-
A FUNÇÃO DA DÚVIDA
“Pertence a uma fé madura lidar apropriadamente com as dúvidas. Elas fazem parte da fé” (GRÜN, 2016, p. 138).
Seguir a Deus não é ter uma vida bem informada, com todas as dúvidas respondidas. Aliás, sinto lhe informar, por certo, é bem possível você ter ainda mais dúvidas ao começar a seguir a Jesus.
Duvidar não é errado, faz parte do ser humano que pensa, reflete e dialoga. E ao contrário do que muitos acreditam, a dúvida, quando bem administrada é ótima.
É a dúvida que nos força a estudar e a conhecer ainda mais um assunto. Os questionamentos nos movem e nos forçam a ação, a busca, ao caminho das respostas. Quem tem sempre certeza, não caminha, fica estagnado em sua própria ignorância. Agora, quem duvida, está sempre em movimento, mergulhando cada dia mais no assunto, em busca de respostas e conhecimento. Pelo menos aqueles que sabem usar a dúvida a seu favor, pois eu sei que nem todos sabem. Anselm Grün complementa:
“Sem a dúvida, eu simplesmente estaria aceitando o que os outros me dizem. Ela me obriga a observar mais precisamente o que eu creio, a questionar minhas próprias concepções de Deus e a me abrir ao Deus totalmente outro e inconcebível” (GRÜN, 2016, p. 138).
Foi por conta da dúvida que eu segui no caminho da pesquisa e do estudo. Ela me colocou em movimento e fez com que eu aprendesse. Quando bem usada, a dúvida é ótima, ela nos faz crescer e ir em busca do conhecimento.
É claro que existe a dúvida nociva, que duvida por duvidar, e não segue em busca de respostas. Assim como tem aqueles que acreditam em tudo, sem questionar e ir em busca de fundamentos. As duas atitudes são igualmente perigosas, são extremos, bem opostos, mas igualmente perigosos.
Precisamos entender também que nem sempre teremos respostas, existem coisas que são inexplicáveis, precisamos aceitar as nossas limitações e as nossas finitudes. Contudo, nada nos impede de buscarmos conhecer e tentar, sem qualquer ânsia extrema, para assim, aprender e encontrar explicações.
A função da dúvida é nos mover, é nos empurrar em direção ao conhecimento e da informação. Ela nos ensina a não aceitarmos respostas prontas, sem alguma investigação e bons critérios.
A dúvida saudável nos move, a certeza contraditória nos ancora em um ponto de vista sem fundamentos.
BIBLIOGRAFIA
GRÜN, Anselm. Ser uma pessoa inteira. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2016.
-
A ODISSEIA DA DOR XI: FIDELIDADE OU MORTE
O sofrimento sempre levanta questionamentos, é impossível sofrer sem se perceber injustiçado. Mas talvez o ponto mais complicado é que não aceitamos muito o sofrimento por não vermos nele propósito. E ao mesmo tempo, servirmos a um Deus poderoso, que pode acabar com o sofrimento na mesma hora.
Por mais que possamos ser contra as teologias que fazem parecer Deus um garçom, pronto para nos servir, em muitos momentos, agimos com o pensamento semelhante. É difícil conciliar o sofrimento com o fato que Deus pode acabar com a calamidade quando Ele quiser. E a história de Jó é impressionante justamente porque não fala apenas da fé, mas também de alguém que não abandonou Deus mesmo ante o sofrimento.
É preciso tentar enxergar além de nós, nossas vontades e desejos, e principalmente, acima do que vemos, pois as vezes, acreditamos estar vendo, mas no final, só percebemos o que queremos ver. Com o tempo, conforme busquei respostas para a minha dor, pude perceber que a verdade era que eu estava sendo egoísta, e queria que tudo acontecesse da minha forma, seguindo o meu cronograma.
