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DESENFREADA VIDA
“O descanso é irmão da contemplação, enquanto a prosperidade é gêmea da ansiedade” (PONDÉ, 2019, p. 113).
Moro ao lado de um belo parque e nos dias em que eu tenho muitas coisas para fazer, eu tiro um tempo para caminhar na natureza, orar e relaxar, entre tantas coisas que podemos fazer nestes locais. Pode ser contraditório tirar um tempo justamente nos dias mais corridos, mas a questão é que as vezes a correria da vida, nos tira a concentração, as boas ideias ou a sanidade, que é justamente o que precisamos nestas horas.
Descobri na contemplação e no descanso, uma forma de me desligar deste mundo que não relaxa em minuto algum. Conseguindo assim, recarregar as baterias e descansar a mente de todos os estímulos desta nossa sociedade ansiosa. É durante a contemplação, o ócio criativo, ou mesmo durante uma pausa programada que nos recompomos.
A prosperidade, o excesso de atividades e trabalhos, nos tiram o equilíbrio, além de transformar a nossa vida em um ativismo maçante e constante, que só nos destrói e nos leva a falta de paz. É por isso que eu me obrigo a parar e relaxar constantemente, sendo este um dos hábitos que me protege desta ativista vida.
O segundo habito é colocar limites. Aprendi a viver com moderação e descobri o quão rico é uma vida moderada. Seja no consumismo desenfreado ou no ativismo constante. É preciso colocarmos limites, para que o que é bom, não vire um pesadelo. Pois o problema é, na maioria das vezes, o excesso. Ele tira não só a sua paz, mas também a criatividade, a vontade e a motivação de se dedicar a algo.
Veja bem, eu estudo, leio e escrevo muito, estas práticas já fazem parte da minha vida, mas procuro sempre ser comedido e separar um tempo para dar uma pausa, refletir, e contemplar o belo que nos cerca.
Fazer algo ou se dedicar a um sonho ou projeto, é algo muito bom e genuíno, a questão é quando aquilo norteia toda a sua vida, transformando você em um escravo daquela atividade.
Se você não aprender a colocar um limite em tudo, o próprio ativismo encarregará de empurrar você ladeira abaixo. Fazendo que você acorde em um poço, doente, sem paz e com muitos problemas.
Sem limites ou mesmo sem um pouco de ócio, perderemos todo o nosso tempo para o ativismo, sem perceber a vida passar e com ela toda a nossa criatividade e sanidade.
Por isso eu sempre digo: “Se você não aprender a parar, a falta de saúde fará isso por você!”.
BIBLIOGRAFIA
PONDÉ, Luiz Felipe, Filosofia do cotidiano: Um pequeno tratado sobre questões menores, Editora Contexto, São Paulo, 2019.
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O PINHEIRO E A ARROGÂNCIA
O céu anunciava uma tempestade, do azul anil, um cinza surgiu acompanhado de um vento que proclamava a tormenta, sendo que os relâmpagos e trovões, coroavam o caos que viria em forma de tempestade.
Em um dia quente a chuva ajuda a regar algumas poucas árvores do quintal e também refrescar o ambiente, ela é ótima, mas as tempestades não são legais, pois com a água, ventos fortes e muita destruição podem acompanhar este fenômeno natural.
E enquanto escurecia ainda mais o céu, eu me acomodava na janela, me preparando para observar o grande espetáculo que a natureza iria proporcionar. E não demorou para junto com os ventos, a água surgir e molhar tudo em volta.
Durante o rugir dos ventos, uma das árvores se curva por conta do sopro da tempestade, o vento era tão forte que a janela tremia e a natureza fazia quase que uma reverência por causa da borrasca que passava, menos o pinheiro. Aquela grande árvore permanecia ilesa, apenas seus galhos acenavam e se moviam ante o vendaval, travando uma batalha épica com o furioso evento natural.
