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  • A CIDADE DO CONHECIMENTO

    Certo fazendeiro resolveu um dia fazer uma viagem, seu objetivo era encontrar a tão falada cidade do conhecimento que seu pai tanto comentava. Diante de tal missão, contratou ajudantes, reuniu recursos e foi em busca de seu sonho maior.

    Ele gastou meses de sua vida procurando, precisou enfrentar intempéries, aventuras e dificuldades até acabar em uma pequena cidade, em um interior muito afastado da capital. Lá, ele encontra uma pequena venda e resolve parar para beber algo gelado.

    Durante a parada de descanso, ele desabafa com o dono do estabelecimento, conta todas as suas aventuras e aprendizados, detalhando todos os episódios de sua fracassada busca.

    Logo no fim da narrativa, o dono do local, que só ouvia, resolveu falar, e revela que ele já havia achado a tão procurada cidade.

    Assustado com tal declaração, ele pergunta onde é, e o dono da venda explica que o conhecimento e a relevância se adquire com a própria caminhada, são as buscas, experiências e fracassos que ele havia vivido durante a viagem, que constituíam no conhecimento, na experiência. Não existe um local certo para buscar, mas um estado de espírito, uma vontade, um impulso em querer saber e em crescer.

    As vezes saímos em busca do segredo, do livro certo, da fórmula do aprendizado e não percebemos que o trajeto, os fracassos e vitórias nos ensinam, basta abrir a cabeça. Talvez o querer, seja o nosso grande professor.

    Ouvi um professor, certa vez, contar como ele conseguiu estudar e entender os grandes e difíceis livros clássicos de filosofia, o segredo dele era que ele apenas quis entender.

    Confesso que achei o conselho estranho, mas por considerar o homem inteligente, resolvi por em prática, tentando entender o livro no qual mais achava difícil, e funcionou.

    Quem quer aprender aprende, basta um olhar, basta se dedicar, ler e continuar. Só cresce quem é realmente dedicado, comprometido e persistente, já que muita coisa não aprendemos de primeira.

    Não existe a universidade perfeita, pouco importa de onde vem o seu diploma, quem foi o seu professor ou qual foi o método de aprendizado, e sim, que tipo de estudante que você é.

    Hoje eu não me impressiono mais com diplomas, nomes de faculdades ou coisas do tipo e sim, como este estudante é, o quão comprometido ele é nos estudos.

    Não existe um local sagrado do conhecimento, nem uma cidade mística, mas uma atitude, uma maneira de ser que vai além um lugar ou endereço.

    Conheci mestres e doutores ignorantes dos pés a cabeça, que não enxergavam o óbvio, nem percebiam suas contradições. Em contrapartida, conheci gente analfabeta, digna de um título de filósofo. Pois quem quer aprender aprende, ser relevante é um tipo de ser, não se constrói na universidade, é uma força de vontade, tem que querer para ser.

  • MISSÃO URBANA III: A PRIMEIRA CIDADE

    Não é só a missão que começa na Bíblia, a cidade também tem o seu início lá. Quando falamos em cidade, temos que ir lá em Gênesis 4:17:

    “E conheceu Caim a sua mulher, e ela concebeu, e deu à luz a Enoque; e ele edificou uma cidade, e chamou o nome da cidade conforme o nome de seu filho Enoque”.

    Um assassino desobediente fundou a primeira cidade, com isso, não fica tão difícil entender porque o mundo é um caos, mas não foi só isso que os seus descendentes criaram, muitos outros avanços também vieram deles como a vida nômade (Gênesis 4:20), música (Gênesis 4:21), e metalurgia (Gênesis 4:22), como evidencia o texto, sendo estes elementos importantes de toda a cidade. E ao prosseguirmos com a leitura vemos que a raça humana se perdeu, a maldade aumentou na terra e com isso o dilúvio veio e limpou a terra de todo o caos.

    Podemos colocar Caim como um pecador muito mais endurecido do que o próprio Adão, pois matar é muito pior do que comer de um fruto proibido, sem contar com o fato de que nem Deus conseguiu convencer Caim de não pecar (Gênesis 4:6,7) (CARSON, FRANCE, MOTYER, WENHAM, 2012, p. 106).

    Graças a Deus que o Senhor aprovava o que Noé fazia (Gênesis 6:8) e com isso salvou ele e a sua família. O problema é que isso não adiantou muito, pois por causa de uma bebedeira, Cam, o filho de Noé, fez fofoca e piada do seu pai aos irmãos e a maldade perpetuou (Gênesis 9:21- 28).

    É claro que você pode considerar isso um exagero, para nós hoje o que Cam fez não deveria ser motivo de condenação, mas para época isso era. Mais uma vez vemos a importância de entendermos o contexto antes de concluirmos qualquer coisa, seja ao lermos a Bíblia ou ao analisamos uma outra cultura ou costume. A parte curiosa é que o filho de Noé pecou assim como o filho de Adão, e tudo volta ao que era antes (CARSON, FRANCE, MOTYER, WENHAM, 2012, p. 106).

    Onde há pessoas há maldade, quem dirá em uma cidade, o mundo é o que vemos porque é constituído de seres falhos e pequenos, está é uma verdade que fica latente em toda a Bíblia e que temos que entender antes de pregarmos o evangelho.

    É interessante também falarmos do povo de Israel para entendermos a dinâmica das cidades. Segundo a Bíblia, eles foram uma grande nação, tinham seus códigos, sua forma de agir e cultura, sendo que é através deles e dos relatos do Velho Testamento que conseguimos saber dos diversos tipos de povos e culturas existentes na antiguidade.  Sem esquecer que todas as leis e costumes vieram do próprio Deus, e se houve algum exagero foi por conta dos limitados seres humanos.

