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  • LIÇÕES QUE VOCÊ PODE APRENDER EM UMA LIVRARIA

    Eu sempre vou em livrarias, seja para matar tempo, quando chego cedo em um compromisso ou para pesquisar boas obras. Entretanto, uma coisa que eu aprendi, depois de frequentar muito estes locais, é que se você entrar com pressa em uma livraria, você não vai enxergar nada.

    Ir em uma destas lojas, para quem gosta de ler, é um prazer inexplicável. Eu mesmo gosto muito de comprar livros, por isso, algumas vezes eu passo horas pesquisando livros, autores e obras em livrarias ou sebos, que é como nós chamamos as lojas de livros usados aqui na minha cidade. Uma livraria tem muito a nos ensinar, o próprio ato de frequentar e procurar um autor em um destes locais, já são lições importantes, como vamos ver.

    A primeira lição são os detalhes. Pois o excesso de coisas nos impede de vermos os pontos importantes. Quando você vai em uma loja de livros, ao olhar a estante abarrotada de volumes, você vê tudo e ao mesmo tempo nada. São tantos livros, tantos autores, que no final, é preciso muita atenção para conseguir olhar as obras e encontrar os temas que mais gostamos. Por conta da grande quantidade de temas, se não ficarmos atentos, podemos deixar de ver aquele autor fundamental, ou o material que gostamos muito. Olhar com atenção, verificar o nome dos autores e prestar atenção em todos os detalhes é a única forma de encontrar aquele material que vai fazer diferença em nossa vida.

    Diante de tantas opções que o mundo nos dá, ou dos muitos estímulos e escolhas que temos. Podemos ficar perdidos e não percebermos as coisas que realmente valem a pena. A vida passa muito rápido, e por causa da correria, algumas vezes não vemos o que é essencial. Para aproveitarmos, precisamos aprender a ver, perceber os detalhes e nuances para assim identificar o que é importante.

    O segundo ponto é ter conhecimento. São tantas coisas que o mundo oferece, que quando não conhecemos, podemos nos deixar levar por ensinos errados, que aparentemente podem parecer importantes, mas não são.

    Assim como na loja de livros, onde precisamos conhecer os bons autores, é também na vida. Quando não conhecemos, deixamos nos levar por tudo e qualquer coisa. Nos impressionamos com qualquer capa, qualquer aparência, e depois quebramos a cara com o conteúdo. Se não prestarmos atenção e em meio a tanta coisa, não nos concentrarmos em todos os detalhes, nos deixaremos ser levados por ensinos e conceitos contraditórios e falhos.

    O último ponto são os critérios. É preciso ter critérios para escolher, e critérios são construídos através do conhecimento, da informação e reflexão. Quem não tem critério, escolhe qualquer coisa, e acaba pecando pelo excesso e pela falta de conteúdo. Não adianta termos um monte de coisas que não nos acrescentarão em nada. Quem tem critérios, sabe o que quer, e pensa antes de escolher, buscando sempre a qualidade ao invés da quantidade.

    Pior do que não ler, é ler qualquer coisa, é não aprender a refletir, e muito menos a mergulhar no conteúdo e aprender. É possível extrair lições de praticamente tudo, basta saber se posicionar e enxergar durante a leitura a lição escondida.

    Gosto de olhar para a minha estante de livros e ver não só bons autores teológicos, filosóficos ou de entretenimento, e sim, de materiais que acrescentam e me auxiliam. Ter por ter, ou ler por ler é viver no automático, sem ter lições para a nossa caminhada.

    A vida é muito curta para deixarmos de aprender e perceber verdadeiros universos, que só não são notados, por causa da nossa total falta de conhecimento.

  • 6 ANOS DE BLOG

    Parece que foi ontem que eu resolvi montar o blog, e já se passaram 6 anos. As intenções com o projeto foram primeiramente, poder fazer algo, já que eu estava fazendo teologia, mas não tinha muita oportunidade. E em segundo lugar, me manter ativo. O blog me obrigou a estudar constantemente e a estar sempre produzindo. O meu maior medo, após formado, era estagnar. Com isso, ele acabou virando uma ótima ferramenta, que fez com que eu não caísse no ostracismo.

