-
DESERTO: O CAMINHO DO PEREGRINO: N. T. WRIGHT
“O deserto se apresenta de muitas formas e tamanhos, assim como os desertos da Judeia e do Sinai não são de forma alguma uniformes.” […].
“O deserto da jornada espiritual é bem assim. Para alguns, ele é simplesmente uma sensação de que tudo se ressecou. Não há qualquer prazer na oração ou na leitura das Escrituras. Ir á igreja se tornou algo tedioso e fútil. Os sacramentos parecem um ritual sem propósito. Onde antes havia um sentimento da presença de Deus como pai amoroso, cuidando e guiando delicadamente, ou do estímulo sábio do Espírito Santo, agora parece haver um grande vazio. A história de Jesus, antes tão cheia de interesses e entusiasmo, o caderno de recortes de jornal sobre a vida de um novo amigo que se tornou melhor, parecem maçantes, e mesmo a história da cruz e da ressurreição aparentemente perdeu seu poder de lavar o coração. Esta é a experiência comum de muitos, muitos irmãos, em determinado estágio de sua peregrinação” (WRIGHT, 2011, p. 46, 47).
Eu quis ressaltar este capítulo do livro justo porque é inevitável passarmos por momentos desérticos em nossa vida. Quando oramos e temos a impressão de que Deus não está nem aí. Ou quando o desânimo é tão grande, que não temos vontade de fazer nada, nem orar, quanto mais ir na igreja e gastar algum tempo no local.
Neste livro, N. T. Wringht dá algumas boas ações para quando estivermos no deserto, quero ressaltar duas e a primeira é fundamental:
“O caminho da maturidade cristã, no entanto, é reconhecer o caminho do deserto pelo que ele é – outro quilômetro na estrada chamada “fidelidade” – e pisar nele com obediência e paciência” (WRIGHT, 2011, p. 47).
O deserto é inevitável amigo, momentos de sequidão são constantes neste mundo que não se cansa em oferecer-nos propostas para nos afastar de Deus, por isso que obedecer é o básico, para que consigamos nos manter firmes no caminho de nosso Pai. É fácil obedecer quando está tudo bem o difícil é obedecer quando achamos que estamos sozinhos. O deserto parece um lugar sem propósitos mas não é, serve principalmente de escola para que confiemos mais em Deus do que em nossas próprias convicções. Mas o autor oferece mais uma explicação que considero tão boa quanto à primeira:
“Igualmente importante, se não mais, a experiência do deserto pode abrir nossos ouvidos para ouvirmos a dor do mundo. Quando estamos levando a nossa vida, bem contentes com o nosso destino, é fácil ignorar os gritos de ajuda que vêm do resto do mundo: de nossos companheiros cristãos que ainda hoje sofrem grandes e sistemáticas perseguições; de órfãos, refugiados, viúvas e sem-teto de todas as crenças ou de nenhuma…” (WRIGHT, 2011, p. 52).
O deserto é uma escola que nos humaniza mais, é um período onde aprendemos a ser mais obedientes e confiantes em Deus. O deserto faz-nos sair da zona de conforto e percebermos a dor do próximo. Eu quis ressaltar apenas estes dois pontos do livro, mas o capítulo que fala sobre o deserto é grande e vale a pena ser lido.
Eu acho este assunto fascinante e o tenho bem resolvido em minha vida. Aos poucos aprendi a lidar com a sequidão e percebi o quão bom é se encontrar no deserto. Eu sei que nem todos pensam assim e muitos se revoltam e se desviam do caminho quando se encontram nesta situação.
Para estes aconselho buscar, chorar e se derramar em Deus, porém sem esquecer que Deus é Deus e nem sempre, ou quase nunca, Ele age da forma que nós esperamos, por isso que confiar é inevitável para que façamos com que a nossa alma não fique agitada.
BIBLIOGRAFIA
WRIGHT, O Caminho Do Peregrino, A Vida cristã é uma Jornada Espiritual, Editora Palavra, Brasília, 2011.
-
O DEUS QUE SE REVELA
Faz algum tempo que quero escrever e pontuar de maneira didática em que eu acredito. Creio que, se você já leu meu site, vai perceber que, obviamente, escrevo tudo segundo minha ótica, a minha teologia, porém às vezes tenho o pressentimento de que, por mais que o texto passe o que penso, é necessário pontuar de forma mais clara em que acredito. E esta é a finalidade deste tópico no site (teologia). Explicar, dar base bíblica e teológica do que eu creio.
“O Deus que se revela” é um dos pontos principais da minha teologia. Eu não acredito que o homem tenha capacidade de “achar” a Deus. Seria até cômico imaginar uma criatura finita e pecadora, achar um Deus, infinito e poderoso. Soa como se tropeçássemos em algo e achássemos uma coisa muito valiosa, não foi assim, a Bíblia narra algo totalmente oposto.
O livro de Gênesis, logo nos primeiros capítulos, fala que Deus criou tudo e depois fala que o homem desobedeceu e virou as costas para Deus. Com isso, o homem perdeu o controle e começou a praticar o mal. Só que no versículo 12:1-2, depois do dilúvio e de muitos outros acontecimentos, Deus se revela a Abraão:
“Ora, o SENHOR disse a Abrão: Sai-te da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei. E far-te-ei uma grande nação, e abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome; e tu serás uma bênção”(ACF).
Não sabemos muito sobre Abraão, só sabemos que, através dele, Deus se deixa ser conhecido. Hansjörg Bräumer acrescenta:
“Ao mesmo tempo, a história dos patriarcas esclarece o mundo religioso em que viviam os antepassados de Israel. O único Deus, o Deus do céu e da terra, revelou-se a Abraão. Ele chamou Abraão para fora de seu ambiente pagão. Abraão seguiu o chamado de Deus e passou a adorá-lo. O Deus que se revelou a Abraão mais tarde é chamado pelo povo de Israel de “o Deus de Abraão” (BRÄUMER, 2016, p. 194).