Muitas vezes períodos de dor, nos faz egoístas, nos mantém olhando apenas para o nosso umbigo, em uma atitude bem autocentrada. O exemplo que Jó nos deixa é muito grande, pois ele não deixou se abater pelas calamidades e apesar de sua situação, continuou a servir a Deus. Contrariando o que satanás disse a Deus (Jó 2:4). Já parou para pensar que, se Jó tivesse desistido de Deus, satanás teria vencido?
A história de Jó é muito infeliz, ele sofreu não só com a perda de dinheiro e da saúde, mas porque seus amigos também estavam ajudando-o a sofrer mais, por conta de seus pontos de vistas. Embora uma coisa tenha ficado clara neste texto, apesar do sofrimento, Jó não abandonou a fé.
A dor, as dúvidas e todo o sofrimento que temos que passar, não pode nos separar de Deus e da sua misericórdia. Deus é a resposta para toda a dor. E por mais que nem sempre entendamos o motivo do caos, confiar é a única certeza que devemos cultivar em meio às dúvidas e problemas.
Ser fiel não está ligado ao que ganhamos, e sim a como cremos. A fidelidade não é uma moeda de troca e sim, um posicionamento, é aprender a confiar, mesmo que a situação peça para você desistir.
Existe uma lógica para agir assim, somos limitados, e nem sempre percebemos a mão de Deus. Nos encontramos no olho do furacão, nos sentimos abandonados por estarmos em meio as dificuldades, sem percebermos Deus cuidado de nós.
Quando entendemos o tamanho do privilégio em servir a Deus, não nos posicionamos como merecedores, e sim, como pessoas gratas, que sabem quem são e entendem o tamanho do privilégio que é servir a Deus.
No final, quem ganhou foi Jó, que conheceu a Deus em meio a dor, um Deus que antes, ele apenas tinha ouvido falar (Jó 42:5). O tesouro de Jó foi justamente este, ter mais intimidade com o Criador, uma intimidade que ele alcançou por conta do sofrimento. Quer maior tesouro que este?
-
A ARTE DE ORAR
Ó cidade de Babilônia, destinada à destruição, feliz aquele que lhe retribuir o mal que você nos fez!
Feliz aquele que pegar os seus filhos e os despedaçar contra a rocha! (Salmos 137:8,9).
Quando eu leio alguns Salmos imprecatórios como este, ou mesmo aquelas passagens bíblicas que mostram os servos de Deus cometendo erros ou tomando decisões insensatas, eu me sinto aliviado, me sinto humano. Eu creio na Bíblia, justamente por ela ser transparente, e não esconder erros e equívocos cometido por inúmeras pessoas que seguiam a Deus.Os chamados Salmos Imprecatórios, significam Salmos Amaldiçoadores ou que invocam o juízo de Deus. São textos escritos por pessoas que estavam passando por grandes problemas, e pediam a Deus por justiça. No caso deste Salmo, a Babilônia havia invadido Jerusalém e transformado a cidade em ruínas (CONNELLY, 2017, p. 348, 349).
Para quem não sofreu e muito menos passou alguma dificuldade na vida, talvez ao ler um Salmo deste, considere o texto estranho. Mas para quem já sofreu injustiças, que já foi humilhado e pisado muito por alguém, ao ler um destes textos, talvez sinta um pouco de alívio. Não consigo imaginar outra oração de quem sofreu um estupro, que viu um parente ser assassinado ou mesmo de quem foi roubado e agora passa por alguma necessidade.
O caos do mundo nos deixa indignados, a corrupção política, não nos deixa felizes, tornando está oração totalmente justificável. Pois precisamos antes de tudo, entender três coisas sobre oração.
Em primeiro lugar, orar é rasgar o coração, é se derramar, sem medo de ser condenado. Pois Deus nos ouve, sendo que Ele ouve principalmente a sinceridade do nosso coração. Deus entende o nosso sofrer e não hesita em estar conosco, nos ouvir, e receber o nosso lamento. É claro que Ele vai responder a nossa oração de sua maneira, mas Deus vai nos ouvir.
