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  • NARCISISMO ESPIRITUAL

    “Na prática, narcisismo espiritual significa assumir a responsabilidade pessoal de ser seu próprio Salvador, de ser a força que move e molda a própria espiritualidade” (STEUERNAGEL; BARBOSA, 2017, p. 138).

    Logo que eu cheguei em uma igreja pude perceber uma pessoa que parecia destoar das outras. Falava de forma altiva, imponente e até inerrante sobre vários assuntos, era o pastor da igreja. Um homem que parecia ser totalmente inacessível, com uma atitude que sempre considerei perigosa para um pastor.

    O evangelho nos mostra que não há justo algum e que a graça deve ser sempre o ponto de partida. Não somos salvos por mérito e sim, por conta da soberana e amorosa misericórdia de Deus. E este pensamento deveria gerar cristão e pastores humildes, mas quando isso não acontece, certamente percebemos que o ponto de partida destes líderes são outros, não é a Bíblia.

    É comum vermos pastores agindo como super-homens, como pessoas especiais, como se tivessem de uma maneira ou outra poderes especiais, fruto de mérito próprio. Cresci em um ambiente onde estas pessoas eram comuns, víamos todos os dias e aos montes exalando um ar de superioridade.

    Olhar para a Bíblia e para o exemplo de Cristo, ler sobre seus ensinos e ainda ter todo este orgulho e arrogância é quase impossível, seria um caso raro. Com isso, só posso concluir que a maioria destes pastores não estudam a Bíblia como deveriam ou esquecem, por conta do excesso de arrogância, dos principais ensinos de Cristo. Talvez, quem sabe, acabam por seguir se prendendo a histórias ou versículos lidos fora de contexto, é difícil saber ao certo.

    Cristo é o centro do Novo Testamento e também pode ser visto em muitas partes do Velho Testamento, como uma sombra de um Deus que um dia viria. Sendo que a sua sabedoria e humildade são visíveis e a passagem que mais exemplifica isso é o lava-pés (João 13:1-17). Só há um salvador, só há um que é digno de glória, no mais, somos só ferramentas na mão de Deus. Tal verdade deve estar guardada em nosso coração para não cairmos em algumas destas ciladas.

    O narcisista espiritual se acha o centro e o mais capaz. Faz as coisas como se o mérito fosse todo dele e segue calcado em muito orgulho e um espírito de superioridade. Estas pessoas esquecem da graça e do quanto não somos merecedores, seguindo uma vida altiva e irrelevante.

    Nós somos apenas ferramentas nas mãos de Deus, fomos chamados a servir e ajudar a sua obra frutificar. Por isso que tudo o que fazemos deve estar calcado na vontade de agradar a Deus, sendo que o mérito deve ser sempre dele, nunca nosso.

    O sentimento de orgulho e superioridade não combinam com o evangelho, na verdade, ele demostra que tal pessoa não compreendeu a palavra de Deus!

    BIBLIOGRAFIA

    STEUERNAGEL, Valdir.; BARBOSA, Ricardo. Nova liderança: Paradigmas de liderança em tempo de crise. Curitiba: Editora Esperança, 2017.

  • UM BREVE PANORAMA DA FILOSOFIA DA RELIGIÃO

    A filosofia é um terreno muito amplo, cada autor, tema e conceito filosófico, termina por ser um verdadeiro universo, que para nos aprofundar precisamos de muito tempo e dedicação. Sendo praticamente impossível esgotarmos um assunto.

    É por conta disso que a filosofia oferece áreas, para que um filósofo ou pesquisador, possa mergulhar e investigar um tema. É claro que é fundamental termos uma visão geral do assunto, é preciso conhecer a filosofia de uma maneira ampla, antes de mergulharmos em um autor ou tema, isto serve também para qualquer outra área de estudo. Contudo, ter uma área de especialização é importante para que um acadêmico ou estudioso conheça a fundo algo. Caso contrário ele ficará apenas na superfície, boiando nos inúmeros assuntos, conhecendo apenas de forma superficial as coisas.

    Eu sou teólogo e filósofo, possuo formação nas duas áreas e na filosofia, a minha área de estudos é a filosofia da religião. Sendo que o intuito da filosofia da religião em um primeiro momento é trabalhar os conceitos de religião e estudar a dimensão espiritual do ser humano. Contudo, não é nada fácil definir o que é religião ou religioso, por conta das inúmeras crenças, deuses e ritos, e muito menos definir se ela é verdadeira ou algo puramente cultural ou folclórico. Urbano Zilles complementa, trazendo uma visão crítica do religioso:

    “Quem poderá fixar os limites entre o verdadeiramente religioso e o puramente cultural, folclórico ou social?” (2017, p. 6).