    Depois que o povo de Israel foi liberto e entrou na terra prometida, a terra toda foi dividida entre as tribos e o governo depois de um tempo, se deu através dos Juízes. Lembrando que os Juízes foram lideres instituídos por Deus para governar e libertar Israel em períodos de desobediência e declínio, que, diga-se de passagem, foram muitos.

    Mas foi no tempo de Samuel, um importante juiz, profeta e sacerdote (Samuel 3:20; 9:12,13) que o povo pediu um rei (1 Samuel 8:4), o motivo era que os filhos de Samuel não seguiam o exemplo do pai e eram desonestos, por isso que o povo queria um rei, para serem iguais aos outros povos. Josué avisou que o rei iria ser desonesto, que iria explorar e roubar o povo, mas não adiantou, eles queriam um rei, e Deus levantou Saul.

    É interessante ler esta passagem, pois ao longo da história do mundo, o que mais vemos é justamente isso, exploração do povo, cargas pesadas nas costas do trabalhador para sustentar um bando de políticos que não fazem nada.

    O resumo da história de todos os reis de Israel foi que a maioria deles foram reis opressores, Israel sofreu muito com eles, sendo que até o Sábio Salomão, que dividiu o reino e fez inúmeras bobagens, não ficou de fora e não deixou de fazer besteiras, e entre as principais listamos: Inaugurou um período de escravagismo, construiu um harém a moda pagã, adorou outros deuses e construiu altares para outros deuses (1Reis 11: 4-13). E mesmo Deus aparecendo para ele duas vezes ordenando que não adorasse outros deuses, ele continuou adorando (1Reis 11:9).

    Resumindo, o poder corrompe seja você quem for, cuidado com o poder, pois se até Salomão, com toda a sua sabedoria, se corrompeu, quem dirá nós.

    Como vimos, as cidades e a vida em sociedade (seja que estilo for) vêm de muito tempo atrás, a Bíblia narra como autor o próprio Caim e seus descendentes, o texto é apenas um resumo, um apanhado geral que temos que entender antes de aprender sobre a importância da missão urbana para a propagação do evangelho neste nosso contexto urbano.

    BIBLIOGRAFIA

    CARSON. DA. FRANCE , RT, MOTYER, J. A, WENHAM, G. J, Comentário Bíblico Vida Nova, Editora Vida Nova, São Paulo, 2012.

  • O CAOS NOSSO DE CADA DIA

    Eu tenho medo destes filósofos e pensadores que afirmam que o homem nasce bom e é a sociedade que o corrompe e o desvia de sua bondade. Eu ouço muito isso em minha segunda graduação, para estes pensadores todo o mal e desigualdade são culpa do capitalismo, sociedade e coisa e tal.

     Eu sei que o capitalismo não é perfeito e tem seus furos, só que acredito também que o comunismo é tão utópico e injusto quanto, sem esquecer que o homem não precisa de ferramenta ou sistema político algum para ser mau. Ele já é por natureza, basta coloca-lo em um local com mais de uma pessoa

    Acho curioso quem tenta justificar o comportamento do homem e crê que existe uma forma de conduzirmos a humanidade para uma sociedade que seja boa e igualitária. Acho lindo o sonho de uma sociedade justa e feliz, infelizmente eu sei que onde existem pessoas sempre existirá o mau, eu não me iludo.

    O homem é o caos ambulante, ele é decaído e mau, é nisso que nós cristãos acreditamos. Não acreditamos que uma sociedade é que nos faz mau, e sim que já o somos assim por natureza, como parte de sermos contaminados pelo pecado.

    Uma das provas é o nosso egoísmo, que diga-se de passagem, é óbvio e claro como água. Queremos ser ouvidos, queremos as coisas de nosso jeito, queremos tudo de nossa forma e com isso o caos vai se instalando, afinal, o mundo não comporta tantos tentando ser felizes. Há quem diga que um dos problemas do mundo é o ser humano, cada qual tentando ser feliz de sua maneira.

    O homem é um caos ambulante, contraditório, pequeno e fraco. Quer ser aceito e valorizado, sem aceitar a si mesmo como é. Ele corre atrás da felicidade, mas esquece de que ser feliz é um resultado não um fim. Quer um mundo sem dor e problemas, porém esquece-se das lições que a dor traz. Culpa o capitalismo pelas mazelas e injustiças da vida, mas coloca a sua esperança em outra teoria política, sem ver seus furos e contradições, e principalmente, sem ver que a culpa no fim é dele mesmo. Gosto de uma citação de Lewis, tirado do livro “Ética para viver melhor” que resume bem o contraditório ser humano:

    “Nada tem mais potencial para destruir uma espécie ou uma nação do que a determinação de sobreviver a qualquer preço. Os que se preocupam com algo além da civilização são, provavelmente, os únicos que a preservarão” (LEWIS, 177, 2017)

    No intuito de sobreviver nos destruímos e destruímos tudo ao redor. Na missão de sermos felizes, cada qual de sua maneira, acabamos cultivando mais caos que paz.

    A teologia nos ensina que o homem é depravado, decaído e mal. O homem nasce no pecado, não adquire seus maus comportamentos por conta de fatores externos, e sim internos. E a teologia nos ensina também que Cristo veio para nos mostrar quem somos, e do quanto precisamos de Deus para não nos consumirmos. A essência de ser cristão é sabermos que não somos nada, e que precisamos de Cristo para nos redimir, nos salvar e nos dar uma nova vida. Vida esta que se resulta em frutos visíveis aqui na terra, como otimamente nos ensina Gálatas 5:22-23:

    “Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio. Contra essas coisas não há lei”.