    Por isso que nestes 6 anos, eu conquistei muito mais que visualizações. A primeira coisa foi o próprio hábito de escrever. Desenvolvi bastante a minha escrita, adquirindo não só a facilidade de escrever, mas também a habilidade de sintetizar leituras, aulas e lições, colaborando não só para o enriquecimento de materiais para o blog, mas também com o meu próprio aprendizado e posteriormente, com a minha carreira de professor.

    A segunda conquista foi ter desenvolvido o hábito de estudo. Isso tem me ajudado em todas as áreas da minha vida. É com ele que eu aprendo, cresço e estou sempre me aperfeiçoando e me atualizando. Estudar é muito importante, estar sempre caminhando em direção ao inesgotável conhecimento é básico, pelo menos para quem deseja buscar sempre ser o melhor em sua área.

    A terceira conquista foi o hábito de leitura. O blog, o desejo de aprender ainda mais e o medo de cair na estagnação, me impulsionou a buscar ler mais. Foi por isso que, desde 2014, tenho lido em média de 70 a 90 livros, entre livros que eu leio, e alguns que eu estudo. Isso ajudou a minha vida e a minha carreira.

    Por fim, a lição que fica é que é fundamental cultivarmos bons hábitos. Não é fácil, mas é possível, e muito gratificante quando conseguimos.

    Estagnar é muito fácil, basta relaxarmos e perdermos o ânimo, por isso que é importante estarmos sempre atentos e todos os dias ajustarmos nossa rotina, para que a nossa vida não caia na zona de estagnação.

    É fácil perder a mão, não é difícil perdermos o foco, mas quando adquirimos um bom hábito, tudo se torna natural, parte da nossa vida, basta começar e seguir com persistência e disciplina.

    Agradeço a todos que acompanham o blog, e aguardem, que tem muito texto pela frente.

  • MONÓLOGOS

    “A grande maioria de nós não é capaz de escutar; sentimo-nos obrigados a julgar, pois escutar é muito perigoso” (PETERSON, 2018, p. 256).

    Perceba como em uma boa parte das conversas informais, o padrão é sempre o mesmo, não muda, poucos ouvem, apenas fingem ouvir, esperando apenas a sua vez de falar, e muitos falam (e como falam). Com isso, algumas reuniões são verdadeiros caos de sons, vozes e assuntos, enquanto nada está sendo ouvido. O contraditório é que as pessoas querem ser ouvidas, o problema é que elas ouvem pouco.

    Quando estou reunido com amigos conversando e sou cortado quando falo, normalmente eu não retomo o assunto, a não ser que a pessoa peça, sendo que em muitas ocasiões, a minha fala fica incompleta e a pessoa nem percebe isso.  Caso estivessem realmente ouvindo, elas iriam perceber e querer ouvir a conclusão, pelo menos por educação, mas a maioria nem se atina, preferem muito mais falar do que ouvir. Este é um dos grandes males do nosso século, queremos ser ouvidos, mas não queremos ouvir.

    Ouvi um psicólogo pseudointelectual falando um tempo atrás que, se ninguém te ouve, é porque o assunto não é interessante. Concordo que ninguém tem a obrigação de nos ouvir, mas em uma conversa, por respeito a pessoa, precisamos ouvir, diálogo é isso, não se trata de assuntos interessantes, e sim, de valorizar um ser humano ou o seu amigo, que fala, pensa, sonha e tem os seus ideais e pontos de vista. A vida não é feita somente do quanto alguém nos é útil, do quanto eu posso ganhar ouvindo alguém. E sim de respeito, diálogo e troca de informação. Ninguém é tão pequeno que não merece ser ouvido, e muito menos é tão grande, que merece prioridade em sua fala.

    Outro problema na fala deste cidadão é a palavra “interessante”. Nem sempre com quem conversamos temos os mesmos interesses, as vezes o que eu falo com uma pessoa, a outra não se interessa e vice-versa. É evidente que alguns não sabem conversar, que não possuem assunto, contudo, cada um tem a sua área de interesse, nem sempre o que uma pessoa gosta, o outro aprecia.

    O problema em ouvir o outro é que quando ouvimos, entramos no mundo de alguém, participamos do seu particular. Intimidade só busca quem quer ser amigo e quer se envolver realmente com uma pessoa. É muito mais fácil criticar, pois se envolver é complicado, quem critica, na maioria das vezes está longe, falando de outro ponto de observação, em uma situação bem mais confortável. Agora quem ouve, já se envolve, descobre detalhes, cria intimidade.

