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CONDENANDO O DIFERENTE
“Um dos aspectos da barbárie europeia foi chamar de bárbaro o outro o diferente, em vez de celebrar essa diferença e de ver nela uma ocasião de enriquecimento do conhecimento e da relação entre humanos” (MORIN, 2005, p. 51).
No contexto cristão no qual eu cresci, era comum vermos o diferente ser demonizado. O pior era que em muitos casos, se o pastor fosse um pouco mais sábio e procurasse ouvir e entender o mínimo que fosse, a sua dúvida já seria sanada, e ele veria o seu erro de julgamento, coisa que raramente acontecia.
Nesta época eu vi a música ser condenada, pelo menos alguns estilos musicais, enquanto outros, que curiosamente estava dentro do gosto pessoal do pastor, seguia sento santo, e com o aval do líder. Isso sem contar com as críticas quanto as roupas, estilos de cabelos e tantas outras coisas que o pastor não gostava, ou não entendia, e acabava condenando.
Na Europa, durante a inquisição, o diferente, as coisas que o “santo clero” não entendia, eram condenadas, o preço era a própria vida. Tais atitudes não só revelavam a barbárie, mas também a falta de inteligência e reflexão das pessoas que acabavam condenando qualquer coisa que não entendiam, revelando que o nosso mundo nunca muda.
As vezes o diferente é apenas diferente, é algo que não entendemos. Não dá para condenar práticas e culturas no qual não temos qualquer tipo de informação.
A missão de sermos cristãos relevantes, envolve não sermos precipitado e seguirmos sendo inteligentes o bastante para dialogar, pesquisar e procurar entender antes de falar.
O precipitado não reflete, ele fala sem saber e segue já condenando, ser dar espaço para a conversa ou a pesquisa, ou pior, segue tendo como base informações equivocadas e sem sentido, bem distante da verdade.
No livro que eu tirei a citação, foi triste constatar como algumas pessoas sofreram por serem diferentes. Alguns dos povos narrados pelo autor, como os judeus, por exemplo, eram vistos com conceitos totalmente errados, pontos de vista construídos através de escritores, personagens caricatos ou notícias equivocadas. Sendo que eles, e muitos outros, sofreram muito por conta disso. O curioso é que o diferente é sempre o outro, nunca é a pessoa que olha.
É preciso ver além do nosso ponto, é preciso olhar, por traz do que achamos, encontrando as verdadeiras explicações, deixando nossas opções ou pontos de vista de lado.
Não podemos condenar o diferente, precisamos separar o que é errado, do que não é compreendido, as vezes determinadas coisas são só desconhecidas, apenas isso…
BIBLIOGRAFIA
MORIN, Edgar, Cultura e barbárie europeias, Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 2005.
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A VOLTA DE CRISTO
“O retorno é totalmente imprevisível. Haverá guerras e rumores de guerras e todo o tipo de catástrofes, como sempre houve” (LEWIS, 2018, p. 129).
Alguns cristãos insistem em tentar prever o dia no qual Cristo vai voltar. Com isso é normal ver eles pegarem fatos e distorcerem, tentando assim encaixar em suas previsões. O problema é que isso não dá para fazer, sem antes cometer inúmeros equívocos. Durante catástrofes ou pandemias é normal ver alguém tentar prever a volta, ou pelo menos seguir semeando o caos e a confusão, como se com isso fosse fazer a diferença como cristãos.
O mundo é um caos e a história nos mostra que ele sempre foi assim. Não tem como olhar para os fatos e prever a volta, pois os fatos evidenciam justamente que não dá para prever.
Se olharmos para a história com cuidado sempre houveram pandemias, pestes, guerras e catástrofes naturais. O mundo nunca foi de paz, onde tem ser humano, sempre vai haver caos, a diferença apenas é que hoje sabemos dos fatos em tempo real.
Concordo com Lewis quando ele afirma, de acordo com a citação, que no fim o retorno é imprevisível. Pois são tantos sinais, que os sinais acabam apontando para o nada. Não tem como saber, não tem como prever ou adivinhar a data e o horário da volta de Cristo.
A igreja tem proclamado esta volta há anos, não é de hoje que ela prega o retorno, porém, sem sinal algum de volta. Creio que a ênfase do cristão não deveria ser a volta, e sim, a vida, como vivemos como cristãos aqui na terra.
