Início

  • DESAFIOS DA ESPIRITUALIDADE CRISTÃ XII: REFERENCIAIS INTERIORES

    Quando eu era criança, costumava passar as férias de fim de ano na praia e, quando voltávamos para casa, era comum, mesmo em dias ensolarados, ter que enfrentar algumas tempestades no alto da serra. Tempestades são constantes em nossa jornada, mesmo em dias aparentemente bons, assim é na vida.

    É comum o tempo virar e termos que passar por intempéries e, neste momento, não é anormal muitos se sentirem abandonados por Deus, como se cristãos não enfrentassem problemas. Responsabilizar Deus, a vida ou amigos é muito mais prático do que aceitar o erro ou entender que o sofrimento faz parte da vida e assumir a responsabilidade. Nem sempre somos culpados pelas tempestades da vida, mas certamente somos responsáveis. Ricardo Barbosa de Sousa complementa, enfatizando que:

    “Resistimos a admitir a responsabilidade pelo que somos, fazemos ou deixamos de fazer; preferimos responsabilizar outra pessoa pelo brinquedo quebrado, pelo atraso na aula ou na entrega do trabalho. Há sempre alguém responsável pelo que sou ou pelo que fiz” (SOUSA, 2016, p. 26).

    Culpar os outros e não assumir as nossas responsabilidades é terceirizar a culpa e deixar de ser protagonistas em nossa história.

    Entender que nossas emoções e sentimentos são frutos do que acreditamos e sentimos é um primeiro passo para buscar mudança e assumir o controle. É conforme acreditamos ou percebemos como a vida e as coisas que acontecem, que temos uma determinada atitude (SOUSA, 2016).

    Por isso, moldar as nossas crenças e modo de vermos a vida a partir da palavra de Deus é essencial para conseguirmos ser cristãos centrados. Sendo este o conselho que Paulo nos dá:

    “Portanto, já que vocês ressuscitaram com Cristo, procurem as coisas que são do alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus. Mantenham o pensamento nas coisas do alto, e não nas coisas terrenas. Pois vocês morreram, e agora a sua vida está escondida com Cristo em Deus” (Colossenses 3:1-3) (NVI).

    Apesar deste parágrafo ser muito breve, ele possui uma relevância muito grande. O texto traz tanto instruções quanto incentivos. Paulo inicia o capítulo três afirmando que nós já ressuscitamos com Cristo, e por conta disso, buscar as coisas do alto e a vida correta precisa ser o nosso principal objetivo. Os nossos interesses estão em Jesus e a nossa mente, ambições e propósitos precisam estar firmados no reino vindouro. O esforço contínuo é essencial, visto que este foco não nasce automaticamente (CARSON et al., 2012).

    Sousa (2016) explica que todos os seres humanos avaliam as coisas partindo dos seus referenciais interiores, são eles que estabelecem a forma como vamos olhar ou julgar uma situação. As convicções dão forma ao pensamento. É por isso que cada pessoa reage de uma forma, diante dos mesmos problemas, visto que cada indivíduo tem o seu referencial interior.

    Ter uma atitude intencional e preencher a nossa vida com as coisas que são do alto é um passo importante. Alinhar o referencial interior a partir do evangelho e não das prioridades terrenas é uma atitude essencial para um cristão.

    Buscar fundamentar nossos referenciais interiores na palavra de Deus, pensando e nos relembrando das verdades do evangelho, é essencial para não nos moldarmos aos padrões do mundo. Sendo este um exercício diário, uma busca constante de querer estar sempre no centro da vontade de Deus.

    Quando Cristo é o centro da nossa vida, a nossa mente e os nossos referenciais são moldadas a partir da verdade celeste que precisa ser o nosso Norte, o único referencial da nossa vida.

    Se a palavra de Deus é o seu Norte, realinhe os seus referenciais interiores a partir dela.

    Bibliografia

    CARSON, D. A.; FRANCE, R. T.; MOTYER, J. A.; WENHAM, G. J. Comentário bíblico Vida Nova. 1. ed. São Paulo: Vida Nova, 2012.

    O’BRIEN, Peter T. Colossenses. In: CARSON, D. A.; FRANCE, R. T.; MOTYER, J. A.; WENHAM, G. J. Comentário bíblico Vida Nova. 1. ed. São Paulo: Vida Nova, 2012.

    SOUSA, Ricardo Barbosa de. Pensamentos transformados, emoções redimidas. Viçosa: Ultimato, 2016.

  • NARRATIVA DE DESCONSTRUÇÃO

    O nosso grande desafio nesta sociedade cada vez mais polarizada é conseguir separar a verdade e os fatos sobre um assunto, das narrativas que possuem o propósito de desconstruir uma verdade e manipular opiniões. Por isso, é fácil encontrarmos indivíduos seguindo muito mais narrativas construídas do que a verdade.