Quem não se curva, deve resistir ao vendaval, o problema é que nem sempre é possível aguentar a ventania. As vezes o forte é quem cede, é aquele que sabe ser flexível para não quebrar. Aprender a ceder, refletir e ponderar é a missão daqueles que sabem que dialogar é sempre o melhor caminho. O flexível não é alguém fraco e sim, uma pessoa que consegue se adaptar e ser maleável para não quebrar.
O pinheiro depois de um tempo caiu, pois no final, o vendaval insistente conseguiu vencer e derrubou aquela grande árvore, mostrando que ao invés de resistir, em muitos casos, ser flexível é a melhor saída. Quem não cede, quebra, é fácil quebrar quando não aprendemos a ceder.
Enquanto o pinheiro tombava, curvadas as outras árvores cediam ao vento, mas continuavam fortes. A resiliência é isso, é saber se adaptar, buscando sempre as melhores alternativas diante da vida.
A lição que a tempestade trouxe foi aprender que se curvar e não ceder é melhor que resistir e cair. Ser flexível é a saída daqueles que entendem que ceder nem sempre é perder.
Ser flexível não é ser alguém sem opinião, que muda de ideia diante de qualquer ventinho da vida e sim, uma pessoa que sabe se adaptar aos inúmeros ambientes e situações. É uma pessoa que não impõe, que sabe discordar e dialogar.
Quem têm boas raízes e bons fundamentos, não tem medo de refletir, ceder e buscar se adaptar, pois sabe o quanto a vida muda e a saída é buscar ferramentas para lidar com as diferentes situações da caminhada.
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A IMPORTÂNCIA DA ATENÇÃO NOS ESTUDOS
Certo dia eu estava tão envolto na leitura de um livro, que eu pedi a noção do tempo. O livro e a história eram tão incrivelmente bons, que eu não percebi o tempo passar, um fenômeno que sempre acontece comigo.
A atenção é um dos fatos fundamentais na vida acadêmica. É imprescindível desenvolver está habilidade caso você queira aprender a pesquisar ou mesmo escrever. Em um mundo onde a distração faz parte da nossa vida, procurar técnicas para aprimorar esta área é fundamental, caso queira ser um acadêmico relevante. Cleverson Bastos e Vicente Keller no livro “Aprendendo a Aprender”, propõe três princípios, caso você queira desenvolver a habilidade de concentração.
O primeiro princípio é a concentração única. É preciso saber focar em um objeto, sem segundas ou terceiras distrações, pois, quando há dois ou mais objetos, a sua atenção estará dividida e com isso, você vai perder a eficiência do seu foco em seu momento de estudo (2014, p. 25). Não é à toa que muitos professores pedem para os alunos desligarem seus smartphones, a intenção é fazer com que o aluno esteja cem por cento focado na aula.
O segundo princípio é a intermitência. Não é possível passarmos longos períodos de estudo, sem aos poucos, perdermos a eficácia na atenção. É normal começarmos bem focados e perdermos a força do foco. Por isso que, o estudo eficaz deve ser alternado com períodos de descanso ou mesmo com breves pausas. Seja para relaxar ou ouvir uma música com o propósito de recobrar o foco (2014, p. 25).
O terceiro princípio é o interesse. Quando maior é o interesse no assunto, maior é a sua capacidade de concentração, por isso que, escolher uma área de estudos no qual gostamos é fundamental para o sucesso da empreitada (2014, p. 25).
É claro que na vida acadêmica, muitas vezes nos deparamos com disciplinas que não são do nosso gosto, é preciso aprender a lidar com estes temas e é claro, as vezes também desafiar nosso intelecto e mergulhar em algo diferente.
Eu já mergulhei em temas que não eram da minha área de estudos e descobri um verdadeiro universo que eu passei a gostar. Em um primeiro momento, resolvi aproveitar uma oportunidade, mas depois, descobri muitos temas interessantes. É claro que nem sempre isso acontece, mas o desafio é válido e serve para ampliarmos nosso escopo de conhecimento.
