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  • FOLHAS NO JARDIM DA VIDA

    “Como um caminho no outono: assim que é varrido, volta a cobrir-se de folhas secas” (PERCY, 2012, p. 31).

    Na minha infância e adolescência, cresci em uma casa que havia algumas árvores frutíferas. Era ótimo comer ameixas direto do pé ou mesmo goiaba, o problema era deixar o chão livre das folhas, que nos caso destas árvores, eram grandes e em abundância.

    Ter em seu quintal algumas árvores é ótimo pois elas embelezam o ambiente, e nos proporcionam alguns frutos, caso a árvore seja frutífera. A natureza é realmente impressionante, mas também nos dá algum trabalho.

    Para quem gosta de um jardim bem cuidado, ter alguma árvore é complicado, visto que por mais que você varra o quintal, haverá sempre alguma folha caída no chão, principalmente no outono. Para um perfeccionista, isso pode ser uma tortura, para quem entende a dinâmica da vida, isso é apenas um dos fatos corriqueiros da vida.

    Viver é entender que precisaremos sempre estar resolvendo problemas, não existe uma vida perfeita, assim como não é possível termos algumas árvores e ao mesmo tempo ter o chão impecável, sem folhas algumas. E o próprio medo dos problemas é um problema, é antecipar um sofrimento e sofrer antes da hora. Por isso que relaxar e lidar com os desafios de uma forma centrada é o caminho para uma caminhada mais tranquila.

    Aceitar a realidade da vida, buscando sempre não sofrer por antecipação, é a melhor saída, ao invés de antecipar catástrofes ainda não vividas. Sofremos muito imaginando problemas, sendo que muitos deles não se concretizam.

    Durante a pandemia era possível encontrar “especialistas” prevendo as maiores catástrofes, aumentando ainda mais o medo que o Covid 19 já causava nas pessoas. Estar preparado é importante, mas nem sempre conseguiremos prever tudo, ou mesmo deixaremos de sofrer, vivendo uma vida sem quaisquer dificuldades.

    Assim como manter um jardim limpo é desafiador, requer paciência e muito empenho, viver de forma equilibrada é igualmente complicado, pois a vida está em constante mudança, as folhas não param de cair e as ervas daninhas da existência, insistem em aparecer para estragar o nosso belo jardim.

    Por isso viva tranquilo, buscando dar um passo de cada vez, juntando as folhas do seu quintal, mas sem se desesperar, pois antecipar problemas é o caminho para vivermos uma caminhada, sem qualquer paz.

    As folhas caem aos poucos, assim como os problemas, por isso, viva um dia de cada vez e aproveite o jardim.

    BIBLIOGRAFIA

    PERCY, Allan. Kafka para sobrecarregados: 99 pílulas de sabedoria para lidar com a loucura do dia a dia. 1. ed. Rio de Janeiro: Sextante, 2012.

  • O DIA DO LEITOR

    Ler é uma das minhas grandes alegrias, quem segue o meu blog a mais tempo, já percebeu isso, sendo que a leitura faz parte da minha vida por inteiro. Na parte profissional eu leio por conta da profissão, já que eu sou professor e pesquisador, ler no meu caso é fundamental para estar sempre aprendendo e ensinando. Mas eu também leio para descansar, é comum em um momento de descanso, tirar um tempo para ler e me divertir. A leitura está presente em todas as áreas da minha vida, seja a profissional ou a pessoal.

    Para quem quer aprender, exercitar a mente ou mesmo se desenvolver cada vez mais, a leitura é fundamental, existem inúmeras vantagens para quem cultiva tal hábito, uma prática que se assemelha muito a um exercício, já que com a leitura, malhamos o cérebro. E para coroar esta importante prática, dia 07/01 comemoramos o Dia do leitor.

    A data foi instituída em homenagem a criação do jornal cearense “O Povo”, idealizado em 7 de janeiro de 1928 por Demócrito Rocha, um poeta e jornalista. Sendo que podemos ver tal data não só como uma homenagem a quem lê, mas também, como um incentivo para cultivarmos tal hábito que é fundamental.