    Sobre a desconstrução da razão, conforme pontua Stephen Hicks (2021) no livro Guerra cultural, podemos afirmar que, se o mundo não existe ou mesmo se não há um “eu” para compreendê-lo e gerar argumentos e pontos de vista, qual seria o motivo de pensarmos e agirmos? Sendo que é justamente a verdade, a razão e a correspondência entre a ideia e o pensamento, que estão sendo destruídos por pensadores da nossa era. E Foucault, um expoente no assunto, entende que a razão é a linguagem da loucura. Este é um retrato dos nossos dias, onde a verdade e a razão são vistas como absurdas. E desta forma o nosso mundo segue se desconstruindo e seguindo em direção a inúmeras contradições. Stephen Hicks complementa:

    “Quando chegamos ao pós-modernismo, a razão já é vista não apenas como subjetiva, mas também como incompetente, extremamente contingente, relativa e coletiva” (2021, p. 42).

    Perceba como é perigoso entender o mundo como um lugar sem verdades, razão e conceitos para nos guiar. Se existem só pontos de vista e a razão se resume apenas a uma linguagem delirante, o mundo seguirá cegamente guiado por desejos e vontades. E quando a vontade humana é o principal norte, o caos e a desordem são os frutos desta realidade.

    No final, esta desconstrução da razão que o pós-modernismo faz serve apenas como estratégia de políticos e influenciadores para desconstruir a verdade e impor mudanças utilizando pautas legítimas como justificativa ou para tomar o poder. Sendo que o totalitarismo e a imposição são os pontos de partida destas pessoas.

    A razão pode ser definida como uma capacidade que os seres humanos possuem que os diferencia dos animais, sendo ela um referencial que direciona as pessoas em todas as áreas em que são possíveis efetuar a indagação e a investigação (Abbagnano, 2018). Ou seja, a razão é a capacidade que as pessoas têm de questionar e investigar um assunto. E quando isso é perdido e o questionamento começa a ser proibido, o ser humano para de entender e questionar o seu entorno, virando um fantoche do seu meio. Se não existe verdade, tudo é válido e o que é relevante se torna um simples ponto de vista.

    Somando a isto, podemos incluir a desinformação que é a marca dos nossos dias. “Especialistas” e influenciadores utilizam o senso comum ou as pseudoetimologias para ensinar as pessoas, partindo de informações falsas e incoerentes, sem sofrer questionamentos por causa da grande ignorância humana. Isso revela a dimensão do desafio daqueles que acreditam e entendem que a verdade e a razão são princípios fundamentais.

    E o totalitarismo se inicia justamente assim, construindo um possível vilão ou propondo uma ideia miraculosamente salvadora, que justificará ações violentas. Eles pintam um vilão para poder agir de forma totalitária. Em todos os regimes totalitários conseguimos encontrar este fato.

    Existe uma narrativa de desconstrução querendo destruir a razão e a verdade que sempre guiou os seres humanos. A família, a igreja e muitos setores da sociedade estão sendo vistos como vilões, em nome de pautas de controle social.

    Por isso, fique atento, informe-se e estude, para construir um repertório que ajudará você a enxergar as contradições deste tipo de narrativa, sem esquecer que a verdade é o melhor caminho.

    Bibliografia

    ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. 1. ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2018.

    HICKS, Stephen. Guerra cultural: Como o pós-modernismo criou uma narrativa de desconstrução do ocidente. São Paulo: Faro Editorial, 2021.

  • AS GENEALOGIAS BÍBLICAS E A MÃO DE DEUS NA HISTÓRIA

    Muitos me perguntam sobre as genealogias e o propósito destas listas intermináveis na Bíblia. Gosto muito de ler a palavra de Deus, mas nem sempre é fácil ler tais genealogias. Por serem grandes listas de nomes e por não entendermos o propósito delas, passamos muitas vezes apáticos pelos textos ou lemos apenas por obrigação.

    A grande questão é que as genealogias demonstram como Deus está agindo na história. Desde Gênesis, com a história de Adão e Eva, passando pelos inúmeros personagens bíblicos que foram ferramentas nas mãos de Deus, é possível vermos Deus agindo soberanamente. A história não está seguindo sem controle, como aqueles trens desgovernados, existe um Senhor que tudo sabe e que governa como bem lhe apraz.

    A Bíblia não é um livro forjado, escrito de modo aleatório e de qualquer jeito, ela é um texto que mostra a revelação de Deus ao ser humano e a sua ação durante todo o período da história. E a genealogia nos mostra a mão soberana do nosso eterno pai. Não existe acaso na Bíblia, muito menos eventos aleatórios na palavra de Deus, existe uma história e o nosso pai soberano agindo poderosamente.

    Assim sendo, podemos perceber que, em todos os momentos da história, um Deus estava presente, sua poderosa mão e também a sua presciência transcendem a história e a lógica humana. Salmos nos ensina que:

    “Ele determina o número de estrelas e chama cada uma pelo nome. Grande é o nosso Soberano e tremendo é o seu poder; é impossível medir o seu entendimento” (Salmos 147:4-5) (NVI).

    Acho este Salmo profundo, visto que a dimensão do universo é realmente grande, e por mais que o ser humano tenha investido em tecnologias para explorar o espaço, o que ele conhece é muito pouco, mas Deus conhece cada estrela que existe, chamando-as pelo nome. Deus sabe de tudo e nada pode ficar escondido dos seus olhos, o nosso soberano pai é tão grande que é impossível entendermos o tamanho da sua sabedoria. E se ele distingue cada estrela, imagine o ser humano. Ele nos conhece como ninguém. Douglas Connelly e Larry Richards complementam:

    “Um Deus que é tão grande e poderoso também conhece cada um de nós. Ele conhece nossas feridas e nossas dores; ele se importa o suficiente para curar aqueles que estão com o coração partido e para juntar aqueles que se sentem excluídos” (CONNELY; RICHARDS, 2017, p. 377).