    As vezes os limites são tão estreitos que não percebemos os marcos que dividem a religião do folclore ou da cultura. Mas é possível ver como ela é presente em todos os momentos da nossa vida e na sociedade.

    A filosofia da religião também trabalha com dois tipos de grupos de autores. O primeiro grupo são aqueles que procuram desmistificar a religião, estes filósofos acreditam que a religião é algo inventado com o intuito de manipular ou para obter alguma realização pessoal a alguém, entre tantos conceitos e justificações. O segundo grupo são dos filósofos que defendem a religião, mostrando como ela é um fenômeno importante e fundamental para todo o ser humano, sendo a religião uma manifestação autêntica e própria de todo o ser humano.

    É por isso que quando falamos de filosofia da religião, não discorremos de uma área que apenas discorda ou tenta descontruir a religião. Esta opinião é equivocada, visto que são muitos os filósofos que se concentraram em defender e mostrar a importância da religião. Entre eles temos Agostinho, Tomás de Aquino, Kierkegaard e inúmeros pensadores que foram gigantes e mostraram como o cristianismo e a filosofia sempre caminharam juntos. 

    Independente das conclusões concordantes ou discordantes, a religião é algo que caminhou com o ser humano, desde que o mundo é mundo. Não é possível estudar a sociedade ou o ser humano, sem esbarrar com a religião. Sendo que entender é também perceber que há uma espécie de sede que todo o ser humano tem.

    A inteligência ou a falta dela, nunca definiram um religioso, um olhar honesto vai constatar que todos os tipos de pessoas, desde cientistas até iletrados, foram religiosos e cultuaram, como é próprio de todo o ser humano.

    Existe uma sede e uma busca por explicações, por esperanças e propósito, que empurra o ser humano a ir atrás de coisas que estão além dele. É uma sede de Deus e por explicações, sendo que a religião oferece um pouco destas explicações.

    Eu sou cristão, mas ao estudar a filosofia da religião, busco pesquisar de forma laica, sem misturar o que eu acredito com o que estou estudando. Gosto de conhecer religiões e buscar entender o motivo pelo qual alguém adere uma determinada religião. Mas durante os meus estudos algo fica claro que é eterna a busca pelo numinoso, por explicações ou pelo senso de pertencimento que a maioria dos seres humanos empreendem ou mesmo por algo que aplaque a sua sede.

    A diferença apenas é que alguns seguem partidos políticos, outros ouvem gurus e alguns seguem uma religião ou mesmo Deus, mas a sede e a necessidade de fazer parte existe, isso é muito visível.

    BIBLIOGRAFIA

    MONDIN, B. Introdução à filosofia: Problemas, sistemas, autores, obras. 1. ed. São Paulo: Paulus, 2019.

    ZILLES, Urbano. Filosofia da religião. 1. ed. São Paulo: Paulus, 2017.

  • A SOLIDÃO DA DECISÃO

    Família e amigos são tesouros, além de serem suportes, são as pessoas que em todos os momentos nos apoiam, mas nem sempre. Experimente empreender algo que vá de encontro a lógica ou ideologia familiar, que você vai constatar como algumas decisões, além de solitárias são doloridas.

    Um bom exemplo disso é quando os pais sonham que o filho tenha uma determinada profissão, por conta disso, tomar um caminho oposto se torna uma afronta. E tem aqueles pais que acabam idealizando uma profissão ao filho, as vezes até sonham que eles sigam a sua ou mesmo projetam um sonho pessoal frustrado, que eles mesmo não conseguiram alcançar, para desta forma se realizar no sucesso dos filhos. Sendo estes exemplos, situações bem complicadas.

    A decisão em muitos momentos é solitária, principalmente quando você decide empreender algo que ninguém entende muito. Na igreja, já acompanhei muitos que largaram suas carreiras profissionais em nome de trabalhar no reino, e não foi uma decisão fácil para a maioria deles. Um desafio novo já tem as suas dificuldades e incertezas, sendo que um adicional familiar pressionando apenas aumenta a dificuldade.