    Na vida as vezes precisamos enfrentar monólogos, lidar com pessoas que acreditam que conversar é falar, é ouvir pouco, e que o diálogo consiste apenas de coisas que lhe interessam. Faz parte da vida, nem sempre uma pessoa tem a visão do todo, alguns seguem ensimesmados.

    A arte do diálogo começa com humildade e respeito, crendo que cada um tem seus anseios e áreas de interesse. Não podemos obrigar alguém a entender o que nós entendemos, mas podemos aprender a ouvir, para pelo menos o outro também tenha voz.

    BIBLIOGRAFIA

    PETERSON, Jordan. B, 12 regras para a vida: Um antídoto para o caos, Alta Books Editora, Rio de Janeiro, 2018.

  • REVIGORANTE SOLITUDE

    “O amor é essencial; a sociabilidade é opcional” (CAIN, 2012, p. 264).

    Sou do tipo reservado, que não troca um bom livro, por um lugar barulhento e cheio de pessoas, muito menos troca um grupo pequeno de amigos, por uma multidão deles. Alguns me chamariam de introvertido, contudo, eu ainda prefiro o rótulo de reservado.

    A verdade é que uma multidão geralmente me cansa, se eu precisar ir em algum lugar cheio, com certeza, depois do compromisso, vou precisar recarregar as baterias em meu reservado lar.

    Em tempos onde ter contato, ser famoso ou ter uma grande rede de contatos é uma opção, eu sempre opto pelo mais calmo. Na música, temos um ditado que diz que “menos é mais”, nem sempre quantidade é qualidade.

    O silêncio me recarrega, a solitude me recompõe. Tirar um final de semana para ler e estudar me revigora. Eu me canso fácil com barulhos e multidões.

    É preciso amar, é fundamental cultivar amigos, parceiros e relacionamentos, isso faz parte do ser humano, contudo, nem todos se sentem à vontade em uma multidão. Alguns preferem estímulos externos, um número grande de amigos, de badalação, outros preferem o estímulo interno, um bom livro, um momento de paz e solitude ou mesmo um evento com poucos amigos.

    Aprenda a entender quem você é, não se venda apenas para agradar terceiros, amar é importante, socializar, ir em festas é legal, principalmente para manter nossas amizades, mas respeitar quem somos é fundamental, e isso seus amigos devem entender. Isso se eles forem mesmo seus amigos!

    BIBLIOGRAFIA

    CAIN, Susan. O poder dos quietos: como os tímidos e introvertidos podem mudar um mundo que não para de falar. Rio de Janeiro: Editora Agir, 2012.

  • JORNADA CRISTÃ 9: FILOSOFIA CRÍTICA

    Em uma altura da minha rotina acadêmica, quando eu já estava lendo e estudando muito, comecei a ter a necessidade de conhecer ainda mais autores. E como os meus passos na filosofia ainda eram curtos, empreendi uma busca para conhecer escritores novos. Com isso, mesclei a leitura de clássicos da filosofia antiga, com autores contemporâneos, com isso, inevitavelmente cheguei em Roger Scruton.

    Os dois livros que eu gosto do autor é “O rosto de Deus”, que fala sobre o lugar que Deus ocupa no mundo, enfatizando como a crença em Deus é muitas vezes considerada como sinal de imaturidade. E o segundo é “As vantagens do pessimismo: e o perigo da falsa esperança”, onde o autor faz uma crítica a um falso otimismo, e muitas formas de pensar, que tem como base um sentimentalismo tóxico e falso.

    É um livro para você discordar, sem peso na consciência, não somos obrigados a concordar com tudo, porém é de leitura obrigatória. As críticas que o autor faz são ácidas e certeiras, nos faz pensar e ver o mundo com outras lentes.

    No livro o autor faz uma crítica a um tipo de otimista que ele denomina de otimistas inescrupulosos. Indivíduos que possuem uma visão de mundo limitada, sem senso crítico e base. Na maioria das vezes, estas pessoas seguem otimistas, colocando seus planos em prática, contudo, sem o mínimo de reflexão ou de pensar nas consequências dos seus fracassos e tendo em mente apenas o resultado. Scruton complementa, falando deste tipo de otimista pontuando que:

    “Os otimistas inescrupulosos, cuja visão de mundo baseada em objetivos reconhece apenas os obstáculos, mas nunca as limitações, estão sozinhos no mundo. Sua alegria é apenas superficial, uma máscara que esconde uma inquietação profunda, com receio de que a base de sustentação de suas ilusões deixe de apoiá-los” (SCRUTON, 2015, p. 40).