    Este é o tamanho do nosso Deus, sendo que ele é o senhor de tudo, nada escapa das suas poderosas mãos. E este Salmo foi escrito após o povo de Jerusalém voltar de um grande período de cativeiro na Babilônia. Quando eles retornaram, encontraram uma cidade em ruínas e, por causa disso, eles precisaram reconstruir tudo do zero. Mas Deus estava no controle. Apesar do grande trabalho, ele levantou Neemias, que instigou o povo a reconstruir tudo em poucos dias (CONNELY; RICHARDS, 2017).

    Esta história nos mostra que é quando tudo parece estar perdido que percebemos como, no final, Deus estava no controle. É Ele que nos guia e cuida de todos os detalhes da nossa vida. E as genealogias mostram justamente isso, como o nosso soberano Pai sempre esteve no controle da história. 

    Por isso, quando você se deparar com algumas destas genealogias na Bíblia, lembre-se de que ela fala da história de um povo e revela a mão de Deus agindo durante todas as gerações. É Deus que cuida da nossa história, não estamos soltos ao acaso.

    Bibliografia

    CONNELY, Douglas.; RICHARDS, Larry. Guia fácil para entender Salmos: Tudo sobre os Salmos, reunido e organizado de maneira completa e acessível. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017.

  • ENTRE OPINIÕES E CERTEZAS VAZIAS

    Cada indivíduo tem a sua opinião sobre alguns assuntos, sendo que existem até aqueles que possuem um ponto de vista formado sobre qualquer coisa, eu tomo cuidado com estas pessoas. Aqueles que acreditam que sabem de tudo, na verdade, demonstram que não sabem muito.

    O que vai separar a boa opinião da ruim é justamente o nosso conhecimento sobre o conteúdo. Quanto mais entendemos um tema, melhor julgamos os pontos de vista e melhor percebemos as nossas falhas e erros sobre a questão. O conhecimento nos permite ver e julgar as coisas com mais precisão.

    O problema do homem é acreditar que ele tem uma solução para tudo, é crer que a sua opinião é relevante, mesmo em um tema que ele conhece pouco. Muitos têm a mania de se levar tão a sério, que muitas vezes ele não percebe o perigo de acreditar saber sobre tudo. E esta é uma atitude arrogante e autocentrada. Ter a humildade de reconhecer que não entendemos alguns temas é essencial, além de ser algo normal, já que não sabemos de tudo.

    Um homem com uma opinião e sem abertura para o diálogo, vira um tirano. Alguém que crê que o seu pensamento é o centro de tudo, é um impostor, um arrogante que pensa ser o dono da verdade, sendo que o princípio do totalitarismo e da imposição reside justamente nesta mentalidade. Gosto de uma citação de Pascal, que explica justamente esta dinâmica:

    “A força é a rainha do mundo, e não a opinião; mas, é a opinião que usa a força” (1995, p. 137).

    Em nome de um modelo político “certo” e “infalível”, muita violência e muito caos já foram semeados. A certeza, é muitas vezes perigosa. Dialogar, ao invés de impor, é sempre difícil, quando alguém acredita que a sua opinião é verdadeira. E ao olharmos em nosso cenário político, muitas vezes vemos isso, pessoas com tanta certeza, que querem calar quem pensa diferente ou discorda da sua opinião.

    Creio que existam verdades absolutas, mas também sei que a verdade é tímida e nem sempre conseguimos percebê-la. Às vezes acreditamos ter encontrado a verdade, até nos depararmos com todas as contradições no meio do caminho ou de temas, que necessitam de mais estudo e reflexão. Mais uma vez, o autoengano é sempre perigoso, ter muito cuidado e critérios, é fundamental.

    O mundo é simples, como a flor que nasce e desabrocha, mas também parece ser complicado, quando olhamos para o universo, por exemplo, e contemplamos a sua infinitude. Dependendo do tema, temos um certo desafio para compreendermos um assunto, por isso que estudar e dialogar é fundamental.

    Um ser humano, munido de muitas opiniões, mas sem qualquer reflexão ou diálogo, é capaz de construir o caos. Nada é tão passível de tirania quanto um indivíduo munido de inúmeras certezas.

    O princípio fundamental para nos tirar desta contradição é a humildade, é entender que podemos estar enganados e dialogar, principalmente sobre temas complexos, é melhor dialogar do que impor. E é só com muita humildade, diálogo e estudo, que conseguiremos chegar em algum lugar, caso contrário, certamente, o caos se fará presente, não tenham dúvidas.

    Bibliografia

    PASCAL, Blaise. Pensamentos. Bauru: Edipro, 1995.