Estudar é uma arte, é um caminho que nem sempre é fácil, e por isso que buscar as melhores ferramentas para o sucesso é a melhor forma de nos desenvolvermos e crescermos ainda mais em nossa área de atuação.
BIBLIOGRAFIA
BASTOS, Cleverson.; KELLER, Vicente. Aprendendo a aprender: Introdução à metodologia científica. 28. ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2014.
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O ESPÍRITO DE UM TEMPO SEM REFLEXÃO
Não acredito que sou uma pessoa indiferente a vida e a tudo o que acontece na sociedade e na política, a questão apenas é que em alguns casos, ir contra o espírito do tempo, como alguns afirmam, é perca de tempo. Não me deixo moldar por falsas articulações políticas ou sociais, mas não me vejo representado por alguém há alguns anos.
Na política há anos que percebo a mesma discussão, a fórmula semelhante de soluções, que depois são esquecidas logo que começa o mandato de um político. Não vejo atitudes diferentes, por isso que em ano de eleição, opto por me abster de me posicionar. Enquanto a opção for o ruim e o menos ruim, acredito que a mudança nunca acontecerá. Já vi muitos salvadores em nossa política e todos seguiram o mesmo caminho que todos os outros insistem em pegar.
Na sociedade vemos modas e teorias surgirem e depois as ressacas aparecerem como resultado de um movimento sem reflexão. Os mesmos militantes que brigam para impor uma solução, constroem problemas ainda maiores para serem resolvidos, em um caminho que novamente insiste em ser igual. Como um bom conservador, desconfio de teorias mirabolantes, construídas sem reflexão e ponderação, e como um bom protestante, desconfio das intenções dos seres humanos.
A vida é muito mais intrínseca do que imaginamos e eu creio que este é o ponto que muitos destes militantes não percebem. Não existem teorias miraculosas e muito menos pessoas salvadoras, e uma solução colocada sem reflexão e ponderação, cria problemas ainda maiores.
Vemos isso no esporte e na questão de gênero, que trouxe muitos problemas as mulheres. Na política, que em meio a pandemia, não conseguiu ter uma atitude centrada e coerente. E também no grande caos econômico que a corrupção tem fabricado no Brasil. Não existe soluções simples, por isso que eu me abstenho de acreditar nestes discursos bem montados. Seja de políticos ou de militantes que na maioria das vezes não conseguem ver o todo de uma questão.
E na igreja cristã vemos ainda mais divisão, sendo que a igreja segue cada vez mais descontextualizada. Mesmo eu sendo cristão, tenho me impressionado ao entrar em lugares que parecem não falar a língua das pessoas e muito menos, estar olhando para a sociedade, buscando mostrar um caminho para as suas necessidades. Ao invés dos cristãos serem a luz do mundo, optam por serem a luz nos seus guetos, uma luz que não aponta para Deus e muito menos faz diferença. Jesus Cristo já nos avisou que precisamos brilhar no mundo, mas o ser humano insiste em ignorar estas lições:
“Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus” (Mateus 5:16).
O ser humano tem seguido o espírito deste tempo com um modo de ser calcado na falta de reflexão, com ações movidas a emoções e impulsos. Precisamos aprender a parar e refletir, formular ações conscientes, que realmente fazem a diferença.
Infelizmente vivemos um tempo em que podemos sofrer más influencias mesmo dentro da igreja e para o meu desespero, tenho ouvido reflexões coerentes de pessoas que nem possuem uma religião. E nós cristãos onde estamos? Seguimos fechados em nossos guetos, falando sem falar, agindo sem pensar e perceber que as nossas atitudes não estão fazendo efeito algum na vida das pessoas.
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NARCISISMO ESPIRITUAL
“Na prática, narcisismo espiritual significa assumir a responsabilidade pessoal de ser seu próprio Salvador, de ser a força que move e molda a própria espiritualidade” (STEUERNAGEL; BARBOSA, 2017, p. 138).