Apesar de termos Noé, um homem a quem Deus se revelou e lhe deu uma missão (Gênesis 6:5,12). E que, após anunciar a justiça e não ser ouvido (2 Pedro 2:5), foi o único salvo, juntamente com sua família. Também temos outros homens que andaram com Deus. Entretanto, foi a Abraão que Deus se revelou, dando a ênfase de que, através dele, viria um povo e que era deste povo que o Messias Redentor viria. Norman Geisler acrescenta algo importante falando dos dois tipos de revelação:
“Outro pressuposto fundamental da Teologia evangélica é a revelação. Se Deus não se mostrou, como poderia ser conhecido por nós? Mas Deus escolheu se apresentar-se a nós, e a este ato de descobrir-se a si mesmo chamamos de revelação. De acordo com a Teologia evangélica, Deus revelou-se a si mesmo de duas formas: a revelação geral (na natureza) e a revelação especial (nas Sagradas Escrituras) (GEISLER, 2015, p. 59).
E sobre a revelação geral, Romanos 1:20 nos dá uma ótima base:
“Pois desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas, de forma que tais homens são indesculpáveis” (NVI).
Não teremos desculpas, é possível conhecer a Deus por meio de sua criação, do impressionante e complexo corpo humano, das estrelas e dos animais. Tudo aponta para um Deus, um arquiteto responsável por criar tudo. E a Bíblia é clara e também enfatiza isso, narra a história de um Deus que se revelou, teve compaixão de nós, seres humanos pecadores e desobedientes, mandando seu Filho para morrer por nós. 2 Timóteo 3:16-17 diz:
“Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra” (ARA).
Enfim, Deus escolheu se revelar e salvar seres humanos pecadores. Não o seguimos a Deus por termos achado um Deus interessante e sim, por Ele ter se revelado e escolhido morrer por nós.
Este é um dos pontos principais da minha teologia, eu estudo a Bíblia e busco um Deus que se revelou, que se mostrou ao homem por amá-lo e ter tido misericórdia. Ninguém pode pegar para si este mérito, e ninguém conseguirá, por ser um ser finito, estudar e achar um Deus que é infinito e poderoso. Se Ele não se revelasse, permaneceríamos na ignorância, tateando no escuro, nos consumindo em nosso próprio pecado.
BIBLIOGRAFIA
GEISLER, Norman. Teologia Sistemática. Rio de Janeiro: Editora CPAD, 2015.
BRÄUMER, Hansjörg. Comentário Esperança. Antigo Testamento. Curitiba: Editora Esperança, 2016.
-
LEMBRA-TE DE MIM
“E disse a Jesus: Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino” (Lc 23:42).
Considero esta passagem Bíblica um grande tapa na cara de quem não entende a graça. Porém muito maior que a sua mensagem é o cenário onde tudo acontece.
O texto diz que Cristo estava crucificado ao lado de dois malfeitores (Lc 23:33), quando um deles começou a zombar dele (Lc 23:39). Veja bem, Jesus já tinha sido açoitado (Jo 19:1) e para piorar, carregava uma cruz que o condenaria, para o local da crucificação (Jo 19:17). Estava sendo alvo de zombaria da plateia que o assistia e dos soldados (Lc 23:35-37), quando aquele ladrão, também crucificado, começou a zombar dele. Levando em conta que Cristo devia estar sangrando, sujo e sofrendo com o castigo, aquele ladrão poderia até ter alguma razão em seu escárnio. Afinal, Jesus poderia parecer com tudo, menos com um Deus. Porém, algo inusitado acontece, o outro ladrão defende Cristo e repreende aquele criminoso zombador, suplicando salvação a Cristo.
Aos olhos humanos um Deus verdadeiro não pode sofrer, afinal, ele é superior, poderoso e intocável. E se dependesse de nossa forma de fazer justiça a coisa pioraria ainda mais. Se tivéssemos o poder que Cristo tem, o episódio da cruz viraria um apocalipse e não um momento de salvação. Mas Jesus sofreu, sangrou, se doou calado e mesmo crucificado, arranjou tempo para cuidar de um homem moribundo, criminoso, a beira da morte (Lc 23:40-43).
Mas não é só isso que me impressiona neste episódio todo, aquele ladrão crucificado me instiga a algumas boas reflexões. A principal delas é: Como ele chegou à conclusão de que aquele homem crucificado era o Messias e não um farsante como todos achavam? De que forma aquele condenado notou que ao seu lado pendia um homem inocente?
Será que ele conhecia a Bíblia e sabia as referências sobre o Messias? Será que ele teve uma revelação divina? Ou quem sabe uma mensagem misteriosa soprou em seus ouvidos revelando quem sofria ao seu lado? Talvez ele tenha lido o jornal descobrindo que um Deus morreria naquele dia. Pode ser que ao olhar aquele sangue inocente ele tivesse lembrado de seus crimes e do quanto era pecador. Quem sabe aquele sangue tivesse gritando e a mensagem que esbravejava era a de redenção. Não sei quem ou o que aquele homem viu, nem como ele sabia de Cristo e muito menos quem aquele homem era, mas sei que a inocência devia ser gritante e aquela morte visivelmente injusta. Sei também que um Deus morre, mas também ressuscita. E que a morte não o segura e sei que Ele também morreu por você quando naquela cruz pendia em brutal sofrimento.
Muitas vezes tento entender porque muitos ouvem a mensagem e não entendem, não sei porque muitos não o seguem e nem acreditam no seu sacrifício. Calvino afirmaria que estes não eram predestinados, o problema é como sabermos se somos predestinados já que o coração do homem é enganoso? Outros afirmarão que quem não crê é porque está cheio de conceitos do mundo, ou até, que estão possuídos pelo maligno enfim, elucubrações são muitas, mas nenhuma certeza, entretanto, eu imagino que o que aquele ladrão tinha como única certeza era a sua culpa.
A principal pregação de Cristo sempre foi: “Arrependa-se” e não tem como nos arrependermos sem termos a consciência de que somos culpados.
Eu não sei como aquele ladrão sabia que aquele Deus pendurado ao seu lado era inocente, mas ele sabia que era culpado e que precisava do perdão de Deus. Porém, assim como aquele malfeitor tinha consciência de quem era, pediu perdão a Cristo e ganhou a salvação. Nós também podemos ser alcançados por esta graça. Afinal, somos um pouquinho deles, temos uma grande culpa e mereceríamos estar crucificados no lugar de Jesus, que era puro e sem pecado. Porém, assim como um deles, temos que reconhecer quem somos e clamar a Cristo por ajuda, ou zombarmos d’Ele e viramos as costas.
