Tanto a literatura quanto a poesia têm a força de ensinar de forma poética e inteligente. Vemos isso em Salmos, que aborda temas sobre Deus, a vida e todos os desafios que o ser humano enfrenta, usando a melodia e o ritmo que a poesia tem como ferramentas para comunicar o evangelho. E um autor que consegue criar uma verdadeira filosofia, trabalhando temas e verdades complexas, mas de forma artística, é Dostoiévski.
Um conto muito interessante escrito por ele foi O sonho de um homem ridículo, uma história curiosa, mas que mostra uma característica importante do ser humano. O texto se inicia com o protagonista afirmando que ele é ridículo e louco. Ele é peremptório em afirmar isso, quando diz logo no primeiro parágrafo que:
“Agora, eles me chamam de louco. Isso até seria subir na hierarquia, se eu, ainda assim, não continuasse sendo, para eles, tão ridículo quanto antes. Mas, agora, eu nem me irrito mais, agora todos eles são queridos para mim e, até quando riem de mim, são, de algum modo, particularmente queridos. Eu mesmo riria com eles, não digo que de mim, mas por amor a eles, se eu não ficasse tão triste ao olhar para eles. Fico triste porque eles não conhecem a verdade, e eu conheço a verdade. Ah, como é difícil ser o único a conhecer a verdade! Mas eles não entenderão isso. Não, não entenderão” (Dostoiévski, 2021, p. 17).
O conto começa com o protagonista afirmando ser ridículo, mas que não ligava de ser visto assim, afinal, ele havia conhecido a verdade, coisa que ninguém havia conseguido descobrir. E é justamente sobre a revelação desta verdade que torna o conto interessante. Foi a primeira coisa na história que me chamou atenção.
O protagonista da história queria se matar, a vida para ele já não tinha mais sentido. Só que no dia em que ele decidiu tirar a sua vida, encontra uma menina na rua que solicita ajuda para a sua mãe. Entretanto, o protagonista se recusa a ajudá-la e vai para a sua casa, pega o revólver, aponta para o peito e dorme com ele nas mãos, tendo assim, um sonho. É sobre este sonho e a verdade que ele descobriu que quero focar este texto.
O protagonista da história sonhou que pegava um revólver e colocava no peito, bem na direção do coração. E enquanto as paredes pereciam se mover, ele apertou o gatilho da arma, contudo, como se estivesse em um sonho, onde, por mais que você caia de um lugar muito alto, não sente dor alguma, ele também não sentiu. Mas ele teve a impressão de que tudo estremeceu à sua volta e se apagou (Dostoiévski, 2021, p. 42).
E após voar pelo espaço, ele foi transportado para uma terra muito parecida com a sua, embora o lugar fosse um paraíso, um lugar muito lindo e com muita paz, mas que ainda não havia sido maculado pelo pecado. Assim sendo, tudo era maravilhoso.
A questão foi que, após a sua chegada, eles começaram a ter problemas entre eles, e o protagonista diz que foi ele que corrompeu o lugar. Aqueles habitantes que antes eram felizes e viviam em um lugar perfeito aprenderam a mentir, enganar e criaram o caos em um paraíso onde existia apenas paz e alegria. As pessoas se dividiram e se colocaram umas contra as outras, e o lugar virou uma desordem. Quase no final do sonho, o protagonista, escandalizado com o problema, diz:
“Eu andava no meio deles e, levando as mãos à cabeça, chorava por eles, mas talvez eu os amasse ainda mais do que antes, quando em seus rostos ainda não havia sofrimento, e quando eles eram tão inocentes e belos. Passei a amar aquela Terra, profanada por eles, ainda mais do que quando era um paraíso, apenas porque nela surgira o infortúnio” (Dostoiévski, 2021, p. 84–85).
E mesmo quando o protagonista da história assumiu a culpa e, com tristeza, disse que foi ele que havia provocado aquele caos, que a depravação, a contaminação e a mentira eram culpa dele, ninguém o ouviu, mas o chamaram de louco (Dostoiévski, 2021, p. 84). O protagonista da história era uma espécie de serpente no paraíso, que fez com que o pecado entrasse naquele lugar.
No final do conto, ele acorda e pensa sobre a sua vida, sobre a menina que pediu ajuda, sendo que, depois, ele a procura. O seu sonho o fez pensar sobre a sua vida e a condição pecadora que todos os homens têm.
Gosto desta história justamente porque ela fala de nós, seres humanos. Ela demonstra como não existe lugar algum perfeito, onde um ser humano está tem pecado. Sem Deus, nós seguimos em direção ao caos e transformamos um paraíso em uma ruína, um lugar de balbúrdia e desunião. A Bíblia já nos ensina que todos pecaram e, por isso, estão afastados da glória divina (Romanos 3:23). E onde existem seres humanos pecadores, nascerá certamente o caos, mesmo em um lindo e perfeito paraíso.
O conto no final revela esta característica do ser humano e a sua capacidade de construir problemas e desuniões mesmo na sociedade mais centrada que possa existir. E ao olharmos para o mundo, percebemos justamente isso, e nos damos conta de como a palavra de Deus, no final, está sempre certa.
A mais coerente sociedade, sem Deus, vira um local de caos. O ser humano mais correto é um pecador, destinado a espalhar muito mais problemas do que soluções. Sem Deus, o ser humano está propício a problemas e à desordem.
Bibliografia
DOSTOIÉVSKI, Fiódor. O sonho de um homem ridículo. Rio de Janeiro: Antofágica, 2021.