Precisamos estar sim preparados para a volta, contudo, mais do que isso, precisamos viver como se Cristo fosse voltar daqui a pouco, pois no fim, podemos morrer, com isso, se não estivermos preparados, pereceremos de igual modo.
Pregue a vida, dissemine a palavra, seja luz e sal no mundo, é assim que vamos ser diferença. Pouco importa pregar a volta, se não pregamos o Cristo, ou o mínimo a mensagem que ele nos deixou.
Creio que faz pouco efeito quando pregamos o retorno de Cristo, mas não ensinamos a palavra, não pontuamos com a Bíblia, o que é ser cristão.
Penso que no final, este tipo de pregação apenas revela como as pessoas preferem propagar histórias, por não conhecer a Bíblia, ao invés de propagar a mensagem da cruz, que requer conhecimento e intimidade com a palavra.
A volta é imprevisível, não tem como sabermos, sendo que amanhã podemos morrer, como o ciclo natural da vida nos mostra, com isso, o melhor caminho é estar preparado, que nos mais, é só aguardarmos a vontade soberana de Deus.
Bruno Wedel.
BIBLIOGRAFIA
LEWIS, C. S, A última noite do mundo, Editora Thomas Nelson Brasil, Rio de Janeiro, 2018.
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O PERIGO DO AUTOENGANO
“Por mais paradoxal que pareça, achamos que a vida tem sentido só depois de ver que ela não tem propósito, e conhecemos o “mistério do universo” só depois de nos convencermos que não sabemos absolutamente nada sobre ele” (WATTS, 2017, p. 40).
Existe um perigo muito maior que ficar preso em um ciclo de alienação, por pura falta de conhecimento, e é acreditar que sabemos e ficarmos mergulhados em conceitos equivocados. O caminho da coerência é sempre mais difícil, ele não é tão iluminado e quase sempre é de difícil acesso.
O homem é mestre em se enganar, e este é uma das suas grandes sinas, achar que sabe quem é, quando definitivamente, em uma altura da vida, ele vai descobrir que não sabe, isso quando descobre.
Por conta de pontos de vistas, crenças e valores pessoais, muitos discutem, humilham e ofendem os outros, crendo ser a voz da verdade, o arauto da sabedoria e do conhecimento, o inerrante e mais divino homem que já pisou na terra.
É preciso entender que no final, todos nós somos ignorantes em um ou outro assunto. E caso, nobre leitor, você possua o sentimento de que sabes de tudo, sinto muito em informar-lhe, mas provavelmente você tem esta sensação por não saber de nada. Quem sabe alguma coisa amigo, entende ou tem alguma ideia de sua ignorância, por saber que o conhecimento é inesgotável. Já quem acha que sabe, está apenas na superfície, caminhando no raso, mas se imaginando no fundo, de posse de todo o conhecimento e de toda a verdade.
É preciso entender nossa ignorância, é importante duvidar e muitas vezes rever nossos pontos de vista para que assim possamos crescer. Só aprende quem quer, quem se abre e entende que é possível estarmos errados.
É totalmente normal e até constante não vermos o todo, ou enxergarmos apenas as coisas que queremos ver. O próprio fato de termos uma área de estudo, trabalho ou gostos pessoais, nos faz ignorantes de inúmeras coisas que não nos interessa, mas que pode ser também muito importante saber.
A grande sabedoria é confessar a nossa ignorância e entender que podemos estar errados, é preciso pelo menos colocar isso como possibilidade. E precisamos entender que menosprezar os outros, por acreditarmos saber mais, é pura arrogância, é um puro e profundo sentimento de superioridade, uma superioridade maldita e totalmente falsa, que nos destrói.
É libertador largar o controle e confessar que não sabemos de tudo, é possível ter uma sensação de total alívio quando você se coloca como aprendiz e professor. Entendendo que podemos ensinar sim, afinal, temos os nossos conhecimentos, mas também é possível aprender, sempre e a qualquer hora e com qualquer pessoa.
Quando admitimos as complexidades da vida ou entendemos que existem inúmeras coisas complexas para se saber, e principalmente, que nem tudo conseguimos saber, seguimos mais humildes, entendendo nosso lugar na terra e percebendo que o grande saber é entender que não sabemos. É a partir deste ponto que passamos a aprender.