    É preciso ter pé no chão, pois ser otimista, não é ser alguém que não reflete, que não pensa nas possibilidades de fracasso e não se prepara para lidar com as suas limitações. Uma coisa é ser otimista, outra é ser impulsivo, que segue fazendo as coisas sem pensar e refletir. Em oposição aos otimistas inescrupulosos, ele fala dos otimistas escrupulosos, que são aqueles que são críticos, que sabem lidar com suas limitações, e buscam ajustar a sua vida a elas.

    O livro faz muitas outras críticas, seja a crítica a alguns tipos de visões de sociedade, de modelo de ensino e de política, usando sempre palavras coesas, e conteúdos bem embasados.

    Vale a pena ler, o autor é lúcido e coerente, e usa o pessimismo na dose certa, nos ensinando a ter um pouco de pé no chão, mostrando como uma dose de pessimismo em nossa vida é fundamental.

    BIBLIOGRAFIA

    SCRUTON, Roger, As vantagens do pessimismo: e o perigo da falsa esperança, É Realizações, São Paulo, 2015.

  • ARGUMENTOS SUBJETIVOS

    De tempos em tempos algumas notícias polêmicas vêm à tona, e viram alvos de debates e discussões. Como a internet ampliou a oportunidade do debate, qualquer um pode opinar e dar o seu ponto de vista, o resultado disso são os argumentos mais pobres, simplistas e complicados que podemos ver.

    Não que eu seja contra esta oportunidade que a internet nos dá. É bom poder opinar, poder expor nosso ponto de vista e dar a nossa opinião, como estou fazendo agora. E sim que, muitos destes que opinam, não enxergam todas as falhas dos seus argumentos. Por conta disso, pontos de vistas, dos mais subjetivos surgem.

    Ao falarmos de aborto, por exemplo, é comum alguns justificarem a sua posição favorável, afirmando que defendem o aborto, porque os pais abandonam os seus filhos. Em uma conclusão totalmente sem coerência e reflexão.

    Abandonar o filho é um dos atos mais covardes que um homem pode ter, assim como a alienação parental, de mulheres que não permitem o marido de ver seus filhos, mesmo que ele esteja cumprindo com o seu papel de pai. São dois problemas, o aborto e o abandono de filhos, e um não é argumento para o outro. Isso sem contar que em alguns casos, o argumentador generaliza um problema, como se todo o homem abandonasse o filho, batesse em suas esposas e por aí vai.

    Dentro da igreja temos exemplos parecidos, de cristãos que transformam a sua experiência com Deus em regra. Como se aquilo fosse norma para Deus agir. Com isso, ensinos que são opostos a Bíblia surgem, sem qualquer base e fundamentos, tendo como ponto de partida, argumentos subjetivos, que não possuem qualquer coerência.

    Muitos justificam as suas crenças, com frases que carecem de coerência e o mínimo de base. Moldando a Bíblia a seus pontos de vista e a sua opinião. A palavra de Deus nos pontos fundamentais já é clara por si mesma. E ela existe para nos ensinar, e fazer com que a nossa vida esteja totalmente centrada na vontade de Deus. Você não deve ler só o que gosta na Bíblia, e sim estudar ela toda, aceitar seus ensinos e moldar a sua vida, conforme a vontade de Deus e não a sua própria.

    Argumentar é apresentar ideias, fatos e provas de algo, e em caso de discordância, ou de falta de fundamento é importante não justificar um ponto de vista com casos isolados, que são exceções ou com problemas, que não fazem parte do assunto.

    Ao refletir em um ponto de vista, é importante pensar naquele argumento, e refletir sobre ele. Sem generalizar, sem usar exemplos fora do contexto no qual você defende. E caso você seja uma pessoa relevante, pense em seu ponto de vista com uma atitude verdadeira, sem esconder os pontos fracos e contraditórios, para assim, propor uma reflexão centrada e com alguma base.

