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SOMOS TODOS INCOMPETENTES
Gosto muito de ver alguém que entende do assunto falar, gente que gastou tempo estudando e pesquisando, professores que dedicaram horas lendo e se aprofundando antes de dar uma aula. Gente que realmente sabe alegra o meu coração, me incentiva a estudar e ser ainda melhor no que faço.
A boa notícia é que o conhecimento é inesgotável, se você tem o hábito de estudar e ler, nunca terá uma vida monótona, pois sempre terá a possibilidade de se deparar com o novo, com o aprendizado, com o crescimento pessoal.
Para quem tem consciência e é humilde, o simples fato de que “ninguém sabe de tudo” já serve como um bálsamo, um impulso para que nunca deixemos de aprender e a crescer, pois afinal uma das poucas verdades que devemos nos lembrar é a de que “Somos todos incompetentes”. Não sabemos de tudo, é impossível você ser especialista em todas as áreas, sendo que com certeza, quem diz que sabe de tudo, no fundo, não sabe de nada, ele só não sabe disso
É totalmente inconcebível você saber de tudo, foge da lógica simples, da coerência e da racionalidade, existe muita informação para que você seja a pessoa mais informada. E se no fim, a fim de tentar saber de tudo, você tentar se dedicar em um pouquinho de cada coisa, no final, você não terá profundidade em nada.
Se dedique a algumas áreas, gaste tempo para se especializar cada vez mais, pois é melhor alguém ser ótimo em algumas poucas coisas, do que ser “bom” em um monte de coisas, onde no final, não vai ter profundidade em nada.
Tento cultivar todos os dias um coração humilde, tento ter consciência da minha ignorância, sendo que por cultivar tal atitude já prendi muito e a cada dia aprendo mais. Já recebi ótimos conselhos de quem não tinha o primeiro grau completo, mas aprendeu a duras penas, apanhando da vida. Assim como também de muitos que tinham formação e até estudado no exterior. Já me deparei com ignorantes com mestrado e doutorado, e verdadeiros sábios que mal sabiam escrever, pois, quem está aberto ao conhecimento aprende, enxerga a oportunidade de crescimento e sabe que todos sabem um pouco.
O conhecimento é inesgotável (penso que a burrice também), por isso, não caio na armadilha de achar que eu sei de tudo. Aprendo a me aprofundar e tenho o costume de questionar o que eu sei, pois às vezes podemos estar equivocados e nos fechar para o conhecimento.
Todos são incompetentes em uma área e quem sabe disso é humilde e cresce dia a dia. A grande maravilha de vida é que quanto mais você reparte, mais você aprende. Viver é uma troca, cada um dá um pouco de si e no final todos saem ganhando.
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O RETRATO DE UM MAU ARGUMENTO
Foi durante uma conversa habitual de final de semana em um freelancer, que eu falei que não acreditava na teoria da evolução, pelo menos não como ela é colocada. Foi o fim para o meu interlocutor, e o começo do caos para mim.
O assunto surgiu do nada, sem motivos, sendo que por ele ter dado o seu ponto de vista, eu, de forma banal e até distraída, já que eu estava trabalhando, dei também o meu.
Após a minha revelação em forma de uma breve e descompromissada argumentação, usando em minha fala um argumento de Chesterton do livro “O homem eterno”, que estava bem viva em minha memória, o homem transtornado, visivelmente alterado, começou a me xingar. Ele é ateu, mas sempre soube que eu era cristão, com isso, fiquei sem entender o motivo de sua alteração, fui chamado de alienado, com todas as letras e de forma bem enfática, entre tantos outros adjetivos que não cabem no texto.
Tentei argumentar e apaziguar os ânimos, mas não consegui, percebi, por conta de sua forma de falar, que ele não respeitaria a minha opinião. Seus argumentos não tinham fundamento no diálogo e o que se segue é o mapa dos seus argumentos, que evidencia por si só, que a intenção do tal interlocutor não era argumentar, mas vencer a todo o custo a discussão.
Quando eu justifiquei a minha posição fiz o que comumente faço, usei algumas bibliografias para reforçar o meu ponto de vista. Ao concluir, e após eu ouvir algumas palavras ofensivas, ele começou a atacar a igreja, os cristãos, falou de todo o caos que a igreja fez na história, mas não refutou o meu ponto de vista. Eu concordei com a questão da igreja e dos cristãos, afinal a igreja errou muito, mas justamente com a minha concordância, falei de todos os bons cristãos, as boas igrejas, mostrando o outro lado da história que é bem pouco conhecida. Falei das universidades fundadas por cristãos, a ideia do ensino público gratuito de Lutero e por aí vai, por eu ter feito um estudo sobre o assunto para a universidade no qual trabalho, as bibliografias ainda estavam bem frescas, sendo que eu ao concluir, lembrei-o que ele não havia respondido a minha primeira argumentação, mas não adiantou. Ele disse que eu estava errado (não disse onde) e continuou a me chamar de alienado entre tantos outros nomes.