    Ninguém nasce um leitor, ao contrário, tal hábito é construído, fruto de muito empenho e incentivo. É claro que alguns cultivaram o hábito de forma mais tranquila, visto que tinham em casa livros, pais que liam ou a referência de amigos, parentes ou mesmo a ajuda da escola. Isso faz uma diferença muito grande para que o hábito da leitura se torne efetivo na vida de alguém, mas a boa notícia é que ele é cultivável, não é um dom ou uma habilidade inata.

    Conheço muita gente que gostaria até de conseguir ler todos os dias, mas segundo estes, eles não conseguem, com isso, proponho alguns caminhos, para que você consiga ter o hábito incorporado em sua vida. São dicas simples, mas eficazes.

    Comece separando livros de temas que você gosta, pois tal hábito, para se tornar parte de você, precisa começar com o incentivo de um tema que lhe agrada muito. Isso trará a você a força que você precisa para persistir. Como não é fácil transformar uma prática em hábito, escolher algo no qual gostamos muito, já nos dá alguma vantagem.

    Depois separe um tempo para ler, um horário determinado só para a leitura. O tempo de leitura não importa, o que importa mais é a constância em ler, e busque fazer isso todos os dias, lembrando que tempo não existe, ninguém tem tempo, o que existe são as prioridades, é o quanto você coloca tal prática como fundamental, por isso, para passar a ser um leitor, você precisa estabelecer este hábito como prioridade.

    Dê preferência a leitura, aprenda a desligar as coisas que distraiam você e busque lugares calmos, onde você não vai ser interrompido, sem esquecer que a qualidade é mais importante do que a quantidade.

    Por fim, quando estiver com o seu hábito estabelecido, aprenda a se desafiar como leitor e busque ler, de tempos em tempos, temas um pouco mais complexos, buscando sempre dar um passo de cada vez, cuidando sempre para não dar um passo maior do que a perna. Este desafio trará a você mais conhecimento e aumentará a sua visão de mundo e repertório.

    Aproveite tal data para começar a ler e insista em cultivar tal hábito, para que no próximo ano, você possa comemorar esta importante data e ver como avançou um pouco mais no conhecimento.

  • FORÇA DE VONTADE

    “Força de vontade não é só uma habilidade. É um músculo, como os músculos dos seus braços ou pernas, e ela fica cansada quando faz mais esforço, por isso sobra menos força para outras coisas” (DUHIGG, 2012, p. 152).

    Normalmente quando a manhã acaba estou bem cansado, não é porque eu trabalho de manhã, eu trabalho apenas a tarde e a noite, e sim porque é de manhã que eu estudo, pesquiso e escrevo.

    Optei por começar o dia com esta rotina, justamente porque levanto descansado e com a cabeça tranquila. Por conta disso, eu não acesso as redes sociais, não vejo e-mail, e não faço outra coisa além de me concentrar em minha rotina.

    Veja bem, a força de vontade, como a epígrafe otimamente explica, é parecida com um músculo, ou seja, ela precisa ser exercitada e também, ela cansa. Quando mais fazemos exercícios, mais ficamos cansados, a força de vontade não é diferente. Por isso que, preservá-la é fundamental para que você consiga fazer as coisas que realmente são relevantes. Charles Duhigg complementa:

    Se você quer fazer alguma coisa que exige força de vontade – como sair para correr depois do trabalho –, precisa preservar seu músculo da força de vontade durante o dia” (DUHIGG, 2012, p. 152).

    Quando você exerce a força de vontade para fazer inúmeras coisas, seja respondendo e-mails, alinhando coisas do trabalho que ficaram pendentes, ou resolvendo problemas logo que levanta, quando você for parar para fazer o que importa, você estará muito cansado.

    Caso você estude de manhã, aprenda a nem ligar o celular, dedique-se as coisas que realmente valem a pena, construa uma manhã de leitura e estudo, e também é claro, separe pausas para parar, refletir e relaxar. Tenho buscado deixar claro que a vida não é só fazer, quando eu escrevo sobre o assunto ou dou aula sobre dicas de estudo.

