hora. Alguns não ajudam com o seu “conselho”, aliás, em alguns momentos ele pioram ainda mais.
O mal do ser humano é querer sempre explicar, é uma ânsia de concluir sem saber, opinar sem conhecer ou definir sem entender. O pior é que quase sempre a atitude normalmente é tomada a partir dele, de como vive e o que ele já passou em sua vida, e não do outro, que seria forma certa de agir.
Eu tenho medo de quem trata as pessoas como se fossem todos robôs, como se estivéssemos programados para sermos iguais, e com isso, sujeitos as mesmas soluções.
Ninguém é igual a ninguém, cada ser humano tem a capacidade de olhar o mundo com os seus óculos, suas vivências e experiências. É a partir daí, que tomamos nossas decisões.
Você nunca vai entender o seu próximo a partir do seu olhar, de suas experiências e vivências. Cada ser humano é um universo, sendo que, a forma como fomos criados e o caminho no qual trilhamos, define muito quem somos.
Para entender alguém, primeiramente você vai ter que conhecer o contexto daquela pessoa e a sua visão de mundo. Caminhar com uma pessoa tendo como norte sua visão de mundo é algo equivocado. Calçar os sapatos e olhar para o caminho usando seus olhos, sua visão é a melhor forma de mergulhar no mundo de alguém.
Nós temos medos diferentes, histórias distintas, sonhos e limitações únicas, que tocam a cada um de uma forma. O medo de uma pessoa não é o mesmo da outra, as coisas que alguém valoriza, não são as mesmas que o outro valoriza.
Em um segundo momento, para entender uma pessoa, após conhecer o mundo dela através dos seus olhos, é preciso se colocar no lugar dela e trabalhar a empatia. Você nunca vai sentir a sua dor e muito menos vai conseguir ter uma total empatia, mas se estiver consciente, sentirá pelo menos um pouquinho ou conseguirá aprender a respeitar o seu momento.
Eu sou bem prático, com isso, enfrento problemas de saúde, desemprego ou qualquer dificuldade de forma menos dolorosa, pois já sofri muito e com isso, são poucas as coisas que me abalam.
Quem teve uma vida mais estável, certamente não vai conseguir lidar com um problema do mesmo modo que eu, entender isso, é o primeiro passo ser um amigo de verdade, daqueles que realmente se importam e fazem a diferença na vida das pessoas.
Ao projetar o que eu sinto e penso na realidade de alguém, cometo inúmeros erros, mas ao vestir seus sapatos e vivenciar, conhecer e entender alguém a partir da sua realidade, eu entendo quem ela é a partir dela e não através das minhas projeções e consigo desta forma, produzir ações coerentes com a realidade da pessoa.
É difícil discorrer sobre algo que você não conheceu ou vivenciou, o mesmo se aplica ao sentimento alheio, por isso seja mais humilde, e aprenda a calçar o sapato da pessoa antes de opinar ou nem opine.
BIBLIOGRAFIA
MANNING, Brennan. O impostor que vive em mim. 2. ed. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 2008.
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A HABILIDADE DE FALAR
“Pode ser útil observar a nossa própria comunicação. Palavras que louvam a Deus são palavras que geram vida, que incentivam a vida do outro, que o encorajam e fortalecem” (HEYES, 2020, p. 63).
O modo como falamos diz muito sobre nós. Dependendo da forma como falamos, é possível transmitirmos amor, consideração ou mesmo arrogância e desprezo a alguém. A fala é uma ótima ferramenta, mas também pode se tornar um perigoso veneno.
Perceba que a forma como nos comunicamos não é unânime, cada um tem um estilo de falar e se expressar. Cada indivíduo tem o seu critério para ouvir e dialogar e para contextualizar, deixo a história de dois tipos de pessoas que eu já conversei muito durante a minha vida.
A primeira história é sobre um amigo sincero que eu tive. Conheci alguém muito sincero, ele costumava falar quando não gostava de algo, sem qualquer freio e de forma bem natural. O interessante é que se você fosse sincero com ele e dissesse também as coisas que não gostava, mesmo sendo algo que ele gostasse muito, ele dialogava de forma tranquila, sem qualquer problema, visto que esta era a sua característica, não se ofender e nem ligar muito para a opinião alheia.
Há também aquele que é sincero, mas que não gosta muito da sinceridade dos outros, e estes são muitos. Ao falar e ser sincero, a pessoa deveria aceitar a sinceridade dos outros, mas isso não acontece com estes. Nos dois exemplos, alguns vão considerar a sinceridade uma grosseria outros não. Pois como eu afirmei, cada um tem o seu padrão para ouvir e falar. São as nossas lentes que regulam como ouvimos e falamos.
Observar o modo como falamos é fundamental, caso queiramos ser agentes assertivos do reino. As vezes desanimamos alguém, por conta do nosso estilo de falar. E como cada um tem uma forma de receber o que é falado, não é justo considerar a atitude do outro como incoerente, na verdade a opinião dependerá de quem ouve. É claro que uma fala grosseira é visível, mas nem tudo o que muitos consideram grosseria, termina por ser. E acima de tudo, algumas críticas que recebemos dos nossos líderes na igreja ou amigos, são totalmente construtivas.