No caso deste Salmo, os babilônicos, após o exílio, foram esmagados pelos persas. Acabaram colhendo o resultado do mal que praticaram contra o povo de Deus (CONNELLY, 2017, p. 348). Embora que em outros casos, o que Ele traz é conversão, arrependimento e luz, como no caso da cruel e sanguinária cidade de Nínive, onde Jonas foi pregar. Deus nos ouve, não tenha dúvidas, mas Ele responde a nossa oração como bem lhe apraz, como eu já disse.
Em segundo lugar, orar é buscar esperança. É ter a certeza que de alguma maneira tudo será resolvido. Não há sentimento mais profundo do que saber que Deus nos ouviu, mas também que de alguma forma, encontraremos a resposta, a saída para o nosso problema. Este sentimento não só nos move, mas nos dá força para seguir, confiar e continuar.
Em terceiro lugar, orar é adorar a um Deus que quer nos ouvir. Você já parou para pensar que o que Deus quer é justamente ter intimidade conosco? Que o momento de oração e de busca por intimidade é a coisa que Deus mais quer?
As vezes nos entregamos a preguiça de orar, justamente por não entendermos o privilégio que é poder nos ajoelhar e falar com Deus. Por isso ore, da sua maneira e da forma mais sincera que você conseguir, crendo que Ele vai te ouvir, não tenha dúvidas.
Orar é a prática fundamental para todo o cristão, é a ação de se entregar, sem medo de não ser aceito. Pois Deus nos ouve e entende o nosso sofrer, e acima de tudo, Deus ouve o nosso coração e a sinceridade da nossa oração. Se isso não motivar você a orar, não sei o que mais te motivará.
BIBLIOGRAFIA
CONNELLY, Douglas, Guia fácil para entender Salmos: tudo sobre os salmos, reunido e organizado de maneira completa e acessível, Editora Thomas Nelson, Rio de janeiro, 2017.
-
VIVENDO DISTRAÍDO
Ler um livro de forma distraída é com certeza empacar em uma página e não sair do lugar. Se você já leu sem se concentrar, você sabe muito bem do que eu estou falando, é passar os olhos pelas páginas sem reter o conteúdo. É ter que voltar em um dado momento, para assim conseguir entender o texto.
Como muitos sabem, eu gosto muito de ler, gasto muitas horas lendo e escrevendo, a prática já virou um hábito. E uma coisa que eu aprendi lendo e estudando é que não é possível fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Ou você se dedica a leitura ou não vai compreender nada do que está lendo. É preciso se concentrar nos estudos para não gastar as suas horas à toa e não ter o seu foco dividido. Quando você faz duas coisas ao mesmo tempo, divide a sua concentração e acaba comprometendo o processo de aprendizagem ou mesmo a compreensão da leitura.
Na vida é igual, não dá para seguir fazendo tudo de uma vez, sem prestar atenção no momento, sem curtir o processo e crescer com ele. Quando seguimos a vida sendo ativistas, nos concentrando mais no fazer, não vemos ela passar e muito menos percebemos os belos detalhes que a caminhada pode nos mostrar. Viver é muito mais do que só fazer, é entender que os momentos não voltam, por isso, é importante curtir a cada segundo.
Viver é prestar atenção, e seguir atento a todos os detalhes. Ser realmente feliz não é ter as coisas, e sim buscar equilíbrio, entendendo que coisas têm as suas funções, mas não substituem o próprio ato de viver.
Costumo acordar bem cedo, é interessante perceber o silêncio que reina as 4 ou 5 horas da manhã. Nesta quietude eu penso no dia, em Deus e na vida, e em como o tempo passa rápido. Quando as nossas prioridades são coisas, o excesso de atividades nos coloca alheios ao tempo, que passa sem dó, como em um relógio de areia, que deixa escorrer os dias sem piedade alguma.