    É claro que se o seu projeto dá certo, você termina por ficar bem na família, mas caso dê errado ou mesmo demore para produzir frutos, você terá um problema dobrado. Como a família caminhará com você por um bom tempo, certamente você terá alguns problemas e “verdades” que serão ditas durante o empreendimento do seu projeto. O que deveria ser apoio, termina por ser uma bagagem, um peso extra em momentos que já temos dificuldades suficientes.

    Eu passei uma boa parte da minha vida sozinho, por isso, não senti o peso familiar na hora de tomar certas decisões. E eu não ligava muito para os amigos que as vezes pressionavam, sempre optei por tentar fazer algo, do que não fazer e me arrepender por não ter feito. Por isso, realizei as coisas que eu sonhei fazer sem muitos obstáculos familiares.

    Quando eu me casei, já um pouco mais velho, mudei de carreira e passei um pouco de dificuldade durante a transição, mas tive o apoio da minha esposa. Contudo eu sei como algumas decisões podem acabar sendo solitárias e doloridas.

    Eu queria falar a você que esta situação é fácil, queria poder dizer que nestes casos é só ignorar a opinião familiar e seguir, mas sei bem que não é bem assim, ainda mais quando amamos os nossos pais e parentes.

    A questão é que não existe saída, ou você segue o que acredita que deve fazer, planeja e empreende a sua jornada, tendo desta forma que lidar com a discordância dos seus pais. Ou mesmo segue o sonho que eles e não você, sonharam para a sua vida. O problema é que em uma altura da sua carreira, você pode se encontrar frustrado, arrependido de não ter feito o que acreditava que seria melhor.

    Um plano frustrado não é nada perto do arrependimento de não ter seguido uma vocação, o seu chamado, como dizemos na igreja ou mesmo a área que você gosta de trabalhar. Por isso que assumir a solidão da sua decisão e seguir, é muito melhor que depois colher os frutos do arrependimento.

    Se você tiver a gana de agradar os outros, terá um problema muito grande, mas se você decidir aprender a lidar com a solidão das suas decisões, a colher os resultados, sendo eles bons ou ruins e souber prosseguir, certamente você colherá ótimos frutos.

  • SER CHEIO DO ESPÍRITO SANTO

    Em algumas igrejas, ser cheio do Espírito Santo é falar em línguas, rodopiar, dar cambalhotas e cair no chão, em um misto bizarro de convulsão e emocionalismo. A emoção tem tomado lugar da verdadeira adoração e quem assim não procede, é chamado por estes de frios. Vale lembrar do que a Bíblia diz sobre o Espírito Santo, no texto sagrado percebemos que Ele aponta para Cristo.

    “Quando vier o Conselheiro, que eu enviarei a vocês da parte do Pai, o Espírito da verdade que provém do Pai, ele testemunhará a meu respeito” (João 15:26).

    É Ele quem testifica Jesus, Ele é a testemunha de Cristo. A Bíblia também diz que é Ele quem nos convence do pecado, justiça e do juízo. (João 16:7-11), mas em todas estas situações o que Ele faz direta ou indiretamente é apontar para Cristo.

    Eu lamento muito quem confunde o milagre da pregação, descrita em Atos 2, com algumas coisas que vemos nas igrejas pentecostais em nossos dias. Buscar o milagre, revelações, riquezas e maravilhas, não é a ênfase da palavra. Ser cheio do Espírito Santo não é babar e rodopiar e sim, buscar a cada dia aprender mais sobre Jesus e sua palavra.

    Ser um cristão cheio do Espírito é não ser alguém com uma vida voltada para si e seus desejos e sim, para Cristo. É imitá-lo, procurando ser sempre cada dia mais parecido com Ele. Dan Phillips acrescenta:

    Devemos aprender o que a Bíblia diz sobre o Espírito Santo. Devemos ensinar o que a Bíblia diz sobre o Espírito Santo. Devemos procurar viver uma vida plena do ministério biblicamente definido do Espírito Santo. Mas nunca devemos perder de vista o seguinte: na medida em que estivermos cheios do Espírito Santo, estaremos direcionados, focados na pessoa do senhor Jesus Cristo” (apud MACARTHUR, 2015, p. 64).

    Mudança de vida, este é um dos sinais de uma vida cheia do Espírito Santo, a vida cristã não é feita de emoções, de barulho, de arrepios. Mas de vida transformada, que busca e serve ao nosso salvador, sendo uma testemunha viva as pessoas.

    Quando o culto é voltado para emoções, para o homem, aí sim você vê seus desejos, sentimentos e aspirações tomar o lugar de Cristo. Ser cristão é seguir a Cristo, e segui-lo não tem nada a ver com emoções, mas com busca, em saber quem realmente somos e do quando precisamos D’Ele.