Finalmente comecei a ficar ofendido, pois até aquele hora eu estava encarando o caso com certo bom humor e até distração, pois como eu disse, eu estava trabalhando. Com isso parei o que estava fazendo e falei sobre alienação e o fato de que ambos poderíamos estar alienados (eu nunca excluo este fato), concluí dizendo que é fácil chamar alguém que tem um ponto de vista diferente do nosso de alienado, o desafio é realmente argumentar, aconselhei que o assunto não nos levaria a lugar algum (já que ele não queria me ouvir mesmo) e pensei que encerrar o assunto era a melhor solução, mas não adiantou, e me ofendendo compulsivamente, não parou de falar. Foram duas horas e meia, onde ele não me ouvia e eu tentava falar e apaziguar seus ânimos toa. A parte complicada era que tudo o que eu falava soava como ofensa para ele, e quando eu comecei a me alterar (eu até que demorei) ele usou a minha alteração para me acusar, e o pior era que eu não podia sair da sala, eu estava no trabalho.
Algumas importantes situações eu percebi neste diálogo, se é que poderíamos chamar de diálogo, o que se segue é um mapa delimitado da tal conversa.
Primeiro, ele não discutia ideias. É um problema quando uma pessoa não fala de argumentos e sim de pessoas. Seres humanos erram, a igreja errou, eu erro, mas o caso ali era refutar o meu ponto de vista, já que ele me considerava errado, coisa que ele não fez, preferiu falar do erro da igreja, do pastor, do padre e de tudo, menos do que eu falei.
Segundo, ele não usava argumentos. Vele lembrar que argumento é uma reflexão que nos leva a uma dedução sendo que falar de outros fatos, não é argumentar, no caso dele, ele teria que me mostrar onde eu estava errado.
Terceiro, ele generalizava. Não generalize, este é um erro muito grande, nem todo o padre é pedófilo, pastor ladrão ou igreja é charlatã. Aprenda a conhecer o outro lado, pesquise e procure conhecer o assunto de todos os ângulos, pois existe sempre o outro lado da moeda.
Quarto, ele não considerava o fato de que poderia estar errado. Nós somos seres falhos, eu mesmo sou, e estamos sujeitos ao erro e ao engano a toda a hora. Quando você não considera esta verdade, está fadado a se perder em pensamentos simplistas. É importante entender a nossa finitude e por isso respeitar a opinião alheia que pode estar certa (ou errada).
Confesso que eu não sou muito fã de discutir, eu já estive em situações parecidas, este tipo de pessoa tem muito no mundo e como eu não gosto de perder tempo, eu não me sujeito a estas conversas, mas com ele foi inevitável.
Eu sei que não sou perfeito, e é claro que eu errei muito, eu me alterei, fui irônico algumas vezes (eu sempre sou) e em meio as ofensas perdi a paciência. É importante aprendermos a sermos pacientes, mas nem sempre estamos em bons dias.
Cada um tem a sua opinião, até eu, se eu não defender o direito de você tê-las estarei sendo contraditório, contudo, não podemos ceder à tentação de querer vencer, devemos sempre aprender a argumentar.
Lembre-se de algo importante, toda a opinião proferida para rebaixar e ofender alguém, não vale a pena ser proferida, mesmo que está seja uma verdade. Toda a crítica dita para diminuir ou rebaixar alguém, é pobre, sem sentido, não vale a pena ser falada.
Ou aprendemos a nos comunicar ou nos calamos, pessoas são mais importantes que opiniões, não adianta ganharmos uma discussão e perdermos uma pessoa.
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O PODER DO FRACASSO
Já fracassou ao ponto de não ter mais saída? Já passou por situações onde os problemas lhe acusavam de incompetente? Você já sentiu o gosto da frase, “você não é capaz?” Eu já, inúmeras vezes.
Eu sei fracassar mais do que ser vitorioso, acredite nisso. Talvez por sempre estar tentando coisas novas eu acabo por quebrar a cara com constância, sei bem o gosto do fracasso e dos benefícios que a frustração nos traz, por isso não me deixo abater pela derrota, ou, como diz Artur Xexéo: “Não deixo o fracasso subir a cabeça”.