Você escolhe, mas também arca com as consequências!
-
GRAÇA PREVENIENTE
Falar sobre salvação é complicado hoje em dia, pois não temos unanimidade no meio cristão, por conta disso, calvinistas e arminianos travam verdadeiras guerras para definir seus pontos de vista, porém, como vou expor neste texto, a diferença entre os dois não é tão grande assim.
Um calvinista acredita que a graça é irresistível para quem é eleito e acredita também que o homem é depravado demais para conseguir fazer a escolha de seguir a Deus por si só. Sendo estes dois, pontos do acróstico chamado TULIP. O calvinista Sam Storms em seu ótimo livro chamado Escolhidos, define bem o conceito de depravação total:
“De acordo com doutrina da depravação total, o homem em sua condição atual, originária da queda, está de tal modo corrompido por uma semente maligna que todos os aspectos do seu ser e personalidade são afetados por ela” (STORMS, 2014, p. 56).
O ser humano, por meio dos seus esforços não consegue se salvar, somos inclinados para o mal, sem a capacidade de fazer escolhas boas. É bom salientar que nem todos concordam com o acróstico TULIP, calvinistas como Michael Horton afirmam não existir evidências de uso antes do século XX, preferindo usar o termo vocação eficaz, por ser um termo que não sugere coerção. Assim sendo, segundo estes, Deus não coage, as escolhas dos homens são livres, apesar da graça ser irresistível (HORTON, 2014, p. 142).
Já alguns arminianos clássicos ou não calvinistas, apesar de também acreditarem, tal qual os calvinistas, que o homem é corrompido e não consegue fazer escolhas boas pois é inclinado ao mal, acreditam na graça preveniente ou capacitadora, que seria: A graça que nos capacita a aceitar ou não a regeneração, sendo ela resistível. Segundo Armínio, esta graça vem através da ação do Espírito Santo, que ilumina o entendimento do homem depravado e escravo do pecado, para que possa escolher livremente o evangelho. Olson argumenta que:
“Mas a teologia arminiana supõe, pelo fato de a Bíblia em sua totalidade supor, que Deus, em razão do amor, se limita de maneira que sua graça iniciadora e capacitadora seja resistível. Ela é poderosa e persuasiva, mas não é compulsiva no sentido determinista. Ela deixa o pecador como uma pessoa e não um objeto” (OLSON, 2013, P. 264).
A Bíblia diz que vamos ser julgados, com isso, logicamente, devemos ser pessoas com escolhas morais livres. Em contrapartida, não conseguimos nos salvar, estamos mortos, cegos e não conseguimos escolher o evangelho por conta própria. A graça preveniente é justamente a ação de Deus para que nós possamos fazer nossas escolhas por conta própria. Gosto da citação de Robert E. Picirilli:
“O que Armínio quis dizer com “graça preveniente” é que é aquela graça que precede a real regeneração e que, exceto quando resistida em último estágio, inevitavelmente conduz à regeneração (apud OLSON, 2013, P. 264).
Não somos nós que nos salvamos, não temos mérito algum, apenas aceitamos ou não sermos regenerados, a graça nos prepara, é a força capacitadora que precede a conversão. O processo é simples e possui quatro aspectos: Chamada, convicção, iluminação e capacitação. E a única coisa que a pessoa deve fazer é não resistir ao Espírito Santo, para assim ser salvo (OLSON, 2013, P. 207).
Aí você me pergunta: É possível resistir ao Espírito Santo? Segundo a Bíblia sim, Atos 7:51 diz:
“Povo rebelde, obstinado de coração e de ouvidos! Vocês são iguais aos seus antepassados: sempre resistem ao Espírito Santo!”.
Mateus 23:37 também é um ótimo versículo, entre tantos que existem para explicar como é possível resistir:
“Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, apedrejas os que a ti são enviados! quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e não o quiseste!”.
Possivelmente que diante destes versículos, um reformado afirme que é possível resistir porque um não eleito não tem em seu coração o chamado interior, só o exterior, por não ser predestinado. Em contra partida um arminiano clássico vai afirmar que é possível resistir, por sermos humanos, não máquinas, onde no fim seremos julgados pelas nossas ações e escolhas (Apocalipse 20:12).
É claro que não temos um versículo que explica de forma detalhada sobre a graça preveniente. Assim como também não temos um que explique sobre a Trindade Divina, jejum, graça comum e tantas outras teologias que conhecemos. Mas a Bíblia dá sinais de sua existência e um deles é a resistência do homem quanto à ação do Espírito Santo. Veja bem, a mesma Bíblia que diz que quem convence é o Espírito Santo (João 16:7-11), também fala que muitos resistem a ele (Atos 7:51). O mesmo Jesus que disse que ninguém pode ir até Ele se o pai não trouxer (João 6:44), disse que todo o ramo que estando n’Ele não der frutos, Ele vai arrancar e jogar fora (João 15:2). Estes versículos dão a entender uma ação humana, algo que temos que fazer para frutificar. Mais uma vez ressalto, nós não nos salvamos, toda a honra e glória é apenas de Deus, nós apenas aceitamos ou não.
Para finalizar, quero responder a importante pergunta: Por que arminianos não aceitam a graça irresistível? Roger Olson responde muito bem, usarei sua explicação:
“Por que os arminianos e outros não calvinistas rejeitam a graça irresistível? Porque eles amam o livre-arbítrio e não querem dar toda a glória a Deus, como sugerem alguns calvinistas? De jeito nenhum. Essa é uma calúnia indigna de qualquer um que tenha se dado o trabalho de estudar o assunto. Todo arminiano, de armínio até hoje, sempre deixou claro o verdadeiro motivo por trás da rejeição à doutrina da graça irresistível: A preservação do caráter bondoso e amoroso da Deus” (OLSON, 2013, p. 266).
Deus é amor e por amar o mundo, um dia deu o seu filho por amor a nós (João 3:16). Não é que Deus não possa salvar apenas alguns como bem queira e sim, que isso não condiz com o que Ele se deixou conhecer através da Bíblia.
Esta é a graça preveniente, que através da pregação e da ação do Espírito Santo, abre os olhos dos cegos e mortos em seus delitos e pecado e os capacita a aceitar ou não a Deus. Nós não temos mérito algum neste processo, tudo vem de Deus e sua poderosa mão, cabe ao homem aceitar ou não, abrir o seu coração ou não, para a ação do Espírito Santo.