    E se o seu caso for o de estudar depois do trabalho, aprenda a chegar e se desligar do serviço, para começar a sua rotina de estudos e leitura. Como eu sempre deixo claro, não é preciso estudar muitas horas, opte mais por buscar ter constância nos estudos e deixe que o resto aumente naturalmente.

    O hábito da leitura e de estudos deve ser algo que agregue em sua vida, e não uma rotina que te descontrua e o deixe desmotivado. Se você com prazer conseguir aprender, com certeza o conhecimento terá muito mais efeito em sua vida.

    O músculo da força de vontade cansa depois de usado, afinal, todos nós temos um limite, e é isso que precisamos delimitar bem este limite. Por isso que ficar atento e buscar fugas das coisas que gastam muito a nossa força de vontade é um caminho para que possamos construir a nossa rotina de estudos, e crescer na vida acadêmica.

    BIBLIOGRAFIA

    DUHIGG, Charles. O poder do hábito: Por que fazemos o que fazemos na vida e nos negócios. 1. ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.

  • INFELIZ AUTORRETRATO

    Nas redes sociais é comum pintarmos um autorretrato, de preferência bem pintado, com o intuito de mostrar a alguém o que não somos, para vender uma vida falsa, já que nem sempre é possível vendermos a vida que temos.

    A necessidade de ser aceito move o mundo e as redes sociais ampliaram ainda mais este problema. Eu não demonizo as redes sociais, elas são boas, nos conectam e é através dela que eu divulgo meus textos. A questão é que sem delimitação, podemos naufragar neste mar de futilidades através das armadilhas que nos aprisionam.

    O ser humano tem seguido cada vez mais solitário, sem vínculos, buscando ser ouvido por um mundo surdo, que ouve apenas a si e as suas vontades. Cultivando um vazio que só aumenta a cada like.

    A falta de significado é outro ponto que leva muitos a pintar um quadro falso de si. Entenda que a vida é simples, contraditória e nem sempre tem um significado, na verdade, a falta de significado é o que mais encontramos e isso nos confronta e nos assombra. Aceitar isso é cultivar um pouco de paz e ter um pouco de consciência que nos auxiliará a não cairmos nestas armadilhas.

    Aquele papo de jogar para o universo o bem e esperar ele dar o retorno. Ou tentar ser positivo para ter seus caminhos abertos, é uma tentativa light de tentar mascarar o caos, a aleatoriedade e a falta de significado que experimentamos todos os dias. Vivemos uma vida infeliz e sem significado justamente porque o ser humano se distanciou da verdade, que é Deus, é imprescindível colher tais frutos estando longe Dele.

    Quando o iluminismo colocou o ser humano no centro de tudo e vendeu a ideia de que a razão iria salvar a humanidade, ele na verdade, não percebeu o tamanho do erro. Se esqueceu da ambivalência que é o ser humano e colheu as suas consequências por este ato. É curioso perceber como o ser humano andou na contramão dos próprios ideais iluministas de liberdade, tolerância, progresso e fraternidade. A própria Primeira e Segunda Guerra Mundial atesta a falha destes ideais, isso só para citar estas duas catástrofes.  

    O erro do ser humano é não se perceber, é seguir seus autoenganos, crendo estar de posse da verdade. Ele quer ser importante, deixar uma marca no mundo, mas não aceita a sua própria condição e muito menos enxerga a contradição que é a sua vida.

    Eu temo crer que no final, o problema do ser humano é colocar muita fé em si, crendo que a sua razão é a única a lhe guiar. Mas é preciso olhar, enxergar de verdade para constatar que quase sempre o retrato que pintarmos de nós, nossa sabedoria e nossa vida, são quase todos falsos, frutos de uma visão equivocada de quem somos.

    Na verdade, o ser humano é infeliz e tenta disfarçar a tristeza com um monte de coisas fúteis. O problema é que a máscara que esconde a nossa tristeza e o peso da realidade, é a mesma que também nos engana.

