Início

  • JORNADA CRISTÃ 9: FILOSOFIA CRÍTICA

    Em uma altura da minha rotina acadêmica, quando eu já estava lendo e estudando muito, comecei a ter a necessidade de conhecer ainda mais autores. E como os meus passos na filosofia ainda eram curtos, empreendi uma busca para conhecer escritores novos. Com isso, mesclei a leitura de clássicos da filosofia antiga, com autores contemporâneos, com isso, inevitavelmente cheguei em Roger Scruton.

    Os dois livros que eu gosto do autor é “O rosto de Deus”, que fala sobre o lugar que Deus ocupa no mundo, enfatizando como a crença em Deus é muitas vezes considerada como sinal de imaturidade. E o segundo é “As vantagens do pessimismo: e o perigo da falsa esperança”, onde o autor faz uma crítica a um falso otimismo, e muitas formas de pensar, que tem como base um sentimentalismo tóxico e falso.

    É um livro para você discordar, sem peso na consciência, não somos obrigados a concordar com tudo, porém é de leitura obrigatória. As críticas que o autor faz são ácidas e certeiras, nos faz pensar e ver o mundo com outras lentes.

    No livro o autor faz uma crítica a um tipo de otimista que ele denomina de otimistas inescrupulosos. Indivíduos que possuem uma visão de mundo limitada, sem senso crítico e base. Na maioria das vezes, estas pessoas seguem otimistas, colocando seus planos em prática, contudo, sem o mínimo de reflexão ou de pensar nas consequências dos seus fracassos e tendo em mente apenas o resultado. Scruton complementa, falando deste tipo de otimista pontuando que:

    “Os otimistas inescrupulosos, cuja visão de mundo baseada em objetivos reconhece apenas os obstáculos, mas nunca as limitações, estão sozinhos no mundo. Sua alegria é apenas superficial, uma máscara que esconde uma inquietação profunda, com receio de que a base de sustentação de suas ilusões deixe de apoiá-los” (SCRUTON, 2015, p. 40).

    É preciso ter pé no chão, pois ser otimista, não é ser alguém que não reflete, que não pensa nas possibilidades de fracasso e não se prepara para lidar com as suas limitações. Uma coisa é ser otimista, outra é ser impulsivo, que segue fazendo as coisas sem pensar e refletir. Em oposição aos otimistas inescrupulosos, ele fala dos otimistas escrupulosos, que são aqueles que são críticos, que sabem lidar com suas limitações, e buscam ajustar a sua vida a elas.

    O livro faz muitas outras críticas, seja a crítica a alguns tipos de visões de sociedade, de modelo de ensino e de política, usando sempre palavras coesas, e conteúdos bem embasados.

    Vale a pena ler, o autor é lúcido e coerente, e usa o pessimismo na dose certa, nos ensinando a ter um pouco de pé no chão, mostrando como uma dose de pessimismo em nossa vida é fundamental.

    BIBLIOGRAFIA

    SCRUTON, Roger, As vantagens do pessimismo: e o perigo da falsa esperança, É Realizações, São Paulo, 2015.

  • ARGUMENTOS SUBJETIVOS

    De tempos em tempos algumas notícias polêmicas vêm à tona, e viram alvos de debates e discussões. Como a internet ampliou a oportunidade do debate, qualquer um pode opinar e dar o seu ponto de vista, o resultado disso são os argumentos mais pobres, simplistas e complicados que podemos ver.

    Não que eu seja contra esta oportunidade que a internet nos dá. É bom poder opinar, poder expor nosso ponto de vista e dar a nossa opinião, como estou fazendo agora. E sim que, muitos destes que opinam, não enxergam todas as falhas dos seus argumentos. Por conta disso, pontos de vistas, dos mais subjetivos surgem.

    Ao falarmos de aborto, por exemplo, é comum alguns justificarem a sua posição favorável, afirmando que defendem o aborto, porque os pais abandonam os seus filhos. Em uma conclusão totalmente sem coerência e reflexão.

    Abandonar o filho é um dos atos mais covardes que um homem pode ter, assim como a alienação parental, de mulheres que não permitem o marido de ver seus filhos, mesmo que ele esteja cumprindo com o seu papel de pai. São dois problemas, o aborto e o abandono de filhos, e um não é argumento para o outro. Isso sem contar que em alguns casos, o argumentador generaliza um problema, como se todo o homem abandonasse o filho, batesse em suas esposas e por aí vai.

    Dentro da igreja temos exemplos parecidos, de cristãos que transformam a sua experiência com Deus em regra. Como se aquilo fosse norma para Deus agir. Com isso, ensinos que são opostos a Bíblia surgem, sem qualquer base e fundamentos, tendo como ponto de partida, argumentos subjetivos, que não possuem qualquer coerência.

