Públio Élio Trajano Adriano, mais conhecido apenas como Adriano, foi imperador romano de 117 a 138 d.C. Pertence à dinastia dos Antoninos, sendo considerado um dos chamados “cinco bons imperadores”. Em Roma, ele reconstruiu o Panteão e construiu o Templo de Vênus em Roma. Além de ser imperador, Adriano era um humanista. Durante seu reinado, Adriano viajou para quase todas as províncias do império. Um ardente admirador da Grécia, ele procurou fazer de Atenas a capital cultural do império e ordenou a construção de muitos templos opulentos na cidade. Adriano foi educado em vários assuntos específicos para jovens aristocratas do dia, e gostava tanto de aprender a literatura grega, que ele foi apelidado de Gréculo (“Pequeno Grego”).
Pois bem, conta-se que em certa ocasião, Terantius, capitão do exército de Adriano, apresentou ao imperador romano uma petição, na qual solicitava permissão para os cristãos construírem um templo. Adriano rasgou o documento em pedaços, atirou-o ao chão e disse a Terantius que seria melhor que pedisse algo para seu próprio benefício e seria atendido imediatamente. Terantius humildemente recolheu os pedaços de sua petição e disse: “Se não posso pedir nada para a causa do meu Deus, então nada quero pedir em meu favor”.
Nossa vida é construída com uma variedade de eventos e de diversos elementos. Diariamente temos que tomar decisões sobre o que fazer. E como só conseguimos fazer uma coisa de cada vez, temos que optar por prioridades. Pode ser algo tão sutil que seja quase imperceptível, mas quando fazemos determinada tarefa ou ação, optamos em deixar outra de lado, mesmo que seja temporariamente. Ou seja, naquele momento, aquela atividade torna-se mais importante do que outras. Podemos entender isso como sendo prioridade. Mesmo que não percebamos, nosso dia a dia está repleto de prioridades. Estabelecer prioridades é algo primário para que planejemos nosso dia a dia e até mesmo a vida. Há prioridades de curto, médio e longo prazo. É claro que não podemos ser reféns do planejamento da nossa vida, mas se nunca planejarmos nada, simplesmente não viveremos. Seremos jogados de um lado para outro conforme os ventos da vida.
Enquanto estabelecemos prioridades erradas nas nossas tarefas, o máximo que nos acontece são inconvenientes no dia a dia. Mas e se a inversão das prioridades alcançar questões mais sérias, como o direcionamento da vida? No exemplo de Terantius, percebemos algo interessante. Analisando esse episódio, percebemos claramente a prioridade que ele tinha; era Deus. Ele não pediu nada para o seu bem estar ou de seu interesse. Ele pensava em algo que fosse útil no Reino de Deus. Não conheço cada pessoa que irá acessar esse blog, mas imagino que a grande maioria do que acesse, tenha algum interesse ou alguma experiência com Deus. Tendo-se pelo menos uma noção do conceito de Deus segundo o cristianismo e por tudo que o podemos ler na Bíblia, não fica difícil entender que a prioridade de todo cristão deve ser Deus. Não é muito difícil encontrar pessoas que professam sua fé com a boca, mas a negam com sua vida. Isso é tão gritante que uma das figuras mais respeitadas da história, Mahatma Gandhi afirmou:
“Amo o cristianismo mas odeio os cristãos, pois eles não vivem segundo os ensinamentos de Cristo”
Ele estando certo ou errado em afirmar que odeia os cristãos, não podemos negar a parcela de verdade que encontramos nessa afirmação.
No evangelho de Mateus, capítulo 19 versículos 16 a 22, vemos uma conversa que Jesus teve com um homem que era rico e que perguntou ao Cristo o que deveria fazer para herdar a vida eterna, já que ele cumpria os mandamentos do judaísmo. Jesus, conhecendo o coração desse homem disse: “Se você quer ser perfeito, vá, venda os seus bens e dê o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro nos céus. Depois venha e siga-me”. (versículo 21). No versículo seguinte vemos que o jovem afastou-se triste, pois tinha muitos bens. Não sabemos o que aconteceu mais tarde com esse jovem, pois a Bíblia não relata mais nada de sua história. Mas nesse momento, quando teve o encontro mais importante da vida dele, com o próprio Messias, ele estabeleceu sua prioridade; optou por seus bens e sua vida. Optou em não mudar de vida e ficar com aquilo que já tinha.
Conheço muito bem o ambiente “igrejeiro” e na grande maioria das vezes em que se ouve um sermão ou um estudo sobre esse texto, esse jovem é duramente criticado, mas se esquece que a grande maioria dos cristãos tem essa atitude diariamente. Qual é a prioridade da tua vida? Todos os cristãos sabem da necessidade de uma vida aos pés da cruz para obter a graça da vida eterna. Mas, ao que parece, esse conceito transformou-se em algo tão ordinário, que não impacta mais ninguém, ou pelo menos, a grande minoria dos que se dizem cristãos. O comportamento padrão, ou a rotina do cristão, é mais ou menos a seguinte: ele trabalha a semana toda, vai a uma reunião de oração ou de pequenos grupos caseiros durante a semana, tenta-se fazer tudo certinho para ser um bom exemplo e não envergonhar o nome de Jesus. Nos finais de semana é família e igreja. Pronto, se eu cumprir essa agenda sou um bom cristão. Ter Deus como prioridade é muito mais profundo do que nunca perder um culto ou não envergonhar o nome de Cristo. Isso até que não é tão difícil assim.