  • O SONHO DE UM HOMEM RIDÍCULO: DOSTOIÉVSKI

    Tanto a literatura quanto a poesia têm a força de ensinar de forma poética e inteligente. Vemos isso em Salmos, que aborda temas sobre Deus, a vida e todos os desafios que o ser humano enfrenta, usando a melodia e o ritmo que a poesia tem como ferramentas para comunicar o evangelho. E um autor que consegue criar uma verdadeira filosofia, trabalhando temas e verdades complexas, mas de forma artística, é Dostoiévski.

    Um conto muito interessante escrito por ele foi O sonho de um homem ridículo, uma história curiosa, mas que mostra uma característica importante do ser humano. O texto se inicia com o protagonista afirmando que ele é ridículo e louco. Ele é peremptório em afirmar isso, quando diz logo no primeiro parágrafo que:

    “Agora, eles me chamam de louco. Isso até seria subir na hierarquia, se eu, ainda assim, não continuasse sendo, para eles, tão ridículo quanto antes. Mas, agora, eu nem me irrito mais, agora todos eles são queridos para mim e, até quando riem de mim, são, de algum modo, particularmente queridos. Eu mesmo riria com eles, não digo que de mim, mas por amor a eles, se eu não ficasse tão triste ao olhar para eles. Fico triste porque eles não conhecem a verdade, e eu conheço a verdade. Ah, como é difícil ser o único a conhecer a verdade! Mas eles não entenderão isso. Não, não entenderão” (Dostoiévski, 2021, p. 17).

    O conto começa com o protagonista afirmando ser ridículo, mas que não ligava de ser visto assim, afinal, ele havia conhecido a verdade, coisa que ninguém havia conseguido descobrir. E é justamente sobre a revelação desta verdade que torna o conto interessante. Foi a primeira coisa na história que me chamou atenção.

    O protagonista da história queria se matar, a vida para ele já não tinha mais sentido. Só que no dia em que ele decidiu tirar a sua vida, encontra uma menina na rua que solicita ajuda para a sua mãe. Entretanto, o protagonista se recusa a ajudá-la e vai para a sua casa, pega o revólver, aponta para o peito e dorme com ele nas mãos, tendo assim, um sonho. É sobre este sonho e a verdade que ele descobriu que quero focar este texto.

    O protagonista da história sonhou que pegava um revólver e colocava no peito, bem na direção do coração. E enquanto as paredes pereciam se mover, ele apertou o gatilho da arma, contudo, como se estivesse em um sonho, onde, por mais que você caia de um lugar muito alto, não sente dor alguma, ele também não sentiu. Mas ele teve a impressão de que tudo estremeceu à sua volta e se apagou (Dostoiévski, 2021, p. 42).

    E após voar pelo espaço, ele foi transportado para uma terra muito parecida com a sua, embora o lugar fosse um paraíso, um lugar muito lindo e com muita paz, mas que ainda não havia sido maculado pelo pecado. Assim sendo, tudo era maravilhoso.

    A questão foi que, após a sua chegada, eles começaram a ter problemas entre eles, e o protagonista diz que foi ele que corrompeu o lugar. Aqueles habitantes que antes eram felizes e viviam em um lugar perfeito aprenderam a mentir, enganar e criaram o caos em um paraíso onde existia apenas paz e alegria. As pessoas se dividiram e se colocaram umas contra as outras, e o lugar virou uma desordem. Quase no final do sonho, o protagonista, escandalizado com o problema, diz:

    “Eu andava no meio deles e, levando as mãos à cabeça, chorava por eles, mas talvez eu os amasse ainda mais do que antes, quando em seus rostos ainda não havia sofrimento, e quando eles eram tão inocentes e belos. Passei a amar aquela Terra, profanada por eles, ainda mais do que quando era um paraíso, apenas porque nela surgira o infortúnio” (Dostoiévski, 2021, p. 84–85).

    E mesmo quando o protagonista da história assumiu a culpa e, com tristeza, disse que foi ele que havia provocado aquele caos, que a depravação, a contaminação e a mentira eram culpa dele, ninguém o ouviu, mas o chamaram de louco (Dostoiévski, 2021, p. 84). O protagonista da história era uma espécie de serpente no paraíso, que fez com que o pecado entrasse naquele lugar.

    No final do conto, ele acorda e pensa sobre a sua vida, sobre a menina que pediu ajuda, sendo que, depois, ele a procura. O seu sonho o fez pensar sobre a sua vida e a condição pecadora que todos os homens têm.

    Gosto desta história justamente porque ela fala de nós, seres humanos. Ela demonstra como não existe lugar algum perfeito, onde um ser humano está tem pecado. Sem Deus, nós seguimos em direção ao caos e transformamos um paraíso em uma ruína, um lugar de balbúrdia e desunião. A Bíblia já nos ensina que todos pecaram e, por isso, estão afastados da glória divina (Romanos 3:23). E onde existem seres humanos pecadores, nascerá certamente o caos, mesmo em um lindo e perfeito paraíso.

    O conto no final revela esta característica do ser humano e a sua capacidade de construir problemas e desuniões mesmo na sociedade mais centrada que possa existir. E ao olharmos para o mundo, percebemos justamente isso, e nos damos conta de como a palavra de Deus, no final, está sempre certa.