     Olhe para a sua vida, reflita sobre sua forma de cultuar e tente enxergar o quanto você ora, mas também o quanto você lê a Bíblia. Tente ver em que intensidade você busca imitar a Jesus, e se Ele é o centro de sua vida, ou talvez não. Se nesta reflexão você perceber só emoções, arrepios ou desejos próprios. Tendo a sua vontade como centro e Cristo em segundo plano, reveja a sua vida. Pois pode ser que o culto na qual você tem prestado seja a você e seus propósitos e não a Cristo.

    BIBLIOGRAFIA

    MACARTHUR, John. Fogo estranho: Um olhar questionador sobre a operação do Espírito Santo no mundo de hoje. 1. ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2015.

  • O PROBLEMA DE QUEM VÊ

    Viver é como caminhar a noite em uma trilha no meio de uma mata. É possível caminhar na trilha e até apreciar a paisagem em volta, mas não é possível ver mais a diante. Você consegue enxergar apenas o que está ao alcance dos seus olhos.

    Seguimos pela trilha da vida, apreciamos a paisagem e decidimos de acordo com o que vemos e conhecemos. Em um conhecimento totalmente limitado, já que nem sempre é possível conhecer uma coisa a fundo e muito menos é possível prever o futuro e as mudanças que constantemente acontecem em nossa volta. Por isso é possível decidirmos ou mesmo entrarmos em uma causa, seja política ou não, sem estar vendo o todo, e o pior, acreditando estar vendo tudo.

    O problema de quem vê é acreditar que está vendo, é crer que sabe bem onde o caminho leva, se esquecendo que a certeza e a imprudência caminham lado a lado. E isso se dá por conta das nossas limitações aliadas as nossas profundas e corrompidas certezas.

    Eu fui anarquista em minha adolescência, acreditava que o mundo precisava ser mais livre, sem governo, repressão e leis limitantes. Hoje, um pouco mais velho, me recordo do que aconteceu em Vitória, quando a polícia entrou em greve. A “liberdade” provocou um tremendo caos.

    O mundo é sempre muito mais complexo do que acreditamos. Se formos honestos, perceberemos que os problemas na maioria das vezes são bem mais intrínsecos, mas por conta da nossa certeza, teimamos em querer concertar tudo com as nossas receitas prontas.

    Existe uma beleza em Deus, principalmente quando falamos que Ele sabe de tudo e que Ele é eterno. E a beleza é saber que eternidade é estar fora do tempo, vendo o caminho todo. Ele não vê só o que está em sua frente, Ele enxerga tudo e conhece tudo.

    Não é legal não saber, mas acreditar que sabemos, é muito mais perigoso e tudo bem confessar que você não consegue ver a trilha toda da caminhada. Não saber e não ver, é ser um alguém normal, que entende que os problemas da vida não são resolvidos com receitas mágicas.

    Seguir a Deus é entregar a sua vida a um Deus que tudo vê. É saber que a nossa frente vai alguém que enxerga tudo. E está tudo certo buscar saber das coisas, só não se iluda com a sensação de saber. É ela que nos engana e nos faz crermos que estamos a ver.

    Siga firme pelas trilhas da vida, mas aceite o seu limitado conhecimento. Faça planos e busque resolver as coisas que estão em seu alcance, tendo em mente o fato de que você pode estar errado, e justamente naquele ponto no qual você tem a plena certeza.

    Se o problema de quem vê é a certeza, a saída é confiar em quem tudo sabe e tudo vê. É em Deus que precisamos colocar a nossa esperança e não em nossas certezas!

  • MÚSICA E SILÊNCIO

    Eu gosto do silêncio tanto quanto gosto de música, creio que os dois momentos são igualmente enriquecedores para quem experimenta, mesmo que a princípio as duas situações soem contraditórias, contudo, veremos como não são.

    O silêncio é um momento de contemplação, é quando você larga o controle e permite que o ambiente assuma o comando. E por conta disso, se você estiver em um lugar solitário ou mesmo em meio a natureza, você passa a ouvir mais do que normalmente ouve. Os muitos ruídos dificultam o processo de escuta e atenção, inclusive os ruídos internos.

    Por outro lado, para ouvirmos uma música é também necessário silêncio, entrega e atenção, caso contrário, todos os barulhos impedirão você de desfrutar a doce melodia das notas musicais de uma canção. Não é possível apreciar uma canção, entender todos os detalhes e nuances da música, sem o silêncio e a atenção.