    O argumento subjetivo serve para justificar algo que não tem justificativa. Ele é uma fábrica de provas, com o intuito de militar e defender algo que possui muita contradição.

    Muitos simplificam problemas, alguns possuem o poder de não enxergar as variantes de uma situação e não refletir sobre as consequências da sua opinião.

    Os argumentos subjetivos não têm como fundamento a verdade, muito menos a pesquisa. E sim, achismos, impulsos e sentimentos. O bom argumento vem da reflexão e da busca pela verdade, doa a quem doer. Pois amigo, muitas vezes ao irmos em busca da verdade, de forma verdadeira e sincera, descobrimos que estamos errados.

    Eu desconfio de quem não desconfia de si, de quem não tem medo de se enganar, e que acredita que o seu ponto de vista é inerrante. Um bom pensador desconfia, e sempre revê as suas opiniões. Ele em nome da relevância, não demora em refletir no que está sendo dito, colocando em xeque sempre a sua opinião.

    Precisamos entender a nossa possibilidade em falhar, e aprender a nos posicionar diante deste fato. É importante saber argumentar, e refletir, buscando sempre a coerência, sem o intuito de querer estar apenas certo.

    Quem quer estar sempre certo, já errou, por se posicionar como a fonte da verdade. Sendo que estes na maioria das vezes estão errados. Pois, quando vemos apenas o que queremos, nesse caso, o nosso ponto de vista, não percebemos o entorno e possivelmente podemos deixar de perceber a verdade estampada em nossa frente. 

  • A ODISSEIA DA DOR VIII: O RETRATO DO SOFRIMENTO

    O livro de Jó tem vários detalhes e trata da dor e do sofrimento de forma bem escancarada e explícita, como estamos vendo. Para quem sofre, o livro é um alento, afinal, em um mundo de dor, sofrimento e injustiça, é reconfortante ver a Bíblia tratar tais questões de forma aberta e honesta. Não há formulas pré-fabricadas e nem pontos de partida idealizados e irreais. Apenas, e tão somente, o homem, sua dor e uma intrínseca busca por respostas. E Deus, sendo senhor de tudo em meio ao caos.

    Entre tantas lições que podemos tirar do livro, uma delas é que o sofredor acaba se deparando quase sempre com um cenário parecido com o de Jó. Não que a dor e o sofrimento sejam iguais, e sim, que a situação de quem sofre é muito parecida.

    Não basta sofrer, e também não basta ter que lidar com as dúvidas que um sofredor cristão tem que enfrentar. Tal qual Jó, o sofredor quase sempre se depara com pessoas que tentam explicar o seu sofrimento, e o pior, receitando fórmulas mágicas para os problemas alheios. Isso quando ele não atribui a dor a erros pessoais, a Deus e uma possível lição ou qualquer outra teoria que não ajuda, na maioria das vezes atrapalha ainda mais. Não basta o sofrimento, alguns optam por jogar ainda mais fardos, crendo estarem ajudando.

    A dor não se explica, muito menos conseguimos medir a intensidade dela, visto que em cada pessoa, ela tem um impacto e um efeito. Cada um encara o sofrimento e a dor com uma lente, não dá para generalizar um momento de sofrimento, por ser único.

    O livro de Jó é também um retrato de uma situação que comumente um sofredor passa. É o roteiro pronto de pessoas que em meio ao caos, pioram ainda mais a situação. O interessante é que os amigos de Jó acabam tendo uma atitude parecida com a de Satanás, nos primeiros capítulos do texto, acusam e acreditam que Jó estava envolvido em uma situação de causa e efeito (YANCEY, 2006, p. 50, 51).  Philip Yancey no livro “A Bíblia que Jesus lia” complementa resumindo que:

    “Em resumo, os amigos de Jó surgem como os dogmatistas justos aos próprios olhos que defendem os caminhos misteriosos de Deus. Confiantes de suas doutrinas sem falhas e de seus argumentos sólidos, decretam uma condenação contra Jó” (YANCEY, 2000, p. 51).

    Em meio a dor e aos problemas, olhares e até palavras são ouvidas e a frase é quase sempre a mesma, “o que será que ele fez para estar sofrendo assim?”.  É sempre mais fácil tentar resolver a dor e o sofrimento alheio, a questão é quando a ferida é em nossa pele.

