Uns dias atrás eu estava indo embora para casa depois de ensaiar com a minha banda, quando me deparo com alguns mendigos dizendo Jesus te ama, para umas crentes que saíam da igreja. A verdade é que eu morri de rir, pois as senhoras passavam sem olhar para aqueles homens, mas depois daquele episódio parei para refletir.
Não sei o que nos leva a tratarmos o próximo como pessoas diferentes, alguns indivíduos nem tratamos como pessoas. Acostumamos a rotular as coisas, que criamos em nossa mente indivíduos de outra raça, outra estirpe, que não merece a nossa atenção. Pior é que muitas vezes nem achamos que algumas pessoas são iguais a nós. O ser humano é um ser ímpar, onde em muitos momentos parece não se considerar igual a todos, se escondendo atrás de dinheiro, crenças e status.
O engraçado é que enquanto nos descrevemos como seres ímpares e importantes. A Bíblia nos descreve como pó, um nada, algo minúsculo e quase invisível. Ela fala que viemos do pó, fomos feito de partículas pequenas e insignificantes, mas mesmo diante destas descrições o homem tem o dom de se engrandecer perante todos. Custamos a nos ver como corpo de Cristo e quando assim o fazemos, tentamos apenas cumprir os protocolos que um culto exige e depois de feita a nossa parte, retornamos ao individualismo.
Paulo em Coríntios (1Coríntios 12:12) nos descreve como corpo, como um só, salientando a importância da união e deixando claro como é impossível vivermos fora deste corpo. Calvino em sua principal obra, As Institutas, dá uma ótima interpretação para este texto de Paulo:
“Nenhum membro tem a sua função visando a si próprio, nem a aplica para uso privado; pelo contrário, libera-a aos membros associados, não para extrair daí qualquer vantagem, senão a que procede do proveito comum de todo o corpo”.
A pergunta que faço é: nós somos mesmo um corpo? Estamos tentando trabalhar para que o corpo de Cristo aqui na terra faça diferença?
Pois quando ouvimos notícias dos crentes morrendo, passando necessidades ou sofrendo em algum lugar, nos sentimos atingidos por estas notícias? Conseguimos entender a profundidade dos pedidos de ajuda e a importância de nos preocuparmos com estes cristãos?
Recentemente duzentas mulheres nigerianas foram libertadas pelo grupo radical Islâmico Boko Haram, possivelmente todas estão grávidas por terem sofrido estupros diários. A igreja tem se preocupado com estas pessoas? Ela tem orado, chorado ou ajudado estes injustiçados?
E sobre a corrupção no Brasil, a igreja tem se levantado contra este mal sistêmico? Ela tem tentado usar a sua influência para combater esta prática? Mas farei uma pergunta mais simples: você se preocupa com os necessitados de sua igreja, bairro ou comunidade? Você tem se preocupado com os moradores de áreas de risco, com os pobres e doentes?
Antônio Ermírio de Moraes disse em uma entrevista para o programa provocações, que toda a vez que vê uma pessoa dormindo debaixo da ponte ele se sente responsável. Pois quem tem condições deve se preocupar com quem não tem, somos responsáveis por fazer alguma coisa para que o nosso país mude.
Estamos tendo a mentalidade como a deste empresário? Ou estamos nos fechando em nossas igrejas, sem nos lembrar que se preocupar com os necessitados também é a nossa tarefa (Tiago 2:14-17, Mateus 25:35-40).
A igreja por séculos catalogou alguns pecados capitais, mas deu pouca importância ao individualismo. O cristão atual não pensa mais como parte de um corpo, ele tem pensado como únicos, individualistas e hedonistas, se importando mais com a placa da igreja ou com as suas necessidades, que com pessoas. E não confunda individualista com individual:
Individual: Que se refere a indivíduo ou a indivíduos.
Individualista: Posição de espírito oposta à solidariedade, a capacidade de poder existir separadamente.
Fico pensando o quanto a igreja poderia fazer se fosse mais unida, olhando o necessitado ou a pessoa diferente sem preconceitos ou reservas. Já é tempo de refletirmos e pensarmos que futuro buscamos para a igreja contemporânea, se realmente queremos fazer diferença ou não e sem união, isso não acontece.
Pedimos perdão por tantos pecados, mas esquecemos do pecado do individualismo, somos um corpo com Cristo como cabeça, já passou da hora de nos unirmos para fazermos diferença. Ai você me diz:
Cara, o discurso é até bonito mas é muito utópico, afinal, é impossível atender a tantos necessitados, é impossível fazer diferença ante tanto caos, mas uma das respostas que dou é:
Quem esta falando em resultados?
Não fomos chamados para dar resultados ou somar uma quantidade de almas alcançadas, muito menos chamados para somar indivíduos ajudados, fomos chamados para fazer, para pregar e servir. A outra resposta que dou não é nada original, peguei da Madre Teresa de Calcutá, quando foi indagada com uma pergunta semelhante.
“O que eu faço, é uma gota no meio de um oceano. Mas sem ela, o oceano será menor”.
BIBLIOGRAFIA
CARSON. DA. Comentário Bíblico Vida Nova. SÃO PAULO – SP, EDITORA VIDA NOVA, 2012.
CHAMPLIN, R.N; Novo Testamento interpretado versículo à versículo; 5 edição; São Paulo; Editora Hagnos; 2001.
CALVINO, João, As Institutas, Tratado da Religião Cristã, Editora Cultura Cristã, São Paulo.
BRUCE, FF, Comentário Bíblico NVI, Editora Vida nova, São Paulo, 2008.
Bíblia Sagrada – Bíblia de Jerusalém, Editora Paulus, São Paulo, 2008.
Bíblia Sagrada – Nova Tradução na Linguagem de Hoje; Ed. Soc. Bíblica do Brasil ; São Paulo; 2000.
Dicionário. (2009). Michaelis. Acesso em 05 de 06 de 2015, disponível em Michaelis: http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php?lingua=portugues-portugues&palavra=individual.
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