Logo que eu cheguei em uma igreja pude perceber uma pessoa que parecia destoar das outras. Falava de forma altiva, imponente e até inerrante sobre vários assuntos, era o pastor da igreja. Um homem que parecia ser totalmente inacessível, com uma atitude que sempre considerei perigosa para um pastor.
O evangelho nos mostra que não há justo algum e que a graça deve ser sempre o ponto de partida. Não somos salvos por mérito e sim, por conta da soberana e amorosa misericórdia de Deus. E este pensamento deveria gerar cristão e pastores humildes, mas quando isso não acontece, certamente percebemos que o ponto de partida destes líderes são outros, não é a Bíblia.
É comum vermos pastores agindo como super-homens, como pessoas especiais, como se tivessem de uma maneira ou outra poderes especiais, fruto de mérito próprio. Cresci em um ambiente onde estas pessoas eram comuns, víamos todos os dias e aos montes exalando um ar de superioridade.
Olhar para a Bíblia e para o exemplo de Cristo, ler sobre seus ensinos e ainda ter todo este orgulho e arrogância é quase impossível, seria um caso raro. Com isso, só posso concluir que a maioria destes pastores não estudam a Bíblia como deveriam ou esquecem, por conta do excesso de arrogância, dos principais ensinos de Cristo. Talvez, quem sabe, acabam por seguir se prendendo a histórias ou versículos lidos fora de contexto, é difícil saber ao certo.
Cristo é o centro do Novo Testamento e também pode ser visto em muitas partes do Velho Testamento, como uma sombra de um Deus que um dia viria. Sendo que a sua sabedoria e humildade são visíveis e a passagem que mais exemplifica isso é o lava-pés (João 13:1-17). Só há um salvador, só há um que é digno de glória, no mais, somos só ferramentas na mão de Deus. Tal verdade deve estar guardada em nosso coração para não cairmos em algumas destas ciladas.
O narcisista espiritual se acha o centro e o mais capaz. Faz as coisas como se o mérito fosse todo dele e segue calcado em muito orgulho e um espírito de superioridade. Estas pessoas esquecem da graça e do quanto não somos merecedores, seguindo uma vida altiva e irrelevante.
Nós somos apenas ferramentas nas mãos de Deus, fomos chamados a servir e ajudar a sua obra frutificar. Por isso que tudo o que fazemos deve estar calcado na vontade de agradar a Deus, sendo que o mérito deve ser sempre dele, nunca nosso.
O sentimento de orgulho e superioridade não combinam com o evangelho, na verdade, ele demostra que tal pessoa não compreendeu a palavra de Deus!
BIBLIOGRAFIA
STEUERNAGEL, Valdir.; BARBOSA, Ricardo. Nova liderança: Paradigmas de liderança em tempo de crise. Curitiba: Editora Esperança, 2017.
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UM BREVE PANORAMA DA FILOSOFIA DA RELIGIÃO
A filosofia é um terreno muito amplo, cada autor, tema e conceito filosófico, termina por ser um verdadeiro universo, que para nos aprofundar precisamos de muito tempo e dedicação. Sendo praticamente impossível esgotarmos um assunto.
É por conta disso que a filosofia oferece áreas, para que um filósofo ou pesquisador, possa mergulhar e investigar um tema. É claro que é fundamental termos uma visão geral do assunto, é preciso conhecer a filosofia de uma maneira ampla, antes de mergulharmos em um autor ou tema, isto serve também para qualquer outra área de estudo. Contudo, ter uma área de especialização é importante para que um acadêmico ou estudioso conheça a fundo algo. Caso contrário ele ficará apenas na superfície, boiando nos inúmeros assuntos, conhecendo apenas de forma superficial as coisas.
Eu sou teólogo e filósofo, possuo formação nas duas áreas e na filosofia, a minha área de estudos é a filosofia da religião. Sendo que o intuito da filosofia da religião em um primeiro momento é trabalhar os conceitos de religião e estudar a dimensão espiritual do ser humano. Contudo, não é nada fácil definir o que é religião ou religioso, por conta das inúmeras crenças, deuses e ritos, e muito menos definir se ela é verdadeira ou algo puramente cultural ou folclórico. Urbano Zilles complementa, trazendo uma visão crítica do religioso:
“Quem poderá fixar os limites entre o verdadeiramente religioso e o puramente cultural, folclórico ou social?” (2017, p. 6).