    Enfim, ser Cristão é ser um imitador de Cristo, é ser um servidor, um construtor. Não temos chance sem ele e a sua graça, não existe outra forma de ser gente da maneira certa se não olharmos para a cruz, buscando a graça de Cristo dia após dia.

    É só quem olha para Cristo que conseguirá olhar para o próximo. É só quem compreende quem realmente é que entenderá o ser humano e suas contradições. É impossível sermos felizes se não buscarmos a felicidade na fonte, que é Deus, pois tudo o que vem de nós mesmos é mal, egoísta e contraditório, o verdadeiro amor, sabedoria e felicidade é que vem de Deus.

    BIBLIOGRAFIA

    LEWIS, C.S, Ética para viver melhor, Diferentes atitudes para agir corretamente, Editora Pórtico, São Paulo, 2017

  • REFLEXÕES SOBRE UM PRÓDIGO I: O FILHO

    “Um certo homem tinha dois filhos…” (Referência: Lucas 15:11-32).

    Quando falamos do filho pródigo, discorremos sobre uma passagem bíblica conhecida, talvez uma das mais pregadas, lidas e interpretadas, mas muitas vezes incompreendida. Cristo contou esta parábola para que aprendêssemos uma lição importante, porém, muitas vezes não entendemos a profundidade de seu ensino porque não conhecemos os costumes e ritos judaicos e é isso que vamos ver, para entendermos a parábola um pouquinho melhor.

    Temos como pano de fundo desta parábola Jesus rodeado de publicanos e pecadores, que ouviam e aprendiam com suas parábolas. E os fariseus e escribas, julgando o fato de Jesus estar no meio daquela ralé (segundo eles). Na verdade, judeus não se misturavam, pois tinham receio de se contaminar com pessoas pecadoras, eles tinham até um provérbio rabínico que dizia:

    “Não se associe o homem com o ímpio, nem mesmo para trazê-lo para a lei (CARSON, 2012, p. 1512)”.

    Lembrando que, quando os judeus falavam de ímpios, eles queriam se referir aos que não eram judeus. Mas Cristo não ligava para isso, afinal, quem contaminava as pessoas com seu amor e cuidado era Ele.

    Temos no capítulo quinze três parábolas que falam sobre misericórdia, sobre buscar ou encontrar algo que se havia perdido. A parábola do filho pródigo é a terceira e a mais detalhada e, a meu ver, a parábola com o mais profundo dos ensinamentos. A parábola do filho pródigo me impressiona de várias maneiras, mas confesso que comecei a entender melhor depois que comecei a ter uma certa idade.

    Com o tempo, você aprende a observar, você começa a notar as atitudes dos que estão à sua volta e até ver como eles agem para com seus pais e parentes. Principalmente quando estes são filhos, é normal um filho desdenhar de seu pai quando estes têm certa idade. É comum vermos adolescentes não respeitarem os cabelos brancos e agirem como se soubessem de tudo. Normalmente, são estes que quebram a cara, pois se nem nós, que já temos certa idade, sabemos de tudo, quem dirá eles, que começaram a caminhar faz poucos anos.

    Quando leio a passagem do filho pródigo, não consigo deixar de fazer um link com os muitos adolescentes arrogantes que eu já vi por aí ou até comigo, quando fui adolescente. É comum vermos eles agirem como senhores de si. Mas vou mais além, pois conheço alguns adultos arrogantes, que agem como adolescentes, achando que sabem de tudo e só pensam em seus umbigos. A arrogância é um mal que faz com que não consigamos ouvir o próximo, aprender com os nossos erros ou refletir sobre nossas atitudes. Eu ainda acho que o filho pródigo era um adolescente, entretanto, isso não tem muita importância.

    O texto diz que este filho teve a desfaçatez de solicitar a seu pai a sua parte da herança. Sendo este um pedido muito ofensivo, afinal, não era comum um filho pedir a herança ao seu pai vivo, é como se ele dissesse: olha, pai, já que você não morre, dê a minha parte da herança para eu fazer o que quiser.

    Eu descreveria o filho pródigo ou este estilo de pessoa arrogante como pessoas cegas pela vontade de ser feliz a qualquer custo. Pessoas que acreditam que apenas a sua fórmula, seu modo de agir ou a sua receita é a melhor. Por isso, estes não medem esforços para terem sucesso em seus empreendimentos.

    O filho pródigo da parábola não demorou para exigir sua parte da herança, mesmo com o seu pai vivo, pois ele tinha um plano e o seu pai tinha o dinheiro. É fácil sonhar com o fruto do esforço alheio, é fácil magoar os outros para ter condição de fazer as coisas do nosso jeito, o difícil é batalhar, trabalhar e correr atrás.

    Aprendemos muitas coisas com esta parte da parábola, sendo que entre todas as lições, talvez a principal seja: “como a arrogância tem a capacidade de nos fazer passar por cima dos outros, sem perceber o estrago que estamos fazendo”. Talvez não tenhamos um pai vivo para pedir a herança, mas temos parentes ou amigos com uma idade muito mais avançada do que a nossa, com costumes tão opostos e estranhos que não temos a paciência de respeitar e dialogar. Não precisamos aceitar tudo de todos, mas podemos aprender a conversar de forma mais amorosa e paciente, respeitando e sendo gratos pelo fato de que, até aquele momento, estas pessoas têm nos dado a mão.