O fracasso, algumas vezes, nos joga no fundo do poço, faz com que tenhamos que lidar com o sentimento de incompetência ou que tenhamos que começar tudo de novo, além de termos que lidar com todos os sentimentos que a derrota nos traz.
Já fui alvo de algumas zombarias veladas ante o fracasso e até de algumas explícitas, acredite em mim. Já tive que lidar com a minha incompetência e ser visto como um nada, um incapaz ante as pessoas. Não é fácil, entretanto foi no fracasso que aprendi inúmeras lições.
A primeira lição foi sobre a própria infalibilidade. Desde novos ouvimos que não somos perfeitos, que cada um tem as suas falhas, mas é só durante o fracasso que entendemos isso de uma forma realmente clara.
Somos falhos, somos limitados e muitas vezes embarcamos em empreitadas com uma visão encurtada. Só amplia o seu ponto de vista quem fracassa, quem quebra a cara e entende quem realmente é. É fracassando que nos aprimoramos, é na derrota que enxergamos as possibilidades. Há quem diga que Thomas Edison, o inventor que tentou mais de 1000 vezes até conseguir inventar a Lâmpada, disse que não fracassou nenhuma vez, ele apenas descobriu as 999 maneiras da Lâmpada não funcionar, eu não sei se foi isso que aconteceu comigo nestes inúmeros fracasso, apenas só sei que aprendi muito.
A segunda lição que o fracasso nos traz é a própria empatia. É durante a derrota que a prendemos a sentir a dor do outro, que acabamos por ter mais paciência, que ajudamos mais do que atrapalhar. O fracasso une as pessoas, constrói propósitos e resoluções. A derrota nos deixa mais humanos, capazes de ver o próximo como igual.
Não somos superiores e por mais que alguns sejam mais inteligentes do que outros, ninguém tem o direito de passar por cima do outro por conta disso. O fracasso nos faz ter esta consciência, nos deixa com o pé no chão e mais empático, o fracasso faz do homem mais homem, tornando sua vida mais construtiva, que egoísta e destrutiva.
A perseverança é a terceira lição, sendo que entender que nem tudo acontece de primeira é básico para que possamos amadurecer. Persevere, aprenda a enxergar os seus equívocos e prossiga. Ganha apenas quem tem o poder de aprender, quem tem a capacidade de cair e se levantar.
Você vai se impressionar quando descobrir que muita gente talentosa só chegou lá pela persistência. Nem todos têm o dom natural para a coisa e por mais que alguns tenham, praticar e estudar é básico para nos desenvolvermos, por isso que a persistência é importante. Nem tudo vem de graça, tudo custa algo, chega lá quem persiste.
Mas o fracasso nos traz uma quarta lição, que é recomeçar de uma forma melhor. As vezes, no afã de realizar algo, tapamos nossos ouvidos para os avisos, dicas e opiniões, seguimos cegos e acabamos por não ver o nosso erro. O fracasso é uma ótima oportunidade para começar da maneira certa, de aprender o que dá errado e seguir para o que dá certo.
Recomeçar nunca é fácil, mas é preciso aprender, só é preciso um pouco de humildade e paciência, entendendo que nem tudo é do nosso jeito e também que o mundo não gira em torno do nosso umbigo.
O fracasso é poderoso, principalmente para aquele que não é adepto do coitadismo, para aquele que não tem medo de recomeçar e tentar mais uma vez.
Nem tudo é da nossa maneira, nem tudo o que fazemos dá certo, por isso que a humildade é básica para uma empreitada de sucesso, por isso persevere, aprenda com o erro e prossiga transformando o fracasso em momentos de aprendizado.
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PERSISTÊNCIA
“O persistente é alguém que aprendeu a lidar com seus fracassos”
Entenda que na vida não existem caminhos fáceis, tudo demanda um esforço, tudo requer tempo, prática e dedicação, um músico ou alguém que tenha feito uma faculdade sabe muito bem disso.
É importante aprendermos a lidar com nossos fracassos para que possamos realizar algo, é fundamental lidar com nossas frustrações para conseguir crescer.
Persistir é o segredo, sendo que o persistente é alguém que aprendeu a cair e a se levantar. Pois nem tudo é fácil e o persistente sabe bem disso, contudo é possível aprender a acrescer com nossas frustrações.
Quando aprendemos a lidar com nossos fracassos, temos grandes chances de conseguir prosseguir e concluir nossos objetivos, sendo que se o fracasso é um ótimo professor, ao aprendermos com ele, já temos uma grande chance de não repetirmos o erro e chegarmos um pouco mais perto da realização da nossa empreitada.