    Muitos justificam as suas crenças, com frases que carecem de coerência e o mínimo de base. Moldando a Bíblia a seus pontos de vista e a sua opinião. A palavra de Deus nos pontos fundamentais já é clara por si mesma. E ela existe para nos ensinar, e fazer com que a nossa vida esteja totalmente centrada na vontade de Deus. Você não deve ler só o que gosta na Bíblia, e sim estudar ela toda, aceitar seus ensinos e moldar a sua vida, conforme a vontade de Deus e não a sua própria.

    Argumentar é apresentar ideias, fatos e provas de algo, e em caso de discordância, ou de falta de fundamento é importante não justificar um ponto de vista com casos isolados, que são exceções ou com problemas, que não fazem parte do assunto.

    Ao refletir em um ponto de vista, é importante pensar naquele argumento, e refletir sobre ele. Sem generalizar, sem usar exemplos fora do contexto no qual você defende. E caso você seja uma pessoa relevante, pense em seu ponto de vista com uma atitude verdadeira, sem esconder os pontos fracos e contraditórios, para assim, propor uma reflexão centrada e com alguma base.

    O argumento subjetivo serve para justificar algo que não tem justificativa. Ele é uma fábrica de provas, com o intuito de militar e defender algo que possui muita contradição.

    Muitos simplificam problemas, alguns possuem o poder de não enxergar as variantes de uma situação e não refletir sobre as consequências da sua opinião.

    Os argumentos subjetivos não têm como fundamento a verdade, muito menos a pesquisa. E sim, achismos, impulsos e sentimentos. O bom argumento vem da reflexão e da busca pela verdade, doa a quem doer. Pois amigo, muitas vezes ao irmos em busca da verdade, de forma verdadeira e sincera, descobrimos que estamos errados.

    Eu desconfio de quem não desconfia de si, de quem não tem medo de se enganar, e que acredita que o seu ponto de vista é inerrante. Um bom pensador desconfia, e sempre revê as suas opiniões. Ele em nome da relevância, não demora em refletir no que está sendo dito, colocando em xeque sempre a sua opinião.

    Precisamos entender a nossa possibilidade em falhar, e aprender a nos posicionar diante deste fato. É importante saber argumentar, e refletir, buscando sempre a coerência, sem o intuito de querer estar apenas certo.

    Quem quer estar sempre certo, já errou, por se posicionar como a fonte da verdade. Sendo que estes na maioria das vezes estão errados. Pois, quando vemos apenas o que queremos, nesse caso, o nosso ponto de vista, não percebemos o entorno e possivelmente podemos deixar de perceber a verdade estampada em nossa frente. 

  • A ODISSEIA DA DOR VIII: O RETRATO DO SOFRIMENTO

    O livro de Jó tem vários detalhes e trata da dor e do sofrimento de forma bem escancarada e explícita, como estamos vendo. Para quem sofre, o livro é um alento, afinal, em um mundo de dor, sofrimento e injustiça, é reconfortante ver a Bíblia tratar tais questões de forma aberta e honesta. Não há formulas pré-fabricadas e nem pontos de partida idealizados e irreais. Apenas, e tão somente, o homem, sua dor e uma intrínseca busca por respostas. E Deus, sendo senhor de tudo em meio ao caos.

    Entre tantas lições que podemos tirar do livro, uma delas é que o sofredor acaba se deparando quase sempre com um cenário parecido com o de Jó. Não que a dor e o sofrimento sejam iguais, e sim, que a situação de quem sofre é muito parecida.

    Não basta sofrer, e também não basta ter que lidar com as dúvidas que um sofredor cristão tem que enfrentar. Tal qual Jó, o sofredor quase sempre se depara com pessoas que tentam explicar o seu sofrimento, e o pior, receitando fórmulas mágicas para os problemas alheios. Isso quando ele não atribui a dor a erros pessoais, a Deus e uma possível lição ou qualquer outra teoria que não ajuda, na maioria das vezes atrapalha ainda mais. Não basta o sofrimento, alguns optam por jogar ainda mais fardos, crendo estarem ajudando.

    A dor não se explica, muito menos conseguimos medir a intensidade dela, visto que em cada pessoa, ela tem um impacto e um efeito. Cada um encara o sofrimento e a dor com uma lente, não dá para generalizar um momento de sofrimento, por ser único.

    O livro de Jó é também um retrato de uma situação que comumente um sofredor passa. É o roteiro pronto de pessoas que em meio ao caos, pioram ainda mais a situação. O interessante é que os amigos de Jó acabam tendo uma atitude parecida com a de Satanás, nos primeiros capítulos do texto, acusam e acreditam que Jó estava envolvido em uma situação de causa e efeito (YANCEY, 2006, p. 50, 51).  Philip Yancey no livro “A Bíblia que Jesus lia” complementa resumindo que:

    “Em resumo, os amigos de Jó surgem como os dogmatistas justos aos próprios olhos que defendem os caminhos misteriosos de Deus. Confiantes de suas doutrinas sem falhas e de seus argumentos sólidos, decretam uma condenação contra Jó” (YANCEY, 2000, p. 51).