BIBLIOGRAFIA
HORTON, Michael. A Favor do Calvinismo. São Paulo: Editora Reflexão, 2014.
STORMS, Sam. Escolhidos: Uma exposição da Doutrina da Eleição. Rio de Janeiro: Editora Anno Domini, 2014.
OLSON, Roger. Contra Calvinismo. São Paulo: Editora Reflexão, 2013.
OLSON, Roger. Teologia Arminiana: Mitos e Realidades. São Paulo: Editora Reflexão, 2013.
-
OS DEZ LIVROS QUE TODO O CRISTÃO DEVERIA LER EM 2017
Este é o terceiro ano que faço estas listas de livros, desde 2015 tenho listado uma série de livros que eu acredito que todo o cristão deveria ler e conhecer. Se você estiver curioso em ler, segue o link dos dois textos: OS DEZ LIVROS QUE TODO O CRISTÃO DEVERIA LER, MAIS DEZ LIVROS QUE TODO O CRISTÃO DEVERIA LER.
Contudo eu confesso que a minha primeira lista foi um desafio, custei a decidir quais livros deveriam entrar e quais não deveriam. Porém esta terceira lista surgiu tão automática, contendo livros que em sua maioria eu li há pouco tempo, que eu só tive o trabalho de comentar sobre eles. Espero que gostem e que alguns destes sejam úteis para a sua caminhada com Deus.
1 – CASAMENTO – CHARLES SWINDOLL.
Eu comprei este livro em uma feira de ponta de estoque, principalmente por estar na época prestes casar. Eu já conhecia o autor, tinha ganhado alguns livros dele, mas nunca me interessava em ler. São tantas coisas para ler que às vezes colocamos alguns autores de lado, o que foi um erro muito grande.
Eu me impressionei com tamanha coesão e lucidez que o autor aborda o casamento. Fugindo de ideias preconcebidas e formulas datadas.
Charles Swindoll fala de casamento de forma tão Bíblica e centrada, misturando as interpretações Bíblicas com suas experiências dos seus muitos anos de casado, dando conselhos sábios e fundamentados, que é um erro você deixar de ler este livro, seja você casado ou não.
2 – PARA ENTENDER A BÍBLIA – JOHN STOTT.
Eu sou muito fã de John Stott e fiquei mais fã ainda ao ler este livro.
Nesta obra o autor se concentra em dar um panorama geral sobre a Bíblia. Fala da sua história, como surgiu, autoridade, geografia, etc. Oferecendo ao leitor uma narrativa onde ele dá um apanhado geral da história bíblica começando em Gênesis e terminando em apocalipse, fazendo com que o leitor tenha uma ideia ampla deste sagrado livro.
3 –JOVEM INCANSÁVEL NÃO MAIS REFORMADO – AUSTIN FISCHER.
Eu não costumo ficar indicando livros sobre calvinismo e arminianismo, e apesar de escrever alguns textos onde eu discorro sobre alguns exageros de alguns destes lados, eu normalmente me mantenho fora deste debate.
Porém fechar os olhos para estas teologias é impossível, com isso, apresento este livro de um pastor que havia sido um defensor tremendo do calvinismo e acabou abandonando a corrente teológica.
Eu achei muito genial as analogias que o autor faz com buracos negros, estrelas e calvinismo. É muito profundo também suas experiências e dúvidas, nos trazendo algumas ótimas reflexões sobre este assunto tão controverso.
4 – PERDOANDO NOSSOS PAIS, PERDOANDO A NÓS MESMOS – DAVID STOOP.
Este livro trata do tema: “perdão” e mostra de maneira clara e concisa como a família influencia a nossa vida mesmo nós achando que não.
O autor dá muitos conselhos, nos explica como uma família nos molda e porque acabamos muitas vezes repetindo os erros de nossos pais. É um livro ótimo para quem busca perdão, para quem quer entender a família e conviver de uma forma mais consciente e amena.
5 – NOSSO SILÊNCIO CULPADO – JOHN STOTT.
Este livro trata do silêncio que muitas vezes a igreja tem feito no quesito pregação. O autor faz uma ótima leitura da igreja, o que falta para ela pregar e porque muitas vezes ela não tem pregado.
Considero o livro mais um alerta, um grito de aviso para que saiamos de nossos casulos para sem demora começarmos a pregar palavra de Deus, sendo luz e sal no mundo.
6 – ARMADILHA DO PODER – MARTINA E VOLKER KESSLER.
Nem sempre o ambiente cristão é um lugar de paz e tranquilidade. Nem todos que se prestam a trabalhar na igreja veem seus ministérios como uma oportunidade de fazer a obra de Deus. Alguns são tiranos, lobos querendo impor suas vontades e mostrar quem manda e é este o principal tema deste livro.
Ler sobre o tema é profundamente esclarecedor, principalmente porque os autores tem uma grande experiência e conseguem de uma forma magistral descrever quem são estes, como perceber se o seu líder é predisposto a ser tirano, e como se proteger. Leitura obrigatória para líderes e pastores.
7 – GÊNESIS 1 & 2 – ADAUTO LOURENÇO.
Eu já tinha visto muitos vídeos deste autor antes de ler um livro seu. E nenhum livro sobre este assunto me impressionou tanto quanto este.
Escrito por um homem que é teólogo e físico, o livro traz como tema principal os dois primeiros capítulos de Gênesis, explicado a luz da ciência e da teologia.
É muito esclarecedor, principalmente porque ele explica o criacionismo e o evolucionismo, nos mostrando o quanto ateus e cristãos se equivocam ao falar destas duas teorias.
8 – O SEGREDO JUDAICO DE RESOLUÇÃO DE PROBLEMAS – NILTON BONDER.
Desde a lista passada eu estou indicando pensadores ou autores que não são propriamente ditos cristãos, mas que tem livros tão profundos, que valem a pena serem lidos e o Rabino Nilton Bonder é um deles.
Nesta obra, Nilton Bonder alia tradição com sabedoria, mostrando que não existe problema insolúvel, basta ter uma mente perspicaz e forte, é um livro muito bom, abre a cabeça e nos desafia a olharmos os problemas sobre outra ótica.