As vezes os limites são tão estreitos que não percebemos os marcos que dividem a religião do folclore ou da cultura. Mas é possível ver como ela é presente em todos os momentos da nossa vida e na sociedade.
A filosofia da religião também trabalha com dois tipos de grupos de autores. O primeiro grupo são aqueles que procuram desmistificar a religião, estes filósofos acreditam que a religião é algo inventado com o intuito de manipular ou para obter alguma realização pessoal a alguém, entre tantos conceitos e justificações. O segundo grupo são dos filósofos que defendem a religião, mostrando como ela é um fenômeno importante e fundamental para todo o ser humano, sendo a religião uma manifestação autêntica e própria de todo o ser humano.
É por isso que quando falamos de filosofia da religião, não discorremos de uma área que apenas discorda ou tenta descontruir a religião. Esta opinião é equivocada, visto que são muitos os filósofos que se concentraram em defender e mostrar a importância da religião. Entre eles temos Agostinho, Tomás de Aquino, Kierkegaard e inúmeros pensadores que foram gigantes e mostraram como o cristianismo e a filosofia sempre caminharam juntos.
Independente das conclusões concordantes ou discordantes, a religião é algo que caminhou com o ser humano, desde que o mundo é mundo. Não é possível estudar a sociedade ou o ser humano, sem esbarrar com a religião. Sendo que entender é também perceber que há uma espécie de sede que todo o ser humano tem.
A inteligência ou a falta dela, nunca definiram um religioso, um olhar honesto vai constatar que todos os tipos de pessoas, desde cientistas até iletrados, foram religiosos e cultuaram, como é próprio de todo o ser humano.
Existe uma sede e uma busca por explicações, por esperanças e propósito, que empurra o ser humano a ir atrás de coisas que estão além dele. É uma sede de Deus e por explicações, sendo que a religião oferece um pouco destas explicações.
Eu sou cristão, mas ao estudar a filosofia da religião, busco pesquisar de forma laica, sem misturar o que eu acredito com o que estou estudando. Gosto de conhecer religiões e buscar entender o motivo pelo qual alguém adere uma determinada religião. Mas durante os meus estudos algo fica claro que é eterna a busca pelo numinoso, por explicações ou pelo senso de pertencimento que a maioria dos seres humanos empreendem ou mesmo por algo que aplaque a sua sede.
A diferença apenas é que alguns seguem partidos políticos, outros ouvem gurus e alguns seguem uma religião ou mesmo Deus, mas a sede e a necessidade de fazer parte existe, isso é muito visível.
BIBLIOGRAFIA
MONDIN, B. Introdução à filosofia: Problemas, sistemas, autores, obras. 1. ed. São Paulo: Paulus, 2019.
ZILLES, Urbano. Filosofia da religião. 1. ed. São Paulo: Paulus, 2017.
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A SOLIDÃO DA DECISÃO
Família e amigos são tesouros, além de serem suportes, são as pessoas que em todos os momentos nos apoiam, mas nem sempre. Experimente empreender algo que vá de encontro a lógica ou ideologia familiar, que você vai constatar como algumas decisões, além de solitárias são doloridas.
Um bom exemplo disso é quando os pais sonham que o filho tenha uma determinada profissão, por conta disso, tomar um caminho oposto se torna uma afronta. E tem aqueles pais que acabam idealizando uma profissão ao filho, as vezes até sonham que eles sigam a sua ou mesmo projetam um sonho pessoal frustrado, que eles mesmo não conseguiram alcançar, para desta forma se realizar no sucesso dos filhos. Sendo estes exemplos, situações bem complicadas.