    Em meio a dor e aos problemas, olhares e até palavras são ouvidas e a frase é quase sempre a mesma, “o que será que ele fez para estar sofrendo assim?”.  É sempre mais fácil tentar resolver a dor e o sofrimento alheio, a questão é quando a ferida é em nossa pele.

    Depois do meu período de dor e de dificuldade, passei a ter cuidado ao falar com quem sofre. Perdi aquela sede de explicar, e descobri, que quase sempre não entendemos a dor do outro. Uma dor, uma depressão, um momento de caos e lutas, são únicos, são batalhas secretas, que apenas quem está enfrentando, sente e compreende.

    Em meu período de caos, ouvi muitas receitas e percebi olhares que não só desdenhavam da minha situação, mas também atribuíam a mim, todo aquele caos. Nem sempre temos culpa, as vezes passamos por situações que não controlamos, e muito menos entendemos o porquê. É claro que as vezes a culpa é toda nossa, mas é importante tentar entender isso, e o principal, saber dar um conselho em um momento tão difícil, caso a culpa seja dele.

    Os meus dias eram cinzas quando resolvi desabafar com um amigo, eu precisava tirar do peito tudo o que me afogava. Em resposta, ouvi a frase que mais me ajudou, eu a ouço, de forma bem nítida, quando lembro daqueles complicados dias. Meu amigo falou “Guilherme eu nem sei o que dizer, mas eu estou aqui com você, você não está sozinho”.

    Em meio a dor, o que mais vale é estar presente, é dar apoio e se abster de tentar quantificar ou de construir fórmulas que só servem para máquinas. Um ombro amigo, vale muito mais do que receitas. Orar, ouvir e apoiar, é a verdadeira ajuda, o resto é carga extra, que o sofredor acaba tendo que carregar.

    BIBLIOGRAFIA

    YANCEY, Philip, A Bíblia que Jesus lia, Editora Vida Acadêmica, São Paulo, 2000.

  • RECIPROCIDADE

    A igreja é mestre em ser contraditória. Ao mesmo tempo que faz bem para a nossa vida espiritual estar em comunhão, nem sempre é fácil estar com os irmãos.

    Para a boa saúde espiritual, gosto de olhar para a igreja com um olhar ambivalente. Ela é boa, mas ao mesmo tempo complicada. Ela ajuda, embora em alguns momentos atrapalhe. Tal qual o ser humano, já que a igreja é um reflexo de nós.

    A vida cristã centrada começa quando entendemos nossas falhas, erros e dificuldades e não escondemos. Sendo que este é uma das atitudes que muitas vezes não vemos em um ambiente cristão. Muitos confundem espiritualidade, com aparência, e não é isso. Ser espiritual é estar em uma busca, ser cristão é acima de tudo ser sincero e confessarmos nossos erros e falhas. Confessar os erros não é só o melhor caminho para uma vida cristã centrada. Mas a única forma de buscarmos em Deus a mudança. Você não pede ajuda a Deus por um problema que acredita não ter. É só assumindo as falhas que pedimos ajuda.

    Quem confessa os erros é também compreensível com o próximo. Quem entende a profundidade e dimensão das suas falhas, certamente, pelo menos na maioria das vezes, compreenderá as falhas do próximo, crendo que cada um tem os seus problemas. Tiago 5:16 diz para confessarmos os pecados uns aos outros. É assim que conseguimos ajuda dos irmãos e também, mostramos uns aos outros que cada um tem as suas dificuldades.

    O cristão legalista não é só alguém intolerante, que não dialoga e prefere impor, mas também alguém que não se percebe, que não vê suas falhas e nem as assume.

    O evangelho fala constantemente de reciprocidade: “Perdoamos, porque Deus nos perdoou primeiro” (Mateus 18:33-35), “amamos porque ele nos amou primeiro” (1 João 4:19). Tudo começa em Deus, mas deve terminar em nossas atitudes, são elas que refletirão uma vida transformada. Quem sabe muito bem quem é olha o próximo com a mesma misericórdia que ele espera que Deus olhe para ele.

    Alguém incompreensível, no fundo é uma pessoa que ainda não aprendeu a se autoavaliar e a confessar, de forma genuína seus pecados. Quando confessamos nossos pecados a Deus, não fazemos isso só para pedir o seu perdão, mas também, de forma indireta, para entendermos quem ele é, e quem somos nós.