9 – A PARÁBOLA DO FILHO PRÓDIGO – JOHN MACARTHUR.
A parábola do filho pródigo é uma das mais conhecidas da Bíblia, porém às vezes não nos damos conta da quão profunda ela é por falta de um estudo e uma pesquisa mais acurada e é esta a proposta do autor.
Ele nos mostra o quão detalhado é esta parábola e o quanto podemos aprender com esta passagem Bíblica, além de deixar-nos por dentro de todo o contexto judeu, fazendo com que tenhamos uma visão mais nítida da parábola do filho pródigo.
10 – FILOSOFIA PARA CORAJOSOS – LUIZ FELIPE PONDÉ.
Terminando a lista de livros temos um do Pondé, um autor que há tempos tenho acompanhado. Acredito ter lido tudo (ou quase) que ele lançou e este livro, lançado no ano passado é um convite para sairmos da caixinha e pensarmos por nós mesmos.
O autor faz uso da história da filosofia, aliado com seu jeito ácido de escrever para nos dar uma base sólida afim de que consigamos dialogar com os vários temas do mundo contemporâneo. Leitura obrigatória para quem quer pensar com a sua própria cabeça e não com a dos outros.
Para este ano os livros são estes, é claro que ao longo do ano fico tentado a mudar algum, mas no geral estes foram os que eu gostei até agora. Tem sido cada vez mais fácil fazer estas listas devido a quantidade de livros que eu leio e estudo anualmente. Espero que estas obras sejam úteis e que sirvam para fundamentar ainda mais a sua caminhada com Deus e seu pensamento crítico.
-
O SERMÃO DO MONTE PT 7: PACIFICADORES
“Bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados filhos de Deus” (MT 5:9) (NVI).
Quando alguém fala em pacificador, eu logo lembro de Martin Luther King. Um homem que morreu lutando pelos direitos civis dos negros. Ele confrontou uma realidade injusta do seu tempo, tudo e porque, ele não aceitou o que estava acontecendo.
Um pacificador é alguém que promove a paz, que estabelece uma harmonia neste mundo cheio de discórdia. Porém, a tradução de Eugene Peterson na Bíblia A mensagem, nos traz ainda mais luz para entendermos o versículo:
“Abençoados são vocês, que conseguem mostrar que cooperar é melhor que brigar ou competir. Desse modo, irão descobrir quem vocês realmente são e o lugar que ocupam na família de Deus” (2012, p. 1382).
Promover a paz é algo que não vemos tanto em nossa sociedade hoje em dia, neste mundo competitivo, brigar é a lei, mostrar sua força e superioridade, é algo corriqueiro. Afinal, a clemência é coisa para fracos, não é isso que muitos dizem por aí?
Mas ao contrário do que muitos creem, um pacificado é um agente do reino, é alguém que desfaz uma confusão e prega a paz. Ao contrário do que muitas vezes vemos na igreja, quando calvinistas discutem com arminianos, ou reformados discutem com pentecostais.
Quando promovemos a intriga, deixamos de ser um pacificador aqui na terra e fazemos o que o inimigo há tempos tem tentado fazer, que é dividir a igreja. Eu sei que podemos ter pontos nos quais discordamos, mas o evangelho nos une.
Por isso, quando for expor uma ideia, não exponha como se quisesse plantar discórdia ou causar divisão e sim, como uma forma de discutir um tema e promover reflexões. Um pacificador não divide, um pacificador não gera discórdia, um pacificador lança as sementes do reino tendo sempre em mente que não somos chamados para competir e sim para colaborar.
BIBLIOGRAFIA
PETERSON, Eugene H. A Mensagem: Bíblia em linguagem contemporânea. São Paulo: Editora Vida, 2012.
-
SOBERANIA DIVINA E DETERMINISMO
Deus é soberano e nisto eu acredito, o que eu não acredito é na visão que muitos têm de Deus, mais especificamente no determinismo que prega que Deus por ser soberano, determina tudo o que acontece em nossa vida. Jonathan Edwards afirmava:
“Tudo, sem exceção, é direta e imediatamente causado por Deus, incluindo o mal” (apud OLSON, 2013. P. 117).
Tudo, segundo Edwards, é uma determinação divina e apesar dele usar muito a palavra permissão divina, o contexto era de determinismo mesmo. Fazendo com que ele tivesse que fazer um malabarismo muito grande para explicar o problema do pecado, do mal e inclusive da queda de Adão e Eva. Mas no fim, seu conceito acaba dando a entender que a culpa é toda de Deus e seu propósito divino (apud OLSON, 2013. P. 117).
Sproul é outro pastor que afirma que Deus controla tudo e quem assim não acredita ele chama de ateu. Loraine Boettner, defensor desta visão falava:
“Deus muito obviamente predeterminou cada evento que aconteceria… Até mesmo atos pecaminosos de homens estão inclusos neste plano” (apud OLSON, 2013. P. 125-126).
E tanto Sproul quando Boettner e muitos outros, afirmam que apesar de Deus determinar, o homem age segundo a sua natureza, apesar de fazermos o que Deus quer que nós façamos, Deus não peca, mas faz com que outros pequem e mesmo assim, com estas afirmações estes dois não acreditam que nosso Pai tenha qualquer culpa ou responsabilidade quanto ao pecado. Estes mesmos calvinistas defendem este posicionamento por acharem necessário o pecado e o mal, para que a glória de Deus seja mais visível, coisa que eu não acredito. Por crer que Deus é Deus, completo e perfeito e assim sendo, Ele não precisa de nada, nem do pecado, para que assim mostre a sua obra redentora, pois Deus é Deus sem nós, Ele se basta, Jeremy Evans conclui:
“Se Deus precisa da criação para exemplificar estas propriedades (justiça, ira), então os humanos podem corretamente questionar se Deus estava livre em Seu ato de criação” (apud OLSON, 2013. P. 147).
Quem segue esta teologia tem um problema deveras grande para entender o amor e a moral de Deus, se soberania divina significa que nada o que acontece vem sem a sua determinação, sendo que, todo o mal e pecado tem um propósito, temos um problema muito grande para conceituar este Deus. Pois se toda a pobreza, toda a doença, pecado ou caos vem d’Ele, logo, Ele tem parte no pecado do homem e de alguma maneira, o diabo é o seu parceiro. Se o caos vem de Deus, Ele é moralmente responsável, diante disso, não sei o porquê nós seremos julgados. Habacuque 1:13 diz:
“Teus olhos são tão puros, que não suportam ver o mal; não podes tolerar a maldade”.