    A mais coerente sociedade, sem Deus, vira um local de caos. O ser humano mais correto é um pecador, destinado a espalhar muito mais problemas do que soluções. Sem Deus, o ser humano está propício a problemas e à desordem.

    Bibliografia

    DOSTOIÉVSKI, Fiódor. O sonho de um homem ridículo. Rio de Janeiro: Antofágica, 2021.

  • A PAZ DE DEUS

    “Não andem ansiosos por coisa alguma, mas em tudo, pela oração e súplicas, e com ação de graças, apresentem seus pedidos a Deus. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os seus corações e as suas mentes em Cristo Jesus” (Referência: Filipenses 4:7) (NVI).

    Gosto de viajar de automóvel, muito mais do que de ônibus, apesar do desconforto em trajetos longos. Prefiro ver o motorista dirigindo, conferir se ele está acordado, prestando atenção na viagem, coisa que não é possível fazer em alguns ônibus e também em aviões. É uma desconfiança muito grande que tenho e que também soa muito estranha, eu sei disso.

    Viver se assemelha muito a viajar de avião para locais próximos. A viagem normalmente é rápida, visto que o nosso tempo de vida aqui na terra é curto, nem sempre vemos o tempo passar. E as turbulências, da mesma forma que enfrentamos nos aviões, chegam sem avisar e nas horas mais incertas e inadequadas. A parte complicada é que nem sempre podemos agir para solucionar tais problemas, algumas situações fogem do controle humano. Seguimos sentados na poltrona do avião da vida e o que nos resta é confiar em Deus, que não vemos conduzir o avião, mas que sabemos muito bem que está no controle de tudo.

    O apóstolo Paulo, neste versículo de Filipenses (4:7), fala de uma paz que excede todo o entendimento, é uma paz que nem sempre conseguimos entender, mas ela existe. E, em se tratando de Paulo, alguém que foi muito perseguido e sofreu muito, a reflexão fica ainda mais interessante, já que ele fala da importância de buscar esta paz, estando também em condições adversas. Provavelmente, o apóstolo estava falando de uma prática que fazia parte da sua rotina. 

    Na vida, vamos passar por muitas turbulências, pois não temos controle de tudo. Neste mundo incerto, confiar e buscar esta paz de Deus, que de modo algum conseguimos racionalizar, é a única saída para não perdermos o controle. A ansiedade e as preocupações do mundo podem desviar o nosso olhar de Deus. A nossa única saída é orar e entregar nossos problemas nas suas mãos, buscando assim a sua paz, que excede qualquer entendimento humano. Francis Foulkes explica que:

    “Quando a oração substitui a preocupação, a paz de Deus, que excede todo o entendimento assume o controle, atuando como uma sentinela e impedindo que a mente e as emoções do cristão sejam subjugadas por uma investida repentina de medo, ansiedade ou tentação. Essa realidade deve ser experimentada pelos cristãos na sua vida diária” (CARSON et al., 2012, p. 1891).

    Orar e buscar esta paz em Deus é a única forma de seguirmos bem, mesmo em meio ao caos. Ou buscamos a paz divina, ou certamente seguiremos ainda mais ansiosos, neste mundo que caminha em direção à desesperança.

    Sei que não é fácil ter que lidar com todos os percalços do caminho, não estou tentando diminuir a sua luta e suas dificuldades. Só estou enfatizando ser possível buscar em Deus a paz, para que a nossa confiança, em meio ao vento forte da estrada, continue fundamentada na Rocha.  

    Bibliografia

    CARSON. DA.; FRANCE, RT.; MOTYER, J. A.; WENHAM, G. J. Comentário Bíblico Vida Nova. São Paulo, Editora Vida Nova, 2012.

    FOULKES, Francis. Filipenses. In: CARSON. DA.; FRANCE, RT.; MOTYER, J. A.; WENHAM, G. J. Comentário Bíblico Vida Nova. São Paulo, Editora Vida Nova, 2012.

  • AS IDEOLOGIAS POLÍTICAS E O EVANGELHO

    Boas estradas podem nos levar a destinos ruins, sendo este um dos problemas de inúmeras ideologias políticas que prometem justiça, equidade e acesso, mas que no final promovem ambientes totalitários e autoritários.

    No Sermão da Montanha, Cristo falou da porta estreita e da larga, do caminho estreito e do amplo que conduz as pessoas à perdição (Mateus 7.13-14). E ter cuidado com todas as ideologias que distanciam os cristãos do evangelho, do caminho estreito que exige disciplina, caráter e resistência quanto às tentações e ênfases equivocadas do mundo, é a missão dos seguidores de Cristo. Não é raro vermos inúmeras pessoas hipnotizadas por algumas ideologias políticas.

    Franklin Ferreira (2016) enfatiza que as ideologias políticas estão abaixo do evangelho. A palavra de Deus certamente está muito acima, sendo que ela não pode ser confundida com qualquer ideologia que o mundo coloca. A Declaração Teológica de Barmen ensina isso quando diz que:

    “Rejeitamos a falsa doutrina de que à Igreja seria permitido substituir a forma da sua mensagem e organização, a seu bel-prazer ou de acordo com as respectivas convicções ideológicas e políticas reinantes” (8.18) (apud FERREIRA, 2016, p. 85).