    Quando genuinamente pedimos perdão a Deus, clamamos por sua misericórdia, e terminamos por entregar a nossa vida a ele. Mas acredito também que, quando confessamos os nossos pecados de forma sincera, entendemos quem somos, o quanto somos falhos, e ao entender, passamos a ser cristãos mais altruístas e compreensíveis uns com os outros. Anselm Grün, no livro “Ser uma pessoa inteira”, complementa:

    “Queres reconhecer a Deus, aprende a conhecer a ti mesmo” (Evágrio) (GRÜN, 2014, p. 12).

    Quando temos um encontro sincero conosco e aprendemos a nos conhecer, caminhamos de forma mais tranquila para a mudança e concomitantemente, para uma real dependência de Deus.

    A vida cristã centrada começa com a ação de refletirmos quem somos, um questionamento que nos leva a Deus, por percebermos nossas fragilidades, sendo que isso impacta em como eu vou perceber a tratar as pessoas.

    Quando nos idealizamos demais, não nos entregamos, por acreditarmos sermos especiais e com isso, não demoramos em condenar e a agir como se estivéssemos acima. A entrega real, reflete em atitudes reais e visíveis. Quando nos conhecemos, nós tratarmos o próximo de forma amorosa, da mesma forma como esperaríamos ser tratados.

    Não é um pagamento e sim uma retribuição prática do que Deus fez por nós. Quem é realmente grato, retribui, por ter certeza quem é.

    BIBLIOGRAFIA

    GRÜN, Anselm, Ser uma pessoa inteira, Editora Vozes, Rio de Janeiro, 2014.

  • DOUTRINAS CRISTÃS

    A simples menção da palavra doutrina deixa muitos incomodados. Alguns, infelizmente, acreditam que doutrinas são apenas regras que aprisionam os cristãos. Outros falam que o surgimento da igreja foi marcado por discussões e uma grande falta de unanimidade por parte dos líderes cristãos. Com isso as conclusões seguem faltando o mínimo de base e verdade no assunto.

    Vale começar pontuando que muito das doutrinas cristãs surgiram no cotidiano da igreja. A maioria das doutrinas que muito tempo depois foram discutidas nos concílios da igreja, tiveram o seu início na prática diária dos cultos e não nas discussões teológicas acaloradas dos concílios. Justo González complementa afirmando que:

    “Do mesmo modo, tendemos a pensar que as doutrinas surgem em geral do debate teológico, quando a verdade é que elas, na maioria, são expressões daquilo que há muito tempo a Igreja vem experimentando e afirmando em seu culto” (GONZÁLEZ, 2015, p. 11).

    Jesus já era adorado na igreja como Deus quando o tema foi debatido nos primeiros concílios. Os evangelhos eram lidos nos cultos e vistos como palavra de Deus sem norma alguma determinando tal importância. O batismo e a comunhão já eram práticas comuns na igreja antes das doutrinas serem estabelecidas (GONZÁLEZ, 2015, p. 11).

    Os concílios acabaram estabelecendo as práticas que já eram habituais na igreja. As doutrinas surgiram primeiro na igreja, como expressão de uma fé já existente. E foram confirmadas como doutrinas justamente por conta da sua unanimidade.

    As doutrinas não são pesos, muitos menos regras aleatórias que cristãos inquisidores e fanáticos estabelecem a fim de escravizar quem tem fé. E sim, cercas de proteção, linhas que propõem limites e protegem os cristãos de caírem em erros e contradições.

    Ao longo da igreja muitos se levantaram e articularam crenças e heresias que passavam bem longe da Bíblia. Em nome de proteger a fé, e organizar uma crença fundamentada na palavra, muitos concílios foram feitos, e heresias combatidas em nome da verdadeira mensagem.

    Uma das heresias foi a de Ário, que acreditava que Cristo havia sido criado, ele era uma criatura de Deus, tal qual as outras criaturas, e com isso, ele não era eterno e muito menos da mesma substância do pai. Jesus o verbo, era uma criatura de Deus, uma das primeiras criaturas criadas por ele, assim defendia Ário. Sendo que a igreja se posicionou quanto a estes pensamentos (GONZÁLEZ, 2015, p. 96). Isso só para citar uma heresia que mobilizou a igreja, pois existiram muitas controvérsias que através dos concílios, levaram a igreja a propor respostas para estas questões.

    As doutrinas são fruto do ensino verdadeiro da palavra, e servem para proteger a igreja das más interpretações e conceitos errôneos, que de tempos em tempos surgem para assombrar a igreja.

    É claro que muitas igrejas organizam doutrinas que não possuem qualquer base Bíblica. Em nome do legalismo, muitos cristãos propõem ensinos, sem refletir, dialogar e verificar na palavra. Não é disso que eu estou falando. As doutrinas a que me refiro é sobre o Cristo, a trindade, a importância da tradição e muitas outras doutrinas que são a base da fé cristã.