A questão não é não fazer e muito menos viver a vida sem sonhos e planos. É legal sonhar e correr atrás das coisas que gostamos. O que eu quero passar para você é: “não deixe a vida passar” e acima de tudo, “não se distraia com as coisas que roubam o seu tempo”.
É preciso parar as vezes, reavaliar nossas escolhas e ver se não estamos gastando tempo a toa. Dinheiro algum e carreira alguma, valem a vida, os momentos simples, o tempo com quem amamos.
Por isso não viva distraído, aprenda a ver, a perceber e a escolher as coisas com sabedoria. Pois o tempo passa e corre o risco de você perceber isso apenas no final de sua caminhada, quando já for tarde demais.
-
BEBÊS GIGANTES
“O ser humano do futuro é um bebê gigante que envelhece com expectativas gigantescas dirigidas à sociedade. Porém, ele se recusa a assumir a responsabilidade” (GRÜM, 2014, p. 43-44).
Não é à toa que ultimamente temos visto muitos seres humanos (ou desumanos) humilhando pessoas humildes, como se um desejo, ou uma vida abastada, lhes dessem o direito de rebaixar os outros. São bebês adultos, que continuam com a mesma mentalidade de uma criança. Acreditando que todos devem lhe servir, e o pior, da forma como eles bem entendem.
São muitas vezes estes que reclamam que não conseguiram realizar os seus sonhos por culpa de terceiros. Os culpados são sempre os outros, nunca são eles. Com isso, tais pessoas nunca mudam. Pois afinal, como sempre deixo claro aqui no blog, para mudarmos, precisamos primeiro assumirmos nossos erros.
Quem é maduro e principalmente adulto, entende as consequências dos seus atos. Ele se posiciona, corre atrás do que precisa e assume seus erros, em busca sempre de mudança.
Viver terceirizando a culpa, crendo estar sendo vítima de terceiros, é assumir entre linhas, o quão infantil é sua forma de pensar. É no final, crer que precisa ser servido, que todos lhe devem algo, que o mundo precisa ressarcir uma dívida de injustiça e descaso.
O mundo não é justo, e nem todos nascem em uma realidade privilegiada. Contudo, um ser humano realmente adulto, assume o comando de sua vida e faz o que pode ser feito com as condições que a vida lhe deu. Nem sempre nascemos nas mesmas condições, mas é possível lutar, e conseguir chegar em uma situação um pouco mais privilegiada do que antes. Basta assumir o controle e arregaçar as mangas.
Uma pessoa bem resolvida, sabe jogar com as cartas que a vida lhe deu. Não estou falando de ficar rico, e sim, de buscar ter uma vida melhor do que a vida que você tem hoje.
Ou você faz, ou se desfaz em uma vida marcada pelo lamento, escolha bem seu lado. É preferível lutar do que estagnar reclamando da vida, como se todos lhe devessem algo.
BIBLIOGRAFIA
GRÜM, Anselm. Ser uma pessoa inteira. Petrópolis: Editora Vozes, 2014.
-
JORNADA CRISTÃ 14: CASAMENTO
Foi inevitável, em um dado momento da minha vida eu começar a pesquisar livros sobre casamento, visto que eu estava em vias de me casar. Sendo que foi por coincidência que eu acabei encontrando o livro: “Casamento: da sobrevivência ao sucesso” de Charles Swindoll. Eu já o conhecia como autor de alguns ótimos livros de teologia como a série de livro “Heróis da fé” ou “Vivendo sem máscaras” e muitas outras obras que me ajudaram na caminhada, mas este livro eu não conhecia.
Em nossa cidade em alguns shoppings, existem algumas bancas de livros promocionais que vendem livros por dez reais, a marca da empresa é justamente esta, vender livros baratos. Nestas bancas você encontra de tudo, e por um preço ótimo. E como por coincidência, este excelente livro me achou.