BIBLIOGRAFIA
WATTS, Alan, A sabedoria da insegurança: como sobreviver na era da ansiedade, Editora Alaúde, São Paulo, 2017.
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NÃO SE GUIE PELA EXCEÇÃO
Aos poucos vamos aprendendo a pontuar nossos equívocos, a tomar atitudes mais assertivas e menos dolorosas. Em minha vida aprendi a transformar os problemas em desafios, a me preocupar com o que eu posso resolver e a tentar esquecer o que não tem solução. É inevitável não nos incomodar, mas é possível alinhar as nossas preocupações para que não sucumbamos ante o caos da vida. O excesso de preocupação nos derruba, mas quando aprendemos a dar prioridade as coisas certas, crescemos, resolvemos os problemas e aprendemos de uma forma mais tranquila e menos pilhada.
Em um belo dia um amigo me convidou para uma reunião, chegando lá fui recebido com música, palmas, um grande número de pessoas gentis e muito bem educadas. O ambiente era confortável e climatizado, a palestra motivadora e revigorante. Cheguei e ficar alegre e bem disposto. O propósito da palestra era vender um produto que fazia com que você recuperasse seu investimento, um bocado alto, em muito pouco tempo.
O curioso era que enquanto o palestrante ia dando as margens de lucro e mostrando como era fácil ganhar dinheiro, ele ia chamando pessoas para testemunhar as suas vitórias. Eu, é claro, não embarquei nessa, tenho um pé atrás com dinheiro fácil.
Uma das coisas que eu tenho tentado eliminar da minha vida é não me guiar pela exceção, uma atitude que tomamos de forma automática e constante. A pergunta talvez surja é: O que seria isso?
Exceção são casos vendidos as pessoas como se fossem regras, conceitos que são vendidos como se funcionasse para todos. Um bom exemplo de exceção que é vendido como regra é a Loteria.
Todo mundo joga na Loteria mesmo que os próprios cálculos matemáticos nos mostrem que é um ou no máximo meia dúzia que vão ganhar o prêmio. Este tipo de negócio não funciona, mas é vendido como se funcionasse, com isso, milhões são arrecadados, enquanto poucos são os que ganham. O pior é que tem gente que fala que quem não joga não ganha, mesmo que ele nunca tenha ganhado na vida, uma frase que resume bem o modo alienado de pensar de alguns.
O caso da palestra em que eu fui é igual, os meus amigos que entraram no negócio só perderam dinheiro, acharam que iam conseguir só porque uma meia dúzia de pessoas conseguiram, no fim, perderam muita grana como a matemática já previa.
O grande problema é que sempre achamos que vamos conseguir, acreditamos em nosso potencial, sorte ou anjo mágico, onde no fim quebramos a cara. É claro que um jogo não nos traz um problema financeiro, no máximo uma decepção, conquanto algumas empreitadas nos prejudicam de verdade, principalmente estas com investimentos altos. A pergunta que fica é como identificar exceções que são vendidas como regras? Já aviso que não é fácil, mas eu tenho duas dicas que podem ajudar.
Primeiro, desconfie de formulas milagrosas, não existe dinheiro fácil, o trabalho e o suor é o caminho mais fácil e seguro para ganhar dinheiro, nunca se esqueça disso. E por mais que alguns tenham conseguido, estes, é claro, são as exceções vendidas como regras, para conquistar gente que acha que a vida é fácil. E o exemplo não serve só para dinheiro, pode servir para estudo, tratamento médico, ou o que quer que seja. Não existe caminho fácil para o êxito.
Segundo, pesquise a fórmula com calma, não tome decisões precipitadas. Preste atenção se não há exceções, casos de fracassos e verifique a proposta com calma. Se muitos já reclamaram, desconfie, ou entre no projeto já preparado.
Neste projeto no qual eu fui convidado, eu tinha que decidir naquele dia, não podia pensar, refletir, nada, era pegar ou largar. Optei por largar, pois tenho uma máxima em minha vida: “Eu não tomo decisões precipitadas”. Se eu não posso pensar com calma antes de decidir, a minha resposta na maioria das vezes é não.
A exceção não é a regra, por isso, antes de entrar em algo, veja se a empreitada não é uma exceção. Entenda o projeto, e veja se existe base firme para a sustentação. Não compre exceção por regra, entenda as variantes, e aprenda a identificar as exceções que são tratadas como regra.