    Estas doutrinas nos protegem, nos direcionam, e permite que todo o cristão possa seguir fundamentado na palavra. Esta é a boa doutrina, que ao invés de aprisionar, nos dá um norte, a fim de que consigamos prosseguir rumo ao alvo certo, que é a mensagem da cruz.

    A boa doutrina nos mantém no caminho e nos ajuda a seguir o verdadeiro ensino bíblico. As más, são respostas equivocadas de pontos de vista sem fundamentos.

    BIBLIOGRAFIA

    GONZÁLEZ, Justo. L, Uma breve história das doutrinas cristãs, Editora Hagnos, São Paulo, 2015.

  • QUIETOS E TAGARELAS

    “Se presumirmos que pessoas quietas e falantes têm quase o mesmo número de boas (e más) ideias, então devemos nos preocupar se as pessoas mais falantes e fortes sempre liderarem” (CAIN, 2012, p. 51).

    Cresci em uma escola onde os extrovertidos eram sempre vistos como alunos acima da média, e os introvertidos, como modelos de inaptidão. Eu já fui visto como um aluno limitado pelas professoras, mesmo tendo aprendido a tocar bateria sozinho, com 11 anos de idade. Tudo por conta da minha introversão e na época, grande timidez.

    Nunca me senti confortável em uma sala cheia, e isso acabava refletindo em minhas notas, unindo isso com o fato que as professoras pegavam no meu pé por conta do meu silêncio, por isso, o resultado foi um aluno frustrado. Só me desenvolvi depois que aprendi a lidar com esta questão. Muitos acreditam que falar bem e ser desenvoltos é sinal de inteligência, mas nem sempre é.

    Falar bem ou ser mais quieto, não define a inteligência de uma pessoa, e sim, define apenas algumas qualidades que alguém tem. O extrovertido, por exemplo, domina a arte da comunicação. Este tipo de pessoa naturalmente fala bem, e consegue interagir de forma muito natural. Já o introvertido, tem a facilidade para se concentrar e estudar um assunto dentro de sua confortável solidão. Lembrando que um introvertido não é uma pessoa tímida, propriamente dita, e sim, alguém que prefere o silêncio, grupos com poucas pessoas, e uma interação mais íntima. Normalmente um introvertido se cansa fácil em um local com muita gente. Ao contrário do extrovertido, que já transita bem em um ambiente lotado, já que para ele, interagir é a ordem do dia, falar é o seu melhor passatempo.

    É errado definir uma pessoa pelo seu poder de comunicação, é importante avaliar alguém pelo seu conteúdo, e não pelo modo como fala. Nem sempre quem fala bem, tem conteúdo, as vezes ele consegue apenas falar, contudo, de forma bem superficial, quando não é de forma equivocada.

    Por anos a sociedade definiu uma pessoa inteligente, como comunicativa, a questão é que esta definição sempre foi injusta e um tanto quanto equivocada, como vimos. O fato de alguém falar bem, não define a inteligência, quem sabe, define apenas algum tipo de inteligência, uma entre tantas. A lista é grande, como por exemplo: a inteligência musical, a lógico-matemática, corporal a intrapessoal e por aí vai.

    É evidente que tanto o extrovertido, quanto o introvertido, precisam aprender a equilibrar as suas partes desequilibradas. O extrovertido precisa estudar, buscar uma rotina onde ele possa mergulhar no conhecimento, para assim ter conteúdo. Já o introvertido, precisa aprender a se comunicar, estudar oratória, buscar ferramentas e técnicas que ajudem a alinhar o seu lado falho, mas, sem dúvida, os dois possuem ótimos dons, apenas são de áreas diferentes.

    BIBLIOGRAFIA

    CAIN, Susan. O poder dos quietos: Como os tímidos e introvertidos podem mudar um mundo que não para de falar. Rio de Janeiro: Editora Agir, 2012.

  • FÉ MADURA

    Vivi a minha infância em um contexto onde a experiência era muito mais importante que o conhecimento. Na igreja, pastores ungidos, que segundo eles, recebiam a palavra diretamente de Deus, eram levados muito mais a sério do que aqueles que estudavam a Bíblia, e procuravam conhecer cada vez mais as escrituras. Ler livros, estudar a palavra a partir dos textos originais, e gastar tempo para conseguir chegar na melhor e mais fiel interpretação bíblica, não era prioridade. O ungido de Deus não precisava disso. Bastava orar e esperar a revelação chegar.

    É comum vermos estes cristãos dividirem a igreja em igrejas do fogo, que experimentam o poder de Deus, e igrejas frias, que não experimentam a ação divina. Tudo porque a experiência fala muito mais alto do que o conhecimento e o estudo. Anselm Grün, no livro “Ser uma pessoa inteira”, acrescenta pontuando que:

    “Hoje há uma tendência de descrever a fé apenas como “experiência”. Neste caso se estabelece a experiência como algo absoluto e se recusa a compreendê-la e refletir sobre ela com o intelecto” (GRÜN, 2014, p. 137).