  • MENTALIDADE DE DESENVOLVIMENTO

    Na vida acadêmica, saber estudar e pesquisar, é um ponto fundamental para gerar frutos. Seja você um pesquisador ou professor, uma boa técnica e a mentalidade certa define muita coisa em sua rotina acadêmica.

    Existe um princípio importante quando falamos de embarcar em algo novo ou mesmo desafiador, sobre aprender e principalmente, sobre vida acadêmica. E este princípio é justamente o mindset, a crença que nos leva a agir de uma determinada forma, sendo ela boa ou ruim.

    Mindset é uma forma de pensar, é o conceito que você tem de si, que por fim, acaba definindo sua ação e posicionamento diante dos vários desafios que a vida nos traz. O que você pensa sobre você, define uma boa parte da sua ação, mindset é esta mentalidade. 

    Carol S. Dweck fala sobre dois tipos de mentalidades, sendo elas: a capacidade fixa e a capacidade mutável. A capacidade fixa é aquela que precisa ser provada, normalmente quem é assim se preocupa muito com erros, fracassos e derrotas, e por isso, optam em provar para as pessoas que são inteligentes ou que possuem talentos ao invés de aprenderem com os fracassos. Esta é a definição de sucesso para quem possui esta mentalidade. Já a capacidade mutável é aquela que busca sempre se desenvolver através do estudo e do aprendizado, para estes, uma derrota é uma lição e uma oportunidade de aprender e recomeçar com alguma bagagem (2017, p. 23). Carol Dweck resume bem estes dois universos explicando que:

    “Num mundo, o esforço é algo ruim. Assim como o fracasso, ele indica que você não é inteligente nem talentoso. Se fosse, não precisaria fazer esforço. No outro mundo, o esforço é o que torna você inteligente ou talentoso” (2017, p. 24).

    Mudar a mentalidade é uma atitude fundamental caso você queira entrar na vida acadêmica ou buscar ser alguém que está sempre crescendo e aprendendo. Entender a importância do esforço, da dedicação e dos fracassos, que na maioria das vezes nos ensinam, é o ponto de partida para uma vida de crescimento. 

    Estudar, pesquisar escrever são práticas fundamentais, eu mesmo gosto muito, mas nem sempre são fáceis, por isso que, mudar o mindset para a capacidade mutável, buscando aprender e crescer sempre, apesar das dificuldades e derrotas, é uma atitude fundamental ao invés de querer apenas mostrar a sua capacidade, afagando assim o seu ego, mas sem crescer como acadêmico. Benjamin Barber tem uma citação que resume bem a questão:

    “Não divido o mundo entre os fracos e os fortes, ou entre sucessos e fracassos […] divido o mundo entre os que aprendem e os que não aprendem” (apud DWECK, 2017 p. 24). 

    Ser um eterno aprendiz e cultivar uma mentalidade de desenvolvimento, é um ponto de partida fundamental para quem quer constantemente aprender e crescer.

    Entender que o verdadeiro fracasso é na verdade deixar de aprender é o princípio da boa mentalidade. E por mais que fracassar não seja legal, afinal, as derrotas muitas vezes nos entristecem e nos desanimam, entender que a pior parte é não aprender, é um ótimo ponto de partida para começar a mudar a mentalidade e desta forma, construir uma rotina de crescimento. 

    BIBLIOGRAFIA

    DWECK, C. S. Mindset: A nova psicologia do sucesso. 1. ed. São Paulo: Objetiva, 2017.

  • JORNADA CRISTÃ 23: UMA FÉ PÚBLICA

    Há alguns anos eu recebia livros de algumas editoras para fazer resenhas, ler e avaliar os materiais, com isso, pude conhecer inúmeros autores, que no final agregaram muito conteúdo em minha vida. E o autor que eu vou abordar hoje, que é também uma grande influência em minha vida, eu conheci neste período.

    Miroslav Volf é um teólogo croata, autor de inúmeros livros, e por mais que ele não é tão conhecido assim aqui no Brasil, ele é muito relevante. Entre as obras que valem a pena destacar estão “Exclusão & Abraço”, um livro que discorre sobre a alteridade e reconciliação, e um importante livros chamado “Uma Fé Pública”, que é justamente a obra que eu vou abordar neste texto.