E Tiago 1:13 nos dá outro aviso importante:
“Quando alguém for tentado, jamais deverá dizer: “Estou sendo tentado por Deus”. Pois Deus não pode ser tentado pelo mal, e a ninguém tenta”.
Deus a ninguém tenta e Ele não tem parte com o pecado, diante disso e de muitos outros versículos, temos que ter reservas com algumas interpretações calvinistas da soberania divina. Porém, temos uma explicação um pouco mais centrada para a afirmação: “Deus é soberano”. Uma explicação que nos poupa saliva, teorias mirabolantes, explicações confusas e que não vai de encontro com a santidade de Deus e nem do que a Bíblia fala que Ele é.
A soberania Divina diz respeito ao fato que Deus faz o que quer e ninguém pode o impedir. Isaías 53:13 diz:
“Agindo eu quem impedira?”.
Deuteronômio 10:17 diz:
“Pois o Senhor, o seu Deus, é o Deus dos deuses e o Soberano dos soberanos, o grande Deus, poderoso e temível, que não age com parcialidade nem aceita suborno”.
Enfim, Ele é único, o Criador, o Rei dos Reis, porém nem tudo o que acontece foi determinado por Ele. Pode estar de baixo de sua permissão, Ele também tem controle sobre tudo, porém, nem tudo o que acontece transcorre por sua vontade, por conta de sua autolimitação e o livre-arbítrio dado ao homem. Vamos ver como alguns teólogos definem Deus e a sua soberania.
“O teólogo reformado do século XX, Karl Barth, definiu Deus como “aquele que ama em liberdade” […]. Para Barth, a magnitude de Deus é mais bem expressa como sua liberdade absoluta. Deus não está preso por nada exceto à própria palavra” (apud OLSON, 2003, p. 155).
Deus é soberano, nada o prende, nada impede que Ele cumpra a sua vontade. Alister E. Mcgrath diz:
“Mas a ideia da onipotência divina parece implicar no fato de que Deus deva ser capaz de fazer qualquer coisa que não envolva contradição evidente” (MCGRATH,2005, p. 332).
Deus pode fazer tudo o que não é absurdo, como um círculo quadrado ou uma pedra que ninguém, nem mesmo Ele, possa carregar. E nem ir contra as suas características divinas como amor e justiça. Porém é do calvinista Wayne Grudem a definição que eu acho mais centrada:
“A onipotência (poder, soberania) é o atributo de Deus que lhe permite fazer tudo o que for da sua santa vontade” (GRUDEM, 1999, p. 159).
Enfim, Deus é soberano, faz tudo o que lhe apraz (Salmos 135:6), porém nem tudo o que acontece é fruto de sua determinação apesar d’Ele permitir, permissão esta, fruto de nossa liberdade. É claro que Deus pode exercer um controle determinista, mas escolheu não fazer, assim como escolheu curar apenas com a presença da fé e por isso acabou não realizando alguns milagres (Marcos 6:5). Termino o texto com uma ótima síntese da soberania e do amor de nosso Pai:
“Quão radicalmente o evangelho está permeado por um sentido de que a falência do mundo caído é a obra do livre-arbítrio racional rebelde, que Deus permite reinar, e também por um sentido de que Cristo vem genuinamente para salvar a criação, conquistar, resgatar, derrotar o poder do mal em todas as coisas” (OLSON, 2003, p. 155).
O mal é fruto de nossa escolha livre, o caos e o pecado não vem de Deus. Deus é santo e puro e não compactua com o mal.
Deus é soberano, pode fazer o que quiser, mas escolheu nos amar e dar o seu Filho por nós, com isso, em meio ao caos e pecado, Ele faz brilhar o seu amor e sua redenção é visível, por causa de suas características divinas.
BIBLIOGRAFIA
OLSON, Roger. História das Controvérsias da Teologia Cristã: 2000 Anos de Unidade e Diversidade. São Paulo: Editora Vida, 2003.
OLSON, Roger. Contra Calvinismo. São Paulo: Editora Reflexão, 2013.
GRUDEM, Wayne. Teologia Sistemática: Atual e Exaustiva. São Paulo: Editora Vida Nova, 1999.
MCGRATH, Alister. Teologia Sistemática, Histórica e Filosófica: Uma introdução a Teologia Cristã. São Paulo: Shedd Publicação, 2014.
-
SALMO 1: DOIS CAMINHOS
“Como é feliz aquele que não segue o conselho dos ímpios, não imita a conduta dos pecadores, nem se assenta na roda dos zombadores! Ao contrário, sua satisfação está na lei do Senhor, e nessa lei medita dia e noite” (Salmo 1:1-2) (NVI).
Antes de estudarmos este Salmo, quero dar um panorama geral para que entendamos o que são os Salmos, quem escreveu e com qual finalidade foi escrito.
Esta coleção de cânticos e orações do povo de Israel foi escrito para ser usado no templo e em reuniões de adoração. Os títulos atribuem a obra mais de um autor, composto em um período de mais ou menos setenta anos (NTLH, 2005, p. 502). Sendo que 73 dos Salmos é atribuído a Davi, 12 a Asaf, 11 aos filhos de Coré e outros a Emã, Etã, Moisés e Salomão. (Jerusalém, 2013, p. 861).
O Saltério não poderia começar de forma diferente, o texto começa de maneira clara dando um caminho para a nossa vida cristã. E as primeiras palavras do texto são: “Como é feliz”. Que pode significar: Feliz, realizado ou debaixo da bênção de Deus (Carson, 2012, p. 740). Porém eu vou usar a versão de Eugene Peterson para este primeiro versículo:
“Como Deus deve gostar de você: você não aparece no Bar do Pecado, você não anda a espreita no Beco Sem Saída, você não frequenta a Escola dos Debochados” (PETERSON, 2012, p. 696).
Este importante texto não nos aconselha a não convivermos com pessoas não cristãs e muito menos ensina um segredo de prosperidade. É um Salmo que nos ensina como nos comportar em meio a quem não conhece o evangelho:
“Em primeiro lugar, ele é um salmo de fé […]. Essa promessa de prosperidade não é uma promessa de boa sorte como recompensa por bom comportamento, os salmos conhecem a vida demais para fazer isso” (Carson, 2012, p. 740).