    A resposta mais coerente deste pai diante do pedido que o filho pródigo fez, segundo o costume da época, seria um tapa na cara em público, lembrando que naquela época um filho desobediente era apedrejado, conforme Deuteronômio 21:18-21. Seu pedido era incoerente, ofensivo e irracional, mas aquele pai resolveu atender ao pedido do filho. Quem sabe o pai quisesse ensinar algo ao filho, por isso decidiu tomar um caminho diferente, não sabemos, só temos a certeza de que aquele pai cedeu ao pedido do filho desobediente, no qual muito amava (MACARTHUR, 2009, p. 64).

    Com certeza, aprendemos muito mais quando quebramos a cara, esteja certo de que aprendi muito quando caí no mundo e vi que ele não era como eu imaginava. Eu me lembro de muitas das lições que ouvi quando morava com meus pais, o problema foi que no momento em que lembrei, já era tarde demais.

    Não se esqueça de que o mundo ensina, mas cobra caro, e aquele pai sabia disso. Já que aquele filho queria seguir o seu caminho, o pai, que era muito sábio, resolveu não o impedir. Ele sabia que, tendo sucesso ou não nos seus planos, existia a possibilidade daquele filho aprender muito e acabar descobrindo o valor de ter um pai que cuida e zela por ele.

    O filho pródigo é uma parábola que fala muito de nós e das nossas arrogâncias, fala do quanto muitas vezes nos sentimos superiores a tudo e a todos, e acabamos por seguir nosso caminho alheio a conselhos e ajudas. Mas a parábola não acaba aqui, no texto seguinte iremos ver este filho vivendo como bem queria na cidade grande.

    BIBLIOGRAFIA

    MACARTHUR, John. A parábola do filho pródigo: Uma análise completa da história mais importante que Jesus contou. Rio de Janeiro: Editora Thomas Nelson, 2016.

    CARSON. D. A.; FRANCE , R. T.; MOTYER, J. A.; WENHAM, G. J. Comentário Bíblico Vida Nova. São Paulo: Editora Vida Nova, 2012.

  • LIBERDADE

    Uns anos atrás em um ônibus lotado, enquanto me dirigia para casa, começou a cair uma chuva grossa. Em um reflexo instintivo fechei a janela, deixando apenas uma fresta para não morrer sufocado, mas o suficiente para que não entrasse chuva. 

    Todavia depois de alguns minutos, eis que entra no ônibus uma moça encalorada, daquelas que entram abrindo as janelas como loucas, sem ver as consequências de uma janela aberta para quem está sentado. Infelizmente uma das janelas era a minha, sendo que novamente resolvi fechar a janela para não chegar em casa ensopado. O resultado da minha atitude foi ver uma moça histérica, gritando como louca, enquanto eu tentava explicar, sem sucesso, que eu apenas não queria me molhar. Foi um caos, um misto de gritaria e infantilidade crônica de quem não sabia dialogar.

    Há quem acredite em um mundo livre, onde todos possam fazer o que bem entendem, na hora que bem quiserem. Conheço pessoas que lutam por um mundo sem regras, sendo a liberdade à única norma. Como se um mundo assim fosse possível, soa até como piada, pois o homem mal consegue beber e não dirigir, quanto mais viver com ética e responsabilidade.

    Roger Scruton no livro: “As vantagens do pessimismo…” resume bem a importância das leis para que assim tenhamos uma vida realmente livre:

    “A liberdade é genuína somente quando limitada pelas leis e instituições que nos tornam responsáveis uns pelos outros, que nos obrigam a reconhecer a liberdade dos outros e também a tratar os outros com respeito” (SCRUTON, 2015, 49)

    Imagine um mundo onde todos fazem o que bem entendem, alguns ouvindo som alto em plena madrugada, outros andando em alta velocidade e até agindo de uma forma que agrida o próximo? O mundo seria um caos se não existissem leis que nos obrigassem a olhar para o vizinho e respeitá-lo.

    Não existe liberdade sem leis, é impossível sermos realmente livres, se não tivermos reguladores que impeçam o homem de fazer mal ao próprio homem. A própria busca da tal felicidade já iria de encontro com a busca de felicidade de um outro, com isto o caos estaria instalado. Afinal, cada um pensa de um jeito, crê de uma forma e vive de determinada maneira. Se não tivéssemos leis, com certeza nos consumiríamos.

    A verdadeira liberdade está em saber viver em sociedade. Um cidadão livre é aquele que sabe viver o “nós”. Um país sem leis justas não é um país livre, um cidadão que não sabe viver em sociedade, certamente não é feliz.

    Deus nos livre de um país sem leis, para que não sejamos destruídos pela felicidade alheia, penso que o homem fosse realmente livre, o mundo já seria um caos, o mundo já estaria acabado, a natureza um projeto da decadência.

    Por isso, lembre-se o que é liberdade antes de ligar o som alto, aprenda a colocar-se no lugar da pessoa que só quer um dia de paz. Quando abrir a janela do ônibus, observe se com isso você não vai prejudicar o outro com sua atitude, você não tem o direito de prejudicar ninguém em nome de estar bem.

     

     

    BIBLIOGRAFIA

    SCRUTON, Roger, As vantagens do pessimismo e o perigo da falsa esperança, É Realizações Editora, São Paulo, 2015

  • CALMA ANTE A TEMPESTADE

    Imagine que você está em um navio, singrando águas profundas em pleno alto mar. E em a uma altura do dia, o céu escurece e você acaba se encontrando em uma grande tempestade, daquelas de dar medo, com ventos fortes e ondas de tamanhos inacreditáveis.