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TEOLOGIA E PÓS-MODERNIDADE
Por muito tempo eu trabalhei em indústria, foi por conta dela que eu consegui estudar, fazer uma faculdade e passar para níveis mais administrativos. Sou grato a Deus pelo tempo que eu passei neste setor.
Um trabalhador que atua em níveis mais operacionais normalmente é chamado de um trabalhador de chão de fábrica. Por conta deste rótulo, ou talvez pela posição que tal profissional possui na fábrica, muitas vezes ele é alvo de escárnio e preconceito por quem trabalha em níveis administrativos, como se trabalhar no chão de fábrica fosse pouco, e de pouca importância. Mal sabem estes que se uma empresa não tiver bons produtos, de nada adiantará bons vendedores, ótimos administradores ou bons gerentes, pois o que sustenta uma empresa é justamente o seu produto sendo que quem fabrica é o chão de fábrica. A pergunta que talvez vocês devam estar se fazendo é: Qual é a relação entre indústria e teologia na pós-modernidade?
Quando falamos dos Desafios da Teologia na Pós-Modernidade falamos muito de chão de fábrica, pois é impossível fazer com que a nossa teologia faça o mínimo de coerência se antes não tivermos uma boa base, um bom chão de fábrica para que assim a teologia tenha um fundamento firme no qual possamos nos sustentar. Tudo começa com o fundamento, com um bom alicerce que estrutura a teologia toda, e é sobre estes alicerces que vou discorrer enquanto eu falo sobre estes desafios.
O primeiro desafio no qual devemos estar preparados é o relativismo. Que defende que não existe verdade absoluta, as opiniões vão depender dos pontos de vista, ganha quem conseguir impor a sua forma de pensar. O problema do relativismo é que ele se auto desconstrói, afinal, se a verdade é relativa, até o relativismo é relativo. Isso sem contar que segundo a lei da não contradição, uma afirmação contraditória não pode ser verdade ao mesmo tempo. Contudo o cerne da questão não é só refutar apenas e sim, como dialogar de uma forma no qual possamos construir pontes ao invés de muros, é um problema quando ganharmos uma discussão e perdermos uma pessoa.
O segundo desafio é a pós-verdade, que nada mais é que um discurso baseado em um apelo a emoções em detrimento dos fatos ou da verdade objetiva, e este tipo de discurso é muito comum em nossos dias. Com isso é quase impossível realizarmos um diálogo, pois o interlocutor não discute tendo como base as provas, o racional ou o lógico e sim tendo como base a emoção e a falta de reflexão. Gosto de uma citação de Heráclito sobre o assunto, que eu li em um livro do Bertrand Russel:
“Os tolos, quando de fato ouvem, são como os surdos; a eles se aplica o ditado de que estão ausentes quando presentes” (RUSSEL, 2017, p. 29).
Dialogar tendo como pressuposto a emoção ao invés da razão é um problema, pois os argumentos nunca serão sólidos, com provas e boas reflexões, sendo que muitas vezes este tipo de pessoa nem ouve, o que traz um desafio ainda maior para quem faz teologia.
O terceiro desafio é dialogar com uma geração que não tem conteúdo, que preza pelo instantâneo e não tem tempo de pesquisar, ler e se aprofundar. A busca pelo conhecimento foi substituída pela opinião que mais se encaixa em nosso modo de ver as coisas. Com isso ninguém cresce, ninguém reflete, todos seguem a correnteza de forma automática e sem reflexão. Uma frase atribuída a Sócrates resume bem este nosso desafio:
“Uma vida sem reflexão não vale a pena ser vivida” (KLEINMAN, 2014, 12).
Sem reflexão seguiremos no automático, aceitando qualquer ponto de vista, seguiremos a correnteza rumo a lugar nenhum.
Diante destes fatos é imprescindível que o nosso alicerce esteja calcado em alguns pontos importantes para que consigamos dialogar e fazer diferença, abordarei os três principais
Conhecimento: Pondé fala muito da importância de termos repertório. Sem repertório é impossível fazermos teologia neste mundo pós-moderno. Repertório nada mais é que um acúmulo de bagagem adquirida principalmente com leitura, viagens e conhecimento. Pondé complementa o tema em seu livro Filosofia para corajosos:
“Quem nunca leu nada não tem opinião sólida sobre nada, apenas achismo, uma opinião vazia, como diria Platão, quando fazia a diferença entre ter opinião (doxa) e conhecer algo (episteme). Conhecer demanda trabalho, conversar com outras pessoas e ler alguns livros. Na maioria dos casos, conversar com mortos. Uma opinião vazia, qualquer bêbado tem (PONDÉ, 2016, Pg. 29)”.