    Qual é o papel da igreja em nosso cenário? Como podemos ser relevantes em nosso contexto? Estas são perguntas implícitas e em alguns momentos explícitos em todo o livro. Entender o nosso papel, e propor uma fé pública e relevante, com o intuito de contribuir com a nossa sociedade, é um dos propósitos da obra.

    Muitas vezes esquecemos que ser cristão não é apenas adorar a Deus, ir à igreja todos os domingos ou ler a Bíblia. Quando olhamos para o exemplo de Cristo percebemos que o nosso papel é muito mais amplo aqui na terra, sendo que é um verdadeiro desafio ser cristão neste mundo cada vez mais secularizado. Gosto de uma citação de Miroslav Volf, que resume muito bem esta questão:

    “Se a fé apenas cura e energiza, então ela é, meramente uma muleta que se pode usar livremente, não um estilo de vida” (2018, p. 34).

    Ser cristão é um estilo de vida, um modo de viver que invade todas as áreas da nossa vida. A fé não é uma crença religiosa apenas, ela deve ser muito mais que isso, caso contrário, ela será apenas uma muleta ou uma máscara que vestimos todos os domingos, com o intuito de disfarçar as nossas misérias.

    O livro fala desta fé pública, e aborda pontos fundamentais para que assim, possamos ser cristãos que realmente colaboram com a sociedade. Eu sempre acreditei que o nosso exemplo também fala, é possível através da nossa vida, pregar o evangelho. Seja com exemplos, opiniões ou atitudes.

    Neste livro o autor é muito lúcido e centrado ao abordar temas como “Falhas da Fé”, “Identidade e Diferença” ou “Engajamento Público” entre tantos temas importantes, que precisamos entender para que assim, consigamos ter um estilo de vida centrado e que também colabore com o bem comum.

    Um autor fundamental, que escreve com um equilíbrio e propriedade sobre a fé cristã, vale a pena ler.

    BIBLIOGRAFIA

    VOLF, M. Uma fé pública: Como o cristão pode contribuir para o bem comum. 1. ed. São Paulo: Mundo Cristão, 2018.

  • A TEOLOGIA DO TANTO QUANTO

    É comum em um cenário pseudointelectual, “pensadores” polarizados defenderem seus pontos de vistas como únicos. Como se só houvesse apenas uma forma certa de pensar (geralmente a deles) e uma forma errada (geralmente a dos outros).

    Na política vemos isso a toda hora, só existe esquerda e direita, e quem é centrado é chamado de isentão. Para quem tem pouco conteúdo, existe poucas opções, normal, já para quem estuda e tenta olhar para os dois lados de uma questão, é comum concluir que as soluções nunca são tão simples, sendo que existem várias formas de interpretar algo. São muitas opções e maneiras de se resolver uma questão.

    Quando refletimos sobre alguns modos de pensar, como a política, por exemplo, onde é possível constatar atitudes equivocadas, exageros e corrupção nos dois lados, ser centrado consiste em não compactuar com nenhuma das opções que ambos os lados oferecem. É se concentrar em buscar uma outra saída, entendendo que o equilíbrio é o único caminho para escapar de todos os exageros.

    Ao falarmos em teologia discorremos sobre um problema semelhante, pois ela também transita em um ambiente polarizado que é o calvinismo e o arminianismo. Ser centrado nestes casos é buscar um meio termo em questões onde a palavra não dá um ponto final, e Roger Olson no livro História das controvérsias na teologia cristã, discorre justamente sobre isso ao abordar a teologia do “Tanto quando”:

    “Infelizmente, muitas vezes deixamos de perceber a possibilidade do “tanto… quanto” em numerosos casos de divergências e controvérsias doutrinárias. Não haveria possibilidade de Deus ser tanto três quanto um? A possibilidade de Deus ser tanto autolimitante (para dar às criaturas um espaço para certa autodeterminação) quanto soberano?” (2004, p. 31).