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RESPOSTAS PRONTAS
O que mais me deixa indignado ultimamente é com a incrível capacidade que muitos têm em aceitar respostas prontas. E este fenômeno se dá tanto no âmbito cristão quanto no não cristão. Frases prontas, superficialidade, conceitos plásticos proferidos sem ao menos uma reflexão, são vistos aos milhões neste nosso mundão.
Eu não sei o que se passa na cabeça de muitos que insistem em ouvir seus pastores sem conferir na palavra, sem ler e se informar mais. Virando crentes que não aprendem, apenas repetem frases.
Na faculdade, quando falávamos no que acreditávamos, o professor de filosofia (tinha que ser) perguntava: Por que? Era automático, porém a resposta nem sempre também era, muitos não sabiam explicar o porquê acreditavam no que acreditavam e seguiam gaguejando.
O curioso é que Cristo, a quem imitamos, tinha um comportamento totalmente oposto ao que vemos muitas vezes na igreja. Suas reflexões, seus ensinos, sua forma de receber pessoas excluídas era totalmente fora dos moldes da religião hipócrita que existia naquela época e também hoje, suas respostas não eram prontas e pré-fabricadas, sua vida era simples e legítima, nada do que vemos por aí. Gosto de uma citação de Carlos Queiroz que resume bem o é ser cristão:
“O discípulo de Jesus não carrega sobre si a imagem de religioso, nem é, ao mesmo tempo, um publicano ou gentio. Seu estilo de vida deve romper com a superficialidade da religião e a futilidade do não religioso. Por isso é mal compreendido pelos religiosos e não aceito pelos não religiosos” (QUEIROZ, 2006, pg 35, 36)
Ser um discípulo de Cristo não é ter respostas prontas, ou apenas decorar alguns versículos, é imitar seus ensinos, é servir, a lógica do reino é invertida, o maior serve o menor. Ser um imitador de Jesus não é apenas decorar alguns versículos ou ler a Bíblia em um ano, mas é buscas entender, estudar e aplicar a palavra como um todo.
Quem dá respostas prontas é horóscopo, o cristão estuda a palavra e se aprofunda no ensino.
Devemos aprender a ter um senso crítico e não engolir qualquer coisa sem refletir, mas para isso, temos que entender a palavra. Quem não conhece fica no escuro, engole qualquer coisa e segue imitando ensinos equivocados.
BIBLIOGRAFIA
QUEIROZ, Carlos, Ser é o Bastante, Felicidade à Luz do Sermão do Monte, Editora Encontro, Curitiba, Editora Ultimato, Minas Gerais, 2006
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O PROBLEMA DAS CERTEZAS
“O que nos causa problemas não é o que sabemos. É o que temos certeza que sabemos e que, ao final, não é verdade” (Mark Twain) (PETERSON, 2018, p. 12).
Quando eu era novo, eu gostava muito de fazer trilhas, e em uma das primeiras vezes que eu fui, fomos guiados por alguém que tinha certeza do caminho. Ele já havia feito a trilha muitas vezes, e não tinha dúvida alguma de como fazer para chegar ao final do percurso. A questão foi que nos perdemos. O local havia mudado muito desde a última vez que ele havia ido, com isso, ele não conseguiu identificar o caminho correto e tivemos um grande trabalho para achar a trilha novamente.
Normalmente pegamos alguns caminhos equivocados, justamente por termos certeza. São as certezas que nos movem, e em alguns casos, nos colocam em confusões. Principalmente porque quando temos certeza, ouvimos pouco as pessoas, sendo esta a receita do fracasso, “ouvir pouco e seguir nossos pontos de vista”.
A certeza nos ensurdece, faz com que não prestemos atenção em volta, nos sinais de aviso, nas orientações ou placas de perigo. É claro que é também pela certeza que fazemos muitas coisas boas, embora seja por ela, que nos metemos em grandes confusões.
A questão é que nem sempre estamos certos, nem sempre a nossa certeza é coerente, às vezes ela é fruto de pontos de vistas equivocados, sem comprovações ou estudos.
Aprendi a ouvir as pessoas, a vida nos ensina que não custa nada prestar atenção em dicas, sugestões, ou opiniões, mesmo em áreas que conhecemos.