A busca pelo conhecimento é essencial para que consigamos dialogar neste mundo pós-moderno. Sem repertório não conseguiremos realizar os desafios, sem este fundamento, certamente veremos o edifício todo ruir diante da tempestade pós-moderna.
Humildade: É imprescindível sermos humildes, sem humildade não existe diálogo, não conseguiremos aprender e crescer. O orgulhoso é cego, só vê a si mesmo, não percebe que o conhecimento é infinito e que para adquirirmos precisamos da lente da humildade.
Ação: Toda esta reflexão seria vazia se junto com todos estes pontos, não viesse à ação. A práxis é utilizar uma teoria ou um conhecimento de forma prática. A práxis é uma teoria que se movimenta, que traz frutos e constrói caminhos. Sem a ação ficaremos a sós no discurso, sem construir algo concreto e que faça realmente diferença.
Estes são apenas alguns desafios para quem quer fazer teologia na pós-modernidade, existem muitos outros, sem contar os que virão.
A saída é sempre manter os olhos abertos e a cabeça em constante busca por aprendizado. Sem reflexão, conhecimento, humildade e diálogo não chegamos em lugar nenhum, sem uma boa base ruiremos. Por isso, estruture bem o seu edifício e faça diferença com a sua teologia.
Bibliografia
KLEINMAN, Paul, Tudo o que você precisa saber sobre filosofia, Editora Gente, São Paulo, 2014.
RUSSEL, Bertrand, História do Pensamento Ocidental, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2017.
PONDÉ, Luiz Felipe, Filosofia Para Corajosos, Pense com a própria cabeça, Editora Planeta, São Paulo, 2016.
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DEUS E O CONHECIMENTO: CRER É TAMBÉM PENSAR: JOHN STOTT
O anti-intelectualismo é ainda muito comum no meio cristão. Já escrevi bastante sobre isso, inclusive, já usei o livro em questão para fundamentar um de meus textos. Entretanto, na conclusão deste mesmo livro, o autor destaca o porquê o conhecimento é importante para todo o cristão, o autor nos dá quatro motivos, por isso, usei-o novamente como base para abordar este importante tema. Lembrando que ele fala do conhecimento que aponta para Deus, não aquele feito sem propósito e sim como meio de nos aproximar dele.
Se alguns conhecimentos podem nos afastar de Deus, nos levar a conclusões simplistas e equivocadas a respeito dele, a falta deste saber é igualmente perigoso, afinal. Se não conhecermos Deus e a sua palavra, como seguiremos fazendo a sua vontade? É justamente a finalidade do saber que estes pontos enfatizam.
“Em primeiro Lugar, o conhecimento deve levar à adoração” (STOTT, 2012, p. 74).
Quando conhecemos realmente Deus, adorá-lo vira uma prática natural, é impossível termos intimidade com quem mal sabemos quem é, por isso que ler a Bíblia e orar é o caminhO básico para conhecermos e termos intimidade com o Criador. Racionalizar, estudar e ler a palavra é o caminho para conhecermos mais Deus e tudo o que ele fez, o verdadeiro conhecimento nos aproxima mais dele, não tenha dúvida disto.
“Em segundo lugar, o conhecimento deve levar a fé” (STOTT, 2012, p. 74).
A fé vem pelo ouvir a palavra de Deus (Romanos 17:17), se não ouvimos, não lemos e estudamos sua palavra, certamente seguiremos sem fé. Se não nos firmarmos na verdade, no ensino que Cristo nos deixou, certamente ruiremos.
“Em terceiro lugar, o conhecimento deve levar a santidade” (STOTT, 2012, p. 74).
Quanto mais conhecemos os ensinos de Deus, nossa missão e a nossa responsabilidade como seguidores de Cristo, mais a nossa vida se amolda a vontade dele.
O conhecimento tem este poder, ele consegue fazer com que tenhamos a responsabilidade de termos uma vida reta e digna.
Quando somos praticantes dos ensinos que a Bíblia nos deixou, é inevitável caminharmos para uma vida centrada, dentro da vontade de Deus.
“Em quarto lugar, o conhecimento deve levar ao amor” (STOTT, 2012, p. 76).
Quanto mais estudamos, oramos e temos intimidade com Deus, mais somos inundados com o sentimento de partilhar, de ajudar e “influenciar” os outros com os ensinos de Cristo.
Com este livro podemos aprender que o verdadeiro conhecimento faz com que tenhamos estas motivações, partilha e ajuda. Ele nos mostra também o perigo do conhecimento equivocado e o perigo da falta de conhecimento.