    A doutrina do “tanto… quanto” surge quando um preceito é tanto uma coisa, quanto outra. Assim como Jesus é cem por cento Deus e homem. Ou Deus é soberano, mas escolhe se autolimitar, entre tantos pontos da fé cristã.

    É normal o ser humano tomar um partido, defendendo assim seu ponto de vista com muita sede e certezas. O problema é que muitas doutrinas, não as fundamentais, são complicadas e difíceis de gerar uma conclusão centrada. E eu creio que alguns até têm conclusões, por não conhecerem o todo, não perceberem todos os pontos que ficam sem explicação.

    Não há como aceitar posicionamentos polarizados quando falamos de cristianismo e da teologia cristã, pois dialogar e respeitar algumas doutrinas opostas à nossa, não é pecado.

    Entender que em muitas doutrinas há a possibilidade de aplicarmos a teologia do “tanto… quanto” é perceber que quando falamos de um Deus soberano, discorremos sobre um ser que é impossível de se quantificar.

    A nossa guerra não deveria ser entre nós e a união deveria ser a principal atitude que podemos tomar para que consigamos crescer ao incentivarmos o diálogo.

    Uma vez que a Bíblia está no centro da nossa vida, e as doutrinas fundamentais do evangelho entraram em nossa mente e coração. É possível dialogar sobre pontos complicados e entender que certas doutrinas poderíamos aceitar sendo “tanto… quanto”.

    BIBLIOGRAFIA

    OLSON, Roger. História das controvérsias na teologia cristã: 2000 anos de unidade e diversidade. São Paulo: Editora Vida, 2004.

  • A DÚVIDA E O CONHECIMENTO

    “A única forma que se tem de chegar à certeza é pela dúvida. E mesmo assim essa certeza deve estar eternamente aberta à dúvida”. (BONDER, 2011, p. 15).

    Eu gosto muito de aprender, é um privilégio poder ler um bom livro e assistir uma boa palestra ou aula, e sair reflexivo, pensando em tudo o que eu pude descobrir. Sendo que para poder aprender, o melhor caminho é se esvaziar, no sentido de deixar de lado as certezas, para assim mergulhar no saber de cabeça.

    É comum não ouvirmos o que em um primeiro momento sabemos, as nossas certezas têm este poder de nos ancorar. Mas eu já aprendi muito ao estudar coisas que eu acreditava saber, onde no final, pude perceber que eu não sabia nada. Quando duvidei, entendi como o saber é inesgotável e como é possível mergulhar ainda mais, para compreendermos um assunto.

    As minhas aulas são bons exemplos do que eu estou buscando explicar. Quando começo preparar a aula, busco revisitar o conhecimento e reavaliar o que vou ensinar. E durante o processo revejo muita coisa e em alguns momentos mergulho e encontro um outro viés para aquele mesmo conceito. Uma outra forma de interpretar, outro olhar e experiência e com isso, eu cresço ainda mais como professor e como aprendiz que sou.

    Em sala de aula eu também aprendo, mesmo sendo o professor, visto que, as dúvidas dos alunos muitas vezes me ensinam. São as dúvidas que nos levam ao saber, é a dúvida que nos impulsiona e não as certezas.

    Não é fácil caminhar em uma trilha escura, fazer isso sem uma lanterna é muito ruim. Mas conforme você vai caminhando os olhos vão se acostumando com a falta de luz e você começa a enxergar em meio a penumbra. A luz nos permite ver, mas a falta dela nos dá a oportunidade de perceber detalhes, estrelas e contornos que só a penumbra revela.

    Eu sou um teólogo formado há alguns anos, além de ser professor de teologia. Quando eu entrei na Igreja que atualmente eu frequento, precisei fazer um curso de membros. Lá eu aprenderia sobre a igreja e também sobre os fundamentos teológicos dela, que inclusive eu já conhecia, mas resolvi deixar a certeza de lado e abraçar a dúvida para ficar aberto para o saber durante estas aulas.