    Gasset (2016) ensina que é por meio da linguagem que o ser humano emite a sua opinião e reflexão. No entanto, é também com ela que o ser humano mente e manipula a opinião das pessoas. Sendo que a mentira existe justamente porque a verdade também existe.

    Com isso, precisamos fundamentar a nossa vida no evangelho, para justamente não cairmos nas ciladas das ideologias políticas, que insistem em impor equívocos e mentiras, a partir de realidades verdadeiras. Muitos usam temas genuínos, mas modificados, contando com a ingenuidade de muitos, para vender uma narrativa e, com isso, conseguir o poder. A Bíblia nos ensina que o mundo, por conta do pecado, segue pelo engano (1 João 5:19; Efésios 4:22; 2 Coríntios 4:4; Romanos 1:25), por isso, seja precavido e fundamente a sua opinião a partir da palavra de Deus e não siga certas narrativas que servem para manipular a opinião das pessoas.

    Conheci muitos cristãos que colocavam suas ideologias políticas como as únicas soluções para os problemas do mundo, como se o ser humano pudesse se salvar do caos e pecado que a vida sem Deus provoca. Timothy Keller fala da religião política, quando afirma que:

    “Podemos ver nossos líderes políticos como “redentores”, nossa orientação política como doutrina de salvação, e converter nosso ativismo político em uma espécie de religião” (2018, p. 112).

    O vazio espiritual do ser humano o leva a exaltar líderes, transformando uma ideologia em religião, condenando, desta forma, aqueles que se atrevem a desobedecer aos falsos deuses políticos que eles constroem.

    Muitos transformam a sua ideologia política em religião, acreditando que apenas a sua religião política pode salvar o mundo. Conheço muitos assim, que inclusive afirmam que aqueles que não concordam com a sua opinião não são inteligentes.

    O evangelho é o nosso Norte e não qualquer ideologia política, vista por muitos como algo sagrado e incontestável. Precisamos cultivar a tolerância, entendendo que existem inúmeras opiniões diferentes e crenças que não podem ser tolhidas, mas respeitadas e aceitas. Davi Lago complementa nos ensinando que:

    “Para cultivar a democracia, precisamos parar de querer exercer controle sobre a consciência dos outros. A tolerância nasce da constatação de que as pessoas são diferentes e há áreas da vida em que existem opiniões conflitantes” (2018, p. 177).

    Perceba o perigo em colocar uma ideia política ou um político em um patamar divino e salvador do mundo. Isso termina por passar por cima da própria verdade do evangelho. O ser humano, quando é colocado como um Deus, certamente criará um ambiente caótico. O mesmo podemos concluir das visões políticas vistas como salvadoras. 

    Seguir uma ideologia muitas vezes impede as pessoas de fazer críticas e observações àqueles que trabalham no setor público, como é o caso dos políticos. Precisamos entender que, acima de tudo, somos cristãos, esta é a nossa realidade e as ideologias não podem ser o norte da nossa vida e pensamento, e sim, o evangelho.

    Em vista disso, como bons cristãos, precisamos ter cautela quanto às ideologias políticas que não permitem olharmos com cuidado as atitudes e posicionamentos que determinada ideologia gerou na história ou que está fazendo por meio da política. Os princípios que guiam a nossa vida vêm da palavra de Deus e cultivar um pensamento honesto é um posicionamento importante para transformarmos a política do nosso país.

    Bibliografia

    FERREIRA, Franklin. Contra a idolatria do estado: O papel do cristão na política. São Paulo: Vida Nova, 2016.

    GASSET, José Ortega Y. A rebelião das massas. Campinas: Vide Editorial, 2016.

    KELLER, Timothy. Deuses falsos: As promessas vazias do dinheiro, sexo e poder, e a única esperança que realmente importa. São Paulo: Vida Nova, 2018.

    LAGO, Davi. Brasil polifônico: Os evangélicos e as estruturas de poder. São Paulo: Mundo Cristão, 2018.

  • TRIBUNAL INTERIOR

    O ser humano é alguém que julga e também é julgado com uma facilidade muito grande. O julgamento é tão inevitável que interiormente sempre existe uma opinião ou um julgamento guardado, pronto para ser utilizado, contudo, nem sempre é fácil ser cobrado ou julgado, apesar da facilidade que o homem tem em julgar.

    Existem, inclusive, aqueles que se abalam muito com as opiniões e cobranças das pessoas. É como se o julgamento atingisse o seu âmago e provocasse feridas emocionais. Ricardo Barbosa de Sousa (2016) explica que o grande ponto sobre julgamentos é que ele, na verdade, é alimentado pela cobrança interior que muitas pessoas possuem. Para alguns indivíduos que afirmam que não gostam de cobranças, na verdade o que eles possuem é uma espécie de dívida interna, é por isso que ser cobrado, para estes, é algo tão complicado. Ricardo Barbosa complementa:

    “O problema não está na “cobrança”, seja dos outros ou própria, mas na maneira como a pessoa reage quando sente-se endividada. Provavelmente, essa cobrança desperta na pessoa algum sentimento de dívida” (Sousa, 2016, p. 66).