A Bíblia nunca foi contra o estudo, o ensino e a dedicação em entender a palavra. Acreditar que o conhecimento nos separa de Deus é tolice, sendo que a vida cristã deve ser equilibrada, com a busca e o estudo caminhando juntos, para que tenhamos o pleno conhecimento da vontade de Deus descrito na Bíblia, e a intimidade com ele, quando oramos e o buscamos.
BIBLIOGRAFIA
STOTT, Crer é também pensar, Editora ABU, São Paulo, 2012.
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PRIORIDADE
Mario Sergio Cortella em um de seus vídeos, sendo ele um fragmento da palestra de lançamento do seu livro: “Família, urgências e turbulências” fala algo curioso sobre prioridade, uma coisa no qual eu já tinha esquecido: “Prioridade é uma coisa que não existe no plural, se eu disser que tenho duas prioridades é porque eu não tenho nenhuma, pois a palavra prioridade exige ser exclusiva”. Prontamente fui consultar o dicionário a fim de conferir a veracidade de sua afirmação e encontrei a seguinte interpretação da palavra prioridade:
“Condição do que ocorre em primeiro lugar; o primeiro em relação aos demais. Estado de quem ou do que ocupa o primeiro lugar” (dicio)
Ou seja, é impossível termos duas prioridades, ou temos uma prioridade ou nenhuma, conforme de forma muito coesa afirmou Cortella.
Tenho aprendido que as famosas listinhas de metas não são besteiras, colocar no papel nossos planos é o caminho para poder visualizar nossos objetivos e procurar as ferramentas certas para realizar.
Entender que não existe prioridades e sim prioridade é ter um mente que para realizarmos algo, uma coisa que realmente funcione e vale a pena, temos que nos dedicamos a uma coisa de cada vez. Você já teve um monte de planos e ideias onde no final acabou por não fazer nada? Então, provavelmente você não teve uma prioridade, por isso nada foi para frente.
Quando eu comecei o Hawthorn, minha antiga banda, na época eu a coloquei como prioridade até ver a coisa funcionando, a mesma coisa foi o blog. Sendo que hoje, por estar bem organizado, ele funciona de modo automático, ainda mais que ele é uma extensão dos meus estudos e pesquisas.
Por isso pontue bem seus planos e aprenda a executar um de cada vez, coloque no papel seus projetos e dê prioridade para o empreendimento mais relevante, até a conclusão, ou o andamento do projeto. É claro, eu não faço apenas uma coisa na minha vida, tenho muitos projetos e sonhos, mas para fazer com que algo funcione, eu me dedico 100%. Eu tenho uma prioridade apesar de fazer muitas coisas, e é esta prioridade que deve estar sempre bem pontuada e na frente de tudo.
Por isso respire o que você quer fazer, viva seu projeto, dê prioridade máxima até ver aquilo ganhar vida e força. Aí pouco a pouco, sem pressa alguma, é possível vermos nossos planos ganhar vida, projetos pessoais sair do papel, sonhos ganhar os contornos da realidade.
Penso ser este o melhor caminho para não nos perdermos no desânimo, para não começarmos algo e logo largarmos no mar dos planos fracassados.
BIBLIOGRAFIA
https://www.dicio.com.br/prioridade
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O SABE TUDO
Eu tinha um amigo que sabia de tudo, pense como a sua mente era genial. Ele emitia opinião de tudo, sabia de todos os acontecimentos, e já tinha lido todos os livros que eu pensava em ler, o cara era um gênio.
Eram horas debatendo na internet, suas rodas de conversas eram verdadeiras palestras, todos se calavam para ouvi-lo, e quando tentavam argumentar, quebravam a cara, pois o sabe tudo, tudo sabia, e quem tentava argumentar descobria que não sabia nada.
Por fim, decidi ser igual a ele, eu queria ser relevante e queria também saber, por isso terminei meus estudos, me matriculei em uma faculdade, busquei bibliografias e estudei muito para poder saber. Pensei ser este o caminho mais coerente para ser igual ao sabe tudo. Só que com o tempo, pude notar que o efeito que eu buscava, estava tendo um efeito contrário. Algo devia estar errado, não era possível.
A cada hora de estudo, a cada livro lido ou aula assistida, pude perceber o quanto eu não sabia. A cada aprofundamento, um sentimento de finitude se instalava, com o tempo, pude perceber que no fim, eu não sabia nada e que aquele que sabia tudo no fundo não sabia de coisa alguma.