    O silêncio é tudo, a música é uma sincronia de som e silêncio. Sem as pausas, uma canção viraria um incessante e desconexo ruído. C. S. Lewis fala que as duas únicas coisas que não podemos encontrar no inferno é justamente a música e o silêncio (PIEPER, 2021, p. 55). Música e silêncio, dois elementos fundamentais para a sanidade mental neste mundo de excessos.

    Para quem vive em meio a uma rotina de barulho e ruídos, o meu conselho é óbvio: “Aprenda a cultivar um momento de silêncio em sua vida, coloque-se em solitude e aprenda a calar todos os sons, sejam externos ou internos”.

    Costumo em alguns períodos, me colocar em silêncio diante de Deus, largando realmente o controle, deixando que ele fale comigo através da sua palavra ou mesmo sentido o seu abraço em meio ao silêncio. Se não nos calarmos, nos afogaremos no mar de palavras. Falar é bom, mas ouvir é uma prática fundamental para a nossa vida e é através da disciplina do silêncio, que cultivamos o hábito de ouvir.

    A música é também uma outra forma de relaxar, aprender a ouvir todos os detalhes e a meditar no que você está ouvindo. Parar e silenciar seu coração é necessário para não ser engolido por este mundo que fala muito, mas não diz nada.

    Quando eu era um pouco mais novo, para ouvir música era preciso ligar o rádio e procurar uma boa estação, ou mesmo colocar na vitrola aquele disco, CD ou fita cassete. Era quase que um ritual, onde parar e ouvir, era um evento. Cansei de me reunir com os amigos para ouvir o CD novo de uma banda, hoje este momento é pouco valorizado. Por isso, insisto no conselho, aprenda a parar, ouvir e ser levado pela melodia, muitas vezes não valorizamos, justamente porque temos tudo a mão e por isso, deixamos escapar momentos que são totalmente benéficos para nós.

    Hoje nós temos tudo, mas perdemos os critérios por conta dos excessos e da vida corrida e conectada. Viver é muito mais do que estar online o dia inteiro, rolando o feed e consumindo conteúdos que não agregam.

    A entrega é a característica de quem ouve, seja uma música ou um amigo, e separar um tempo para escutar, sem todos os estímulos e notificações é um bom caminho para aqueles que pretendem manter um pouco de sanidade em meio a este mar de exageros.

    BIBLIOGRAFIA

    PIEPER, Josef. Só quem ama canta: A arte e contemplação. 1. ed. São Paulo: Quadrante Editora, 2021.

  • DILEMAS DA CRUZ

    “É um dilema inexplicável – como duas pessoas podem ouvir as mesmas palavras e ver o mesmo Salvador, e uma ver esperança e a outra nada ver além de si mesma” (LUCADO, 2007, p. 93).

    Se formos enumerar os motivos nos quais alguém vai a igreja, perceberemos como eles são muitos. Algumas pessoas vão a igreja para se sentirem bem, outros por conta da música, tem gente que vai por causa de amigos ou eventos. E com isso alguns passam a frequentar e se convertem e muitos não, apesar de gostarem do ambiente. Esta dinâmica sobre o porquê algumas pessoas aceitam a Jesus e outras não, me deixa pensativo.

    O evangelho é misterioso, não é só Deus que é inexplicável, com certeza todo o processo de conversão também é. E a parte mais complicada é entender o motivo no qual Deus morreria por seres humanos caídos, nunca entenderemos o seu amor e muito menos descobriremos por que uma divindade lavaria os pés de discípulos, além de ter mandado que nós fizéssemos o mesmo. O evangelho é loucura, a salvação é inexplicável, não tenha dúvidas. O evangelho usa uma lógica bem oposta a lógica humana.

    O episódio que Max Lucado se refere na epígrafe do texto é o da crucificação. Cristo estava pregado e ao seu lado também estavam dois criminosos. O dilema, que considero difícil de explicar, é que um dos criminosos estava vendo um salvador e o outro, via apenas um homem, e zombava dele, como todos em volta zombavam. Um seguia a multidão, mas o outro visualizava um salvador e percebia o quão injusto era aquela crucificação.

    Em nosso cotidiano é possível vermos atitudes semelhantes, pessoas que ouvem o evangelho e se convertem, vivendo depois uma vida dedicada a Deus. E outras que ouvem e até acham legal a mensagem, mas não se convertem, a mensagem não toca em seus corações.

