CONTRA O RELATIVISMO

Tem sido interessante a experiência de fazer uma segunda graduação, ainda mais que o meu curso não tem qualquer relação com teologia. Diante disso, tenho trocado experiências com diversas pessoas, de diversas religiões ou credos, e tenho crescido muito com isso. É sempre bom ouvir o outro lado, é importante sairmos de nossa zona de conforto e conviver com quem não pensa igual a nós. Não que eu não convivia antes, não estou isolado do mundo, tenho amigos não cristãos de diversas religiões e formas de pensar. Mas é em um ambiente acadêmico, onde todos tem uma segunda graduação, experiências profissionais e acadêmicas bem opostas as nossas que aprendemos outros pontos de vista, de quem já viveu, trabalhou e estudou muito. E é justamente nestas conversas que eu mais tenho ouvido sobre o relativismo, um conceito que considero um dos mais contraditórios que existe, quero mais uma vez mostrar a vocês por que.

Para começar, afirmar que a verdade é relativa é de uma contradição tremenda, pois a afirmação é absoluta, você usa um conceito absoluto para afirmar que a verdade é relativa. Se a verdade é relativa, o relativismo também é, quando você afirma que cada um tem a sua verdade, você faz uma afirmação contraditória que desconstrói o seu próprio argumento.

“Em outras palavras, se alguém defende a teoria de que toda a verdade é limitada ao ponto de vista de um indivíduo – que toda a verdade depende da perspectiva – essa teoria também deve ser limitada ao ponto de vista de quem fala e, portanto, não é relevante ou obrigatória para o resto de nós” (MITTELBERG, 2011, p.32).

A verdade é tão absoluta que até na afirmação: “verdade é relativa”, o absoluto está presente, segundo a lei da não contradição, que esclarece justamente isso, afirmações contraditórias não podem estar certas ao mesmo tempo:

“A lei da não contradição é um princípio fundamental de pensamento autoevidente que diz que afirmações contraditórias não podem ser verdade ao mesmo tempo e no mesmo sentido” (GEISLER, TUREK, 2012, p. 56).

Vivemos o puro absoluto, pontuamos as injustiças, os problemas, nossos gostos e preferências. Usamos o absoluto para amar, afinal o amor é amor em qualquer lugar. Vemos expressões de gratidão, raiva, egoísmo, bondade e cuidado em qualquer parte do mundo e ficamos tocados ou chocados por todas estas atitudes, contudo alguns continuam a insistir que a verdade é relativa, mesmo diante destas inúmeras provas. Verdade segundo o dicionário é:

Exatidão; que está em conformidade com os fatos e/ou com a realidade: a verdade de uma questão; verdade musical (DICIO).

A verdade não é algo que criamos e sim algo que é descoberto. A verdade não muda e é transcultural. Uma opinião é diferente de uma verdade, pois afinal nossas opiniões podem muitas vezes estar equivocadas.

“Em resumo, é possível haver crenças contrárias, mas verdades contrárias é uma coisa impossível de existir. Podemos acreditar que uma coisa é verdade, mas não podemos fazer tudo ser verdade” (GEISLER, TUREK, 2012, p. 38).

A verdade é única, ela existe por si só, pontos de vista não. Opiniões muitas vezes são contraditórias e a verdade nem sempre é fácil de encontrar, mas isso não significa que ela não exista.

Para te auxiliar a entender o conceito de verdade e ponto de vista vou propor um exemplo. Uma galinha vive a sua vida em um ambiente totalmente limitado, ao contrário da águia, que vive em uma esfera muito mais ampla e vê muito mais coisas que a galinha. Assim somos nós, que nem sempre vemos a verdade por nos faltar uma visão mais ampla do todo. Quanto mais se estuda, se lê e se informa, mais temos a possibilidade de enxergar a vida de forma mais ampla, e mesmo assim, nem todos acabam conseguindo este feito, mas isso não significa que a verdade não exista. Leonardo Boff no livro: “A Águia e a Galinha”, fala algo interessante sobre pontos de vista:

“Todo o ponto de vista é a vista de um ponto. Para entender como alguém lê, é necessário saber como são seus olhos e qual é a sua visão de mundo” (BOFF, 2005, p. 9).

Penso que o grande problema do homem é a informação, é a falta de vontade de entender o todo, ou pelo menos buscar entender. Cada um tem a sua opinião por conta de suas experiências e formas de ver o mundo, mas isso não significa que a verdade não exista. A verdade existe apesar de termos cada um a sua opinião e crença, cabe a nós termos humildade para confessar que é difícil se chegar à verdade. É aí que o relativismo deveria entrar cumprindo um papel essencial, penso que a sua única utilidade é nos dar uma consciência mais humilde (ou pelo menos deveria ser).

“Mas o que é “relativismo?” Relativismo é suspeitar que não sabemos ao certo o que seja certo e errado, e, portanto, tenhamos dificuldade em dizer com certeza se estamos “indo na direção certa” (PONDÉ, 2016, p. 50).

Sim a verdade existe, mas sim, podemos estar enganados. Eu acredito em Deus, creio na palavra Dele, a Bíblia, sigo seus ensinos e vivo feliz assim, mas sei que algumas das minhas conclusões podem estar erradas. São tantas formas de pensar, tantos tipos de teologias, que eu não posso me colocar como único e superior.

A verdade é absoluta, ela existe sim, pontos de vistas são relativos, porém é aí que entra a humildade, o ouvir e buscar fundamentos para que assim nos aproximemos mais da verdade.

Afirmar que não existe verdade é de uma incoerência enorme, é se contradizer e não estar aberto a estudar, ouvir outros pontos de vista e confessar que é complicado se chegar a verdade. A verdade existe, o relativismo é um conceito incoerente, tão fraco que precisa da ideia de verdade para sobreviver, apesar de ter uma parcela de utilidade quando bem aplicada.

BIBLIOGRAFIA

MITTELBERG, Mark, Escolhendo sua fé, Em um mundo de opções espirituais, Editora Esperança, Curitiba, 2011.

GEISLER, Norman, TUREK, Frank, Não tenho fé suficiente para ser ateu, Editora Vida Acadêmica, São Paulo, 2012.

PONDÉ, Luiz, Felipe, Filosofia para corajosos, Pense com a própria cabeça, Editora Planeta, São Paulo, 2016.

BOFF, Leonardo, A águia e a Galinha, Uma metáfora da condição humana, Editora Vozes, Rio de Janeiro, 2005.

https://www.dicio.com.br/verdade

Deixe um comentário