    É certo que a maioria das cobranças internas que muitos sentem são frutos deste sentimento de dívida. No final, o verdadeiro tribunal não é exterior, mas interior, ele está dentro destas pessoas que precisam ser aceitas, compreendidas, perdoadas e amadas (Sousa, 2016).

    O modo como reagimos a uma crítica deveria ligar uma luz de alerta em nossa mente, nos levando a refletir sobre o porquê ela nos ofende. É claro que nem sempre é fácil ouvir críticas ou mesmo opiniões contrárias, mas elas não deveriam nos ferir ou nos incomodar. É possível que essas cobranças interiores estejam amplificando o problema, por conta do sentimento de dívida.

    Se temos um tribunal interior que nos condena, temos muitos problemas que precisam ser resolvidos, sendo que nem sempre o ser humano percebe, justamente porque ele não se conhece por inteiro. O autoconhecimento é sempre um grande desafio. É por isso que gosto muito do ensinamento sobre graça. Paulo nos ensina que:

    “Portanto, você, meu filho, fortifique-se na graça que há em Cristo Jesus” (2 Timóteo 2:1) (NVI).

    É a graça divina que nos ajudará a enfrentar estes tribunais. O conceito nos ajuda a entender que mérito humano algum tem o poder de ajudá-lo a se salvar, ninguém tem esta habilidade, visto que somos todos pecadores. É por conta disso que a graça nos faz humildes e combate a nossa arrogância, mas ela também nos dá força para combater as acusações do nosso tribunal interior.

    O apóstolo Paulo nos ensina a fortalecer o homem interior, para que este cristão tenha forças suficientes para enfrentar as batalhas externas, cumprindo o seu propósito no mundo (Champlin, 2014). Tudo começa em nós, por isso, precisamos buscar a graça de Cristo e permitir que ela fortaleça a nossa vida.

    Tudo o que temos e somos devemos a Deus, por isso a arrogância é contraditória, já que não temos mérito algum e de igual forma é a cobrança interior e o sentimento de dívida, nós devemos tudo somente a Deus, sem ele estaríamos perdidos. E este posicionamento precisa nos levar a descansar na graça do nosso eterno pai. É esta graça divina que nos dará forças e nos preparará para enfrentar as intempéries do mundo.

    Enfrente este tribunal interior com a graça divina, com a força que Deus nos dá. busque Nele a cura, entendendo que no final tudo é fruto da graça de Deus, ninguém é merecedor de coisa alguma.

    Bibliografia

    CHAMPLIN, R. N. O Novo Testamento interpretado versículo por versículo: Volume 5. São Paulo: Hagnos, 2014.

    SOUSA, Ricardo Barbosa de. Pensamentos transformados, emoções redimidas. Viçosa: Ultimato, 2016.

  • DESAFIOS DA ESPIRITUALIDADE CRISTÃ XI: FÉ, AMOR E SERVIÇO

    Não é raro encontrarmos cristãos e igrejas insistindo em viver em suas bolhas, alheios a tudo e a todos. A parte contraditória destes cristãos é que a vida cristã egoísta, que não olha e muito menos ajuda o outro, é discordante com o ensino bíblico, já que a palavra de Deus nos ensina algumas importantes características do amor (1 Coríntios 13:4-5).

    No livro Instrução no amor cristão, Martin Bucer (2023) ensina justamente sobre os princípios bíblicos da verdadeira conversão, enfatizando como a verdadeira fé traz resultados práticos na vida do próximo (João 13:5-15, 15:1-14). E Bucer complementa, explicando que:

    “Tudo isso deixa claro que ninguém deve viver para si mesmo, pois Deus criou todas as coisas para poderem contribuir não para seu próprio bem, mas sim, o bem de outros, e para poderem ser instrumentos e evidência da bondade divina, que todas as coisas devem expressar e espalhar” (BUCER, 2023, p. 51).

    O serviço cristão, a ação de ajudarmos no bem-estar do próximo, revela, através das nossas atitudes, a bondade divina. E servir é um exemplo que a Bíblia e Cristo nos dão lá no lava-pés (João 13:1-17). Paulo complementa nos ensinando que:

    “Ninguém deve buscar o seu próprio bem, mas sim o dos outros” (1 Coríntios 10:24) (NVI). 

    O evangelho solitário é contraditório, ser cristão é estar em comunidade, servindo e ajudando uns aos outros. Bruce Winter explica que, em Corinto, as práticas beneficentes e toda a organização de patronagem não existiam para auxiliar o próximo. Na verdade, serviam apenas como uma promoção pessoal, sendo que fazer o bem aos outros eram ações que ficavam em segundo plano. Entretanto, a ética cristã entende que ajudar o próximo e fazer o bem precisa estar em primeiro plano e não a promoção pessoal (CARSON et al., 2012). Estava em falta em Corinto e também em nossos dias, a mentalidade cristã de serviço, o hedonismo imperava e é por isso que o apóstolo Paulo enfatiza a importância de auxiliar uns aos outros. Uma lição que é muito atual.   

    Amar o próximo e buscar o bem dele deve ser uma prioridade para a vida cristã. O egoísmo ou o evangelho autocentrado não é bíblico. A mensagem pode ser pregada por meio de nossas ações e atitudes, visto que a verdadeira fé nos leva a olhar o nosso semelhante com os olhos de serviço e ajuda.