Feliz é aquele que medita nos ensinos da palavra, quem segue fugindo de tudo o que vai contra o evangelho. Ele não nos manda fugirmos de quem não segue a Cristo e sim, tomarmos cuidado com suas influências, seus conselhos errôneos e os ambientes que nos levam ao caos. Cristo adentrou a casa das mais variadas pessoas, mas nem por isso se deixou corromper, ao contrário, ele era a luz, levava a palavra e a vida as pessoas é isso que o Salmo está querendo dizer. O texto claramente nos apresenta dois caminhos, a pergunta implícita que o texto nos faz é: qual deles você está seguindo?
“Antes de chegarmos aos louvores e gritos de alegria ou ao choro e desespero dos salmos, precisamos fazer uma escolha. Em que caminho queremos andar nesta vida? O caminho de Deus ou o caminho sem Deus? O caminho dele ou o meu caminho? Se você está buscando outras opções, não há nenhuma” (CONNELLY; RICHARDS, 2016, p. 23).
Seguir a Cristo não é fácil, lidar com as influências do mundo que muitas vezes entram em nossa vida sem ao menos percebemos é mais difícil ainda. O que o texto nos adverte é termos cuidado com o caminho dos ímpios, cuidado com quem nos leva para o outro lado, por isso, não se deixe influenciar. E hoje em dia, com o evangelho diluído que temos visto, estes ímpios podem ser até cristãos.
Siga a Cristo, medite em seus ensinos, seja diferença e não se deixe se levar pelas ondas estranhas. Afinal, feliz é quem segue estes conselhos. É este que dará frutos, que prosperará nas veredas de Deus e seguirá pelos caminhos traçados pelo Eterno.
BIBLIOGRAFIA
Bíblia Sagrada – Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2013.
PETERSON, Eugene H. A Mensagem: Bíblia em linguagem contemporânea. São Paulo: Editora Vida, 2012.
CARSON. DA.; FRANCE, R. T.; MOTYER, J. A.; WENHAM, G. J. Comentário Bíblico Vida Nova. São Paulo: Editora Vida Nova, 2012.
CONNELY, Douglas.; RICHARDS, Larry. Guia Fácil Para Entender Salmos: Tudo Sobre os Salmos, Reunido e Organizado de Maneira Completa e Acessível. Rio de Janeiro: Editora Thomas Nelson, 2015.
-
O FALSO EU
É comum acontecimentos mudarem nossa forma de pensar, eu mesmo quando novo tinha um coração muito mais bondoso que hoje, eu ajudava os outros e quase nunca esperava um retorno. Mas de tanto ser passado para trás acabei mudando, normal. Acho até saudável termos momentos de reavaliarmos nossas atitudes para que tenhamos ações mais acertadas, isso é ótimo. O problema é que eu mudei de uma pessoa boa, para uma egoísta e com isso não resolvi o meu problema, só adquiri problemas novos.
Quantas vezes acontecimentos nos mudam fazendo surgir em nós o que Brennan Manning classifica como “Um falso eu”. Um impostor, que como um ditador, cria regras e passa por cima de quem nós realmente somos. Na verdade é uma máscara que vestimos a fim de conseguirmos encarar os desafios e dificuldades do mundo exterior e angariar algumas aprovações e elogios do próximo.
Tudo começa com a baixa autoestima e se segue com constantes atitudes de querermos agradar a tudo e a todos. Por conta de profundas decepções, construímos um alguém muito mais admirável e belo aos olhos das pessoas ou dos familiares. O problema disso tudo não é só uma vida falsa construída ao longo de nossa existência, mas também o fato de que com o tempo, depois de tanta representação, esquecemos que somos amados por Deus e que Ele nos aceita como somos:
“Entretanto, Deus ama quem de fato somos quer gostamos disso ou não. Ele nos chama, como chamou Adão, para que saiamos do esconderijo. Por maior que seja a quantidade de maquiagem espiritual que usemos, ele não pode nos tornar mais apresentáveis a Deus” (MANNING, 2007, p. 24).
Você já parou para pensar que Deus morreu por você mesmo sabendo de verdade quem você é? Ele é o único que te conhece de verdade e mesmo assim te ama. E nos chama para que reconheçamos o quão insignificante somos sem Ele e assim tirarmos as máscaras nos entregando a sua vontade e cuidado.
Brennan Manning, usando as palavras de Agostinho fala:
“Pode haver apenas dois amores fundamentais, escreveu Agostinho. ‘Amar a Deus até esquecer de si ou amar-se até esquecer e negar a Deus’” (MANNING, 2007, p. 41).
O equilíbrio só vem quando temos Deus, só somos completos e inteiros quando Ele vem morar em nossa vida. Quando olhamos para Deus e deixamos que a sua luz ilumine as nossas mazelas, o impostor foge e deixamos de nos mascarar e de sermos atores ante as pessoas.
O impostor precisa ser aceito, mas vê somente a si, vive uma vida narcisista e egoísta, alheio a tudo e a todos. E o pior, segue a vida sem se conhecer de verdade e com isso, segue com suas defesas erguidas, sempre se justificando sem em momento algum conseguir mudar.
Ninguém muda sem pontuar de forma clara seus defeitos e dificuldades, quem assume suas falhas muda, quem não assume certamente seguirá sendo o mesmo. James Masterson afirmou:
“Faz parte da natureza do falso “eu” nos impedir de conhecer a verdade sobre nós mesmos, de penetrar nas causas profundas de nossa infelicidade, de nos vermos como realmente somos: Vulneráveis, medrosos, apavorados e incapazes de deixar que o “eu” verdadeiro se exponha” (MANNING, 2007, p. 44).
É interessante que em Gênesis 3:9, logo depois que Adão e Eva desobedeceram, Deus chamou o homem usando a palavra aieka (onde estás?), que significa:
“Onde está você, Adão”, no sentido existencial (em vez de espacial) “neste momento? Por onde anda a tua alma?” (BONDER, 2011, p. 22).