Viver a vida a dois, nunca é fácil, manter equilíbrio nesta vida, mais ainda, por isso que, boas obras, de autores que entendem bem do assunto e já são casados há muito tempo, nos ajudam.
O livro é um fundamental guia, com ele eu pude me preparar e entender um pouco da dinâmica familiar. Como eu vivia sozinho há muitos anos, o livro foi a minha bússola, um auxílio para entender um pouco mais sobre este universo.
Swindoll mistura o ensino bíblico com boas doses de bom humor, em uma área que normalmente possui pontos complicados. O modo como ele usa as suas experiências, sem propor fórmulas pré-fabricadas, se concentrando em falar de um casamento a luz da Bíblia, é genial.
O livro todo é ótimo, mas a parte que gosto é logo no primeiro capítulo, onde ele fala como o mundo mudou e continuará mudando. A nossa família não é a família dos nossos avós, os tempos mudaram e vão continuar mudando, com isso, temos desafios e situações onde provavelmente nossos pais e avós não enfrentaram, e vice versa. Destaco um breve resumo do capítulo, proposto pelo próprio autor, que sintetiza e traz uma boa luz ao assunto:
“O mundo mudou e continuará a mudar, mas Deus não muda nunca; portanto, sentimos segurança quando nos aproximamos dele (SWINDOLL, 2012, p. 21).
É só em Deus que devemos depositar a nossa segurança, sendo que o segredo do casamento de sucesso é colocar Deus no centro de tudo.
Nunca é fácil lidar com pessoas, cada um é um ser único, com anseios, pontos de vista e dificuldades únicas, não dá para generalizar, por isso que o princípio de tudo deve ser Deus.
O autor trabalha o tema de forma muito pontual e realista, o livro é fundamental para quem quer entender toda a dinâmica familiar, para assim dar passos mais seguros dentro do lar. Entre todos os livros que tenho deste autor, este é apenas um deles e o meu preferido, um dos principais sobre o assunto, vale a leitura.
BIBLIOGRAFIA
SWINDOLL, Charles R, Casamento: da sobrevivência ao sucesso, Editora Thomas Nelson Brasil, Rio de Janeiro, 2012.
-
ORAÇÃO DE UM SOFREDOR
Por muito tempo tive receio e não conseguia lidar com alguns textos complicados do Novo Testamento. Já havia estudado e lido explicações para algumas passagens bíblicas que falam de morte de crianças, e assuntos complexos, que em sua maioria pareciam simplistas e por conta disso, demorei em aceitar e entender tais passagens.
Em meio ao nosso conforto, não é interessante ler Salmos 137:8-9, ou mesmo o Salmo 58 e muito menos o Salmo 140:10. Isso para citar apenas estes 3 de inúmeros Salmos chamados de “Salmos imprecatórios”, que significam, Salmos de maldição.
Ninguém, pelo menos em sã consciência, gosta de ler imprecações, queremos ler sobre alegria, milagres de Deus, moveres divinos. O mundo já é suficientemente ruim para lermos estes textos. E do alto de nossa torre de marfim, cercados por todos os confortos possíveis que um país como o nosso pode propor, tecemos críticas a estes excertos ou ignoramos tais materiais. Perdendo de aprender com estes verdadeiros tesouros.
Os Salmos são basicamente um compilado de hinos e orações, que servem de ótimas amostras da espiritualidade, da busca e da adoração de inúmeros personagens bíblicos.
Em um país marcado por guerras, injustiças e fome, tais textos servem como alívio para quem sofre. Só suportamos as adversidades quando cremos que a mão de Deus não só nos ajuda e nos sustenta, mas também faz o que é justo. Em um mundo de injustiça, saber que Deus é a própria justiça é um alívio. Philip Yancey complementa afirmando que:
“Quem pega o Antigo Testamento em um país desenvolvido e simplesmente começa a ler, talvez fique entediado, confuso ou até indignado com a violência retratada nos livros” (YANCEY, 2006, p. 17).