    O livro caminha nesta direção e dá uma relevante base bíblica para a vida de amor e serviço. E Martin Bucer (2023) conclui nos relembrando da ordem divina de servirmos uns aos outros. Precisamos viver para servir o próximo de todo o coração. Sendo que a maior praga que infesta os corações das pessoas, hoje em dia, é justamente a busca incessante pela felicidade a qualquer custo. Novamente, Martin Bucer complementa:

    “Uma vez que a fé verdadeira certamente produz o amor verdadeiro que nos faz transbordar em boas obras ao nosso próximo e viver não para nós mesmos, mas para a glória eterna de Deus” (BUCER, 2023, p. 94).

    A verdadeira fé nos desafia a olharmos além de nós e servirmos às pessoas, como Jesus serviu. O egoísmo e o hedonismo são contraditórios e entram em conflito com o exemplo que Cristo deu a nós, sendo que o mesmo amor que nos alcançou nos leva a amarmos e servirmos aos outros.

    A fé, o amor e o serviço estão intrinsecamente interligados, por isso o cristianismo solitário é contraditório, sendo ele uma marca da nossa geração hedonista. A verdadeira fé nos une e nos leva a transbordar na vida do próximo o cuidado e o apoio.

    Bibliografia

    BUCER, Martin. Instrução no amor Cristão. São Paulo: Vida Nova, 2023.

    CARSON, D. A.; FRANCE, R. T.; MOTYER, J. A.; WENHAM, G. J. Comentário bíblico Vida Nova. 1. ed. São Paulo: Vida Nova, 2012.

    WINTER, Bruce. In: CARSON, D. A.; FRANCE, R. T.; MOTYER, J. A.; WENHAM, G. J. Comentário bíblico Vida Nova. 1. ed. São Paulo: Vida Nova, 2012.

  • ENTRE O EVANGELHO E A IDEOLOGIA POLÍTICA

    Em meio a uma conversa com conhecidos, um tema político surgiu, com isso, todos começaram a dar a sua opinião política e alguns dos interlocutores começaram a ficar irritados, ofendendo as pessoas que tinham uma opinião diferente. O diálogo virou agressão, tudo porque estes indivíduos não admitiam a opinião oposta.

    Fico impressionado em notar o quanto muitos têm a dificuldade de respeitar o ponto de vista oposto ao deles. A desunião e a divisão sobre este tema são fatos que fazem parte desta realidade. Enquanto uns só conseguem respeitar aqueles com os quais concordam, outros acreditam em liberdade, mas seguem impedindo que as discordâncias existam. A liberdade vai até o ponto em que a pessoa não aceita a ideia, transformando o significado de liberdade em algo contraditório.

    Em ano político, este fator aumenta ainda mais, revelando a dificuldade que o ser humano tem em transitar entre opiniões divergentes. Para estes, uma ideia contrária à dele é uma ofensa, uma atitude inconcebível, e o outro é um inimigo. Sendo que estes, de forma contraditória, acreditam em liberdade de expressão, mas são contra opiniões contrárias.

    O ponto positivo de vivermos em uma sociedade livre é que podemos seguir a religião na qual acreditamos, aderir à corrente política que melhor nos apraz e viver conforme entendemos ser correto. Por isso, respeitar o contraditório, o que não concordamos, se não for nada ofensivo, é indispensável.

    Uma sociedade livre é aberta para o plural, a variedade de ideias, inclusive aquelas com as quais não concordamos. E impedir que a opinião oposta exista é criar um ambiente totalitário, onde a discordância não é permitida e eliminada.

    Somos cristãos e acreditamos em uma verdade revelada por Deus, mas isso não nos dá o direito de diminuir o outro por ter uma religião diferente. E na política, a lógica não é diferente. Temos a nossa posição política, mas isso não nos dá o direito de diminuir o outro.

    Na verdade, nós, cristãos, somos cidadãos do céu, o nosso reino não é neste mundo, estamos caminhando por esta vida apenas de passagem. Sendo que toda a forma de pensar que tira o foco de Deus, que ergue ídolos políticos que controlam a nossa forma de raciocinar e nos leva a brigar por uma corrente política, que certamente é falha, acaba nos impedindo de sermos luz e sal na vida daqueles que precisam do evangelho. Provérbios nos oferece um conselho indispensável:

    “Meu filho, não perca de vista o bom senso e o discernimento; apegue-se a eles, pois darão vigor à sua alma e serão como joias em seu pescoço. Eles o manterão seguro em seu caminho, e seus pés não tropeçarão” (Provérbios 3:21-23) (NVT).

    Que Deus nos ajude a seguirmos com mais paciência e equilíbrio, respeitando o próximo e a pluralidade de ideias. A mensagem cristã nós pregamos com o exemplo, sendo que o respeito é essencial.

    Respeitar a opinião alheia não é concordar com o conceito, mas dar o direito ao próximo de seguir a ideia que melhor lhe apraz e, neste meio tempo, apontamos para Deus, e não para a política, mostrando às pessoas o único que pode salvar a nossa corrupta sociedade.