    Não tenho o propósito com este texto de desconstruir a experiência de ninguém, muito menos creio que é impossível estes fenômenos acontecerem. Deus fala e age como ele bem quer, final, ele é Deus. O problema é colocar a experiência acima de tudo, e diminuir o estudo, crendo não ser espiritual ou uma prática sem importância. 

    Primeiramente a nossa fé é com certeza racional, pois crer passa pela mente. Nossas ações, o que acreditamos e professamos, impreterivelmente passa pelo pensamento, por reflexões e pontos de vista. A questão é que alguns pontos de vista possuem mais base bíblica do que outros, mas é imprescindível algum tipo de teologia ou opinião na hora de crer.

    Por segundo, que é a parte mais contraditória dessa forma de pensar, é a própria Bíblia. Não vou me ater aos versículos que falam da importância de ler, estudar e meditar na palavra (2 Timóteo 3:15-17; Atos 17:11; Deuteronômio 6:5-9; João 5:39), são muitos textos que testificam e evidenciam o quão ignorante é afirmar que estudar a Bíblia não é importante. E sim no fato que “se a Bíblia é a palavra de Deus, estudar esta palavra, tentando entender a mensagem nos mínimos detalhes, é um dos atos mais espirituais que podemos fazer”. Afinal, é a palavra do próprio Deus, com isso, entender é saber de forma precisa a sua vontade.

    Levar em consideração mais a experiência do que o próprio texto, que é algo palpável e absoluto, é uma atitude muito perigosa. Crer que Deus te deu uma capacidade especial de ler a Bíblia, sem estudar, é no mínimo contraditório, já que a Bíblia aponta para a importância de ler, estudar a examinar as escrituras (Marcos 12:24; Provérbios 3:1-2; Oséias 4:6). A ênfase no estudo está em toda a palavra, e ela nos avisa para não só estudarmos, lermos ou guardarmos seus ensinos, mas também de examinarmos. Foi o que os bereanos fizeram, quando Apóstolo Paulo e Silas, foram a sinagoga pregar. Eles queriam saber se o que estava sendo falado estava na Bíblia (Atos 17:11).

    A fé madura é firmada na palavra, acima de qualquer coisa, não dá para ir pela emoção ou somente por ela, é preciso ter base, estudo e fundamento bíblico. A experiencia cristã transforma um momento, um acontecimento, em uma regra, o que é um erro muito grande. É preciso pensar, examinar a Bíblia e refletir, para não cairmos em ensinos errados.

    Tudo o que falamos, cremos e seguimos, precisa estar fundamentado na palavra de Deus. Nós não podemos nos guiar por nossas emoções, nem fundamentar nossa vida em experiências. O homem pode se enganar, falar as coisas por impulso, acreditando ser mensagem de Deus, por isso, precisamos tomar muito cuidado, e estar sempre estudando a Bíblia, para não cairmos nestes equívocos.

    Buscar o entendimento, procurar entender a fé e a palavra é fundamental. É preciso pontuar e entender no que cremos, esta é a fé madura. Que estuda, entende e pondera. E é claro, a fé madura sabe que muita coisa não dá para explicar, assim como não podemos reduzir a fé a intelecto. Existem experiências que não podemos negar. Mas colocar o intelecto de lado é muito perigoso.

    Cuidado com as emoções, aprenda a não reduzir a sua vida a meras experiências. Fundamente a sua vida na palavra, e descubra como é espiritual conhecer a palavra do Criador. Em mergulhar em cada ensino, com o propósito de entender a mensagem e fazer dela uma prática de vida. Isso é uma vida espiritual, o resto é emocionalismo.

    BIBLIOGRAFIA

    GRÜN, Anselm, Ser uma pessoa inteira, Editora Vozes, Rio de Janeiro, 2014.

  • O SER HUMANO COMO ETERNO SOFISTA

    Há muito tempo um colega me procurou para falar sobre bateria. Mais especificamente, ele queria fazer uma crítica aos músicos de rock, coisa que eu não via problema algum, por mais que eu goste do estilo, respeito qualquer tipo de crítica, desde que seja fundamentada. O problema com a crítica desta pessoa é que ele acreditava que os músicos de rock não sabiam tocar bateria. É claro que eu discordei, sou músico e conheço inúmeros bateristas ótimos, sendo que, eu aproveitei para pontuar que algumas vertentes do metal eram muito difíceis de tocar. O cidadão não concordou e a parte bizarra era que ele nunca havia tocado bateria ou qualquer outro instrumento e eu sou músico há muitos anos, por isso, segui sem entender a sua crítica.

