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  • MENSAGEM DILUÍDA

    O perigo que todo mundo corre ao ler e estudar a Bíblia, é justamente fazer isso usando como ponto de partida suas lentes, seus conceitos pessoais.

    Vamos deixar uma coisa bem esclarecida, cada um tem as suas lentes, cada um observa o mundo de uma forma. Estas lentes definem nossas opiniões, reflexões e posicionamentos. A questão é que, quando lemos a palavra de Deus, precisamos ter em mente que o que deve falar e nos ensinar é ela, e não nós. É a partir dela que a nossa reflexão e deve acontecer e ser fundamentada.

    A Bíblia é aquele livro que para olhos desatentos e sem ferramentas, é capaz de ajudar alguém a concluir os maiores absurdos ou mesmo verdades fundamentais. O que vai definir é o modo como lemos e estudamos este sagrado livro. Por isso que, saber ler e conhecer as ferramentas de interpretação é fundamental para que possamos retirar a verdadeira mensagem e fugir das conclusões absurdas. E principalmente, para não interpretarmos a Bíblia, segundo nossas lentes.

    Quando não estudamos, ou o que é pior, quando acreditamos que ninguém precisa estudar a Bíblia, pois é o Espírito Santo que vai revelar a interpretação, cometemos o sério erro de ignorar os avisos da própria palavra, que nos manda estudar e guardar os ensinos (2 Timóteo 2:15, 3:15-17; Atos 17:11; Marcos 12:24).

    Ao não nos aprofundarmos na palavra, corremos o sério risco de diluir o seu ensino em nossas opiniões e pontos de vistas. E em alguns casos, esta mensagem diluída é disfarçada com a afirmação de que Deus me revelou. O que na maioria das vezes é errado.

    Precisamos estudar e deixar a palavra falar por si. Quando entendemos o que o texto realmente quis dizer, retemos o seu verdadeiro ensino e ensinaremos as pessoas as reais verdades que o texto quer nos passar.

    Por isso eu humildemente aconselho, não dilua a mensagem com os seus conceitos, estude, compreenda e descubra as riquezas do texto Bíblico, que só quem se aprofunda na palavra consegue descobrir. Acreditar que você pode entender, sem estudar, é no mínimo contraditório.

    Você precisa realmente descobrir o quão legal é se debruçar no texto bíblico e com toda a calma e cuidado, estudar, meditar e procurar entender o texto em sua totalidade. Deus nos fez racionais e nos deu um livro sagrado para que com a nossa mente, pudéssemos compreender, então por que não a usar?

    Orar e estudar a Bíblia, são duas práticas totalmente fundamentais e muito espirituais. Com a primeira, você entra em contato com o criador, com a segunda, você medita sobre a sua mensagem. Uma prática não exclui a outra, pense nisso.

  • PALAVRAS QUE ANUNCIAM VIDA

    Há muito tempo fui a um show da banda Mortification em minha cidade. A banda é lendária no cenário cristão, e na época, o vocalista e líder da banda, Steve Rowe, estava tratando de leucemia. Seu testemunho é realmente impactante, o modo como Deus cuidou e usou a sua vida é realmente fenomenal.

    Neste show, o vocalista, por conta da doença, quase não parava em pé, sendo que em meio a apresentação, a direção do show, que estava acontecendo em uma igreja, permitiu que alguns fãs da banda subissem no palco. E um deles, meu amigo por sinal, resolveu abraçar o vocalista, e foi quando ele caiu, por conta do susto e da doença que o deixava fraco. Ainda mais que o vocalista estava com muito medo de ser atacado por satanistas, que naquela época, chegaram a ameaçar o vocalista e o evento.

    O show parou e no lugar da música, uma enxurrada de palavrões dos muitos cristãos que estavam assistindo, tomou conta do lugar, em uma cena que eu considero icônica e contraditória, visto que a maioria das pessoas que assistiam eram cristãos.

    Palavras são muito importantes, são sentenças que comunicam uma opinião, um modo de pensar ou mesmo como estamos nos sentindo. Com a língua, podemos bendizer a Deus ou mesmo louvá-lo, e o pior é que com ela, também podemos ofender ou amaldiçoar.