    As aulas foram ótimas e por mais que eu já conhecesse a teologia, ouvi outros pontos de vistas sobre alguns assuntos. Foi ótimo também assistir a ótima aula do professor, aprendi muito com ele e conheci outras bibliografias.

    Aprender é um estilo de ser e de se comportar, é uma forma de ver e aceitar que não sabemos tudo e mesmo o que sabemos, podemos estar enganados ou mesmo não notarmos a nossa falta de profundidade. Quem abraça a dúvida de forma consciente se abre para o saber e cresce, seja aprendendo coisas diferentes, mergulhando ainda mais em tema para assim se aprofundar no saber ou mesmo revendo conceitos conhecidos, mas que é bom serem relembrados.

    Lembre-se que aquele que acredita que sabe, nunca aprende. A dúvida gratuita e sem propósito é prejudicial, mas a dúvida inteligente nos leva em direção ao saber.

    BIBLIOGRAFIA

    BONDER, Nilton. Fronteiras da inteligência. 1. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

  • O PERIGO DO TOTALITARISMO

    Eu creio que a polarização política nos impede de dialogar, refletir sobre questões realmente complicadas. A simplificação que as discussões políticas têm causado é muito nociva, pois deixa o debate na superfície, no raso, sem mergulhar mais a fundo em seus próprios temas.

    É fácil escolher um lado político, basta seguir a linha de pensamento que mais nos convém. Agora, conhecer a história daquela linha de pensamento, ir em busca de livros de pensadores relevantes e também refletir sobre todos os pontos fracos daquele pensamento, já é uma tarefa que só alguém equilibrado é capaz de empreender.

    O totalitarismo político, por exemplo, é uma doença, um câncer que já destruiu e continua destruindo a liberdade de todos por onde passa. E é possível vermos o mal deste tipo de pensamento em várias vertentes políticas, apesar do comunismo ser um dos principais representantes deste caos.

    Vale lembrar que quando falamos de totalitarismo, não nos referimos simplesmente aos pensamentos de esquerda ou direita, de comunismo ou liberalismo, pois esta praga já foi vista em ambos os lados. Edgar Morin pontua que:

    “O totalitarismo apareceu fora de todas previsões. É o fruto de um processo histórico, produto de enorme acidente que foi a Primeira Guerra Mundial” (MORIN, 2009, p. 76).

    O caos sempre produz teorias salvadoras e com isso, alguns “salvadores” surgem com uma solução final. E a imposição de pensamento é uma das grandes marcas do totalitarismo.

    Tudo começa com a crença que a minha solução é a única certa, além de ser infalível e soberana. Com isso, obrigar alguém a seguir determinada linha de pensamento é o ponto de partida desta forma de pensar.

    E se olharmos para as discussões políticas, podemos perceber que uma boa parte daqueles que discutem e militam, terminam por ter uma forma de dialogar ou “brigar por seus ideais políticos” de um modo tão extremo que soa totalitarista e impositor. Eu imagino estes militantes liderando um país, seria um caos.

    Tenho um enorme receio do comunismo, justamente porque em sua história vemos muita imposição e um mar de sangue que a sua forma de pensar deixou. Por onde passou ele impôs, não dialogou e colocou o seu pensamento acima de tudo e de todos.

    É possível vermos um cenário político semelhante quando olhamos para o pensamento de direita, contudo, é como eu afirmei, temos fatos históricos que comprovam que o comunismo impôs muito mais que o capitalismo. É por conta disso que tenho uma aversão a está forma de pensar.

    Eu acredito na liberdade e sou contra qualquer tipo de totalitarismo, impor, obrigar e forçar pessoas a viverem de uma forma que elas não acreditam que devam viver, é um caos, uma injustiça sem tamanho.

    Quem impõe não percebe o perigo das suas atitudes, não nota que se alguém agir da mesma forma que ele, certamente vai colher problemas gigantescos!

    BIBLIOGRAFIA

    MORIN, Edgar, Cultura e barbárie europeias, Editora Bertrand Brasil, Rio de janeiro, 2009.