    Depois do meu período de dor e de dificuldade, passei a ter cuidado ao falar com quem sofre. Perdi aquela sede de explicar, e descobri, que quase sempre não entendemos a dor do outro. Uma dor, uma depressão, um momento de caos e lutas, são únicos, são batalhas secretas, que apenas quem está enfrentando, sente e compreende.

    Em meu período de caos, ouvi muitas receitas e percebi olhares que não só desdenhavam da minha situação, mas também atribuíam a mim, todo aquele caos. Nem sempre temos culpa, as vezes passamos por situações que não controlamos, e muito menos entendemos o porquê. É claro que as vezes a culpa é toda nossa, mas é importante tentar entender isso, e o principal, saber dar um conselho em um momento tão difícil, caso a culpa seja dele.

    Os meus dias eram cinzas quando resolvi desabafar com um amigo, eu precisava tirar do peito tudo o que me afogava. Em resposta, ouvi a frase que mais me ajudou, eu a ouço, de forma bem nítida, quando lembro daqueles complicados dias. Meu amigo falou “Guilherme eu nem sei o que dizer, mas eu estou aqui com você, você não está sozinho”.

    Em meio a dor, o que mais vale é estar presente, é dar apoio e se abster de tentar quantificar ou de construir fórmulas que só servem para máquinas. Um ombro amigo, vale muito mais do que receitas. Orar, ouvir e apoiar, é a verdadeira ajuda, o resto é carga extra, que o sofredor acaba tendo que carregar.

    BIBLIOGRAFIA

    YANCEY, Philip, A Bíblia que Jesus lia, Editora Vida Acadêmica, São Paulo, 2000.

  • RECIPROCIDADE

    A igreja é mestre em ser contraditória. Ao mesmo tempo que faz bem para a nossa vida espiritual estar em comunhão, nem sempre é fácil estar com os irmãos.

    Para a boa saúde espiritual, gosto de olhar para a igreja com um olhar ambivalente. Ela é boa, mas ao mesmo tempo complicada. Ela ajuda, embora em alguns momentos atrapalhe. Tal qual o ser humano, já que a igreja é um reflexo de nós.

    A vida cristã centrada começa quando entendemos nossas falhas, erros e dificuldades e não escondemos. Sendo que este é uma das atitudes que muitas vezes não vemos em um ambiente cristão. Muitos confundem espiritualidade, com aparência, e não é isso. Ser espiritual é estar em uma busca, ser cristão é acima de tudo ser sincero e confessarmos nossos erros e falhas. Confessar os erros não é só o melhor caminho para uma vida cristã centrada. Mas a única forma de buscarmos em Deus a mudança. Você não pede ajuda a Deus por um problema que acredita não ter. É só assumindo as falhas que pedimos ajuda.

    Quem confessa os erros é também compreensível com o próximo. Quem entende a profundidade e dimensão das suas falhas, certamente, pelo menos na maioria das vezes, compreenderá as falhas do próximo, crendo que cada um tem os seus problemas. Tiago 5:16 diz para confessarmos os pecados uns aos outros. É assim que conseguimos ajuda dos irmãos e também, mostramos uns aos outros que cada um tem as suas dificuldades.

    O cristão legalista não é só alguém intolerante, que não dialoga e prefere impor, mas também alguém que não se percebe, que não vê suas falhas e nem as assume.

    O evangelho fala constantemente de reciprocidade: “Perdoamos, porque Deus nos perdoou primeiro” (Mateus 18:33-35), “amamos porque ele nos amou primeiro” (1 João 4:19). Tudo começa em Deus, mas deve terminar em nossas atitudes, são elas que refletirão uma vida transformada. Quem sabe muito bem quem é olha o próximo com a mesma misericórdia que ele espera que Deus olhe para ele.

    Alguém incompreensível, no fundo é uma pessoa que ainda não aprendeu a se autoavaliar e a confessar, de forma genuína seus pecados. Quando confessamos nossos pecados a Deus, não fazemos isso só para pedir o seu perdão, mas também, de forma indireta, para entendermos quem ele é, e quem somos nós.