É sempre possível ouvir um modo novo de fazer as mesmas coisas, aprender outros caminhos que levam na mesma direção, ou até mesmo, descobrir que estamos errados.
Creio que uma das características da pessoa inteligente é a sua capacidade de aprender com tudo e com todos. Sendo que para que isso aconteça, é preciso ter humildade suficiente para ouvir o próximo, para prestar atenção nos detalhes da vida.
Eu sou músico, e em todas as vezes que fui gravar um CD da minha banda, o Hawthorn, eu sempre procurei gravar com um produtor. É claro que eu sabia o que estava fazendo, é claro também que eu conhecia muito bem o estilo musical que eu tocava, mas é sempre importante ouvir outras opiniões. As vezes mergulhamos tanto em uma coisa, que não percebemos mais os detalhes e o quanto determinada coisa pode ser melhorada.
Não é certeza que ouvir uma pessoa vá te ajudar, mas não custa. Aprenda a ouvir, refletir sobre o que é dito, para depois tomar uma decisão. As vezes não percebemos nossas contradições, e ao ouvirmos alguém, podemos perceber algo que estava em nossa frente, mas não víamos, nem sempre nossas contradições são óbvias para nós.
Cuidado com as suas certezas, elas podem estar equivocadas, aprenda a ouvir e meditar no que é dito. E principalmente, aprenda a se conhecer, se reciclar, e rever o que você conhece a cada dia, sempre que for possível. Na pior das hipóteses, você vai aprender mais, ou reafirmar o que você já sabe.
BIBLIOGRAFIA
PETERSON, Jordan. B, 12 regras para a vida: Um antídoto para o caos, Alta Books Editora, Rio de Janeiro, 2018.
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O LIMITE DOS DESAFIOS
“O prazer surge na fronteira entre o tédio e a ansiedade, quando os desafios estão equilibrados com a capacidade da pessoa de agir” (Mihaly Csikszentmihaly) (CAIN, 2012, p. 115).
Desafios são ótimos, pois nos tiram da zona de conforto, nos movimentando e fazendo com que possamos crescer e aprender ainda mais. Faz com que olhemos para o lado, onde antes, no aconchego da nossa estagnação, nunca nos prestaríamos a olhar, e isso nos dá a oportunidade de conhecermos coisas novas e assim aprendermos ainda mais.
Sempre gostei de desafios, já faz algum tempo que vejo os problemas desta forma, o impasse é quando os problemas são grandes demais, quando os desafios são insustentáveis e difíceis de encarar.
Tudo o que é demais faz mal, tudo o que nos leva ao limite, com certeza nos trará consequências desastrosas, por isso, é fundamental entendermos o quanto podemos suportar, e assim, ir em busca de ajuda, apoio e ferramentas para lidar com os problemas. Nunca permita que você chegue no limite, tente sempre agir antes que este limite apareça. E acima de tudo, não siga sozinho, crendo que você vai conseguir resolver por si mesmo um problema, pois esta não é uma saída razoável.
O ideal, pelo menos quando é possível, é aceitarmos apenas desafios possíveis, é aprender a resolver um problema de cada vez, para assim, não seguirmos rumo ao colapso.
É claro que as vezes não podemos escolher, mas caso você possa, entenda estes princípios, e se for preciso, desista antes de quebrar. Muitas vezes desistir não é perder, ao contrário, é saber os seus limites, e priorizar a sua saúde e sanidade, ao invés de seguir de forma inconsequente e ter que lidar com problemas ainda maiores.
É claro que em um desafio, é preciso primeiro entender quem somos, o quanto resistimos, e o quanto sabemos lidar com as diversas situações adversas. A busca de autoconhecimento é imprescindível para estes casos. E depois, é preciso entender se não estamos desistindo na hora errada, ou se não estamos
deixando o problema ainda maior. As vezes nos acovardamos por medo no novo, do diferente ou do que não conhecemos. Contudo não existe fórmula, é na tentativa e erro, buscando sempre amigos verdadeiros, que nestas horas, nos ajudam e nos aconselham.Precisamos aprender a sermos resilientes, só vencemos o temporal sendo equilibrados e flexíveis. A questão é que até o elástico tem o seu limite, por isso, tome cuidado e entenda quem você é primeiro antes de querer testar até onde você aguenta ir.