Para quem está em um ambiente de fartura, sem faltas, fome ou necessidades, tais relatos não são lógicos, contudo, para quem sofre, tais problemas não são estranhos. Sendo assim possível compreender tais acontecimentos de outro prisma, já que cada dor, injustiça e catástrofe, não lhe soa desconhecido.
Os Salmos imprecatórios são orações angustiadas, são desabafos e pedidos de justiça de um sofredor a Deus. Tais textos evidenciam como é possível levarmos toda a nossa oração a Deus, seja ela qual for e da forma mais sincera possível. Quem está orando a Deus nestes Salmos, está rasgando o seu coração e sendo o mais sincero possível. É possível derramarmos o nosso coração em meio a dor e ao sofrimento, e é isso que os Salmos imprecatórios nos mostram.
O texto não é uma evidência que Deus teria que responder a oração da forma que foi pedida, e sim, é a prova que podemos entregar tudo nas mãos de Deus e desabafarmos.
Imagine que você passou por uma injustiça tremenda, ou viu alguém que você ama ser algo de violência, tortura ou qualquer outro mal. Nesta situação, como você oraria a Deus? Talvez até oraria como o salmista que escreveu estes textos complicados.
Alguns destes Salmos são orações sofredoras, palavras sinceras, de alguém que estava entregando a Deus seus problemas, injustiças e caos. Tais textos são a prova que podemos orar, e entregar a Deus nossos problemas de forma aberta e sem reservas.
Um pai nos ouve e fica do nosso lado, com Deus não é diferente. Podemos contar com ele e abrir o nosso coração, tendo a certeza que ele cuidará de nós. Alguns destes Salmos são apenas provas que podemos rasgar o nosso coração a Deus, sem medo de sermos reprimidos. Sendo que Deus vai ouvir, mas vai agir, segundo a sua santa vontade, é apenas isso que você precisa ter em mente.
BIBLIOGRAFIA
YANCEY, Philip, A Bíblia que Jesus lia, Editora Vida Acadêmica, São Paulo, 2006.
-
A HABILIDADE DE NÃO DESANIMAR
A realidade de quem planeja algo e mergulha em um projeto, nem sempre é iluminada. Existem horas em que o dia parece cinza e tudo parece estar dando errado. E nada mais difícil, para quem empreende algo, do que ter que lidar com a frustração de ver seu projeto fracassar.
Hoje em dia não é tão difícil encontrar aulas e técnicas ensinando você a como ter foco, ser empreendedor e por aí vai. E apesar do discurso ter se banalizado, ele não é ruim. Principalmente porque, para sairmos do nosso comum, precisamos planejar e fazer. Se eu não tivesse planejado e tentado sair do ponto onde eu estava, estudando e me preparando para ser professor, provavelmente eu estaria fazendo a mesma coisa, sem ter aprendido mais, conhecido mais e muito menos saído do lugar. O que não ensinam, junto com estas técnicas, é lidar com a derrota, com o fracasso do projeto, pois o insucesso, mais dia ou menos dia acontece.
É fácil falar que os erros existem para que possamos aprender e tirar uma lição. E este conselho é verdadeiro, pois aprendemos muito com os nossos erros, mas nem sempre é tranquilo lidar com a situação. Principalmente quando gastamos tempo, dinheiro e fazemos escolhas, para que possamos colocar em prática os nossos planos. E escolher é perder, além de ser inevitável lamentarmos nossas escolhas, quando vemos um projeto fracassar.
As opções, o foco e a dedicação que usamos para empreender determinados planos, nos traz o sentimento de “e se eu tivesse escolhido outra coisa?”, “será que eu não perdi o meu tempo?”. Normalmente estas perguntas vem acompanhadas com um sentimento de incompetência.