    O que esquecemos é que as palavras traduzem o que somos, o modo como falamos, agimos e nos comunicamos, diz muito sobre nós e sobre o que acreditamos. Zacharias Heyes define bem o poder da comunicação quando afirma que:

    “Palavras que louvam a Deus são palavras que geram vida, que incentivam a vida do outro, que o encoraja e fortalece. As minhas palavras estão em contato comigo mesmo, elas expressam o que sou? Ou será que eu as digo porque quero defender minha posição?” (HEYES, 2020, p. 63).

    É interessante como estamos sempre defendendo os nossos pontos de vistas, ou estamos a qualquer momento prontos a nos posicionar, deixando claro quais são as nossas opiniões. Conceitos estes muitas vezes vazios, frutos de especulações ou mera escuta. As vezes somos rápidos em falar ou mesmo xingar, como no exemplo que eu citei, e tardios em ouvir, ajudar e meditar.

    O que você tem anunciado, vida, graça ou mesmo louvores a Deus? Ou impropérios e conceitos deturpados, que vão de encontro a quem você é? Lembre-se que o modo como falamos e agimos, diz muito sobre nós. Nosso comportamento, infelizmente nos define, ainda mais, quando afirmamos que seguimos a Cristo.

    Por isso, preste bem atenção em suas palavras, priorize mais em anunciar vida, apoio e motivação, do que desânimo, desmotivação ou impropérios. Como nem sempre conhecemos a realidade das pessoas, seja aquele cristão que apoia e incentiva.

    Anuncie a vida, discorra sobre a esperança e o Deus que nos transforma, espalhe a palavra da verdade, que o mais, Deus fará.

    BIBLIOGRAFIA

    HEYES, Zacharias. Rituais para o encontro consigo mesmo. Petrópolis: Editora Vozes, 2020.

  • JORNADA CRISTÃ 15: O PODER DO SILÊNCIO

    Um dos grandes problemas desses nossos conectados dias, é a incapacidade do ser humano de se silenciar. São tantos estímulos que acabamos viciados em ver, ouvir e interagir, terminando por não conseguir manter um pouco de paz no coração.

    Conheci Anselm Grün ao pesquisar sobre vida monástica, sempre fui um curioso sobre a vida e a filosofia dos pais do deserto. O autor tem uma grande capacidade de trabalhar a espiritualidade, a partir do interior. Ensinando os leitores a cultivar a autoavaliação antes de buscar a Deus. Anselm é mestre em falar de coisas importantes com uma especial e profunda simplicidade. Creio que “clareza” é a palavra que define bem este autor.

    Anselm Grün é um monge beneditino alemão, da ordem de São Bento, com isso, se você tiver algum preconceito, nem mergulhe em suas obras. A questão é apenas que, o autor consegue discorrer sobre os inúmeros temas da vida cristã, com um argumento tão bíblico e centrado, que eu creio que você não vai se arrepender de mergulhar em qualquer livro seu. Por ser um escritor profícuo, ele tem muitas obras, entre as minhas preferidas estão “Ser uma pessoa inteira”, “O céu começa em você” e muitos outros livros, mas neste texto discorrerei sobre o livro “O poder do silencio”.

    Ficar em silêncio é uma prática bem pessoal, é uma busca que cabe somente a você empreender. Com isso, cabe também a você procurar ferramentas, separar um determinado momento, e cultivar o silêncio, para que a sua vida não caia na frenética e ensandecida rotina do “fazer”. A parte interessante quando você cultiva momentos de silêncio, é que no final, quem convive com você, também vai colher os frutos de alguém que aprendeu a parar e a silenciar tudo a sua volta.

    Alguém que sabe ficar em silêncio é também alguém que consegue ter paz, e também ter uma imensa capacidade de ouvir e compreender o mundo. Quem se silencia ouve, percebe coisas que o seu frenético barulho interno ou externo, não permitia que percebesse.

    É quando você decide largar o controle e ouvir, que você vai realmente escutar e perceber os detalhes que nos escapam a percepção. Anselm Grün complementa:

    “Há qualquer coisa de terno quando o silêncio se torna audível. A audição sempre tem algo de misterioso em si. Por fim, em tudo que ouço, passo a ouvir o inaudível” (2019, p. 15, 16).

    Ouvir é também largar o controle e dar espaço para a vida. Experimente ir caminhar no campo, e cultive o hábito de não falar para conseguir ouvir todos os sons e músicas que o local tem a nos oferecer. E principalmente, aprenda a cultivar o silêncio interno, é possível estar entre muitos, em meio a muito barulho, mas estar em silêncio, com a mente mais calma. Assim como não é impossível alguém estar em meio ao silêncio, mas com a mente barulhenta, descontrolada.