BIBLIOGRAFIA
CAIN, Susan. O poder dos quietos: Como os tímidos e introvertidos podem mudar um mundo que não para de falar. Rio de Janeiro: Editora Agir, 2012.
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CRISTIANISMO LÍQUIDO
Zygmunt Bauman, famoso sociólogo, escritor e professor lançou uma série de livros analisando o comportamento da geração atual e o impacto que ele causa na sociedade. Em seu livro mais famoso chamado Amor Líquido o autor analisa as relações pessoais e mostra quais são as diferenças vistas em cada geração. Bauman chega em uma conclusão muito interessante: “Os relacionamentos de hoje não são sólidos”.
Falar de relacionamentos é também falar de cristianismo. A comunhão e os relacionamentos, bem como o amor, que leva os cristãos a se relacionarem, são o cerne do evangelho. Para isso, é importante sabermos qual tipo de amor é o nosso. Por isso que a pergunta que eu faço é justamente esta: Qual é a sua concepção de amor? É um sentimento ou uma ação? É um se doar diário, ou um eterno esperar por retribuição? São estas linhas de visões que diferem o amor líquido, do amor sólido. O conceito de amor líquido tem este nome porque muitos dos relacionamentos de hoje não são sólidos, são impossíveis de pegar, tal qual a água.
A igreja também não esta muito longe deste fenômeno, o evangelho, que deveria estar sendo palpável, sal e luz, está cada vez mais parecido com um brilho tímido e apagado, ou um temperinho que não mais salga, ao invés de um posicionamento que realmente faça diferença.
Eu tenho visto uma igreja que quer ser servida, tenho conhecido cristãos que não se importam mais em estudar e conhecer a Bíblia, e a oração é feita apenas antes das refeições.
Segundo estes cristãos é pecado beber, ter amigos não cristãos, ou usar uma roupa diferente. Mas se fechar em suas quatro paredes, ouvir cegamente o pastor sem ao menos conferir na Bíblia e desprezar algumas pessoas por não serem cristãs, não é errado.
Eu tinha um colega de trabalho cristão que vivia me falando besteiras, e entre algumas delas ele falou: Não sei por que você estuda tanto a Bíblia, acredito que se o nosso pastor tem o cargo de pastor, é porque ele sabe das coisas, eu não preciso duvidar.
Por conta de tamanha ignorância, eu nem soube responder, optei por ficar calado. Afinal, se alguém não se interessa em aprender a Bíblia por sua própria vontade, não sei porque o cara perde tempo ouvindo alguém.
A Bíblia é enfática quando diz que devemos examinar as escrituras (João 5:39). Cristo foi duro com os Saduceus quando falou que eles erravam por não conhecerem as escrituras (Marcos 12:24), isso sem contar que ela é nossa lâmpada e a nossa luz para a caminhada (Salmos 119:105) entre tantas funções.
O seu cristianismo é sólido ou líquido? Sua busca por Deus tem como base a palavra de Deus, ou a do pastor? Você só ora na igreja, ou tem (ou pelo menos tenta ter) uma vida de oração em casa?
É isso que vai diferenciar a vida dos cristãos líquidos dos que não são. Estudar a Bíblia, e buscar a Deus são ferramentas necessárias para ser um cristão sólido. Para quando o caos chegar, você não evapore com os conceitos do mundo.
O cristianismo sólido edifica, o cristianismo líquido seca, evapora e nunca é visto na vida das pessoas. O cristianismo sólido faz a diferença, o líquido ocupa espaço e não traz significado algum ao próximo. Resta saber quais das duas categorias você quer estar.
BIBLIOGRAFIA
BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2004.
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A METAMORFOSE DE KAFKA
Imagine se um dia você acordasse e percebesse que estaria virando um inseto. Com braços a mais, antenas e voz estranha. Este é o enredo do livro “A metamorfose” de Kafka, um livro muito mais que surpreendente, não só pela história, mas por todas as lições que o livro propõe.
O livro já começa com a transformação, como se o autor, economizando suspense, já fosse gastando novidades sobre a história. Contudo, isso não é o principal do texto, a parte central é a história da família e o quanto ela é dependente daquele filho.
O filho inseto é o que sustenta os seus pais e a irmã. O texto enfatiza bem como o trabalho dele mantém tudo, enquanto a família segue dependente por conta de várias desculpas. A parte surpreendente é ver ele passar de provedor, para um inseto asqueroso sem ao menos saber como tudo aconteceu.