  • A MÚSICA E SEUS MISTÉRIOS

    Sou músico há muitos anos, gosto de compor, tocar e ver de uma melodia e alguns poucos versos, uma música nascer, o sentimento é indescritível. Quem escreve e compõe, sabe muito bem disso.

    Na filosofia a música pode ser entendida como uma forma oculta e imperceptível da alma filosofar, além de suscitar inúmeras perguntas e questionamentos sobre o assunto, tornando a música um interessante tema filosófico. O filósofo Josef Pieper aborda um destes questionamentos filosóficos acrescentando que:

    “A questão que intriga de modo especial a mente perscrutadora do filósofo dedicado ao fenômeno da música é: o que de fato percebemos quando escutamos?” (PIEPER, 2021, p. 44).

    A pergunta pode ser simples ou soar abstrata demais, contudo, quando falamos de música falamos de algo totalmente subjetivo, visto que, uma determinada música agrada alguns e desagrada outros. É difícil encontrar uma canção que todos gostem, tornando a questão realmente filosófica. O que realmente alguém que escuta uma música está ouvindo? No final as pessoas ouvem muito mais do que sons quando escutam uma música.

    Contudo, a música não se fecha apenas nesta discussão, ela é muito mais ampla e possui muitos benefícios. Na teologia cristã por exemplo, Lutero via a música como uma ótima ferramenta para ensinar. Seguindo está mesma lógica, alguns filósofos atribuirão um caráter pedagógico a arte, o próprio Platão acreditava que a única arte que merecia ser mantida e deveria ser cultivada era a música, visto que ela ensina e educa (MONDIN, 2019, p. 167).

    Já na igreja, usamos a música como instrumento de louvor e adoração. Louvar a Deus cantando, derramando o coração é um dos momentos mais valorizados no culto. O problema é que nem todos dão a real importância para a música ou percebem a capacidade que ela tem de nos tocar, nos aproximar de Deus e o quanto algumas vezes ela se torna a nossa trilha sonora. Josef Pieper novamente colabora, pontuando algo que eu, como músico, já vivenciei várias vezes:

    “Todavia, a “música” nunca é uma energia impessoal, abstrata; é “tocada” por músicos, cada qual com sua individualidade. Por conseguinte, desse dinamismo interno, mil expressões musicais diferentes podem aparecer” (PIEPER, 2021, p. 49).

    A música quando bem executada, se torna uma expressão individual, um bom músico consegue dar identidade e feeling a uma música, deixando assim uma parte de si na execução.

    Cresci ouvindo música, a trilha sonora da minha vida é muito vasta, visto que, eu tenho sons para várias ocasiões e momentos, mas a principal parte é poder compor. Criar é algo inexprimível, é uma oportunidade que Deus nos dá para construir algo, sendo este um sentimento realmente difícil de explicar.

    Na igreja, o louvor é um momento de adorar e oferecer o nosso melhor a Deus, por isso precisamos buscar entender de música, pelo menos um pouco, para assim, conseguirmos oferecer o melhor as pessoas e a Deus que é o centro de tudo, é por conta disso que precisamos entender que uma música mal executada nos tira a concentração e prejudica todo o andamento do culto.

    Na vida pessoal, a música pode ser desde um momento de descontração, fuga ou alívio. Ela, assim como os livros, pode ser um lugar particular que nos transportamos a fim de admirarmos e sermos guiados para estes mistérios.

    Enfim, a música guarda esta característica de ser única e de nos tocar, ela nos aproxima, quando encontramos alguém que também ouve o mesmo estilo, mas nos separa, quando não respeitamos o gosto alheio.

    Para um músico, a música pode ser uma forma de se expressar e tocar as pessoas. Para um ouvinte, ela pode ser uma estrada que nos leva as mais profundas experiências.

    BIBLIOGRAFIA

    PIEPER, Josef. Só quem ama canta: A arte e contemplação. 1. ed. São Paulo: Quadrante Editora, 2021.

    MONDIN, B. Introdução à filosofia: problemas, sistemas, autores, obras. 1. ed. São Paulo: Paulus, 2019.