    As vezes nos concentramos tanto em falar, que deixamos de ouvir a voz de Deus. Eu aprendi com este autor o poder de se calar para conseguir realmente ouvir e entender o que Ele quer de mim.

    Quem não para nem por um minuto, quem muito fala, acaba controlando uma conversa, sem perceber os detalhes, as importantes lições que Deus e as pessoas querem nos passar. Ou mesmo deixamos de enxergar a aquela lágrima que está escondida entre o sorriso de alguém que está passando por um problema.

    O silêncio é poderoso, ele nos ensina a escutar e a ver coisas, que em meio ao barulho não percebemos.

    BIBLIOGRAFIA

    GRÜN, Anselm, O poder do silêncio, Editora Vozes Nobilis, Petrópolis, 2019.

  • O PERIGO DA AUTOSSUFICIÊNCIA

    Se pudéssemos resumir o Velho Testamento, poderíamos resumir como um livro que fala sobre relacionamentos. É um relato sobre um Deus que entrou na história para salvar o homem, um ser que não demora em ser autossuficiente e que acredita que sozinho consegue tudo. Sendo que no final, ele nunca se dá bem. Com isso, é inevitável ver a misericórdia de Deus entrar em cena.

    Não é tão legal passar por dificuldades, mas existe uma parte boa, o caos nos coloca de joelhos, é diante dos problemas que olhamos para Deus e buscamos por seu socorro. A parte ruim da estabilidade é que algumas vezes esquecemos de Deus. Não é tão incomum, diante dos momentos bons, seguirmos esquecendo de tudo o que ele já fez em nossa vida.

    É quando estamos com problemas que buscamos socorro, principalmente quando eles são graves ou nos deixam sem saída. A história dos Hebreus comprova isso. Pois diante da falta de solução, clamar a Deus e pedir pelo socorro, era a única e a melhor saída.

    Deus usou Moisés para salvar o povo que tinha sido feito escravo, só que mesmo sendo libertos, eles não demoraram em construir um Bezerro de ouro, enquanto Moisés estava no monte falando com Deus. Foi só Moisés se ausentar por um tempo, para eles construírem um outro Deus e atribuir a salvação a ele. Se o ser humano tem algum “poder”, creio que seria este, o poder de esquecer de quem o ajudou (Êxodo 32:1-8).

    A autossuficiência nos faz acreditar que sozinhos estamos melhores, que não precisamos de nada e ninguém. Além de nos fazer esquecer e sermos gratos pela graça divina. Mas a autossuficiência é uma mentira, pois sozinhos não somos nada, a verdadeira vida e a verdadeira liberdade vem de Deus. É dependendo dele, que seguimos uma vida mais equilibrada e coesa.

    O perigo que a autossuficiência traz é de nos fazer acreditar que somos algo sem Deus, que sozinhos damos conta. Com isso, tomamos o controle que é somente de Deus.

    O homem sem Deus não é nada, a questão é que muitas vezes não percebemos isso. Se não for a graça de Deus nos guiando, terminamos caindo no primeiro precipício que aparecer na frente, como sempre foi e sempre vai ser.

    Seguir a vida distante de Deus é sempre loucura!

  • IDEAIS PERIGOSOS

    “Quando o ideal é maior que a pessoa, as pessoas podem ser, sim, sacrificadas em nome dele” (CÉSAR, 2009, p. 72).

    Algumas ideias nos movem, são estas premissas que fazem com que sigamos em direção da busca, dos sonhos, da realização de algo. Eu sonhei em ser professor e estudei e me dediquei para isso. Assim como quando eu quis ser músico. Precisei estudar e me dedicar, para ver o sonho se tornar realidade e enfim, poder montar a minha banda. Um ideal nos guia, mas também, pode nos afundar.

    As vezes eu tiro alguns dias para reler alguns livros, existem obras que eu faço questão de relê-las. Algumas lições precisam estar sempre frescas em nossa mente, e a questão do abuso do poder, é uma das importantes lições que o livro Feridos em nome de Deus, nos traz e que precisamos sempre revisitar, para não esquecermos e por fim, cairmos em uma dessas armadilhas.  