    Desde os pais da igreja, como Agostinho, até alguns reformadores, como Calvino, este mistério segue sem explicação. Alguns até tentam explicar, mas a verdade é que não podemos concluir de forma realmente acertada tal assunto.

    Algumas sementes frutificam, outras não, e são sufocadas pelos espinhos deste mundo (Mateus 13:22-23). Principalmente quando acreditamos estarmos certos, quando cremos que sabemos qual é o melhor caminho para seguir.

    O orgulho é uma doença perigosa, acreditar que estamos certos e todos os outros errados, nos impede de realmente ouvirmos e entendermos de verdade as coisas espirituais e principalmente, impede que o Espírito Santo trabalhe em nosso coração.

    A Bíblia diz que é o Espírito Santo que convence do pecado, da justiça e do juízo (João 16:8). É ele que nos mostra quem somos e do quanto precisamos da graça. Contudo, a Bíblia também nos dá um alerta e nos manda não resistirmos ao Espírito Santo (Atos 7:51). Com isso, quando optamos em resistir, seguindo assim nosso orgulho, certamente pereceremos. 

    A cruz é o sinal de um tempo, um período onde Deus veio até a terra, morreu por nós e nos trouxe salvação. Mas para que ela seja efetiva em nossa vida, precisamos permitir que o Espírito Santo atue. A salvação não é um mérito nosso, ela é única e exclusivamente oriunda da graça de Deus através da sua graça capacitadora, mas precisamos permitir que o Espírito atue e transforme a nossa vida. Caso contrário, seguiremos os nossos próprios caminhos e vontades, sem frutificar, sem termos a vida transformada, nos perdendo em nosso próprio engano.

    BIBLIOGRAFIA

    LUCADO, Max. Seis horas de uma sexta-feira. 2. ed. São Paulo: Editora Vida, 2007. 

  • APRENDENDO A APRENDER

    O aprendizado é algo constante, não é um período com começo meio e fim, e sim, um estilo de vida de quem entendeu que nunca deixamos de aprender. Quem acredita que aprender é algo instantâneo, não entendeu e muito menos vivenciou tal cenário.

    Partindo desta lógica, desenvolvi um hábito curioso, que é sempre ler e pesquisar sobre estudos, leitura e vida acadêmica. Não é porque eu já tenho a minha rotina e um método de estudo próprio que eu não leio e muito menos pesquiso mais sobre o assunto. É possível sempre aprender mais, descobrir novas técnicas e aperfeiçoar a nossa metodologia.

    Por isso, gosto de ir atrás dos clássicos que eu ainda não li e também conhecer obras de autores contemporâneos para ver o que há de novo para aprender. E sempre há, acredite em mim, ter contato com clássicos ou com quem se dedica a pesquisar o tema é minerar pedras preciosas.

    A vida acadêmica é muito mais um modo de pensar, um estilo de vida que parte do pressuposto que aprender é algo dinâmico e constante. Por isso que, engessar o seu método, se fechando para o saber, não deve ser a prática adotada pelo acadêmico. É possível seguir uma vida de estudos e pesquisa, fechada em técnicas que limitam mais do que desenvolvem e é aí que entra a constante busca por materiais relevantes.

    Aprender a aprender é um desafio, é saber se abrir cultivando a humildade que nos dará a mentalidade certa para escutar, refletir e saber reter aqueles pontos fundamentais para o nosso aprendizado. Sem humildade, terminaremos com uma mente fechada, que se basta em seus pontos de vistas, ignorando o todo.

    Emilio Mira y López, que é mais um destes autores que falam muito sobre estudo e que está presente em minha biblioteca particular, diz que existem vários tipos de estudantes em uma sala de aula. Alguns deles são os que estão apenas de corpo presente, sem realmente “estar na aula”. Outros até assistem e prestam atenção na aula, mas não conseguem construir um edifício de conhecimento, muito menos formular de forma coerente o conceito que está sendo abordado, sendo que, isso acontece por inúmeros motivos. Existem alunos que enxergam os estudos como uma árdua tarefa, acreditam que o importante é tirar boas notas e passar de ano. A dedicação destes alunos se restringe a isso, estudar para passar e depois, acabar esquecendo do conteúdo, para estes o diploma é a coisa mais importante do que o próprio saber. E a minoria dos alunos são aqueles que estudam por possuírem uma sede pelo conhecimento, apreciando assim, a verdade e a beleza que é o saber (2020, p. 16, 17).