    No desespero, enfrentando fortes ondas que quebram em seu convés, você decide procurar terra firme, é mais seguro do que enfrentar aquela tormenta toda. Todavia, entre tantas coisas para fazer como desviar das ondas, manter o barco em rumo e sem água, você acha que não vai conseguir, é impossível, a tempestade é muito forte, é muita coisa para realizar, com isso você se desespera.

    As vezes, diante de problemas, nos sentimos assim, sem saída, sem recursos, sem saber o que fazer. É tanta onda que invade nosso convés que nos vemos sem ação, paralisados sem saída. Eu já passei por tempestades assim, algumas tormentas eram tão fortes que achei que iria afundar.

    Em meio a esta tribulação toda, desempregado, sobrevivendo de freelances que mal davam para fechar as contas do mês e tendo que enfrentar despesas inesperadas de saúde e coisas do tipo, percebi que para quem está mal, qualquer fagulha vira incêndio, tirando a nossa paz e atrapalhando nossa caminhada. Com isso, eu precisava achar uma saída, por isso, coloquei a cabeça no lugar e procurei terra firme a fim de escapar do caos.

    Existem alguns ladrões da paz, situações que nos jogam cargas e dificultam ainda mais nossa vida. Um dos principais deles é o foco.

    Ouvi uma teoria há muito tempo sobre foco que eu nunca mais esqueci. Quando você quer comprar um determinado carro, você passa a ver muito este carro por onde  passa. É como se surgisse misteriosamente muitos carros daquele estilo na rua. Mas a questão não é que surgiu mais carros, a explicação é um pouco mais simples. Quando você tem o seu foco voltado para determinadas coisas, você passa a ver somente aquela coisa. Pois a sua mente está voltada para aquilo, por isso você só vê aquele objeto, os problemas são iguais.

     É comum, ante as tempestades da vida, focarmos mais nos problemas, prestarmos mais atenção nas coisas más que nos rodeiam, com isso, seguimos afundando, sem esperanças.

    Nestes meus dias difíceis aprendi a agradecer, passei a acordar e pensar em coisas no qual ser grato. Muitas vezes não vemos Deus agir por estarmos com o nosso foco voltado para a tempestade. Quanto mais pensamos nos problemas, mais vamos ver problemas, quanto mais somos negativos e sem esperança, mais seguiremos obscurecidos pelo caos.

    O texto não é um convite a vida falsa e hipócrita, não estou pedindo para você fechar os olhos para os problemas e seguir ignorando tudo, não. A proposta é convidar você a focar mais na solução, a procurar sair do óbvio e encontrar a saída.

    Algumas vezes, no afã de controlar o barco, fugir das ondas e se manter bem ante o caos todo, não vemos a terra firme. Priorize seus problemas, pense bem no que vale a pena se preocupar e se concentre na solução.

    As vezes a terra firme está bem em frente de nós, mas não vemos por conta do medo das ondas, ou de todas as questões inúteis que damos atenção quando estamos passando por uma tempestade.

  • MISSÃO URBANA II: A MISSÃO NA BÍBLIA

    Missionário não são apenas aqueles viajantes, mas também nós, em nosso trabalho, no bairro e entre nossos amigos. Segundo o dicionário, missionário é:

    “Aquele que se dedica à pregação de sua fé; pregador. Aquele que se dedica a propagar uma ideia” (Dicio).

    A missão urbana, tal qual a missão, começa lá em Abraão, em um chamado de Deus. Não se esqueça de que é Deus quem nos encontra, é ele que nos chama, e não nós que o achamos. Abraão teve uma missão, o próprio Deus se revelou e disse que dele sairia uma grande nação, e saiu. Foi através desta nação que Deus se revelou, mostrou quem ele era e fez a sua vontade.

    A parte interessante deste chamado é que Abraão não foi apenas o primeiro dos patriarcas de Israel (Gênesis 12:2), mas também alguém que se importou muito com as pessoas de Sodoma.

    Após Deus revelar a ele que destruiria Sodoma (Gênesis 18:23), Abraão dialogou com Deus e até barganhou, atentando para a possibilidade de Deus estar matando pessoas direitas na cidade (Gênesis18:23). É claro que eu desconfio que Abraão ao falar das pessoas direitas, estava falando de Ló, seu sobrinho, mas de qualquer maneira ele se importou com estas pessoas, pensou haver uma possibilidade delas existirem e clamou por elas, onde no fim, Deus ouviu a sua oração e salvou a Ló (Gênesis19:29).

    Já no Novo Testamento temos o Cristo que morreu para nos salvar, um descendente do mesmo povo que Deus formou, cumprindo assim a profecia. Vale lembrar que Cristo teve como prioridade os excluídos, sem esquecer que naquele contexto, os excluídos não eram só os pobres, mas também os cobradores de impostos, além da prostitutas e os doentes, a lista é grande, abordarei apenas os principais.

    As viúvas no período Greco-romano eram obrigadas a casar em dois anos, sendo que a sua herança era toda administrada pelo novo marido. Entre os judeus, a mulher também era diminuída, não recebia educação formal, não tinha voz e era quase que uma propriedade do pai e depois do marido.

    A parte boa foi que o cristianismo acolheu estas mulheres, deu voz, cuidou e valorizou. Nas cartas Paulinas vemos muitas sendo parceiras de Paulo no ministério, evidenciando e importância que o cristianismo deu a elas.