    Tudo começa com uma ideia, ou um chamado, como é normalmente falado em um ambiente cristão. Com isso, seguimos fazendo o que acreditamos ser da vontade de Deus e em um dado momento, vemos o fruto do nosso empenho, gerar frutos. No caso do livro que eu citei, o fruto seria uma igreja cheia de membros. E isso é bom, não há problema algum nisso. O problema é quando o poder e a capacidade de influenciar muita gente, que o pastoreio de uma igreja traz, faz com que percamos o controle. 

    O poder é um grande problema, pois nem todos conseguem manejar com graça, alguns caem nas tentações que um cargo traz, e perdem a mão. Terminam por manipular, ou o que é o pior, transformar o ideal, a ideia de igreja, em algo maior do que as próprias pessoas, este é um dos grandes perigos do poder.

    Vemos isso no período de Jesus, onde a lei e a instituição eram maiores do que as pessoas. Com isso, os necessitados eram abundantes e o legalismo também. O que tinha vindo como um caminho, algo que apontava para Cristo, virou um fim em si mesmo.

    O poder é uma grande benção, mas também uma maldição. É uma responsabilidade quando você vira líder, mas também uma armadilha. É preciso tomar cuidado para não ser conquistado pelas benesses e vantagens que o poder traz, para não acabar sendo destruído por ele ou perdendo o foco.

    As vezes a própria adulação, os elogios sinceros ou o próprio fruto do seu trabalho e da sua dedicação, podem gerar em seu peito um orgulho e o orgulho, constrói para você um pedestal. E depois disso, é o fim!

    É preciso ter o pé no chão, procurar ser cercado de bons amigos e conselheiros, que manterão você sempre na vida real. É preciso também ter uma vida de diálogo, ouvir é imprescindível, não só para uma boa liderança, mas também para cultivar a humildade e uma influência mais assertiva, que realmente sirva ao povo e a igreja.

    Quem ouve, quem respeita, e principalmente, quem coloca em Deus a sua confiança, tem o pé no chão, e não deixa que o poder transforme a sua vida em uma caminhada de orgulho e prepotência.

     O poder é uma ótima ferramenta, mas também pode ser um instrumento perigoso, saber manejar, é o que separa um líder centrado, daqueles que querem apenas satisfazem suas vontades.

    BIBLIOGRAFIA

    CÉSAR, Marília. de Camargo, Feridos em nome de Deus, Editora Mundo Cristão, São Paulo, 2009.

  • INCOERENTE OBSTINAÇÃO

    ““A obstinação e a convicção exagerada”, alerta Montaigne, “são a prova mais evidente da estupidez”. Onde há fumaça arde a fogueira – o calor da crença trai a falta de luz” (GIANNETTI, 2012, p. 75).

    Já ouvi muitos falarem que o termo militante se tornou pejorativo. Em outros tempos, segundo estes, o termo exprimia a ação daqueles que defendiam uma causa genuína. Tenho as minhas dúvidas quanto a estas interpretações. Embora a minha certeza é que a pessoa obstinada e com aquela convicção extrema, quase sempre produz muitas injustiças. O posicionamento do militante ou do obstinado que possui uma convicção exagerada, nem sempre é positivo.

    Temo a maioria dos militantes, principalmente aqueles que querem mudar o mundo com aquelas simplistas divisões de mocinhos e bandidos. O curioso é que eles sempre são os mocinhos, e aqueles que discordam, ou tentam apresentar suas contradições, são os bandidos, são as pessoas que querem estragar tudo. Como eu sempre digo, alguns acreditam que o culpado é sempre o outro. Outros, creem que discordar, é estar no lado do inimigo, com isso, o diálogo passa a não existir, e a militância segue sem qualquer abertura para ouvir, o que é um erro gigantesco.

    O fundamentalista segue uma lógica parecida, ele se considera o herói, o dono da verdade e vê a todos como bandidos, criminosos que precisam ser condenados. Ele se coloca como o único, a pessoa que entende da verdade, e olha os outros como cegos, mergulhados em seus erros. E por fundamentalista, me refiro não só aos religiosos, mas também aos ateus ou qualquer outro militante da causa que for. O exagero existe em todos os âmbitos.