A decisão em muitos momentos é solitária, principalmente quando você decide empreender algo que ninguém entende muito. Na igreja, já acompanhei muitos que largaram suas carreiras profissionais em nome de trabalhar no reino, e não foi uma decisão fácil para a maioria deles. Um desafio novo já tem as suas dificuldades e incertezas, sendo que um adicional familiar pressionando apenas aumenta a dificuldade.
É claro que se o seu projeto dá certo, você termina por ficar bem na família, mas caso dê errado ou mesmo demore para produzir frutos, você terá um problema dobrado. Como a família caminhará com você por um bom tempo, certamente você terá alguns problemas e “verdades” que serão ditas durante o empreendimento do seu projeto. O que deveria ser apoio, termina por ser uma bagagem, um peso extra em momentos que já temos dificuldades suficientes.
Eu passei uma boa parte da minha vida sozinho, por isso, não senti o peso familiar na hora de tomar certas decisões. E eu não ligava muito para os amigos que as vezes pressionavam, sempre optei por tentar fazer algo, do que não fazer e me arrepender por não ter feito. Por isso, realizei as coisas que eu sonhei fazer sem muitos obstáculos familiares.
Quando eu me casei, já um pouco mais velho, mudei de carreira e passei um pouco de dificuldade durante a transição, mas tive o apoio da minha esposa. Contudo eu sei como algumas decisões podem acabar sendo solitárias e doloridas.
Eu queria falar a você que esta situação é fácil, queria poder dizer que nestes casos é só ignorar a opinião familiar e seguir, mas sei bem que não é bem assim, ainda mais quando amamos os nossos pais e parentes.
A questão é que não existe saída, ou você segue o que acredita que deve fazer, planeja e empreende a sua jornada, tendo desta forma que lidar com a discordância dos seus pais. Ou mesmo segue o sonho que eles e não você, sonharam para a sua vida. O problema é que em uma altura da sua carreira, você pode se encontrar frustrado, arrependido de não ter feito o que acreditava que seria melhor.
Um plano frustrado não é nada perto do arrependimento de não ter seguido uma vocação, o seu chamado, como dizemos na igreja ou mesmo a área que você gosta de trabalhar. Por isso que assumir a solidão da sua decisão e seguir, é muito melhor que depois colher os frutos do arrependimento.
Se você tiver a gana de agradar os outros, terá um problema muito grande, mas se você decidir aprender a lidar com a solidão das suas decisões, a colher os resultados, sendo eles bons ou ruins e souber prosseguir, certamente você colherá ótimos frutos.
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SER CHEIO DO ESPÍRITO SANTO
Em algumas igrejas, ser cheio do Espírito Santo é falar em línguas, rodopiar, dar cambalhotas e cair no chão, em um misto bizarro de convulsão e emocionalismo. A emoção tem tomado lugar da verdadeira adoração e quem assim não procede, é chamado por estes de frios. Vale lembrar do que a Bíblia diz sobre o Espírito Santo, no texto sagrado percebemos que Ele aponta para Cristo.
“Quando vier o Conselheiro, que eu enviarei a vocês da parte do Pai, o Espírito da verdade que provém do Pai, ele testemunhará a meu respeito” (João 15:26).
É Ele quem testifica Jesus, Ele é a testemunha de Cristo. A Bíblia também diz que é Ele quem nos convence do pecado, justiça e do juízo. (João 16:7-11), mas em todas estas situações o que Ele faz direta ou indiretamente é apontar para Cristo.
Eu lamento muito quem confunde o milagre da pregação, descrita em Atos 2, com algumas coisas que vemos nas igrejas pentecostais em nossos dias. Buscar o milagre, revelações, riquezas e maravilhas, não é a ênfase da palavra. Ser cheio do Espírito Santo não é babar e rodopiar e sim, buscar a cada dia aprender mais sobre Jesus e sua palavra.