    Este é o ponto de partida correto daqueles que buscam uma vida acadêmica. É preciso aprender a gostar e entender a profunda beleza que é poder aprender, descobrir coisas e retirar o véu de ignorância que as vezes cobre a nossa vida.

    Com este ponto de partida, não vai ser incomum você conseguir cultivar a humildade suficiente para escutar, se abrindo assim para o conhecimento e buscando constantemente o saber.

    É muito perigoso se engessar e acreditar que uma mente fechada é uma condição relevante. O saber é muito amplo para colocarmos um ponto final em nosso aprendizado!

    BIBLIOGRAFIA

    López, E. M. Como estudar e como aprender. 1 ed. Campinas: Kírion, 2020.

  • CORRUPÇÃO ENDÊMICA

    Foi em meio a pandemia que coloquei em prática o costume de filtrar informações. Ao fazer isso, percebi como o excesso de más notícias nos tocam. Para complementar o cenário de caos, a corrupção e a má gestão eram vistas em qualquer noticiário, ampliando ainda mais a sensação de falência que a pandemia tem nos trazido, produzindo em nossa vida, aquele desespero ou sensação de descontrole. E agora com a guerra, a sensação continua.

    Não basta a pandemia, que já é destrutiva por si mesmo, precisamos nos proteger também do governo que deveria ajudar a população, uma função que eles esqueceram de exercer há muito tempo. No final, eu tenho que concordar com Pondé, quando ele escreve sobre a farsa da vida em sociedade e afirma que:

    “Desempenhamos papéis de coadjuvantes num roteiro em que os protagonistas são sempre uns cretinos” (2020, p. 24).

    E é esta sensação que tenho ao olhar para a nossa política, neste tempo todo. Parece que o sistema virou uma brincadeira, enquanto muitos perecem outros enchem os bolsos e se banqueteiam com o dinheiro da população. Na verdade, a corrupção e a má administração dos governos, sempre existiram, evidenciando um problema que até agora não foi resolvido. Vivemos em um país que não só possui uma política ruim, mas também com um sistema que favorece todo este caos.

    Mas no mundo fora da política o cenário não é diferente. Principalmente quando vemos gente dita honestas, se aproveitarem de descuidos. Um troco a mais, um preço trocado, um furto dito inocente, com alguma justificativa qualquer. Como aquela velha explicação que eu já ouvi muito: “Ele tem dinheiro, não tem problema levar sem pagar”, como se isso justificasse um roubo.

    É quando uma notícia figura a primeira página de um jornal, divulgando que alguém foi honesto suficiente para devolver algum dinheiro que não era dele, que eu percebo o quanto o país é corrupto. É quando o óbvio vira notícia que eu noto o quanto estamos perdidos. Com isso, ao olhar para a política, enxergo o óbvio, constato que ela é o reflexo da nossa sociedade. Se brincamos aqui fora, quem dirá na política, que termina por ser uma extensão da nossa sociedade.

    Sou protestante o suficiente para não me impressionar com tais notícias e quando lembro do que Paulo falou é quando eu noto o quanto a Bíblia é verdadeira:

    “Não há um justo, nem um sequer” (Romanos 3:10) (JFA).

    Este caos é uma constatação óbvia que a palavra de Deus já nos dá há muito tempo. O que me deixa triste, é a aparente apatia dos cristãos em todas estas situações. Penso que poderíamos fazer muito mais diferença, mas estamos preocupados com nossas prioridades. Só ajudamos o próximo que frequenta a nossa igreja ou quando ele é útil para algo no “reino”, como eles afirmam.

    A corrupção é um fato em todos os setores da sociedade, mas o nosso exemplo deve ser também uma verdade, aquele sal e luz que ilumina e aponta para Deus. Se não formos diferença, justamente nós, que temos a palavra como norte, não sei quem mais vai olhar para a nossa sociedade e através da verdade, propor mudanças.

     Precisamos ser protagonistas nesta sociedade contraditória, mostrando através dos nossos exemplos, como existe um caminho de ética e verdade que constrói um mundo com menos injustiça. E tudo começa por nós, em nossas pequenas ações éticas, para terminar influenciando áreas mais altas.

    Ou nos posicionamos como sal e luz, ou seguiremos sendo irrelevantes nos lugares onde nós atuamos!

    BIBLIOGRAFIA

    PONDÉ, L. F. Você é ansioso?: Reflexões contra o medo. 1. ed. São Paulo: Planeta do Brasil, 2020.