    As crianças, para um judeu, ocupavam a parte inferior da hierarquia social. Elas eram dependentes e até completarem a idade de observar a lei (12 anos), elas não eram valorizadas. Mas Jesus valorizou-as e deu-as uma posição social de suma importância e até mandou que fossemos iguais a elas (Mateus 18:3).

    Os cobradores de impostos eram em sua maioria judeus que trabalhavam para Roma. Eles eram vistos como traidores, além de serem em sua maioria desonestos, cobrando valores mais altos, para assim ficarem com uma parte da arrecadação. Jesus acolheu-os e mudou suas vidas por completo. Pois o evangelho veio para restaurar e não para dividir.

    Os leprosos viviam em locais separados das pessoas, eles eram os párias da sociedade e tinham que gritar “impuro” toda a vez que viam uma pessoa sã. Um leproso era visto como um amaldiçoado por um judeu e tinha que viver excluído, por isso que quando Cristo curava um leproso ele não só restituía a sua própria saúde, mas dava uma oportunidade de retorno a sociedade, aos familiares e aos amigos.

    O preconceito é o grande problema do ser humano, isso aconteceu com os judeus da época de Jesus. Eles se esqueceram do propósito de Deus e viraram assim um povo que se julgava especial, escolhido e superior. E isso ficou evidente em toda a história do povo de Israel e até na época de Jesus, onde os rabinos não tinham amor pelo próximo, pelo doente e pelo excluído e não se importavam em levar à palavra as pessoas.

    Contudo hoje não é muito diferente, a igreja não demora em excluir e dividir. A igreja quer impor e não pregar, forçar e não influenciar. É aquela velha questão, você impõe seu ponto de vista ou influencia? Impondo, você nunca vai chegar a lugar algum e corre o risco de abrir um pressuposto para o outro também impor. Já influenciando não, pois não é usado a força e sim, o exemplo, reflexão e o diálogo.

    Se olharmos também para dentro da igreja infelizmente veremos esta mesma realidade. Em algumas igrejas a música, liturgia e todo o resto devem ser feito de uma forma que agrade principalmente os mais velhos, aos líderes da igreja ou aos abastados e não a Deus.

    A convivência é um desafio, entender o próximo, sua cultura e maneira de ver as coisas, mais ainda. O problema é que não tem outra forma de nos entendermos, é só com muita humildade, paciência e diálogo que tudo será possível, coisa que ao meu ver os cristãos estão longe de fazer.

    A missão começa na Bíblia, o ide também vem de lá e é em nome deste ide que a Missão Urbana existe. Ela serve para nos dar este norte que precisamos além de abrir os nossos olhos para a realidade a nossa volta.

  • PÉS QUE CORREM PARA O MAL- PT5

    Pés que se apressam para fazer o mal… (Provérbios 6:18).

     Nunca mais me esqueci de um desenho chamado “Corrida Maluca”. Passei a minha infância assistindo tal animação. O desenho, como o título já evidencia, se trata de uma corrida de carros, com muitos personagens curiosos e carros malucos, dos mais caricatos. Só que entre os corredores, havia um personagem chamado “Dick Vigarista”, que insistia em trapacear em toda a corrida, porém no fim ele só se dava mal.

    Muitos são assim, tal qual este personagem, que não hesitam em correr para o mal, cultivam em sua vida apenas maldades. Eu gosto de como Eugene H. Peterson traduz este versículo:

    “Pés que correm pela trilha da impiedade”.

    São estes impiedosos que passam por cima de todos e propagam a injustiça a qualquer custo. Mais uma vez eu não consigo deixar de citar a política brasileira, com sua corrupção, que rouba uma nação inteira, e joga a conta de todo o roubo no bolso dos trabalhadores.

    Estes que se mostram cordeiros na hora da eleição e depois de eleitos viram lobos devoradores, são os atletas da impiedade. Que não demoram a correr para o mal, vivendo só no egoísmo, destilando injustiça e impiedade por onde passam. Salmos 34:15,16 diz:

    “Os olhos do Senhor voltam-se para os justos e os seus ouvidos estão atentos ao seu grito de socorro; o rosto do Senhor volta-se contra os que praticam o mal, para apagar da terra a memória deles”.

    Deus protege os seus, ele cuida e atende seus gritos de socorro, e os injustos e impiedosos, lamento informar-lhes, um dia terão que prestar contas ao Grande Senhor. Aí, diante d’Ele, nenhuma desculpa funcionará, muito menos justificativas.

    Quem planta o mal, colhe o mal e o pior, prestará conta um dia ao Deus da glória, por isso, preste bem atenção em suas prioridades, em qual direção você tem buscado correr, pois o mal, é uma das coisas no qual Deu abomina.

  • DEPRESSÃO SEGUNDO UM DEPRESSIVO

    Alguns assuntos nos desnudam, nem tudo é fácil de escrever por nos expor demais, dando assim voz a más interpretações e equívocos. Escrever é sempre um risco, mas é um risco que eu gosto de correr, então vamos lá.

    Considero interessante observar pessoas explicando a depressão, cada ponto de vista, pontuação e frase me deixa pensativo ao mesmo tempo em que eu lamento muito. Em especial as frases de efeito, que tentam ajudar, mas acho que complica ainda mais.

    Alguns afirmam que depressão é excesso de passado, outros dizem que é frescura de quem não tem o que fazer, e tem até quem diga que depressão é falta de oração, como eu mesmo ouvi uma vez em sala de aula. O pior foi que naquele período eu passava por um período muito complicado, e a frase só ajudou a me deixar mais indignado.