Nestas eras tecnológicas o que mais vemos são repetidores de ideias, gente que não reflete, que mal pensa, quanto mais, estuda. O pior é que muitos destes se consideram “sabe tudo”, o que eles não veem é que as suas ideias são formatadas, fruto de pouca reflexão e coerência, consequências de uma mente soberba e da necessidade de sempre estarem certos. Theodore Dalrymple tem uma frase que resume bem estes:
“O orgulho pode obstruir o caminho da busca da verdade: Preferimos vencer uma discussão com sofismas a chegar à verdade por uma investigação honesta” (DALRYMPLE, 2014, p.85)
Existe diferença de quem é tagarela, de quem só sabe falar, daqueles que realmente sabem. É totalmente diferente uma pessoa orgulhosa, que possui eloquência e quer sempre vencer discussões dos que seguem buscando a verdade, nem que para isso seja preciso confessar seus equívocos. Eu sempre digo em aula, nem sempre quem fala bem, sabe das coisas. Nem sempre o que domina a oratória, tem conhecimento ou está aberto a aprender, dialogar e crescer.
Desconfie de quem quer apenas ganhar a discussão, fique com um pé atrás com quem quer estar sempre certo e não consegue pensar com respeito em uma opinião contrária a sua.
A regra da educação também vale nessas horas, pois o inteligente respeita, quem sabe, por mais que discorde, consegue manter uma relação educada e polida.
Sabe mais quem sabe ouvir, o inteligente é alguém que discorda, mas o faz com respeito, em nome de ensinar e ver o próximo crescer. Cuidado com o orgulho e o desejo de sempre estar certo, pois ele te cega e impede que você chegue a verdade
BIBLIOGRAFIA
DALRYMPLE, Theodore, Podres de mimados, As consequências do sentimentalismo tóxico, São Paulo, 2014
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PAIS E FILHOS
O filho pródigo é uma das parábolas mais conhecidas da Bíblia, sendo que Cristo contou para exemplificar o amor de Deus por nós, pecadores e desobedientes, a passagem é uma das mais lindas e profundas.
Não é tão difícil falar sobre esta passagem, com uma boa estudada, conseguiremos pinçar do texto ensinos e lições para aplicar em uma pregação ou devocional. Para quem lê, é legal ver o filho quebrando a cara e depois reconhecendo que errou. É fácil ler, falar e fazer aplicações práticas, afinal, todos já foram filhos, não é impossível se colocar no lugar. O desafio da parábola é se colocar no lugar do pai, pois só um pai sabe como dói ver o filho desobedecer, desrespeitar o seu papel de responsável, ou não dar a mínima atenção para o que ele está dizendo. Filhos sempre acham que sabem de tudo, que estão certos e que são os melhores, principalmente quando estes são adolescentes.
Eu não sou pai, e provavelmente nunca serei, mas é quando ficamos mais velhos que entendemos a importância e a injustiça que a palavra pai guarda. E quando eu falo pai, não estou falando do homem, mas no significado estrito que a palavra tem que segundo o dicionário significa: Aquele que cria e educa os filhos, sendo aplicada também a mãe é evidente.
O desafio da parábola é se colocar no lugar do pai, pois só um pai sabe como dói ver um filho desobedecer e desrespeitar o seu papel. A parábola mostra como o filho sofreu, mas não mostra as preocupações do pai quando este estava perdido no mundo, o quanto se desgastou, deixou de dormir e sofreu por este desobediente. Para piorar, depois que o filho se arrepende, pede perdão e volta ao lar, o pai tem que lidar com um outro filho, que não concorda com a festa de comemoração pela volta de seu irmão. No fim é o pai que novamente tem que mediar o caso e com certeza ter que ouvir coisas que ele não merecia estar ouvindo.
Por fim, concluímos que os dois irmão são parecidos, e este pai é um verdadeiro herói, aliás, este pai existe, pois a parábola é uma metáfora para falar de Deus e nós, os filhos pecadores e desobedientes.
Quando somos novos não percebemos o quanto nossas atitudes e posicionamentos ferem os outros quando colocamos de forma desrespeitosa. Vivemos como bem queremos, sem enxergar as lágrimas e preocupações de quem cuida de nós. Porém quando amadurecemos, paramos para prestar atenção nisso e constatamos o quanto fomos infantis. Na parábola, o pai do filho pródigo é Deus, na vida real os pais são os heróis, que a troco de nada, cuida e se preocupa com os seus filhos, mesmo que estes sejam desobedientes.
Não estou querendo afirmar que pais não erram e que tudo o que eles falam temos que acatar de forma cega, sem reflexão. E sim, quero deixar claro que nem sempre os ouvimos, muitas vezes desobedecemos e não respeitamos o seu papel. A banda Legião Urbana tem uma letra chamada Pais e Filhos que resume bem e de maneira sábia as nossas incongruências como filhos:
Você culpa seus pais por tudo, isso é absurdo
São crianças como você
O que você vai ser
Quando você crescer
Percebi de forma profunda a sabedoria destes últimos versos apenas depois de uma idade. Pois tal qual o filho pródigo segui o meu caminho magoando muitos, sem em momento algum olhar para traz. Segui culpando a todos, sem assumir o compromisso pelos meus erros. Falei inúmeras vezes da geração ultrapassada dos meus pais, e agora, depois de certa idade, estou nas mesmas condições, pois mais algumas gerações vieram, e o ultrapassado sou eu.