    Quando genuinamente pedimos perdão a Deus, clamamos por sua misericórdia, e terminamos por entregar a nossa vida a ele. Mas acredito também que, quando confessamos os nossos pecados de forma sincera, entendemos quem somos, o quanto somos falhos, e ao entender, passamos a ser cristãos mais altruístas e compreensíveis uns com os outros. Anselm Grün, no livro “Ser uma pessoa inteira”, complementa:

    “Queres reconhecer a Deus, aprende a conhecer a ti mesmo” (Evágrio) (GRÜN, 2014, p. 12).

    Quando temos um encontro sincero conosco e aprendemos a nos conhecer, caminhamos de forma mais tranquila para a mudança e concomitantemente, para uma real dependência de Deus.

    A vida cristã centrada começa com a ação de refletirmos quem somos, um questionamento que nos leva a Deus, por percebermos nossas fragilidades, sendo que isso impacta em como eu vou perceber a tratar as pessoas.

    Quando nos idealizamos demais, não nos entregamos, por acreditarmos sermos especiais e com isso, não demoramos em condenar e a agir como se estivéssemos acima. A entrega real, reflete em atitudes reais e visíveis. Quando nos conhecemos, nós tratarmos o próximo de forma amorosa, da mesma forma como esperaríamos ser tratados.

    Não é um pagamento e sim uma retribuição prática do que Deus fez por nós. Quem é realmente grato, retribui, por ter certeza quem é.

    BIBLIOGRAFIA

    GRÜN, Anselm, Ser uma pessoa inteira, Editora Vozes, Rio de Janeiro, 2014.

  • DOUTRINAS CRISTÃS

    A simples menção da palavra doutrina deixa muitos incomodados. Alguns, infelizmente, acreditam que doutrinas são apenas regras que aprisionam os cristãos. Outros falam que o surgimento da igreja foi marcado por discussões e uma grande falta de unanimidade por parte dos líderes cristãos. Com isso as conclusões seguem faltando o mínimo de base e verdade no assunto.

    Vale começar pontuando que muito das doutrinas cristãs surgiram no cotidiano da igreja. A maioria das doutrinas que muito tempo depois foram discutidas nos concílios da igreja, tiveram o seu início na prática diária dos cultos e não nas discussões teológicas acaloradas dos concílios. Justo González complementa afirmando que:

    “Do mesmo modo, tendemos a pensar que as doutrinas surgem em geral do debate teológico, quando a verdade é que elas, na maioria, são expressões daquilo que há muito tempo a Igreja vem experimentando e afirmando em seu culto” (GONZÁLEZ, 2015, p. 11).

    Jesus já era adorado na igreja como Deus quando o tema foi debatido nos primeiros concílios. Os evangelhos eram lidos nos cultos e vistos como palavra de Deus sem norma alguma determinando tal importância. O batismo e a comunhão já eram práticas comuns na igreja antes das doutrinas serem estabelecidas (GONZÁLEZ, 2015, p. 11).

    Os concílios acabaram estabelecendo as práticas que já eram habituais na igreja. As doutrinas surgiram primeiro na igreja, como expressão de uma fé já existente. E foram confirmadas como doutrinas justamente por conta da sua unanimidade.

    As doutrinas não são pesos, muitos menos regras aleatórias que cristãos inquisidores e fanáticos estabelecem a fim de escravizar quem tem fé. E sim, cercas de proteção, linhas que propõem limites e protegem os cristãos de caírem em erros e contradições.

    Ao longo da igreja muitos se levantaram e articularam crenças e heresias que passavam bem longe da Bíblia. Em nome de proteger a fé, e organizar uma crença fundamentada na palavra, muitos concílios foram feitos, e heresias combatidas em nome da verdadeira mensagem.

    Uma das heresias foi a de Ário, que acreditava que Cristo havia sido criado, ele era uma criatura de Deus, tal qual as outras criaturas, e com isso, ele não era eterno e muito menos da mesma substância do pai. Jesus o verbo, era uma criatura de Deus, uma das primeiras criaturas criadas por ele, assim defendia Ário. Sendo que a igreja se posicionou quanto a estes pensamentos (GONZÁLEZ, 2015, p. 96). Isso só para citar uma heresia que mobilizou a igreja, pois existiram muitas controvérsias que através dos concílios, levaram a igreja a propor respostas para estas questões.

    As doutrinas são fruto do ensino verdadeiro da palavra, e servem para proteger a igreja das más interpretações e conceitos errôneos, que de tempos em tempos surgem para assombrar a igreja.