Ser um cristão cheio do Espírito é não ser alguém com uma vida voltada para si e seus desejos e sim, para Cristo. É imitá-lo, procurando ser sempre cada dia mais parecido com Ele. Dan Phillips acrescenta:
“Devemos aprender o que a Bíblia diz sobre o Espírito Santo. Devemos ensinar o que a Bíblia diz sobre o Espírito Santo. Devemos procurar viver uma vida plena do ministério biblicamente definido do Espírito Santo. Mas nunca devemos perder de vista o seguinte: na medida em que estivermos cheios do Espírito Santo, estaremos direcionados, focados na pessoa do senhor Jesus Cristo” (apud MACARTHUR, 2015, p. 64).
Mudança de vida, este é um dos sinais de uma vida cheia do Espírito Santo, a vida cristã não é feita de emoções, de barulho, de arrepios. Mas de vida transformada, que busca e serve ao nosso salvador, sendo uma testemunha viva as pessoas.
Quando o culto é voltado para emoções, para o homem, aí sim você vê seus desejos, sentimentos e aspirações tomar o lugar de Cristo. Ser cristão é seguir a Cristo, e segui-lo não tem nada a ver com emoções, mas com busca, em saber quem realmente somos e do quando precisamos D’Ele.
Olhe para a sua vida, reflita sobre sua forma de cultuar e tente enxergar o quanto você ora, mas também o quanto você lê a Bíblia. Tente ver em que intensidade você busca imitar a Jesus, e se Ele é o centro de sua vida, ou talvez não. Se nesta reflexão você perceber só emoções, arrepios ou desejos próprios. Tendo a sua vontade como centro e Cristo em segundo plano, reveja a sua vida. Pois pode ser que o culto na qual você tem prestado seja a você e seus propósitos e não a Cristo.
BIBLIOGRAFIA
MACARTHUR, John. Fogo estranho: Um olhar questionador sobre a operação do Espírito Santo no mundo de hoje. 1. ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2015.
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O PROBLEMA DE QUEM VÊ
Viver é como caminhar a noite em uma trilha no meio de uma mata. É possível caminhar na trilha e até apreciar a paisagem em volta, mas não é possível ver mais a diante. Você consegue enxergar apenas o que está ao alcance dos seus olhos.
Seguimos pela trilha da vida, apreciamos a paisagem e decidimos de acordo com o que vemos e conhecemos. Em um conhecimento totalmente limitado, já que nem sempre é possível conhecer uma coisa a fundo e muito menos é possível prever o futuro e as mudanças que constantemente acontecem em nossa volta. Por isso é possível decidirmos ou mesmo entrarmos em uma causa, seja política ou não, sem estar vendo o todo, e o pior, acreditando estar vendo tudo.
O problema de quem vê é acreditar que está vendo, é crer que sabe bem onde o caminho leva, se esquecendo que a certeza e a imprudência caminham lado a lado. E isso se dá por conta das nossas limitações aliadas as nossas profundas e corrompidas certezas.
Eu fui anarquista em minha adolescência, acreditava que o mundo precisava ser mais livre, sem governo, repressão e leis limitantes. Hoje, um pouco mais velho, me recordo do que aconteceu em Vitória, quando a polícia entrou em greve. A “liberdade” provocou um tremendo caos.
O mundo é sempre muito mais complexo do que acreditamos. Se formos honestos, perceberemos que os problemas na maioria das vezes são bem mais intrínsecos, mas por conta da nossa certeza, teimamos em querer concertar tudo com as nossas receitas prontas.
Existe uma beleza em Deus, principalmente quando falamos que Ele sabe de tudo e que Ele é eterno. E a beleza é saber que eternidade é estar fora do tempo, vendo o caminho todo. Ele não vê só o que está em sua frente, Ele enxerga tudo e conhece tudo.
Não é legal não saber, mas acreditar que sabemos, é muito mais perigoso e tudo bem confessar que você não consegue ver a trilha toda da caminhada. Não saber e não ver, é ser um alguém normal, que entende que os problemas da vida não são resolvidos com receitas mágicas.