    O obstinado normalmente olha apenas para si, ele é o parâmetro, e dialogar está fora de questão, já que ele é o dono da verdade. Com isso, quem discorda é inimigo, alguém que não entendeu o seu conceito de verdade, ou não foi iluminado pela luz divina.

    Quem realmente sabe, reflete; quem estuda e se informa, pondera, dialoga e entende que estamos sujeitos ao equivoco e ao erro a todo o momento. A obstinação, na maioria das vezes, não é inteligente, e esconde uma falta, que em uma boa parte dos casos é apenas a falta de conhecimento.

    O medo de dialogar, esconde a inépcia. Quem sabe, dialoga, por entender a extensão do conhecimento e o tamanho das nossas limitações. O conhecimento produz sempre uma visão realista de nós e nos mostra como alguns assuntos são complexos.

    É importante defendermos nossas causas, mas não de maneira cega. Confessar os equívocos e contradições das causas que defendemos, é seguir rumo a mudança, calcado sempre na coesão. Dialogar, respeitar e entender de cada leitura e interpretação é estar certo que há uma grande possibilidade da pessoa que discorda de nós estar correta.

    Você não precisa concordar com todos, pois sabemos que nem todos possuem opiniões coerentes ou que combinam com o que acreditamos. Mas é preciso respeitar e dialogar, para que com o diálogo, a ponte do conhecimento seja construída, e a sua causa, ganhe ares bem mais coerentes e menos idealizados.

    BIBLIOGRAFIA

    GIANNETTI, Eduardo, O valor do amanhã, Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2012.

  • A ODISSÉIA DA DOR XII: A FÉ DE JÓ

    “Uma fé como a de Jó não pode ser sacudida, porquanto é o resultado de ter sido sacudida” (Abraham Heschel) (YANCEY, 2004, P. 220).

    Quando era novo, tive episódios de dores de ouvido muito fortes. Eu lembro como se fosse hoje, por serem insuportáveis. A questão é que com o tempo, depois de tantas aflições, acabei ficando resistente a dor. Hoje eu não tenho mais estas dores de ouvido, depois de mais velho, descobri as causas e busquei a cura. Contudo, ela me fez mais forte, não sou imune a ela, sou um ser humano normal, mas sou um pouco mais resistente. A dor para me derrubar, tem que ser muito forte.

    Jó é conhecido como um homem de fé, uma fé inabalável, que fez com que ele olhasse ainda mais para Deus, ao invés de jogar tudo para o alto. O segredo dele era simples, a sua fé inabalável, vinha justamente dos problemas.

    Não é fácil passar por situações difíceis, mas são elas que primeiramente nos ensinam. Quando descobrimos a riqueza de aprender com as dificuldades, crescemos, e criamos aquelas experiências práticas da vivência, com a própria vida e as situações nos ensinando.

    Em segundo lugar, o caos nos leva a olharmos para Deus e buscarmos a ele com afinco. Nós só passamos pelo deserto com a oração, é de joelhos que enfrentamos as dificuldades, não há outra forma. E isso nos aproxima do nosso Pai. Jó, por conta das dificuldades, passou a conhecer ainda mais Deus e isso mudou a sua vida. Jó deixa isso muito claro quando ele diz:

    “Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te veem” (Jó 42:5).

    É durante as provações que não só buscamos, mas também conseguimos intimidade com o criador. É quando Deus se revela, e nos mostra que não estamos sozinhos, que crescemos e aprendemos a enfrentar as intempéries.

    Não foi fácil passar por todos estes obscuros vales, em muitos momentos eu me senti desamparado e abandonado. Mas eu busquei, não me entreguei ao que parecia, e sim, me concentrei na palavra de Deus e nas suas promessas.

    Foi nestes dias que aprendi a confiar, e me entregar crendo que no final, Deus estava comigo. Se cremos que Deus nos ama, devemos confiar em seu amor e não se entregar ao que parece, mas não é.

    BIBLIOGRAFIA

    YANCEY, Philip, Decepcionado com Deus: três perguntas que ninguém ousa fazer, Editora Mundo cristão, São Paulo, 2004.

  • FALSOS PONTOS DE VISTA

    “Se uma palavra da Bíblia me aborrece, isso revela sempre que, neste caso, tenho um ponto de vista falso de mim e de Deus. O aborrecimento é, no entanto, também um desafio para trabalhar no meu ponto de vista e permitir que as Escrituras me ofereçam uma outra compreensão de mim mesmo” (GRÜN, 2016, p. 108).