    É claro que muitas igrejas organizam doutrinas que não possuem qualquer base Bíblica. Em nome do legalismo, muitos cristãos propõem ensinos, sem refletir, dialogar e verificar na palavra. Não é disso que eu estou falando. As doutrinas a que me refiro é sobre o Cristo, a trindade, a importância da tradição e muitas outras doutrinas que são a base da fé cristã.

    Estas doutrinas nos protegem, nos direcionam, e permite que todo o cristão possa seguir fundamentado na palavra. Esta é a boa doutrina, que ao invés de aprisionar, nos dá um norte, a fim de que consigamos prosseguir rumo ao alvo certo, que é a mensagem da cruz.

    A boa doutrina nos mantém no caminho e nos ajuda a seguir o verdadeiro ensino bíblico. As más, são respostas equivocadas de pontos de vista sem fundamentos.

    BIBLIOGRAFIA

    GONZÁLEZ, Justo. L, Uma breve história das doutrinas cristãs, Editora Hagnos, São Paulo, 2015.

  • QUIETOS E TAGARELAS

    “Se presumirmos que pessoas quietas e falantes têm quase o mesmo número de boas (e más) ideias, então devemos nos preocupar se as pessoas mais falantes e fortes sempre liderarem” (CAIN, 2012, p. 51).

    Cresci em uma escola onde os extrovertidos eram sempre vistos como alunos acima da média, e os introvertidos, como modelos de inaptidão. Eu já fui visto como um aluno limitado pelas professoras, mesmo tendo aprendido a tocar bateria sozinho, com 11 anos de idade. Tudo por conta da minha introversão e na época, grande timidez.

    Nunca me senti confortável em uma sala cheia, e isso acabava refletindo em minhas notas, unindo isso com o fato que as professoras pegavam no meu pé por conta do meu silêncio, por isso, o resultado foi um aluno frustrado. Só me desenvolvi depois que aprendi a lidar com esta questão. Muitos acreditam que falar bem e ser desenvoltos é sinal de inteligência, mas nem sempre é.

    Falar bem ou ser mais quieto, não define a inteligência de uma pessoa, e sim, define apenas algumas qualidades que alguém tem. O extrovertido, por exemplo, domina a arte da comunicação. Este tipo de pessoa naturalmente fala bem, e consegue interagir de forma muito natural. Já o introvertido, tem a facilidade para se concentrar e estudar um assunto dentro de sua confortável solidão. Lembrando que um introvertido não é uma pessoa tímida, propriamente dita, e sim, alguém que prefere o silêncio, grupos com poucas pessoas, e uma interação mais íntima. Normalmente um introvertido se cansa fácil em um local com muita gente. Ao contrário do extrovertido, que já transita bem em um ambiente lotado, já que para ele, interagir é a ordem do dia, falar é o seu melhor passatempo.

    É errado definir uma pessoa pelo seu poder de comunicação, é importante avaliar alguém pelo seu conteúdo, e não pelo modo como fala. Nem sempre quem fala bem, tem conteúdo, as vezes ele consegue apenas falar, contudo, de forma bem superficial, quando não é de forma equivocada.

    Por anos a sociedade definiu uma pessoa inteligente, como comunicativa, a questão é que esta definição sempre foi injusta e um tanto quanto equivocada, como vimos. O fato de alguém falar bem, não define a inteligência, quem sabe, define apenas algum tipo de inteligência, uma entre tantas. A lista é grande, como por exemplo: a inteligência musical, a lógico-matemática, corporal a intrapessoal e por aí vai.

    É evidente que tanto o extrovertido, quanto o introvertido, precisam aprender a equilibrar as suas partes desequilibradas. O extrovertido precisa estudar, buscar uma rotina onde ele possa mergulhar no conhecimento, para assim ter conteúdo. Já o introvertido, precisa aprender a se comunicar, estudar oratória, buscar ferramentas e técnicas que ajudem a alinhar o seu lado falho, mas, sem dúvida, os dois possuem ótimos dons, apenas são de áreas diferentes.

    BIBLIOGRAFIA

    CAIN, Susan. O poder dos quietos: Como os tímidos e introvertidos podem mudar um mundo que não para de falar. Rio de Janeiro: Editora Agir, 2012.