Quando eu era bem novo, gostava de assistir desenhos, e um dos meus preferidos era Caverna do Dragão. No Brasil, ele foi muito conhecido e alvo de inúmeras teorias que explicam como o desenho terminava.
A história se passa em outra dimensão que o grupo acabou entrando misteriosamente por meio de um desconhecido portal, enquanto andavam de montanha-russa em um parque de diversões. Neste mundo, eles combatiam monstros com armas mágicas e auxiliavam os habitantes locais.
A parte curiosa do desenho é que sempre que eles tentavam voltar para a terra, algum acontecimento acabava levando-os a permanecer naquele mundo. No final, os personagens são heróis e prisioneiros daquele lugar.
A animação é uma ótima metáfora que descreve o nosso mundo atual e tecnológico, com os seus muitos ladrões do tempo e da alegria. A tecnologia tem feito parte da minha reflexão ultimamente, visto que gosto por demais dos recursos tecnológicos, ao mesmo tempo que, quando não sabemos utilizar, ela se torna uma vilã.
As facilidades de hoje ajudam muito, eu, por exemplo, pago as minhas contas com um aplicativo do banco. Entro em contato com os amigos e também assisto a notícias e podcasts com autores, cientistas e pensadores relevantes. A tecnologia chegou para nos ajudar, mas também para nos aprisionar, visto que existem aqueles que não conseguem deixar de conferir seus smartphones em todos os momentos ou consomem temas que não agregam à sua vida. Para alguns, ficar longe do celular é quase que um tormento, mostrando como, no final, terminaram por virar escravos deste equipamento.
O celular se torna um empecilho principalmente quando você deixa de se dedicar às coisas importantes, ou mesmo faz estas tarefas com desleixo, sem se empenhar adequadamente a estas atividades. Sem contar que é fundamental termos um tempo sozinho para refletir e pensar, isso faz bem para a mente, a imaginação e a saúde mental, como eu sempre afirmo.
Jaron Lanier, um cientista da computação e um dos precursores da realidade virtual, em seu livro Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais, expõe fatos importantes sobre as redes sociais e a sua capacidade de viciar o usuário. E no primeiro argumento, ele diz que:
“O prazer viciante e os padrões de recompensa no cérebro — a “pequena dose de dopamina” mencionada por Sean Parker — integram a base do vício em redes sociais, mas não é só isso, porque a rede social também usa a punição e o reforço negativo” (2018, p. 21).
As redes sociais oferecem estímulos, ou como o autor coloca, elas dão petiscos às pessoas e são com estas recompensas que os usuários seguem se viciando cada vez mais. Ter a consciência do perigo e do quão viciante são estas redes é importante, para desta forma, construirmos ferramentas e hábitos para dirimir estes problemas.
Procure colocar limites para a tecnologia e a televisão, controle o seu tempo de uso, justamente para não ser controlado por elas. A internet tem inúmeras coisas boas, como mencionei, mas aprender a se desligar dela é também uma ação necessária.
Curiosamente, alguns dos meus textos escrevo primeiramente em um caderno, outros, no próprio celular. Este texto mesmo, escrevi em um caderno, visto que gosto de usar papel e caneta. Escrever, ao invés de digitar, nos faz usar outras partes do cérebro, trazendo outros benefícios para a nossa mente. E são muitos destes hábitos tradicionais indispensáveis que as pessoas estão colocando de lado.
Aprender a construir limites de uso e cultivar outras atividades é algo realmente importante, ao invés de abolir o uso. Quem sabe usar comedidamente, acaba crescendo e realmente aproveitando. Já quem não sabe, segue rolando eternamente o feed, perdendo o seu tempo e deixando de desfrutar da vida.
Lembre-se da Caverna do Dragão e não permita ser prisioneiro do mundo dos excessos. Cultive o equilíbrio e descubra um modo de usar a tecnologia de forma construtiva e coesa.
Bibliografia
LANIER, Jaron. Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2018.