Quando Jesus disse ao jovem rico para que ele vendesse seus bens, o ensinamento não era de que o dinheiro era o problema. Na carta que o apóstolo Paulo escreveu a Timóteo, ele afirmou que o amor ao dinheiro é a raiz dos problemas; não é o dinheiro em si, mas o valor que se dá ao dinheiro. Esse foi o caso do jovem rico. Jesus está trazendo um grande ensinamento de prioridade. Entregue tua vida a Deus e faça dele a tua prioridade. Essa foi a mensagem que Jesus trouxe ao jovem e é essa a mensagem que Deus tem para mim e para você. Não sei qual o valor do patrimônio desse jovem, mas vamos contextualizar esse acontecimento. Imaginemos uma pessoa no nosso país, em nossa época, com uma casa, no valor de uns 600 mil reais. Tem ainda um carro bonzinho que custa 50 mil e uma casa no litoral no valor de 300 mil. Ou seja, um patrimônio de 950 mil reais. Se Jesus disser para essa pessoa a mesma coisa que disse para aquele jovem e a atitude for a mesma, essa pessoa, mesmo que esteja sentada no banco de uma igreja, com sua atitude estará declarando que sua vida eterna não vale 950 mil reais. Pode parecer um tanto quando radical, mas é isso.
Qual a prioridade da tua vida? Quando falei de planos a curto médio e longo prazo, será que Deus é a razão desses planos? Você faz os planos para si mesmo, ou é como Terantius que queria investir suas forças para as coisas de Deus? Se não for assim, sugiro que você reavalie tuas prioridades. Particularmente acho que temos uma visão muito estreita acerca do Reino de Deus. Todos os cristãos sabem da existência da eternidade, mas parece que relativamente poucos a colocam como prioridade. Geralmente nosso olhar está no aqui e agora. O homem é cada vez mais imediatista e isso faz com que sua prioridade seja no plano terreno. É claro que ainda não vivemos na plenitude da eternidade. Vivemos a vida terrena, mas não podemos negar que a eternidade começa a ser vivida aqui nesse plano. Tudo o que vivemos ou deixamos de viver aqui, trará um impacto na eternidade. Não estou dizendo que não devemos comprar um carro legal, uma casa ou algo assim. Não precisamos passar pela vida vivendo um voto de pobreza. Mas qual o custo de tudo o que quero ter? Se isso me afastar de Deus, não devo investir nisso. De todos cristãos que você conhece, quantos investem pelo menos 1 hora por dia em sua vida com Deus? Trabalha-se 8 horas por dia, muitos ainda estudam outras 3 para se aperfeiçoar e ter uma vida melhor. E quanto tempo dedicamos a Deus? Estatísticas indicam que, no Brasil, 70% dos pastores tem a vida devocional inconsistente. O que esperar de uma igreja assim?
Acredito que a solução não seja repetir as atitudes dos monges que se isolavam da sociedade para viver para Deus. Acho que devemos viver o aqui e agora, com os olhos fitados na eternidade. Acredito que muitos cristãos vivem uma vida de frustração porque ainda não vivenciaram uma entrega total à Deus. Olhando para a Bíblia, não vejo nenhum dos personagens que esteja comprometido com Deus ter uma vida frustrada. As dificuldades existiram e existem para todos, mas eles transpiravam Deus. Eles faziam da própria vida um instrumento para trabalhar no Reino de Deus e isso os realizava. Isso sim é ter Deus como prioridade. Eles podiam aceitar o “título” de cristãos; será que nós podemos?
Mas a resposta de Jesus ao jovem rico não foi somente se desfazer dos bens. A resposta foi completada com o “siga-me”. A atitude de seguir a Cristo é a melhor forma que temos de colocá-lo como prioridade. Segui-lo é desistir dos nossos caminhos e deixar que ele nos leve para onde ela achar melhor. Parece ser algo muito óbvio; na realidade é, mas não é tão fácil de ser vivido. É abrir mão de todos os sonhos que temos assim como da própria vida. Colocar Deus como a prioridade é algo que deve ser vivido a cada momento. A cada circunstância da vida devemos olhar para nossa lista de prioridades e ver onde Deus se encaixa dela. Perder-se pelo caminho é muito fácil. A Sutileza é uma das maiores armas do inimigo. Seja prudente, sábio e atento para não vender tua vida eterna por meros 950 mil reais. Se trocar a eternidade pela vida terrena fosse uma decisão acertada, o jovem rico não teria saído triste da conversa que teve com Cristo. O modo pelo qual você administra tuas prioridades declara quanto que você vale para si mesmo.