Eu já fracassei muito, e aprendi que não desanimar é uma das grandes habilidades humanas. Pois o desânimo nos faz estacionarmos, largarmos tudo o que poderia ter dado algum fruto caso tivéssemos tido alguma persistência.
O fracasso normalmente diz respeito a um momento, e pode servir ou como fortificante, dando-nos assim a resiliência. Ou como um ponto de reflexão. Porque as vezes não vemos nossos planos de forma ampla, e nos enganamos, e o fracasso nos traz justamente este momento de reflexão e aprendizado. Desanimar é colocar em risco algo que pode frutificar, e acontecer em um período certo. Ou mesmo, com os ajustes necessários.
A habilidade de desanimar está intrinsecamente ligada a o quanto deixamos nossos erros nos abater, e esta é a questão. Por isso, fique triste, quando você tiver um insucesso, você pode até lamentar, fique tranquilo. Mas não se entregue. Pense em um novo começo e tente enxergar outras possibilidades, ou mesmo melhores ajustes para os seus planos e metas.
As vezes você não percebeu os outros caminhos e possibilidades, você viu apenas uma coisa, e ficou só naquilo. Amplie o seu conhecimento no assunto, e conheça todas as variantes, ao planejar seu empreendimento.
Outra atitude importante é ser honesto consigo mesmo, verifique se o fracasso não veio por conta de possíveis erros. Liste todos os erros e possibilidades de melhoras, procurando aperfeiçoar ainda mais o seu projeto. Muitas vezes o fracasso reflete só os pontos que precisamos alinhar.
A habilidade de não desanimar está intrinsecamente ligada à como lidamos com o fracasso. O erro e as dificuldades são ambivalentes, podem servir tanto como ânimo, quanto como desânimo. Servem como momentos de aprendizado ou de frustração. O que vai definir a questão é como você se posiciona.
Por isso não desista e use o fracasso como um aprendizado para que você consiga recomeçar de forma mais assertiva.
-
OLHAR SELETIVO
Nossos olhos muitas vezes nos enganam, nem sempre vemos as coisas como elas realmente são. Mesmo tendo muita inteligência, muitas vezes acabamos por ver os acontecimentos munidos apenas de nossas razões. É indissociável, nos separar de nossos pontos de vistas, conhecimentos e motivações, e isso nem sempre é bom.
Olhar o mundo, avaliar os acontecimentos é sempre dúbio, é quase sempre uma via de mão dupla. Nós vamos em alguns momentos depender das nossas percepções e de como enxergamos o mundo. Tudo e qualquer coisa sempre passa pelo nosso crivo e por nossas opiniões. Nem sempre temos um julgamento confiável.
Poderíamos dizer que temos uma infalível percepção distorcida, somos mestres em perceber o que bem queremos, e opinar sem ao menos nos colocarmos no lugar da pessoa. E em alguns casos, sem pesquisar e nos aprofundar no assunto. Cremos saber a todo o momento, e temos orgulho disso, mas somos sabotadores orgulhosos, gostamos de nos enganar, tudo para ser feliz ou para sermos aceitos.
Conheci gênios que se viam como fracassados e atribuíam o seu insucesso ao mundo ou a fatores externos ao seu controle. Buscavam uma oportunidade, mas não conseguiam, pois não se dirigiam a ela. Em contrapartida, durante a minha vida, conheci muitos motivados, que ao assumir o controle, buscavam suas oportunidades, estudavam e praticavam, a fim de chegarem em algum lugar.
Temos na maioria das vezes, um olhar seletivo. Percebemos apenas o que queremos ver, prestamos atenção apenas no que nos importa, e deixamos passar despercebido as coisas relevantes, momentos e aprendizados fundamentais para crescermos e nos desenvolvermos. Mas que não vemos, por conta do nosso olhar seletivo. Quem enxerga apenas o que quer ver, não vê tudo e deixa passar muita coisa.