    Não foi fácil, quando eu comecei a estudar a Bíblia, ter que lidar com alguns ensinos, mensagens e textos que me exortavam e me levava a olhar para a minha vida, minhas atitudes e meus pontos de vista. Alguns textos eram como remédio na feria, doía muito, mas como o bom remédio, ele também me curava.

    É normal vermos cristãos passando longe de algumas passagens bíblicas, ou tentando arranjar justificativas para tais textos. Ler a palavras de Deus pinçando apenas o que nos apraz, é fácil. Agora, ser honesto, e encarar os ensinos da palavra com seriedade, lendo, aceitando a confrontação e depois, buscando em Deus a mudança, já são outros quinhentos.

    A palavra de Deus não contém apenas versos de ânimo ou alegria, ela também perscruta a nossa vida, nos mostra quem somos, e nos convida a uma vida de mudança. Deus, como um bom Pai, não só nos acalenta e nos dá forças em meio aos problemas. Mas também nos ensina, e nos mostra como é importante seguir no caminho da verdade.

    Quando a Bíblia te aborrecer, aprenda a olhar para a sua vida. Reflita e pense se você não tem algo errado. Quando algo nos incomoda, é possível por trás de todo o incômodo, vermos um problema que precisa ser tratado. Logo, o aborrecimento é uma ferramenta, é aquela dor que sinaliza que tem algo errado em nosso corpo, no obrigando a buscar a cura.

    Não é incomum termos pontos de vistas equivocados sobre nós, esqueletos que escondemos e procuramos nunca mencionar. A questão é que a mudança só acontece quando encaramos de frente, e buscamos transformação, tendo como suporte Deus e o seu soberano poder.

    As escrituras são as palavras de um Deus que oferece a todos uma vida equilibrada. É um desafio seguir o evangelho, mas é gratificante estar no centro da sua palavra, mesmo que em alguns momentos tenhamos que lidar com coisas desagradáveis em nossa vida. O que nos incomoda, nos força a mudar, e nos obriga a entendermos quem somos, para depois, seguirmos assim a vontade de Deus. Não fuja dos textos que te aborrecem, mergulhe no ensino e tente entendê-lo por completo. Se algo o incomoda, é porque precisa ser pensado e tratado.

    A Bíblia não é como uma caixinha de promessas, onde você só encontra textos sistematicamente selecionados para afagar o seu ego. Ao contrário, ela é muitas vezes um remédio amargo, que arde e em alguns casos, acaba trazendo dor, mas que no final vai curar e restaurar a sua vida por completo. Por isso, não perca a chance de mudar mesmo sendo difícil.

    Leia e medite na palavra, e se permita ser tratado por Deus!

    BIBLIOGRAFIA

    GRÜN, Anselm. Ser uma pessoa inteira. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2016.

  • SEDE DE JUSTIÇA

    Eu fui criado em uma família onde os livros estavam sempre presentes. Tínhamos estantes com algumas coleções e eu cresci vendo meu pai e meu avô ler. Com isso, tomei gosto pela leitura desde cedo.

    O primeiro gênero mais adulto que eu comecei a ler, saindo já da adolescência, foi o gênero policial. Eu gostava muito de ler Agatha Christie e Arthur Conan Doyle. Era interessante mergulhar nas histórias de crimes e ver o herói do livro desvendar os mistérios. Sendo que no final, a justiça era feita e esta era a melhor parte da história.

    O homem clama por justiça, a corrupção e a injustiça nos toca e nos deixa indignados. Queremos um mundo justo e nos posicionamos quando alguém tenta ser injusto conosco ou com alguns dos nossos familiares. N. T. Wright no livro “Indicadores fragmentados”, trabalha justamente esta questão, refletindo sobre como alguns ideais são inerentes a todo o ser humano, e como eles apontam para algo maior, sendo que a justiça é o primeiro indicador:

    “A questão dos romances policiais – e isso não é um bicho de sete cabeças, mas me ajuda a entender o que está acontecendo – é que a justiça é praticada no final. O mistério é solucionado, e o assassino é identificado e costuma ser detido, acusado e condenado” (2020, p. 24).