Seguir a Deus é entregar a sua vida a um Deus que tudo vê. É saber que a nossa frente vai alguém que enxerga tudo. E está tudo certo buscar saber das coisas, só não se iluda com a sensação de saber. É ela que nos engana e nos faz crermos que estamos a ver.
Siga firme pelas trilhas da vida, mas aceite o seu limitado conhecimento. Faça planos e busque resolver as coisas que estão em seu alcance, tendo em mente o fato de que você pode estar errado, e justamente naquele ponto no qual você tem a plena certeza.
Se o problema de quem vê é a certeza, a saída é confiar em quem tudo sabe e tudo vê. É em Deus que precisamos colocar a nossa esperança e não em nossas certezas!
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MÚSICA E SILÊNCIO
Eu gosto do silêncio tanto quanto gosto de música, creio que os dois momentos são igualmente enriquecedores para quem experimenta, mesmo que a princípio as duas situações soem contraditórias, contudo, veremos como não são.
O silêncio é um momento de contemplação, é quando você larga o controle e permite que o ambiente assuma o comando. E por conta disso, se você estiver em um lugar solitário ou mesmo em meio a natureza, você passa a ouvir mais do que normalmente ouve. Os muitos ruídos dificultam o processo de escuta e atenção, inclusive os ruídos internos.
Por outro lado, para ouvirmos uma música é também necessário silêncio, entrega e atenção, caso contrário, todos os barulhos impedirão você de desfrutar a doce melodia das notas musicais de uma canção. Não é possível apreciar uma canção, entender todos os detalhes e nuances da música, sem o silêncio e a atenção.
O silêncio é tudo, a música é uma sincronia de som e silêncio. Sem as pausas, uma canção viraria um incessante e desconexo ruído. C. S. Lewis fala que as duas únicas coisas que não podemos encontrar no inferno é justamente a música e o silêncio (PIEPER, 2021, p. 55). Música e silêncio, dois elementos fundamentais para a sanidade mental neste mundo de excessos.
Para quem vive em meio a uma rotina de barulho e ruídos, o meu conselho é óbvio: “Aprenda a cultivar um momento de silêncio em sua vida, coloque-se em solitude e aprenda a calar todos os sons, sejam externos ou internos”.
Costumo em alguns períodos, me colocar em silêncio diante de Deus, largando realmente o controle, deixando que ele fale comigo através da sua palavra ou mesmo sentido o seu abraço em meio ao silêncio. Se não nos calarmos, nos afogaremos no mar de palavras. Falar é bom, mas ouvir é uma prática fundamental para a nossa vida e é através da disciplina do silêncio, que cultivamos o hábito de ouvir.
A música é também uma outra forma de relaxar, aprender a ouvir todos os detalhes e a meditar no que você está ouvindo. Parar e silenciar seu coração é necessário para não ser engolido por este mundo que fala muito, mas não diz nada.
Quando eu era um pouco mais novo, para ouvir música era preciso ligar o rádio e procurar uma boa estação, ou mesmo colocar na vitrola aquele disco, CD ou fita cassete. Era quase que um ritual, onde parar e ouvir, era um evento. Cansei de me reunir com os amigos para ouvir o CD novo de uma banda, hoje este momento é pouco valorizado. Por isso, insisto no conselho, aprenda a parar, ouvir e ser levado pela melodia, muitas vezes não valorizamos, justamente porque temos tudo a mão e por isso, deixamos escapar momentos que são totalmente benéficos para nós.
Hoje nós temos tudo, mas perdemos os critérios por conta dos excessos e da vida corrida e conectada. Viver é muito mais do que estar online o dia inteiro, rolando o feed e consumindo conteúdos que não agregam.
A entrega é a característica de quem ouve, seja uma música ou um amigo, e separar um tempo para escutar, sem todos os estímulos e notificações é um bom caminho para aqueles que pretendem manter um pouco de sanidade em meio a este mar de exageros.
BIBLIOGRAFIA
PIEPER, Josef. Só quem ama canta: A arte e contemplação. 1. ed. São Paulo: Quadrante Editora, 2021.