O surreal da transformação de Gregor, que é o metamorfoseado, é a sua preocupação com o trabalho, mesmo estando em um estado lastimável. Mostrando que as vezes temos prioridades totalmente invertidas.
No decorrer da história, conforme o filho seguia piorando cada vez mais, vemos concomitantemente uma família ressuscitando, deixando de lado as desculpas e arregaçando as mangas. O pai arranja um trabalho, os outros começam a correr atrás e a se unirem no propósito de sobreviver, enquanto o filho sucumbia a maldição dia após dia.
É normal o homem se acomodar, se prender a desculpas e seguir dependente, seja de alguém, ou de um emprego que não proporciona qualquer perspectiva. A questão é que quando os problemas chegam, nos obrigam a nos mexer, a correr atrás e buscar novas soluções.
A Metamorfose é a história de duas transformações, a primeira, de um filho com uma espécie de maldição e a segunda, de uma família que diante do caos, precisou se virar.
O livro é uma metáfora do caos, do quanto os problemas nos ajudam, nos tiram do comodismo fazendo com que tenhamos que nos movimentar em busca de soluções. Mas também é uma metáfora sobre o sofrimento, como ele surge sem sabermos e nos deixa paralisados, sem ação.
Nem sempre o caos é ruim, em algumas vezes é somente nos períodos difíceis que vemos como estamos fazendo as escolhas erradas. Contudo, o caos também nos pega de surpresa e muda toda a nossa vida.
O livro mostra justamente a ambiguidade do sofrimento, o quanto ele é ambivalente e imprevisível. Penso que é difícil explicar o livro, assim como é difícil explicar o sofrimento, pois ele vai ser sempre ambíguo e dependente da ação e de um posicionamento do sofredor.
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ANTI-INTELECTUALISMO NA IGREJA
Em algumas igrejas cristãs, o anti-intelectualismo é muito comum. Não é raro ouvirmos que “a letra mata, mas o espírito vivifica”, citado de forma totalmente descontextualizada e com uma interpretação totalmente equivocada de Segunda Epístola aos Coríntios 3:3, como se o texto nos avisasse que não precisamos estudar a Bíblia, ou que o conhecimento intelectual mata a fé.
Crer nunca foi desligado do pensar, orar e buscar em Deus a iluminação e a sabedoria não nos isenta de estudar e procurar conhecer a palavra, ou algumas ferramentas de interpretação bíblica. Entenda que Deus nos fez seres racionais, indivíduos pensantes, ao contrário dos animais, que vivem por instinto:
“Deus fez o homem à própria imagem, e uma das mais nobres características da semelhança divina é a capacidade do homem de pensar” (STOTT, 2012, p. 29).
Fomos criados para pensar, com isso, é totalmente contraditório achar que ser cristão é ser algo oposto ao modo como Deus nos criou.
Paulo usou o seu conhecimento da cultura grega para pregar no Areópago. Jesus usou do seu conhecimento bíblico para rebater as tentações no deserto e a Bíblia toda é recheada de orientações que falam de aprender, conhecer e estudar.
No fim, o que acho é que muitos cristãos têm preguiça e, para justificar a sua falta de comprometimento com o estudo, eles acabam por demonizar o estudo e enfatizar somente a oração.
Jonh Sttot enfatiza o modo racional de como o evangelho chegou até nós, mostrando a contradição que é achar que o pensar também não faz parte da vida cristã:
“Deus se revelou por meio de palavras direcionadas a mentes. A revelação é uma revelação racional para criaturas racionais” (STOTT, 2012, p. 35).
Ser cristão é com certeza orar, buscar a Deus e ter intimidade com Ele, mas também é gastar um tempo entendendo a Sua palavra e também o mundo ao nosso redor, para que, como Paulo, no Areópago (Atos 17:15-34), possamos transmitir a mensagem com sabedoria.
Crer e pensar é tão importante quanto ter fé. Só ensina quem sabe, só auxilia o próximo quem tem vida com Deus e conhecimento. Caso contrário, seguiremos ensinando coisas que a Bíblia não ensina, como temos visto nas igrejas.
BIBLIOGRAFIA
STOTT, John. Crer é também pensar. São Paulo: ABU Editora, 2012.