É preciso ser consciente sobre o modo como falamos, aprender a ajustar a nossa fala é fundamental para que consigamos comunicar a todos a verdade do evangelho, do que acreditamos e defendemos. Quem fala bem e de forma contextualizada é sempre ouvido. Já quem comunica, sem olhar para o próximo, dificilmente é ouvido.
Quem fala bem, gera vida, incentivo e motivação, já quem não sabe falar fecha a porta para o diálogo. Construa jardins ao invés de precipícios, pois nunca sabemos com quem estamos conversando e o quanto ela pode estar precisando do nosso auxílio.
Aprenda a entender o ambiente, a pessoa e o local no qual você está falando, sinta o terreno, e aprenda a comunicar conforme os vários públicos que te ouvem ou nos quais você lidera. Esta é a atitude de um cristão que entende a força da boa comunicação.
BIBLIOGRAFIA
HEYES, Z. Rituais para o encontro consigo mesmo. 1. ed. Petrópolis: Vozes, 2020.
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SOBRE A FALSA LUTA DE CLASSES
Algumas ideias surgem de tempos em tempos com o intuito de se mostrarem salvadoras, principalmente quando o mundo está enfrentando algum problema. Sendo que foi em um contexto semelhante que a filosofia de Karl Marx surgiu, ela pretendia se mostrar a única salvação. Marx acreditava ter descoberto as leis que culminariam ao total fracasso e derrota do capitalismo para que o socialismo tivesse a sua ascensão (MISES, 2016, p. 11).
O tempo já nos mostrou como algumas políticas “salvadoras” são perigosas. Não existem soluções mágicas e muito menos receitas inerrantes para salvar a humanidade. Por sermos limitados é possível focarmos na solução, sem vermos nossa contradição.
A contradição de Marx é primeiramente, do âmbito lógico. Ele lutava contra os burgueses, sendo ele e o seu grande parceiro, dois burgueses. Ele avaliava a situação, sem estar no mesmo contexto ou mesmo sem buscar perceber a complexidade da realidade.
Apesar da não ter dinheiro, Marx se sustentava com a ajuda de seu parceiro Engels e de sua esposa, filha de um nobre. Ele mesmo estava longe de ser um proletário, já que era filho de um próspero advogado. E Engels era um homem muito rico, mostrando assim que os dois estavam longe de serem o que afirmavam ser. Estes dois que acreditavam que um burguês pensava muito diferente de um proletário, terminaram por se justificar afirmando que alguns membros da burguesia haviam acordado, se unido as outras classes. Uma afirmação que servia como justificativa, já que a posição deles não era confortável por serem burgueses (MISES, 2016, 32).
E é possível vermos este mesmo fenômeno acontecer em outros lugares ao vermos pessoas proporem soluções mágicas para a sociedade, sem entenderem o contexto no qual estão falando. Não que eu acredite que apenas quem passou por certas situações pode opinar. E sim que, muitos falam ou propõem soluções sem conhecer. Um médico trata de doenças que ele mesmo nunca teve, contudo, ele estudou e conheceu as enfermidades no qual trata.
Outro ponto interessante, discutindo ainda a questão de classes é que Marx acreditava que os proletários deveriam seguir os interesses de sua classe, o que fica difícil de entender é, por que a classe proletária pensa de modo tão diverso? Não há isonomia de pensamento, como Marx acreditava existir. Ludwig Von Mises complementa, pontuando que:
“Se os proletários devem pensar de acordo com os “interesses” de sua classe, como explicar quando existem desentendimentos e divergências entre eles? A confusão torna a situação muito difícil de esclarecer. Quando há divergências entre proletários, eles chamam a pessoa que diverge de “traidor da sociedade” (2016, 44).
O interessante é que ideias opostas não eram e ainda não são aceitas pelo comunismo, ou você aceita o pensamento padrão, o senso comum, ou você é visto como um traidor. É como se ninguém pensasse e muito menos tivesse o direito de apontar outras soluções ou mesmo mostrar pontos deficientes de uma forma de pensar.
Por fim, ao verificarmos o resultado da ideia de Marx nos vários regimes comunistas que já surgiram até agora, percebemos que nada mudou, tudo era semelhante ao capitalismo. Sempre existiu uma cúpula que comandava. Os burgueses, que tal qual o burguês Marx, viviam fechados em suas classes sociais, desfrutando das regalias de um país que vivia da exploração do pobre e de outro lado havia a classe trabalhadora. Não vou discutir se o capitalismo é bom ou ruim e sim que, não havia e nem há nada de diferente entre os governos capitalistas e os comunistas. A luta de classes era apenas desculpas para tomar um determinado poder e perpetrar um determinado regime político.
Temo toda e qualquer ideia que se mostre impositora, que queira forçar um pensamento. E também não consigo acreditar em soluções rápidas e mágicas. Na maioria dos casos, precisamos discutir muito, refletir, errar e acertar para conseguirmos assim propor soluções coerentes.
Quem crê em respostas mágicas no fundo não se informou e refletiu sobre o assunto, terminando por muitas vezes simplificar problemas que são muito mais complexos do que imagina ser!
BIBLIOGRAFIA
MISES, Ludwig. Von. Marxismo Desmascarado. 1. ed. Campinas: Vide Editorial, 2016.