Cuidado com o que você fala, pois o tempo nos lembra das palavras. Tente dia a dia valorizar quem cuida de você e ao discordar, e por favor faça isso, relaxe, não é errado, lembre-se de fazer com respeito.
Valorize quem já viveu um pouco mais do que você, ouça seus conselhos e procure uma coerência. Por mais que nem sempre eles estejam certos, entenda que a preocupação é legítima, respeite e valorize isso. E o principal, assuma seus erros, não perca tempo culpando os outros, e não desdenhe da geração passada, pois com o tempo, a geração passada será a sua.
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GUETO GOSPEL
No gueto gospel encontramos de tudo, música gospel, roupa gospel, casa gospel e por aí vai, o mercado é lucrativo, empresas de todos os tipos já descobriram o nicho e tem se preocupado em atingir tal público.
Sobre o gueto, nada contra, eu só acho que a desculpa de evangelizar já está ultrapassada e não funciona mais, pois no afã de “não se contaminar”, como eles mesmos dizem, acabam não se misturando e não fazendo diferença.
O sal serve para salgar e para isso, deve estar presente na comida, dando sabor, realçando os aspectos importantes do prato. O cristão é a mesma coisa, quando ele não se mistura umedece dentro do recipiente e estraga, isso quando não vira uma pedra, autocentrada e presa nas quatro paredes, sem servir para muita coisa. Sem falar do fato de que o gueto gospel tem uma linguagem tão diferente, que o mundo não consegue prestar atenção e até ri dela. Não podemos esquecer que são os cristãos que querem ser entendidos, somos nós que temos a missão de passar a mensagem a todos, com isso, a linguagem deve ser acessível e entendível.
A minha crítica ao movimento é que ele não faz diferença, acaba virando produto para cristão consumir, divertimento para crente ou desculpa para crente se reunir e farrear, novamente nada contra, acho que as vezes é até positivo, o erro é achar que as baladas gospels são meios evangelísticos, a minha crítica é esta.
Michael S. Horton resume bem a questão no livro O cristão e a cultura, e apesar da sua reflexão ser dirigida primordialmente aos cristãos americanos, creio que também se encaixa a todos os cristãos, sejam brasileiros, europeus ou cidadãos do mundo em geral:
“Chamados para fora da igreja e para dentro do mundo, os evangélicos foram novamente estimulados, especialmente pelos reavivamentos do último século e meio, a construir um império cristão dentro dos Estados Unidos. Finalmente, chegamos a ponto de possuir nossas próprias estações de rádio e televisão, cinemas, programas de entrevistas, cruzeiros, estrelas de rock, divertimentos e outros apetrechos do hedonismo moderno, sem ter que nos preocupar com deixar o gueto. Chamamos isso de evangelismo, e talvez até intencionássemos que fosse evangelismo, mas acabou criando apenas uma igreja que é do mundo mas não está no mundo, em vez de estar no mundo mas não ser do mundo” (HORTON, 2006, p. 129)
Não adianta disfarçar o discurso, nós estamos no mundo, e fomos chamados para sermos diferença. Ser cristão não é se ausentar do mundo, ao contrário, é sem dúvida estar presente e atuante, o que nos diferencia é que apesar de estarmos, não somos do mundo, pois seguimos imitando outro modelo de vida.
Marcos 16:15 diz para “irmos” por todo o mundo, mas muitos cristãos insistem em esperar nos bancos da igreja, ao invés de sair e fazer a diferença. O chamado é para irmos para fora e não esperarmos dentro das quatro paredes. Lâmpada que fica embaixo da cama não ilumina, não foi isso que Cristo nos ensinou em Mateus 5:15?
Enfim, que possamos sair de nossos guetos e sermos diferença, que aprendamos a realmente estar no mundo e salgá-lo com a palavra da verdade.
Quando aprendermos a andarmos pelas esferas públicas, a respeitarmos os pensamentos contrários e a pregarmos sem sermos legalistas e hipócritas, penso que o evangelho passará de meras narrativas, para ser vida e transformação.
BIBLIOGRAFIA
HORTON, Michael, S. O cristãos e a cultura, Editora Cultura Cristã, São Paulo, 2006