    São muitas as teorias que tentam definir o que é depressão e em terras em que pastores, cristãos e pessoas das mais diversas estão se matando, acredito que trazer o assunto a tona é ainda muito necessário. Eu já escrevi sobre o assunto no texto “Depressão”, se quiser ler fique a vontade é só clicar no link Depressão, mas o propósito deste texto é dar outro enfoque. Eu também já falei se os suicidas vão para o céu no texto “Os suicidas vão para o céu?”é também só clicar, e também já falei sobre depressão pastoral.  A intenção com este texto é dar o meu ponto de vista, talvez mais um entre tantos, do que é depressão.

    Tenho uma enorme empatia pelos depressivos, a parte ruim é que eu tenho esta empatia talvez por também ter sofrido da doença. Eu queria poder concordar com quem fala que depressão é falta de Deus, oração ou coisas do tipo, mas eu não consigo, principalmente por ter orado, chorado aos pés de Cristo, sem muito sucesso. Isso sem contar com os inúmeros homens de Deus que sofreram de tal problema a vida toda e nunca tiveram a cura. Eu também queria acreditar que é falta do que fazer, mas por eu ser muito ocupado, fica difícil de acreditar em tal coisa, e muito menos que é frescura ou excesso de passado, coisa que eu creio não ter, sem falar que eu não ligo muito para o meu passado, com isso, as frases acabam por não falar nada.

    De forma bem simples e nada técnico, já que não sou psicólogo, explicarei o que é depressão, segundo quem sentiu e tentarei fazer quem não entende, entender o motivo no qual algumas frases de efeito não explicam ao certo o que é.

    A depressão é um profundo sentimento de tristeza, poderíamos chamar de uma tristeza crônica, que nos acompanha em todo o lado. Entenda que eu não sou infeliz, sou completamente realizado, seja como esposo, profissional, como teólogo, músico ou escritor. Eu sou feliz, mas as vezes sinto uma constante tristeza, sendo que tem períodos que é sempre e em alguns momentos são esporádicos.

    Não é que eu não ria, não fique de bom humor, muito menos que a todo o instante quero me matar, e sim, que por mais que eu esteja em um ambiente alegre, com ótimas pessoas, feliz por tudo e todos, a tristeza sempre está lá, em um cantinho misterioso do coração me aguardando, sempre presente entre uma risada e outra, ou uma felicidade e outra.

    Eu creio que o suicídio, as tentativas de suicídio ou o modo autodestrutivo no qual alguns depressivos vivem, é apenas a consequência desta tristeza crônica. Cada um cala a dor de uma maneira, alguns choram como nunca choraram, outros tomam caminhos destrutivos e complicados, e alguns choram aos pés da cruz e tentam lidar com todo o cinza que invade o peito.

    Digamos que ainda sou um depressivo, mas meus episódios atualmente são poucos. Hoje consigo lidar um pouco com toda a tristeza e sigo até que bem. Eu ainda sou triste em alguns momentos e em outros me sinto profundamente alegre, mas são períodos curtos, que com a graça de Deus tenho conseguido lidar, sustentado a todo momento por seu poder.

    Lamento profundamente quem espiritualiza estas coisas, fico triste por quem se encontra em igrejas que não possuem diálogo e acabam por ter que carregar este fardo sozinho, isso quando conseguem. Eu só queria que você entendesse que depressão é coisa séria, e nem sempre tem cura.

    Nós julgamos tudo a todo o momento, por isso eu só peço que antes de julgar, se informe, tente entender este tipo de dor, procure conhecer pessoas assim, e se aprofunde no tema.

    Ao encontrá-las, não precisa aplicar fórmulas, nem tentar solucionar os sintomas da sua maneira, só ouça, compreenda sua dor, caminhe junto. Isso já conta muito para quem segue uma vida cinza.

    No mais é só oração e confiar que com a graça de Deus seguiremos bem, esta é a minha oração dia a dia, fico feliz que não seja a sua, por isso, aprenda a não ter preconceito.

  • OS CINCO PONTOS DO ARGUMENTO MEDÍOCRE

    A parte ótima de nossos dias é que a comunicação e a informação é possível para todos, basta ter um celular meia boca, que você já consegue ter acesso a notícias, artigos, conteúdos de humor ou fazer elogios e críticas do conforto do seu sofá. E se você é um artista, músico ou escritor, com uma facilidade extrema você consegue postar seu conteúdo e divulgar em suas redes sociais. Está é a maior maravilha do nosso século. A parte ruim destas facilidades todas são os críticos de plantão. Veja bem, eu não tenho problema algum com críticas, aliás, é bom deixar claro que se você quer postar a sua arte na internet, deve estar preparado para as críticas, talvez a minha raiva esteja na forma do qual algumas críticas são feitas.

     É extremamente comum, ainda mais nestes nossos dias polarizados, ver gente defender seus pontos de vistas com argumentos tão fracos e contraditórios, que até perdemos o ânimo de responder. Não somos perfeitos, muito menos sabemos de tudo, mas a forma como você argumenta e se expressa diz muito sobre você, mostra de onde parte sua forma de pensar e como você defende seus pontos de vista. O objetivo deste texto é justamente mostrar alguns argumentos simplistas, apresentar as piores falhas e dar um caminho mais inteligente para um bom argumento.