  • GUERRA DE OPINIÕES

    Uma guerra, seja por quais motivos ela for travada, nunca é justa, visto que na maioria das vezes, quem paga por todo o caos, são as pessoas inocentes. São justamente aqueles que não têm culpa, que assumem as responsabilidades por todas as catástrofes de um conflito. Sendo que diante de um acontecimento destes é normal vermos todos opinarem, apontarem erros e soluções.

    Em tempos ruins, vemos também circular opiniões ruins, palavras de quem não percebe suas contradições e muito menos busca entender mais sobre um assunto ao se expressar. Eu não sei por que as pessoas têm esta gana em opinar e racionalizar sobre temas complicados. Quanto mais complexo um tema é, percebemos que mais absurdas são as ideias. Antigamente uma opinião ficava presa entre amigos ou no âmbito familiar, hoje, teorias da conspiração ganham sites próprios e gurus especializados. São os famosos especialistas.

    Os canais de notícia terminam também por fazer o mesmo desserviço, eles usam o assunto como pauta para se promoverem e terminam por opinarem de forma simplista de um modo que não colabora em nada com a situação e muito menos informa, na verdade em alguns casos termina sendo até uma desinformação. Ou eles seguem usando um viés político, que acaba por oferecer uma visão parcial sobre o tema. Já faz um tempo que os jornais e veículos de comunicação viraram canais para divulgar pautas ideológicas. Não há mais aquela responsabilidade de apenas comunicar uma notícia.

    E as igrejas também se mobilizam nestas horas, muitas delas, começam a fazer as suas previsões para o fim do mundo e a volta de Cristo, como sempre fizeram. Ao invés de colaborar com as pessoas que estão enfrentando a guerra ou buscar orar e interceder por elas, preferem espalhar o caos e fazer previsões equivocadas.

    No final, surge uma guerra de opiniões, de pessoas que teimam em estarem certas. O problema é que na maioria das vezes o motivo não é a busca por uma conclusão centrada ou mesmo de levantar pessoas para ajudar a solucionar um problema e sim, ganhar visibilidade.

    Não estou condenando as pessoas que emitem opinião, eu mesmo estou emitindo a minha agora e estou usando os mesmos caminhos que muitos destes “especialistas” usam. A minha crítica em primeiro lugar é sobre as pessoas que usam a pauta para se promoverem. Em segundo lugar, é sobre aqueles que opinam, sem ter a visão geral do assunto, sem entender todos os lados da questão ou usam a pauta como pregação política.

    Entenda que não é feio e muito menos é falta de inteligência, falar que você não tem uma opinião sobre um acontecimento e muito menos afirmar que não entende do tema, visto que, ninguém entende de tudo. As vezes não temos um parecer, justamente por não entendermos o fato por todos os vieses. O Covid 19 mostrou isso, ninguém sabia ao certo o que estava acontecendo, por conta disso, não era fácil opinar. E a própria invasão Russa a Ucrânia, que aconteceu dia 24 de fevereiro de 2022, também revelou isso. E eu não quis opinar, justamente por perceber que em um primeiro momento, o assunto era complicado. Não havia motivos claros e coerentes para a invasão e nenhuma justificativa plausível. Optei por me calar, por orar pelo país que estava enfrentando tal catástrofe e me informar, sendo que ao ler e ouvir sobre a invasão, usando fontes variadas e de comentadores especializados, constatei que a guerra era realmente intrínseca. As motivações da Rússia não eram claras, pelo menos até este momento.

    Aprendi a tomar cuidado com aqueles que possuem opinião sobre tudo e dão a entender que entendem de todos os assuntos. Na maioria das vezes, a certeza é fruto da falta de informação, de pouca leitura e nenhum estudo. É possível opinar como um leigo, deixando sempre claro em nossa opinião o quanto não entendemos. Mas o melhor posicionamento nestes casos é realmente o de não opinar, por isso fiquei em silêncio e busquei me informar e orar ao invés de ser aquele tagarela que muito fala, mas pouco faz. Hoje em dia vemos muitos opinarem e poucos serem ferramentas de apoio.

     Ore pela Ucrânia, um cristão que ora, com certeza é uma pessoa que se posiciona em favor das pessoas. Há tempo para tudo (como diz Eclesiastes 3:1), e o tempo agora não é de opinar ou formular explicações e sim, de orar por todos os que estão sofrendo com esta guerra.