É preciso aprender a ver, refletir a perceber as contradições. Não dá para se contentar apenas com o que queremos. É importante ir além, tentar e buscar o conhecimento e ver muito mais do que o nosso mundo comporta.
No final, o universo que criamos é o que define o nosso olhar, para vermos além, temos que nos posicionar de forma diferente, procurando ver muito mais do que acreditamos, transpondo o mundo que construímos e que delimita o que pensamos.
A dica é ver, sem julgar, procurar entender, sem delimitar, entendendo que cada ser humano é um universo, com suas crenças, credos e anseios. Não resista as opiniões contrárias à sua. Procure entender, sem se armar, mesmo que aquilo vá de encontro ao que você acredita. Ao conhecer, você adentra em outro mundo, e por mais que você possa não acreditar, o simples conhecer, faz com que o seu olhar seja cada vez mais ampliado.
-
CABEÇA VAZIA
Cresci ouvindo que “cabeça vazia é oficina do diabo”, passei a minha infância inteira, seja em casa, no colégio ou igreja, ouvindo tal máxima. Quando eu era novo o ócio era visto como um veneno por muitos, inteligente mesmo era quem sempre estava a fazer algo.
Hoje eu discordo muito desta frase, quem escreve, compõe ou quem é um bom profissional sabe o quão importante é o ócio criativo, para quem não conhece o termo o site significados dá uma boa definição:
“Ócio criativo, que foi o título de uma monografia de um cientista italiano chamado Domenico De Masi, que revolucionou o conceito de trabalho, dizendo que as pessoas devem incluir no seu dia-a-dia um momento que tenham atividades para descansar, momentos de lazer, e conciliar isso com o trabalho e a aprendizagem” (Significados).
Temos que parar às vezes, descansar a cabeça, aprender a admirar o belo para nos recompor, a vida não é só trabalho. É claro, não podemos confundir o ócio criativo com preguiça, são duas coisas bem distintas, mas o ócio criativo é importante para não ficarmos loucos nesta sociedade que não para nunca. Porém, existe um tipo de “cabeça vazia” que é sim oficina do diabo, e é a cabeça de quem não estuda a Bíblia.
A história nos mostra o quanto muitos foram feitos massa de manobra por não terem informação, a quantidade de fiéis sem conhecimento que pastores manipulam e roubam em nome de estabelecer suas vontades é enorme. O conhecimento é uma das peças principais de quem quer ser cristão sem ter a cabeça vazia e muito menos ser manipulado:
“O cristianismo põe bastante ênfase na importância do conhecimento, repreende o Anti-intelectualismo por ser uma atitude negativa e paralisante e atribui muitos de nossos problemas à nossa ignorância. Sempre que o coração está cheio e a cabeça vazia, surge um fanatismo perigoso” (STOTT, 2004, p. 69).
O interessante é que o sinônimo de fanatismo, segundo o dicionário dicio, é cegueira, e isso já explica muita coisa. Penso que muita coisa começa com a falta de informação. Conhecer é peça chave da vida cristã, que aliado à busca, ao relacionamento diário com Deus, constitui a essência do cristianismo. Jesus disse, em Mateus 22:29, depois de fugir de duas perguntas perigosas que eram ciladas armadas para pegá-lo:
“Vocês estão enganados porque não conhecem as Escrituras nem o poder de Deus!
É básico conhecer as escrituras, se não a conhecemos com certeza erraremos em muitas coisas e seremos manipulados pelos lobos que espreitam a igreja.
Por isso estude, leia e se informe, conheça a palavra e busque a Deus. Cabeça vazia é oficina do diabo, cabeça sem conhecimento é um ambiente propício para a falta de amor e fanatismo.
Quem estuda a palavra e busca a Deus, tem no mínimo humildade, um cristão ignorante que acusa os outros sem qualquer fundamento, certamente não conhece a Bíblia.
BIBLIOGRAFIA
STOTT, John, Firmados na Fé, Editora Encontro, Curitiba, 2004.