    Primeiro: argumentos sem fontes confiáveis. Certo dia um amigo postou uma notícia, junto com uma crítica, sobre algumas medidas que o governo atual estava tomando, o texto do compartilhamento era totalmente indignado, ele descia lenha no governo atual. Quando eu entrei para ler a notícia, fiz o que sempre faço antes de ler, fui ver de quando era aquela notícia e notei que era de dois anos atrás, as medidas tomadas pelo governo era da gestão passada, o cara não percebeu e atribuiu a nova gestão.

    Cuidado antes de ler uma notícia, cuidado quando usar uma notícia para fundamentar seu ponto de vista, tal qual este meu amigo. Você pode estar usando uma notícia antiga, ultrapassada, ou pior, pode estar usando artigos sem fontes confiáveis e coerentes.

    Observe sempre de onde o autor do artigo tirou suas fontes de pesquisa, veja suas bibliografias, a data e se ele tem domínio do assunto antes de compartilhar.

    Segundo: argumentos que criticam pessoas e não ideias. Entenda, você pode até não gostar de determinada pessoa, mas quando você vai analisar um argumento você deve levar em consideração apenas o argumento e não a pessoa. Bons argumentadores criticam ideias e não pessoas, argumentos que têm como base criticar pessoas, sem expor suas ideias e opiniões são argumentos sem sentido, baseado em emoções, sem fundamentação alguma. Gostando ou não do sujeito, quando uma verdade ou um bom ponto de vista é discorrido, você deve respeitar e pensar sobre isso. O oposto é também bem verdadeiro, quando uma pessoa relevante falar uma bobagem, você não deve acatar só porque ela é relevante ou uma boa pessoa, ninguém é perfeito, estamos sujeitos a cair em erros e contradições, normal, quem somos não define bons ou maus argumentos, se concentre sempre em ideias.

    Uma vez compartilhei uma frase muito profunda de um ateu, a frase era sobre “guardar ressentimento”, uma amiga não gostou porque o autor não era cristão, mas a frase era ótima, muito cristã, resumia muito bem o perigo de se guardar rancor. Uma frase verdadeira é por si só verdadeira, não deixa de ser coerente só porque a pessoa não é boa gente ou não tem a mesma fé que a gente, não se esqueça de que a verdade é verdade e ponto final, aprenda isso e se liberte.

    Terceiro: generalizar. Existe um ditado que diz que “toda a generalização é burra”, uma frase bem verdadeira, pois quem generaliza, coloca todo mundo no mesmo pacote, tirando uma conclusão geral sem qualquer reflexão e coesão.

    Certa vez, a convite de uma amiga, fui tocar em uma igreja bem tradicional em uma cantata de natal. Cheguei lá todo receoso, preparado para ouvir do pastor um monte de coisas, já que na época eu tinha piercings e tatuagem. O que aconteceu foi justamente o contrário, fui muito bem recebido pelo pastor e ainda fui convidado a tocar algumas músicas na abertura do culto. Eu na época generalizei, achei que todos os pastores daquela denominação eram legalistas, aprendi da melhor forma que não.

    Generalizar não é inteligente, faz com que tenhamos conclusões infundadas, pois nem todos erram da mesma forma. Não é porque um tipo de pessoa errou com você que todos daquele meio errarão. Aprenda que nem todo o político é ladrão, nem todo o funcionário público atende mal, nem todo o rico é metido, nem todo o pastor é dinheirista e nem todo o padre é pedófilo. Cada um é cada um e na hora de argumentar, fugir destes pensamentos engessados é básico para que a nossa argumentação não se perca no limbo da burrice.

    Quarto: argumentos sem conteúdo. É preciso ter conhecimento do assunto para se discutir ou argumentar sobre algo. Falar de coisas que mal conhecemos é o caminho para o equívoco. Nesta internet da vida, já vi gente falar cada bobagens sobre assuntos que eu conhecia bem, que beirava o ridículo.

    Não fale do que você não sabe, não discuta sobre o que você somente acha, conheça o assunto antes de opinar, aprenda a argumentar em cima de provas, notícias ou fatos concretos. E acima de tudo, quando for pesquisar sobre certos assuntos, ouça os dois lados da argumentação antes de tirar uma conclusão. Aprenda a duvidar, a pensar e duvidar novamente, por sermos fadados a falhas, temos que ter sempre um pé atrás.

    Quinto: aprenda a ter humildade. Um sábio é humilde, entende seus limites e sabe que pode estar equivocado a qualquer momento. Por isso ele ouve, presta atenção no próximo e discute em cima de conclusões confiáveis.

    Ninguém nasceu sabendo e ninguém é onisciente, somos falhos, sujeitos a erros e más interpretações, por isso seja humilde e cresça com isso.

    Eu não perco mais o meu tempo discutindo em qualquer lugar, aprendi que nem todos querem te ouvir, por isso, as vezes me calo para não me incomodar, e gastar a minha saliva a toa. Ainda assim eu sei bem que mais dia ou menos dia precisaremos argumentar, falar sobre o que acreditamos, seja onde for, por isso, tento sempre ser mais assertivo para não dar tiro fora do alvo.

    Melhore seus argumentos e deixe que ele fale por si. Não se exalte, não se vitimize e não tente impor seus pontos de vista a força com quem quer que seja, aprenda a não ser chato e também a não ser aquele tipo de pessoa que em nome de estar certo fala qualquer coisa só para vencer o debate.

    Reflita, não queira ganhar a discussão a todo o momento e aprenda a ouvir. As vezes no âmago de ganhar a conversa, perdemos um amigo, e nada vale mais do que um bom amigo. E a cima de tudo, “as vezes o melhor argumento é o silêncio”, alguns debates não valem o tempo perdido.