Cadê você Adão, por que está escondendo quem tu és? Tira a máscara Adão. Este é o impostor que sabota quem somos, construindo um indivíduo falso, fraco e autocentrado:
“Quando aceitamos a verdade do que realmente somos e a submetemos a Cristo, somos envolvidos pela paz, quer nos sintamos em paz ou não” (MANNING, 2007, p. 49).
Eu não me lembro mais quando em minha caminhada acabei mudando de vida, quando eu me sentia um zero a esquerda e incapaz. Não lembro também quando eu perdi a paixão pelo simples, a minha esperança e a certeza de que Deus estava comigo e construí esta máscara. Mas eu lembro quando eu tive que olhar para Ele e me lembrar de que Cristo me amou e se doou por mim. Que Ele me ama como eu sou e que eu sou dependente d’Ele.
Basta deixarmos o nosso ego de lado, tirar a máscara do falso eu e seguir olhando para Ele. Quando entendemos quem somos, o quanto somos amados mesmo sendo falhos, sentiremos paz mesmo em meio ao caos, e teremos a certeza de que Jesus estará ao nosso lado sempre.
BIBLIOGRAFIA
MANNING, Brennan, O Impostor quer Vive em Mim, Editora Mundo Cristão, São Paulo, 2007.
BONDER, Nilton, A Arte de se Salvar, Ensinamentos Judaicos Sobre o Limite do Fim e da Tristeza, Editora Rocco, Rio de Janeiro, 2011.
-
DESCONTROLE
Creio que viver se assemelha muito com dirigir, se você acelera demais, corre o risco de perder a paisagem ou derrapar em alguma curva fechada. Se você anda muito devagar, corre o risco de ficar para trás. Viver é procurar sempre o meio termo, só que, meio termo é algo que nós muitas vezes não conseguimos ter. Sobre equilíbrio, Leandro Karnal em um de seus vídeos, dá um ótimo exemplo:
“Se você não trabalhar, perderá a família, se só trabalhar, também perderá a família”.
Mas este ainda não é o grande desafio desta brincadeira chamada vida. Talvez o maior deles seja lidar com os buracos que aparecem no caminho e que não estão em nosso controle. Aqueles problemas que nós nunca imaginaríamos ter, mas que de uma hora para outra aparecem.
Conheci uma pessoa que era um grande ciclista. Todos os dias ele se exercitava, cuidava de sua alimentação, não fumava e bebia, mas de uma hora para outra descobriu ter esclerose múltipla, e deste dia em diante, só definhou. Enquanto conheci pessoas que nunca se exercitaram, só comiam porcarias, mas viveram muito bem até a velhice. A vida é assim, imprevisível, muitas vezes sem lógica, louca. Mas como lidar com estes infortúnios? Como desviar destes buracos perigosos e profundos que aparecem na estrada? Como lidar com o que foge ao nosso controle?
Penso que a primeira coisa é deixar de se ver como vítima, como um coitadinho. O vitimismo faz-nos ficar inertes, nos faz ficar parados esperando quem nos console, enquanto o problema continua forte e tomando conta da nossa vida.
Lembre-se, todos nós sofremos, você não é o único a passar dificuldade e a pergunta que devemos fazer é: Como eu posso sair desta dificuldade? E Não ficar se autoflagelando.
Eu tenho uma amiga que sofre de câncer há uns 20 anos e a força de vontade que ela tem de superar o problema e seguir em frente é invejável, ela é um exemplo para mim. E é assim que temos que tentar se posicionar como pessoa.
A segunda coisa é parar de se comparar com o próximo. Deixar de se perguntar por que eu sofro e o meu amigo que nem cuida da saúde não sofre? Por que o ímpio prospera e eu não? Se comparar com o outro é uma besteira, e esta pergunta é a mesma do autor do Salmo 73, Asafe. Ele não demorava em ficar se comparando, ele não entendia o porquê o ímpio prosperava e o justo não, mas ele confessou um erro que também pode ser o de quem fica se comparando:
“Pois tive inveja dos arrogantes quando vi a prosperidade desses ímpios” (v. 3).
O problema de Asafe não é muito diferente do nosso. Quantas vezes não nos sentimos com inveja? Quantas vezes não caminhamos nos comparando, tirando conclusões precipitadas do próximo, como se Cristo já não tivesse avisado que nós teríamos aflições? (João 16:33).
A vida cristã deve ser vivida com o olhar em Cristo, temos que entender que na vida cristã passaremos por problemas, mas com certeza, não estaremos sozinhos. Temos que parar de nos vermos como super homens, nos despir destas falsas armaduras, e confiar apenas em Deus, mesmo sem entender o porquê do caos:
“Para sermos completa e autenticamente humanos, temos que nos preparar para despir a armadura com que geralmente nos cobrimos para evitar que o mundo nos magoe. Temos que estar prontos para aceitar a dor, ou então nunca ousaremos sentir a esperança ou o amor. Se não estivermos prontos para sentir, inclusive a dor, nunca conheceremos a alegria que o Eclesiastes classifica como uma das recompensas maiores da vida. Temos que abrir espaço em nossa alma para as tragédias da vida. Enquanto insistirmos em finais felizes, seremos ainda crianças, descontentes e zangadas com Deus, porque Ele, não atende a nossos apelos e não faz com que tudo seja da maneira que queremos” (KUSHNER, 2004, p. 94).
Nem tudo é da nossa forma, a vida não gira em torno de nosso umbigo, ao contrário, ela é dinâmica e tem os seus revezes. Entenda de uma vez por todas que o justo sofre e que o sofrimento tem que nos fazer nos aproximar mais de Deus, e acima de tudo, o sofrimento deve nos fazer mais compreensivos e não mais ranzinzas.
Deixe de se comparar com o próximo, dispa-se da armadura e entenda que o sofrimento faz parte da vida. Olhe para frente, olhe para Deus, e saiba que por mais que fraquejemos, que passemos por perrengues, Ele está conosco.
E entenda também que só existe uma maneira de passar pelo caos e é de joelhos, crendo que Deus nunca nos abandonará!
BIBLIOGRAFIA
KUSHNER, Harold. Quando Tudo Não é o Bastante. São Paulo: Editora Nobel, 2004.
CONNELY, Douglas.; RICHARDS, Larry. Guia Fácil Para Entender Salmos: Tudo Sobre os Salmos, Reunido e Organizado de Maneira Completa e Acessível. Rio de Janeiro: Editora Thomas Nelson, 2017.