    Mentir não é bonito, enganar pessoas em nome de desejos, trapaças ou mesmo para se colocar como melhor do que o outro, não é só desonesto, mas também é a melhor forma de viver uma vida hipócrita e calcada em experiências e vivências que nunca existiram.

    O mentiroso é um eterno sofista, a questão é que na maioria das vezes este tipo de pessoa não percebe que a pessoa que ele mais engana, é ele mesmo.

    Os sofistas eram aqueles que ganhavam a vida com seus ótimos discursos, convencendo outros e ensinando a arte da persuasão. A verdade, para estes, era relativa, fruto de um convencimento e estabelece a verdade somente quem convence, era assim que eles pensavam.

    O ser humano é mestre em mentir para si, em afirmar que entende, sem entender, sem nunca ter vivenciado a situação. Tal qual o fato que eu narrei no começo do texto. Nesta situação, quem perdeu foi ele, quem estava se enganando era ele. Em nome do orgulho, a pessoa optou por não ouvir um músico, e ainda teimar, tendo como ponto de partida, nenhuma base, informação ou verdade. A verdade é fruto da investigação, da pesquisa e do estudo. Ela é a prova daquilo que é, e não de teorias infundadas e sem estruturas.

    Existe um grande problema em não ouvir, em achar que sabemos, e teimar, mesmo sem conhecer. E o problema é que esta pessoa nunca vai aprender. Só aprende quem está aberto para isso, quem confessa suas limitações e busca por mudança. Quem acredita que sabe, não aprende, segue a correnteza, sem nunca nadar para sair do lugar.

    É preciso humildade para admitirmos nossas limitações e pontuarmos o quanto não sabemos. E respeito ao próximo, para pelo menos ouvir, tentando assim concluir se existe coesão na afirmação da pessoa ou não.

  • JORNADA CRISTÃ 8: O HOMEM ETERNO

    Eu ainda continuo na missão de falar de toda a minha jornada pelo conhecimento, são muitos autores, sejam teólogos, filósofos ou apologetas, sendo que Chesterton foi um dos primeiros escritores que precisei gastar um bom tempo para entender, e mergulhar em seu universo. São muitos que me falam que leram Chesterton e não conseguiram entender coisa alguma. A verdade é que ler este autor nem sempre é fácil, é uma tarefa trabalhosa, no qual deve ser feito sem pressa e com muito cuidado, pois vale muito a pena.

    Nem sempre estamos prontos para ler certos autores, fatores como, conhecimento do assunto, facilidade em ler certos tipos de linguagens e bagagem, conta muito na hora de ler certas obras. E apesar de ter a certeza de que livros como “O homem eterno”, devem ser lidos, eu sei que muitas vezes é preciso esperar passar algum tempo até que você esteja pronto o suficiente para ler.

    Nesta minha jornada cristã, eu sou grato a Deus que pude ir galgando os degraus pouco a pouco. Tive professores que me ajudaram a ter contato primeiramente com os autores fundamentais antes de mergulhar em livros mais densos. Sendo que Chesterton eu encontrei assim por conta própria, meio sem querer.

    Sobre Chesterton, eu diria para você começar lendo o livro: “O que há de errado com o mundo”, pois eu acredito que de todos os livros do autor, este, sem sombra de dúvidas, é o mais fácil de ler (ou menos difícil), mas, como eu disse e repito, tudo vai depender do quanto você está habituado a ler este estilo de literatura, caso contrário, comece pelos autores mais básicos.

    Um dos propósitos do livro “O homem eterno” é fazer uma crítica ao modo como os pensadores da escola evolucionista tratam da história da humanidade. Sendo que já nos primeiros capítulos, o autor deixa claro o quão inconsistente é a teoria da evolução, que afirma que o homem evoluiu do macaco, que os homens da caverna batiam nas mulheres com porretes e viviam em uma sociedade totalmente troglodita, machista e bruta.

    Chesterton aponta para o fato que temos poucas provas para esta teoria, sendo que a maioria destas afirmações evolucionistas tiram conclusões bem infundadas. É interessante quando o autor fala das pinturas nas cavernas, como um símbolo de que provavelmente o homem pré-histórico também fazia coisas inocentes e meigas, destoando da teoria que afirma que eles eram trogloditas sem qualquer atitude positiva, mas mesmo assim, o autor continua defendendo que é impossível conhecermos a história do homem pré-histórico. Sendo que ele aponta para o significado da palavra, para mostrar a contradição de muitos destes pensadores, já que pré-histórico se dá em um período antes da invenção da escrita, sendo assim, um período totalmente desconhecido, abrindo um pressuposto para qualquer teoria, virando assim simples especulações. Penso que uma frase das primeiras páginas, já resume bem a ideia deste primeiro capítulo:

    “Em outras palavras, o homem das cavernas tal qual ele nos é comumente apresentado é apenas um mito, ou melhor, mera confusão, pois um mito tem no mínimo um esquema imaginativo de verdade” (CHESTERTON, 2010, pg. 31)

    Atenção, é muito importante você assimilar o conteúdo do primeiro e do segundo capítulo, pois as ideias subsequentes são amarradas nestes fatos. Quando você entender bem a questão de mitos e ideias sem fundamento empírico da evolução, segundo o autor, os capítulos subsequentes farão muita lógica, pois serão uma espécie de progressão de pensamento.