    É interessante perceber como a justiça, neste mundo complicado, é muitas vezes uma miragem, algo impossível de alcançar, contudo, a maioria de nós, seja de qual país ou contexto for, busca desde sempre por ela. No final, ela aponta para algo, a sede por justiça aponta para o único justo que conhecemos que é Deus.

    Eu sou grato a Deus por ter sido alcançado por sua graça, esta é a minha maior riqueza, ter sido encontrado por Ele. Mas a minha outra alegria é saber que Deus é justo, e no final de tudo, o Justo Juiz julgará a todos e estabelecerá a paz no mundo. Eu não tenho aquele prazer mórbido de imaginar os criminosos ardendo no fogo do inferno, ao contrário, torço para que a graça alcance as suas vidas, para terem a sua existência transformada. A minha alegria é saber que um dia, a justiça reinará, e não mais veremos o caos e as contradições fazendo vítimas, diminuindo pessoas, e transformando a vida de alguns em um verdadeiro inferno.

    Há muito tempo atrás um Deus encarnou em forma de homem, e morreu por nós e fim de salvar o ser humano do pecado, para que enfim a justiça pudesse reinar. Esta é a maior verdade que podemos conhecer, a falta de justiça aponta para um Deus. Ela indica que sem Ele o mundo nunca será justo de verdade.

    BIBLIOGRAFIA

    WRIGHT, N. T., Indicadores fragmentados: como o cristianismo compreende o mundo, Editora Thomas Nelson, Rio de Janeiro, 2020.

  • DESPROPÓSITOS

    É muito interessante como é desafiador definir alguns conceitos. Coisas aparentemente simples, se transformam em epopeias, quando nos prestamos a refletir sobre. Como por exemplo, a própria vida.

    Para alguns viver é um fardo, pois o mundo é mau, só têm pessoas más, por conta disso, estes estão sempre desejando o fim. Para outros o mundo é ter, é ajuntar, é comprar uma casa nova e estudar, ou mesmo empreender até ter um bom salário. Ser feliz é aproveitar, gastar e se empanturrar com os prazeres que o dinheiro pode dar. Enfim, são muitos pontos de vistas e em todos eles, é possível descobrir contradições quando refletimos com cuidado.

    A vida é um ponto de vista, uma conclusão difícil de definir. Por isso, ela acaba se tornando o que concluímos dela ou o que nos prestamos a fazer e a realizar. Shakespeare em Macbeth fala algo curioso sobre a vida:

    “A vida é um conto narrado por um idiota, cheia de som e fúria sem nenhum significado”.

    Creio que esta curiosa frase traduz como o homem, que segue seus ideais, segue a vida. A vida realmente não tem sentido, porque nós seres humanos não temos sentido. Optamos por seguir ideais vazios e realmente contraditórios. Militamos causas perdidas e argumentamos sem perceber nossas contradições.

    É fundamental para o ser humano, ter propósitos na vida, isso o move, o leva a fazer, a se dedicar e a ser algo. O problema é que em inúmeros momentos, ele não percebe que alguns alvos, são incoerentes. Não é à toa que Provérbios 9:10 diz que

    “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria, e o conhecimento do Santo a prudência”.


    Pois afinal, só é possível realmente vermos, quando olhamos para Deus, para além de nós e nossas vontades. Crer que vemos, sem antes fundamentar a nossa vida em Deus, é acreditar no vazio da nossa condição.

    No final Shakespeare pode até ter razão, a vida não tem sentido algum, o mundo é contraditório e viver é seguir uma existência sem qualquer significado. Precisamos de Deus e dos seus ensinamentos, para termos qualquer sentido e coerência, sem Deus seguimos no vazio da existência como bem pontuou Shakespeare.

    O evangelho nos traz propósito e sentido, olhar para Deus é justamente isso. É entender quem somos, o quão pecadores somos, e encontrar nele um propósito. Pois a verdade é que todo e qualquer objetivo, distante da vontade de Deus é um despropósito. É uma busca por algo que se torna um nada algum tempo depois. Um intuito que se mostra falho e que se enferruja e apodrece com o passar dos dias.

    Temer a Deus é o princípio de tudo, é quando entendemos quem somos e o quão vulnerável somos sem Ele, que tudo faz sentido. A vida é um ponto de vista, como pontuei no começo do vídeo. Pois viver é seguir por nossos próprios conceitos e crenças, mas quando fundamentamos a nossa vida em Deus e na sua palavra, tudo acaba tendo lógica.