    O livro continua, e fala de civilizações e como estas já existiam, seja em forma de grupo organizado, ou até como grandes cidades. Ele deixa claro que desde o começo existiram povos primitivos e grupos ordenados, assim como hoje também existe. No fim, o homem segue um movimento parecido e apesar de ter evoluído no sentido tecnológico, no mais, seus movimentos são semelhantes e cíclicos.

    Enfim, no livro, que é dividido em duas partes, o autor se concentra em discorrer sobre a história da humanidade, recontada a partir do homem, desconstruindo toda a teoria da evolução e depois a história de Cristo, mostrando como ele não foi um homem comum. Um livro bem extenso, mas que vale a pena ser lido, sem pressa alguma, prestando o máximo de atenção em todos os detalhes.

    O autor é mais que brilhante, sendo uma das minhas maiores influências, principalmente porque foi com ele que eu consegui sair da caixinha, e olhar para as coisas de uma forma bem mais ampla.

    BIBLIOGRAFIA

    CHESTERTON, G. K, O homem eterno, Editora Mundo Cristão, São Paulo, 2010.

  • A IMPORTÂNCIA DA PRIORIDADE

    Eu gosto muito de ler e estudar, não sou professor a toa, faço o que eu gosto e tenho prazer em me debruçar nos livros. Sendo que uma coisa que comumente ouço, por conta da minha rotina de estudos e leituras é: “Eu queria ter o tempo que você tem para ler”.

    O que estes não entendem é que tempo é algo raro, ninguém tem, normalmente estamos ocupados por conta de inúmeros compromissos, trabalhos e prioridades. A grande questão é que quando gostamos de algo, fabricamos o tempo. A arte de se dedicar a algo, está infinitamente ligado ao quanto priorizamos aquela atividade. Nilton Bonder, no livro “Alma & política” resume o assunto pontuando que:

    “O tempo não é algo que se encontra, mas que se faz” (BONDER, 2018, p. 88).

    A vida em nossos dias é muito corrida, por isso que priorizar é o caminho para quem deseja desenvolver algo.

    Comece contabilizando o tempo que você passa nas redes sociais e televisão, que você vai ver como você tem muito tempo. Gastamos muito do nosso tempo à toa e deixamos de lado o que é realmente essencial.

    Depois estipule um horário para ler e estudar, e cumpra o cronograma sem falhar. Prepare um local silencioso, adequado para o seu tipo de atividade e corte qualquer tipo de distração. Sejam as redes sociais, ou qualquer outra coisa que tire a sua atenção.

    Por fim, aprenda a adiar a recompensa. O ser humano funciona basicamente através de um sistema de recompensas, por conta disso que é muito mais fácil ele chegar em casa e se dedicar a coisas que possuem um prazer imediato, por ser fácil e com uma recompensa quase que instantânea, do que seguir executando atividades que proporcionarão uma recompensa algum tempo depois.

    O problema é que nos estudos, a recompensa nem sempre vem no momento. É preciso muito empenho para ler e estudar um livro, para depois ficarmos felizes e nos sentirmos recompensados com o conteúdo aprendido ou com um artigo pronto. Ou mesmo acontece ao fazermos uma graduação, que apenas depois de alguns anos, conseguiremos o tão sonhado diploma e colheremos alguns frutos da nossa dedicação.

    Quando se trata de atividades importantes, desde fazer exercícios, estudar ou se dedicar a ocupações que demandam tempo e disciplina, é preciso aprender a postergar a recompensa, para assim alcançar o que é importante, mas que demanda mais tempo e esforço.

    Não é preciso abandonar as redes sociais, muito menos a TV ou as séries, e sim, separar um tempo para estas importantes atividades e dar a devida prioridade para aquelas tarefas.

    Muitas vezes aquela atividade que deixamos de fazer não é por não termos tempo, e sim, por não darmos a devida atenção. Nem sempre priorizamos o essencial, às vezes funcionamos no automático, sem percebermos quanta coisa importante estamos deixando para depois.

    Fabricar tempo é basicamente dar prioridade para o que é relevante, tendo o comedimento e a organização como ponto de partida, este é um dos segredos da disciplina.

    BIBLIOGRAFIA

    BONDER, Nilton, Alma & política: Um regime para seu partidarismo, Editora Rocco, Rio de janeiro, 2018.